Celso Luís Nunes de Amorim

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Nome: AMORIM, Celso
Nome Completo: Celso Luís Nunes de Amorim

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

AMORIM, Celso

* diplomata; min. Rel. Ext. 1993-1994; emb. Bras. ONU 1995-1999; emb. Bras. OMC 1999-2001; emb. Bras. Inglaterra 2001-2002; min. Rel. Ext. 2003-2010; min. Defesa 2011-2015

 

Celso Luís Nunes de Amorim nasceu em Santos (SP) no dia 3 de junho de 1942, filho de Vicente Mateus Amorim e de Beatriz Nunes Amorim.

Completou o curso de preparação à carreira de diplomata no Instituto Rio Branco em 1964, iniciando a carreira em fevereiro do ano seguinte como terceiro-secretário. Na Secretaria de Estado das Relações Exteriores, que na época funcionava no Palácio Itamaraty do Rio de Janeiro, foi designado assistente do chefe da Divisão da Europa Ocidental e, nessa função, participou da III Reunião do Grupo Misto de Cooperação Industrial Brasil-Espanha em Madri. Em 1967 concluiu o mestrado em relações internacionais na Academia Diplomática de Viena e, de volta à Secretaria de Estado, foi assistente do secretário-geral-adjunto para planejamento político, sendo promovido a segundo-secretário em novembro do mesmo ano. Removido para Londres, foi cônsul-adjunto de 1968 a 1969, tendo participado como observador da Conferência sobre Desenvolvimento na Universidade de Cambridge (1969). Nos anos seguintes serviu na embaixada em Londres (1969-1971) e frequentou o curso de doutorado em ciência política e relações internacionais da London School of Economics and Political Science em 1971.

Em 1972 foi transferido para Washington, passando a servir na missão do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos (OEA). Ainda em 1972 foi assessor da Conferência Interamericana Especializada sobre Ciência e Tecnologia (Cactal) em Brasília e participou do II Período Ordinário de Sessões da Assembleia Geral da OEA, da LXVIII Reunião do Comitê Executivo da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da reunião de técnicos governamentais da Cactal em Washington. Promovido a primeiro-secretário em janeiro de 1973, também nesse ano serviu como encarregado de negócios e participou de várias reuniões, como o III Período de Sessões da OEA em Washington, a VIII Reunião Anual do Conselho Interamericano Econômico e Social (CIES) — depois Comissão Interamericana de Desenvolvimento Integral (CIDI) — em Bogotá, a XV Reunião da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) em Quito e a LIV Sessão do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (Ecosoc) em Nova Iorque. Tomou parte, ainda em 1973, na reunião de técnicos governamentais em propriedade industrial, na IV Reunião Ordinária da Comissão Especial de Consulta e Negociação (Cecon), da II Reunião de Consulta da Cecon sobre Negociações Comerciais Multilaterais e do segundo período da reunião da Comissão Especial para a Reestruturação do Sistema Interamericano, em Washington. Chefe da III Reunião Extraordinária da Cecon em Washington em 1974, no mesmo ano participou da IX Reunião Anual do CIES em Quito, do IV Período Ordinário de Sessões da Assembleia Geral da OEA em Atlanta, nos Estados Unidos, e da sessão preparatória do Grupo de Trabalho sobre Empresas Transnacionais (Novo Diálogo) em Washington.

Em 1974 voltou à Secretaria de Estado, já funcionando no Palácio Itamaraty de Brasília, e de 1975 a 1977 foi assessor do ministro das Relações Exteriores, embaixador Antônio Francisco Azeredo da Silveira. Nesse período, em 1976, também lecionou expressão e redação profissional no Instituto Rio Branco. Promovido a conselheiro em 1977, desse ano a 1979 chefiou a Divisão de Difusão Cultural (DDC) e foi professor de ciência política e relações internacionais na Universidade de Brasília (UnB). No mesmo período foi representante titular do Ministério das Relações Exteriores (MRE) junto ao Conselho Nacional de Cinema (Concine). Em 1979, licenciado do MRE, tornou-se diretor-geral da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), cargo que exerceria até 1982.

Promovido em 1980 a ministro de segunda classe, em 1982 foi removido para a embaixada do Brasil em Haia, na Holanda, onde exerceria as funções de encarregado de negócios em 1983 e 1985.

De volta ao Brasil, entre 1985 e 1987 foi assessor de cooperação e programas especiais do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Nesse período foi subchefe, em 1985, da II Conferência de Ministros Encarregados da Aplicação da Ciência e Tecnologia ao Desenvolvimento da América Latina e Caribe em Brasília, e participou, em 1986, da reunião ministerial das partes contratantes do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), em Punta del Este, no Uruguai. Nesse mesmo ano, participou dos entendimentos com o governo dos Estados Unidos sobre assuntos do relacionamento econômico-comercial, em Paris, e chefiou a Subcomissão Intergovernamental Brasil-União Soviética de Cooperação Comercial, Econômica, Científica e Tecnológica, em Brasília.

De 1987 e 1988 foi secretário especial de assuntos internacionais do MCT, tendo participado em 1987 da mesa-redonda sobre o desenvolvimento da informática, realizada em Tóquio, no Japão. Chefe da missão do MCT enviada à Alemanha Oriental e à Hungria em 1988, no ano seguinte foi promovido a ministro de primeira classe e chefiou a delegação brasileira à VII Reunião da Comissão Mista Cultural Luso-Brasileira. Ainda em 1989 representou o MCT em várias comissões mistas e reuniões internacionais sobre ciência e tecnologia.

Sua passagem pelo MCT, no governo José Sarney (1985-1990), deu-se em um momento extremamente delicado das relações internacionais brasileiras. Participou assim, na época, de discussões cruciais como a que dizia respeito às políticas brasileiras em relação à informática e às patentes farmacêuticas, que faziam parte, junto com a questão da dívida externa, do contencioso com os EUA. Essas questões também estavam em pauta na Assembleia Nacional Constituinte, o que atraía as atenções para a área de ciência e tecnologia.

Ainda em 1989 representou o MRE no II Encontro Nacional das Assessorias das Universidades Brasileiras para Assuntos Internacionais, em Belo Horizonte, e na IX Conferência Regional das Comissões Nacionais para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) de Países da América Latina e do Caribe, no Rio de Janeiro. Foi também delegado ao I Encontro de Ministros da Cultura da América Latina e do Caribe, em Brasília, e chefiou a delegação do Brasil à III Reunião do Grupo de Trabalho do Protocolo 18 de Integração Cultural Brasil-Argentina, no Rio de Janeiro. Participou da XXV Sessão da Conferência Geral da Unesco, em Paris, do encontro dos chefes de estado de língua portuguesa, em São Luís do Maranhão, e da II Reunião da Comissão Mista Brasil-República Federal da Alemanha, em Bonn. Em 1990 foi chefe das delegações do Brasil ao II Encontro de Ministros da Cultura da América Latina e do Caribe, em Mar del Plata, no Uruguai, e à I Reunião da Comissão Mista Cultural Brasileiro-Soviética, em Brasília.

Chefe do Departamento Econômico do Itamaraty de 1990 a 1991, durante o governo Fernando Collor de Melo (1990-1992), coordenou a Seção Brasileira do Mercado Comum Brasil-Argentina, foi co-presidente da Seção Brasileira do Comitê Permanente de Política Nuclear Brasil-Argentina, e chefiou as equipes do Brasil que negociaram o Tratado de Assunção e o acordo entre os governos da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e o governo dos Estados Unidos, relativo a um conselho sobre comércio e investimentos no âmbito da Iniciativa para as Américas.

Em 1991 foi nomeado representante permanente do Brasil junto às organizações internacionais sediadas em Genebra, entre as quais o GATT. Essa mudança aconteceu com a ida do então embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Marcílio Marques Moreira, para o Ministério da Economia e a nomeação, para substituí-lo, do embaixador Rubens Ricupero, que ocupava o posto em Genebra. Participou da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro (Rio-92) e foi também o principal negociador brasileiro na Rodada Uruguai do GATT entre 1991 e 1993. Em seu posto em Genebra, presenciou a abertura comercial promovida pelo governo Collor. O Brasil, que possuía anteriormente uma enorme lista de proibições em suas importações, passou a permitir a vinda de produtos importados visando a uma estabilização de preços e a um aumento da competitividade da indústria nacional.

Durante o governo Collor, também a política externa brasileira foi significativamente alterada em relação à linha que vinha sendo seguida desde o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979). Ao liberalizar a economia, o governo brasileiro mudou o discurso oficial, que se apresentava extremamente defensivo em diversas áreas (entre elas, as de direitos humanos e meio ambiente), e passou a adotar uma postura mais propositiva e cooperativa no sistema internacional, inclusive privilegiando foros multilaterais de discussão como a ONU e o GATT.

 

Ministro das Relações Exteriores (1993-1995)

Em 20 de julho de 1993, no governo Itamar Franco (1992-1995), Celso Amorim sucedeu interinamente no Ministério das Relações Exteriores a Luís Felipe Lampreia, o qual, por sua vez, sucedera interinamente a Fernando Henrique Cardoso diante do impedimento, por questões de saúde, do primeiro indicado, José Aparecido de Oliveira. Efetivado em 31 de agosto, Amorim foi prestigiado internamente por ser um diplomata de carreira a preencher um cargo durante muito tempo ocupado por pessoas de fora do Itamaraty.

Em setembro, ao discursar na 48ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, defendeu as ações do governo Itamar Franco no campo dos direitos humanos e da paz internacional, enfatizando a interdependência indissolúvel entre democracia, desenvolvimento e direitos humanos. Parafraseando o embaixador Araújo Castro, afirmou o compromisso brasileiro com os “três Ds”: Democracia, Desenvolvimento e Desarmamento. Lembrou ainda a experiência do Brasil no campo da construção da paz, trabalho ininterrupto desenvolvido com dez vizinhos ao longo de 17 mil quilômetros de fronteiras.

No mesmo mês, por ocasião da posse do secretário-geral do MRE, embaixador Roberto Abdenur, definiu a política externa do governo Itamar Franco como “voltada para o desenvolvimento do país, para a afirmação dos valores democráticos e sem alinhamentos outros que não aqueles ligados à ética e aos interesses do povo brasileiro”, ressaltando como prioritária a integração com a América do Sul em geral e com o Mercosul em particular.

Em sua gestão à frente do MRE, o Brasil enviou sua primeira missão de paz a Moçambique, através da ONU, e apoiou a constituição definitiva da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa, projeto lançado pelo então embaixador em Lisboa, José Aparecido de Oliveira, em Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Foi também durante seu período no ministério que o governo brasileiro explicitou sua intenção de participar ativamente de uma reforma na composição dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

A política externa do governo Itamar Franco (1992-1995), após um conturbado processo de impeachment que destituiu o presidente Fernando Collor, representou uma tentativa de “correção de rumos”. Tentou-se frear a liberalização total promovida pelo governo anterior, foram retomadas algumas barreiras comerciais e afirmou-se a necessidade de participação da sociedade civil nas questões de política externa, ou seja, a democratização da política externa. Com um enfoque e uma formação inspirados pela corrente desenvolvimentista do Itamaraty, Celso Amorim foi o principal artífice dessa mudança de atitude. Em 1º de janeiro de 1995, quando Itamar Franco passou o governo a Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), transmitiu o MRE a Luís Felipe Lampreia.

 

Embaixador na ONU, na OMC e em Londres

Indicado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, chefiou a missão permanente do Brasil nas Nações Unidas, em Nova Iorque, entre 1995 e 1999. Nesse período, tornou-se membro da Comissão de Camberra para a Eliminação das Armas Nucleares e membro permanente da área de assuntos internacionais do Instituto de Assuntos Avançados da Universidade de São Paulo.

Em 1999, deixou a ONU para chefiar em Genebra a missão brasileira junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) — que em 1995 havia substituído o GATT. Em 2000 presidiu a Conferência sobre Desarmamento, de 2000 a 2001 foi presidente do Conselho de Administração da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Conselho de Negociação Intergovernamental da Convenção sobre Controle do Tabaco, e em 2001 presidiu o Conselho para o Comércio de Serviços da OMC.

Ainda em 2001, assumiu o posto de embaixador em Londres. Em novembro, foi um dos representantes da delegação brasileira à IV Conferência da OMC, em Doha, no Catar. Nesse evento, o Brasil liderou as nações em desenvolvimento na luta pelo licenciamento compulsório de patentes de medicamentos em casos de emergência nacional, derrotando os Estados Unidos, que defendiam posição contrária. Com uma estratégia agressiva, que incluiu a veiculação de peças publicitárias nos EUA sobre a importância dos medicamentos para os brasileiros, o governo brasileiro sensibilizou o mundo. Ainda naquele ano os EUA retiraram a representação contra o Brasil.

 

Ministro das Relações Exteriores (2003-)

Convidado pelo presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva, cujo governo teve início em 1º de janeiro de 2003, Celso Amorim voltou a assumir o Ministério das Relações Exteriores.

Em sua segunda passagem pelo MRE, tornou-se responsável pelo direcionamento da política externa brasileira, que incluiu entre seus objetivos a luta contra a fome, a pobreza e o unilateralismo. Coalizões importantes foram incentivadas sob sua orientação: o G-20, também chamado de G-20 comercial, criado em 2003 em Cancún, no México, reunindo países emergentes em luta pela redução das distorções no comércio agrícola na OMC; o G-3 ou grupo IBSA, criado em junho de 2003 e formado por Índia, Brasil e África do Sul para a coordenação de posições no cenário internacional; e o G-4, criado em , criado em setembro de 2004, reunindo Alemanha, Brasil, Índia e Japão na luta para tornar o Conselho de Segurança das Nações Unidas mais representativo. Foi também ativa sua participação na institucionalização do grupo dos BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China, países em desenvolvimento cujas economias cresceram rapidamente nos anos 2000.

Em 8 de dezembro de 2004, foi realizada a III Reunião de Presidentes da América do Sul em Cuzco, no Peru. Na ocasião foi redigido um documento batizado de Declaração de Cuzco, que criou as bases para um projeto de integração da América Latina, denominado Comunidade Sul-Americana de Nações. Em 16 de abril de 2007, durante a I Reunião Energética da América do Sul, realizada na Venezuela, esse nome seria alterado para União das Nações Latino-Americanas (Unasul). Integrada por Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Guiana, Suriname e Venezuela, a Unasul tem como objetivo propiciar a integração de seus membros nas áreas econômica, social e política, abrindo a possibilidade de uma coordenação e cooperação nos segmentos de educação, cultura, infraestrutura, energia, ciências e finanças.

Em 2006, após a vitória de Evo Morales nas eleições presidenciais, a Bolívia anunciou a nacionalização do gás e do petróleo em seu território e usou o Exército para ocupar empresas estrangeiras, entre elas a Petrobras, que explorava os dois principais campos de gás e cuja produção representava cerca de 15% do Produto Interno Bruto boliviano. A ocupação forçou as companhias estrangeiras a reverem seus contratos em um prazo de 180 dias, do contrário seriam obrigadas a deixar o país. Nas renegociações, o governo boliviano mostrou-se disposto a aumentar os impostos que cobrava das empresas para 82%. No dia 1° de maio, Celso Amorim afirmou que a nacionalização era um “cenário esperado”, mas que a forma como fora feita não estava nas previsões do Brasil, classificando a ocupação da Petrobras por tropas militares como “desnecessária” e explicando que não haveria “reação física”. Em novembro de 2007, Morales garantiu que não modificaria mais as leis de investimento no setor de petróleo ou gás, e Celso Amorim confirmou que nessas condições o Brasil voltaria a investir. Tanto o Brasil como a Bolívia tinham interesse na solução do impasse: o Brasil, em 2007, dependia do gás boliviano exportado para 50% de seu consumo, e a Bolívia não poderia ficar sem o investimento e o mercado brasileiros.

Na Conferência do Clima da ONU realizada em dezembro de 2007 em Bali, na Indonésia, a delegação brasileira – chefiada por Celso Amorim, pelo ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Resende, e pela ministra do Meio Ambiente Marina Silva – colocou-se contra metas obrigatórias de redução de gases para países em desenvolvimento, e defendeu a maior responsabilidade das nações ricas, inclusive com financiamento e transferência de tecnologia. O Brasil voltou a defender sua proposta já apresentada na XII Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em 2006, de que fosse dada compensação financeira por reduções comprovadas de desmatamento, com dinheiro de um fundo internacional abastecido pelos países desenvolvidos. Outra diretriz da participação brasileira foi a sugestão de um mecanismo para a discussão e financiamento de políticas públicas de redução de emissões em países em desenvolvimento.

Em 23 de maio de 2008, em Brasília, foi assinado por 12 chefes de Estado latino-americanos o tratado que formalizou a criação da Unasul. De acordo com o documento, a Unasul passou a ser um organismo internacional, deixando a fase de debates para entrar na criação prática de medidas.

Durante a crise diplomática da Colômbia com Equador e Venezuela em 2008, em que o exército colombiano invadiu o território equatoriano para matar integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Amorim afirmou que o Brasil se sentia “ameaçado indiretamente” por um conflito na região e condenava o ataque militar colombiano; porém, desejava a resolução da questão pelo diálogo, para que o projeto de integração, paz e desenvolvimento na América do Sul não fosse posto em risco.

No dia 23 de setembro de 2008, o presidente do Equador Rafael Correa determinou o embargo dos bens da construtora brasileira Odebrecht, ocupando os canteiros de obra da empresa com tropas do Exército e proibindo funcionários de deixar o país. Exigiu então uma indenização de 43 milhões de dólares por falhas no funcionamento da central hidrelétrica San Francisco, a segunda maior do Equador; se o pagamento não fosse feito, a Odebrecht seria expulsa. A San Francisco, que custara 338 milhões de dólares, poderia gerar até 12% do total da energia consumida no país, mas, segundo o Equador, deixara de funcionar um ano depois de concluída. No dia seguinte, Amorim anunciou que o Brasil estava dando proteção à empresa. Correa então ameaçou não pagar o empréstimo de mais de 200 milhões de dólares que contraíra junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar a San Francisco. Mesmo assim, os presidentes Correa e Lula disseram que acreditavam que a questão da Odebrecht não afetaria as relações entre as duas nações. Em 30 de setembro, Amorim informou que a empresa aceitaria o acordo proposto pelo Equador.

Em 6 de outubro, porém, Correa teria dito que pretendia expulsar a Petrobras e nacionalizar um campo de petróleo explorado pela empresa. Sua intenção era acelerar a assinatura de uma renegociação do contrato de exploração. A tensão entre os países cresceu, com ameaças de ambos os presidentes, mas em 20 de outubro a Petrobras confirmou um novo acordo com o Equador, pelo qual este ficava com todo o petróleo, e a empresa, com uma remuneração por seus investimentos e seu serviço. Em 21 de outubro, Amorim convocou o embaixador brasileiro em Quito para consultá-lo a respeito da decisão de Correa de recorrer à Corte Internacional de Arbitragem da Câmara Internacional de Comércio, sediada em Paris, para a suspensão da dívida com o BNDES. Em novembro, declarou que o Brasil reveria sua cooperação com o Equador, mas apenas a que envolvesse novos financiamentos e créditos, pois a de caráter social não acabaria.

Em dezembro, porém, surgiu o receio de que outros países sul-americanos, como a Venezuela, a Bolívia e o Paraguai, não honrassem seus empréstimos com o BNDES. O embaixador do Equador anunciou então que seu país continuaria pagando, em parcelas, seu empréstimo até a decisão da Câmara Internacional de Comércio. Durante esse processo, Celso Amorim observou que a integração sul-americana estava sendo prejudicada e que, por ter garantia do Convênio de Crédito Recíproco (CCR), a dívida, se não fosse paga, afetaria não só o Brasil como também outros países da região, uma vez que havia um conjunto de Bancos Centrais envolvidos. Em 11 de janeiro de 2009, o Itamaraty informou que o embaixador brasileiro em Quito voltaria à sua função e que o Brasil continuaria acompanhando com atenção suas relações financeiras com o Equador.

Em reportagem da revista Isto É de junho de 2009, foi divulgado que Celso Amorim e o iraniano Manoucherch Mottaki teriam negociado secretamente a cooperação entre os sistemas bancários do Brasil e do Irã. Como isso violava recomendações do Conselho de Segurança da ONU, a repercussão do caso na mídia foi intensa. Segundo a matéria, o acordo previa mecanismos financeiros para facilitar a exportação e a importação de bens e serviços, incluindo operações de reexportação para terceiros países (o que permitiria ao Irã escapar do embargo por uma triangulação comercial), a criação de joint ventures, a abertura de bancos iranianos no Brasil e a assinatura de um acordo entre os bancos centrais para troca de informações sobre o sistema financeiro.

No segundo semestre de 2009, explodiu em Honduras uma grave crise política. Manuel Zelaya, eleito presidente por uma coalizão de centro-direita em uma acirrada disputa em 2005, aproximou-se durante o exercício do mandato do presidente venezuelano Hugo Chávez e vinha enfrentando uma oposição cada vez mais severa. Segundo seus adversários, era sua intenção incluir nas cláusulas das eleições presidenciais de novembro uma consulta sobre a possibilidade de mudar a Constituição para poder se reeleger. Sob esse argumento, em 28 de junho um golpe militar o derrubou e o obrigou a deixar o país rumo à Costa Rica. Assumiu o governo em seu lugar Roberto Micheletti, presidente do Congresso, apoiado por setores conservadores. O presidente deposto também era acusado de corrupção. O governo interino tinha uma ordem de prisão contra Zelaya por “traição” e prometia prendê-lo caso voltasse ao país.

Em 24 de julho, Zelaya tentou voltar e retomar o poder, mas foi barrado pelo Exército hondurenho na fronteira. Em 21 de setembro, porém, conseguiu entrar no país, buscando refúgio na embaixada do Brasil na capital Tegucigalpa. Tropas leais ao governo interino cercaram o prédio, abrindo uma crise diplomática entre Brasil e Honduras. Durante todo o processo de negociação Celso Amorim reiterou o apoio brasileiro ao presidente deposto e alertou que o governo “golpista” deveria se afastar o quanto antes, para evitar maiores danos à população hondurenha. O auxílio brasileiro a Zelaya teve grande repercussão na mídia nacional e internacional.

Com a chegada a Honduras do subsecretário norte-americano para América Latina, Thomas Shannon, o diálogo entre Zelaya e o governo interino foi retomado, e em 29 de outubro os dois lados anunciaram um acordo, segundo o qual a volta ou não de Zelaya seria decidida pelo Congresso, como queria o governo deposto. Em 17 de novembro, o presidente do Congresso anunciou que a decisão seria tomada apenas em 2 de dezembro, três dias depois da data marcada para as eleições presidenciais. No dia 29 de novembro, realizaram-se as eleições, com a vitória do candidato Porfírio Lobo. O resultado teve o reconhecimento dos Estados Unidos, mas não do governo brasileiro.

Em 7 de outubro, a revista americana Foreign Policy indicou Amorim como “o melhor chanceler do mundo”.

Em novembro, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, visitou o Brasil, encerrando a primeira etapa de um ciclo de articulações, coordenada por Amorim, em busca da paz no Oriente Médio. Ahmadinejad esteve no país uma semana depois da passagem do presidente de Israel, Shimon Peres, e dois dias após a vinda do líder da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. Antes, em janeiro, Celso Amorim havia feito uma série de visitas ao Oriente Médio, reunindo-se com os principais representantes da região. A visita do presidente iraniano – que, segundo foi divulgado, em outra ocasião teria contestado a existência do Holocausto e condenado o homossexualismo – gerou inúmeras manifestações em várias capitais do país.

NO MINISTÉRIO DA DEFESA

Em 8 de agosto de 2011, Celso Amorim assumiu o comando do Ministério da Defesa do governo de Dilma Rousseff, sucedendo Nelson Jobim. Sua nomeação se deu em um quadro de tensão política, pois seu antecessor entregara o cargo após fazer críticas públicas às ministras Gleisi Hoffman, da Casa Civil, e Ideli Salvati, da Secretaria de Direitos Humanos, o que inviabilizara sua continuidade como ministro. Ao assumir a pasta, teve como principais missões negociar recursos para a modernização das Forças Armadas e consolidar a autoridade civil do Ministério sobre os militares.

Ao longo de sua permanência à frente do ministério, Amorim enfrentou diversos desafios, como a instituição da Comissão Nacional da Verdade (CNV); a escolha do fornecedor dos novos caças para a Força Aérea Brasileira; a retirada do contingente do Exército brasileiro do Morro do Alemão no Rio de Janeiro; e a negociação da gradual saída das tropas brasileiras do Haiti.

Instituída em março de 2012, a CNV foi um assunto extremamente delicado para as Forças Armadas desde o início, uma vez que tinha por objetivo investigar as violações de direitos humanos cometidas entre 1946-1988, principalmente aquelas perpetradas pelos agentes do Regime Militar (1964-1985). Um pouco antes do início de seus trabalhos, um grupo de militares da reserva publicou manifesto onde questionavam a validade da CNV e afirmavam desconhecer a autoridade do novo Ministro. Assim, o principal papel do ministro foi intermediar os trabalhos da Comissão com a cúpula das Forças Armadas e, principalmente, intermediar a elaboração do relatório final. Para Amorim, esse tema foi o mais demandante em sua gestão no Ministério, tendo considerado uma vitória o fato de os militares terem deixado de negar as violações.

Depois de 13 anos de negociações intensas, a gestão de Amorim no Ministério da Defesa anunciou a compra de 36 caças Gripen NG (New Generation), da empresa sueca Saab, para a Força Aérea Brasileira. O valor total da transação foi de US$4,5 bilhões, tendo envolvido também a transferência de tecnologia. A decisão de compra dos caças suecos foi considerada surpreendente, pois a preferência inicial do governo brasileiro era pelos caças norte-americanos, fabricados pela empresa Boing. No entanto, o episódio de espionagem eletrônica da presidente Dilma Rousseff por uma agência de espionagem dos Estados Unidos acabou revertendo a situação a favor dos suecos.

Outro ponto importante da gestão de Celso Amorim a frente do Ministrério da Defesa foi a questão das tropas brasileiras no Haiti. Após 10 anos da presença militar brasileira à frente da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH) Amorim começou a abrir o caminho para a saída do contingente brasileiro, em torno de 2 mil militares. De acordo com o ministro, em 2014 o Haiti teria sua terceira eleição democrática, demostrando um maior grau de estabilidade sociopolítica e, portanto, indicando maior capacidade do governo haitiano em lidar com sua própria segurança. Esses indicadores, em conjunto com a avaliação das Nações Unidas, dariam as condições para a conclusão gradual da MINUSTAH.

Já no final do ano de 2014, Amorim expressou o desejo de deixar a Pasta, não acompanhando portanto a presidente Dilma Rousseff em seu segundo mandato, para o qual acabara de ser eleita. Em 1 de janeiro de 2015, foi substituído por Jaques Wagner, ex-governador do Estado da Bahia.

Casou-se com Ana Maria Amorim, com quem teve quatro filhos.

Celso Amorim publicou vários trabalhos sobre teoria política, relações internacionais, política cultural e temas ligados à ciência e tecnologia. Teve também publicados os livros: Conversas com jovens diplomatas (2011), Breves narrativas diplomáticas (2013) e Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva (2015).

 

 

Sílvia Escorel/Alexandra de Melo e Silva/ Luisa Lamarão

 

FONTES: CURRIC. BIOG.; Globo (27/09/1993); Jornal do Brasil (03/09/1993); MIN. REL. EXT. Anuário (1976, 1983 e 1992); Portal Abin. Disponível em http://www.abin.gov.br. Acesso em 02/12/2009; Portal Agência Brasil. Disponível em: <http://www.agenciabrasil.gov.br>. Acesso em 02/12/2009; Portal Alemanja. Disponível em: <http://www.alemanja.org>. Acesso em 02/12/2009; Portal BBC. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese>. Acesso em 18/08/2015; Portal CCBJ. Disponível em: <http://www.ccbj.jp>. Acesso em 02/12/2009; Portal Correio Braziliense. Disponível em: <http://www2.correioweb.com.br>. Acesso em 02/12/2009; Portal Estado de S. Paulo. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/>. Acesso em 02/12/2009 e 19/08/2015; Portal Exame. Disponível em: <http://portalexame.abril.com.br>. Acesso em 02/12/2009; Portal Folha de S. Paulo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br>. Acesso em 02/12/2009 e 20/08/2015; Portal O Globo. Disponível em: <http://oglobo.globo.com>. Acesso em 02/12/2009; Portal IG Noticias. Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br>. Acesso em 02/12/2009; Portal IME. Disponível em: <http://www2.ime.uerj.br>. Acesso em 02/12/2009; Portal Isto É. Disponível em: <http://www.terra.com.br/istoe>. Acesso 01/12/2009; Portal Livraria Cultura. Disponível em: <http://www.livrariacultura.com.br/>. Acesso em 18/08/2015; Portal do Ministério da Defesa. Disponível em: <http://www.defesa.gov.br/noticias>. Acesso em 20/08/2015; Portal Rothkopf. Disponível em: <http://rothkopf.foreignpolicy.com>. Acesso em 02/12/2009; Portal Valor Econômico. Disponível em: <http://www.valor.com.br/>. Acesso em18/08/2015.


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