MONTEIRO, EULER BENTES

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Nome: MONTEIRO, Euler Bentes
Nome Completo: MONTEIRO, EULER BENTES

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
MONTEIRO, EULER BENTES

MONTEIRO, Euler Bentes

*militar; superint. Sudene 1967-1969; ch. Depto Ger. Serv. Ex. 1974; ch. Depto Mat. Bél. Ex. 1974-1977; cand. pres. Rep. 1978.

 

Euler Bentes Monteiro nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 15 de janeiro de 1917, filho do oficial do Exército José Bentes Monteiro e de Olga do Nascimento Bentes Monteiro.

Depois de cursar o Colégio Militar do Rio de Janeiro, ingressou em fevereiro de 1933 na Escola Militar do Realengo, também na capital federal. Declarado aspirante-a-oficial da arma de engenharia em janeiro de 1936, em setembro desse mesmo ano recebeu a patente de segundo-tenente.

Ainda em 1936, foi incorporado aos efetivos da 3ª Região Militar (3ª RM), sediada no Rio Grande do Sul, e chefiada pelo general Manuel Daltro Filho, incumbido pelo presidente Getúlio Vargas de manter sob controle o governador gaúcho José Antônio Flores da Cunha, que se incompatibilizara com o governo federal. Em outubro de 1937, Flores da Cunha, não resistindo ao cerco que se fechava, renunciou ao governo e refugiou-se no Uruguai. Promovido a primeiro-tenente em setembro de 1937, Euler Bentes continuava no Rio Grande do Sul quando foi deflagrado o golpe do Estado Novo (10/11/1937).

Nos anos de 1938 e 1939 serviu numa unidade de engenharia de construção do Exército, sediada em Lajes (SC), que cobria desde a fronteira do Rio Grande do Sul até o Paraná. Nesse período, participou da construção da primeira estrada de rodagem ligando Curitiba a Porto Alegre, a antiga BR-2. Promovido a capitão em dezembro de 1940, engajou-se no processo conspiratório que resultou na deposição de Getúlio Vargas pelos chefes militares em 29 de outubro de 1945, pondo fim ao Estado Novo. Recebeu a patente de major em março de 1947 e, mais tarde, graduou-se engenheiro pela Escola Militar de Engenharia. Em 1950 passou a lecionar na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e, no mesmo ano, tornou-se membro efetivo do conselho deliberativo do Clube Militar.

As discussões em torno da definição de uma política de exploração das riquezas minerais no país, sobretudo o petróleo, vinham dividindo as forças armadas em duas grandes correntes, que estiveram representadas nas eleições para a presidência do Clube Militar em 1950: uma, favorável à participação estrangeira no setor, apresentou a candidatura do general Osvaldo Cordeiro de Farias; a outra, de posição marcadamente nacionalista, lançou como candidato o general Newton Estillac Leal, que logrou ser eleito. Desse modo, o Clube Militar passou a integrar a campanha pela nacionalização do petróleo, na qual a Revista do Clube Militar teve posição de destaque, tendo sido o instrumento mais utilizado pela nova diretoria para a divulgação de sua linha de pensamento.

Os artigos publicados pela revista na edição do mês de agosto de 1950 defendiam o monopólio estatal do petróleo e criticavam a intervenção norte-americana na Guerra da Coréia, posicionando-se contra um possível envio de tropas brasileiras ao conflito. A publicação provocou o agravamento das tensões entre os dois grupos. A ala das forças armadas favorável a uma maior cooperação com os Estados Unidos passou a exigir a mudança da linha da revista, acusando-a de simpatizar com o regime comunista da Coréia do Norte, o que veio a abalar internamente o clube. Diante dessa situação, Euler Bentes, eleito na chapa de Estillac Leal, acabou por apresentar sua demissão do conselho deliberativo, atitude em que foi acompanhado por outro membro do conselho, o capitão Francisco Boaventura Cavalcanti Júnior. A discussão em torno da Guerr a da Coréia prosseguiu ainda na edição de outubro, mas, devido ao acirramento da tensão entre os dois grupos, a publicação deixou de circular em novembro de 1950, só voltando em março de 1951, já durante o segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), mantendo a orientação desenvolvida anteriormente.

Em setembro de 1952 Euler Bentes recebeu a patente de tenente-coronel. Foi um dos signatários do Manifesto dos coronéis — documento assinado por 42 coronéis e 39 tenentes-coronéis — dirigido à alta hierarquia militar em fevereiro de 1954, em protesto contra a exiguidade dos recursos destinados ao Exército e a proposta governamental de elevação do salário mínimo em 100%. Lançado num período crítico das relações do governo com a oposição, o manifesto teve grande repercussão e contribuiu para a demissão dos ministros da Guerra e do Trabalho, respectivamente, general Ciro do Espírito Santo Cardoso e João Goulart.

Em dezembro de 1955 Euler Bentes foi promovido a coronel, exercendo mais tarde a subchefia do estado-maior do I Exército, no Rio de Janeiro. Encontrava-se no comando da Escola de Comunicações do Exército, em Deodoro, no Rio de Janeiro, quando eclodiu, em março de 1964, o movimento político-militar que resultou na deposição do presidente João Goulart. Procurado por dois majores na manhã de 31 de março, negou a concessão dos equipamentos necessários à instalação de uma central de comunicações entre as escolas militares, que deveriam ser utilizados durante o levante. Sua atitude foi vista por alguns militares como “contra-revolucionária”, enquanto outros passaram a defini-la apenas como uma consequência de sua postura legalista.

Ainda em 1964, chefiou a Comissão Mista Brasil-Paraguai, responsável pela construção de uma estrada ligando Foz do Iguaçu (PR) à cidade paraguaia de Porto Stroessner, e dirigiu vários batalhões ferroviários. Não obstante o incidente da manhã de 31 de março de 1964, foi promovido em março de 1965 a general-de-brigada e, em março de 1967, quando teve início o governo do marechal Artur da Costa e Silva, foi nomeado pelo ministro do Interior, general Afonso Albuquerque Lima, para a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), sucedendo a Fernando de Oliveira Mota.

Durante sua gestão à frente da Sudene destacou-se como administrador eficiente, tendo colocado em prática a Lei de Irrigação — elaborada no I Plano Diretor da Sudene em fins da década de 1950 — que propunha a desapropriação, por interesse social, de terras beneficiadas por obras de irrigação. Viabilizou também o chamado esquema tripartite, que consistia na realização de empreendimentos com partes iguais de capitais estrangeiros, estatais e nacionais, e que depois se revelou peça fundamental para a implantação do pólo petroquímico de Camaçari, na Bahia. Foi o responsável pela criação da Artene, rede de cooperativas de produtores artesanais destinada a promover e comercializar a produção de artesãos nordestinos. Como superintendente, conviveu frequentemente com as lideranças da região, tendo a elaboração do IV Plano Diretor da Sudene contado com a opinião de empresários, líderes sindicais e representantes da Igreja. O plano foi aprovado no Congresso em outubro de 1968, depois de uma enorme controvérsia em torno do artigo 70, que previa a participação dos empregados nos lucros das empresas do Nordeste. Euler Bentes foi obrigado a retirar esse artigo, por falta de apoio do governo federal.

Destacou-se como um dos principais opositores à proposta apresentada em dezembro de 1968 pelo presidente da Comissão Consultiva do Mercado de Capitais, Teófilo de Azeredo Santos, ao governo federal, para que fosse permitida a utilização de recursos disponíveis e não aplicáveis, existentes no Banco do Nordeste, para financiamento, a curto prazo, de capital de giro em outras áreas do país, com o objetivo de contribuir para a baixa da taxa de juros no mercado. Na ocasião, enviou ao ministro do Interior, Albuquerque Lima, um documento apelando para que não fosse alterada a legislação que regulava os incentivos fiscais destinados ao desenvolvimento econômico do Norte e Nordeste e manifestando sua discordância quanto à possível utilização de recursos do Banco do Nordeste para financiamento do capital de giro em outras áreas do país.

Em janeiro de 1969, o ministro Albuquerque Lima, a cujo ministério estava subordinada a Sudene, apresentou sua exoneração ao presidente Costa e Silva por discordar, entre outros pontos, da reforma tributária realizada pelo ministro da Fazenda, Antônio Delfim Neto, que retirou 30% dos recursos previstos para o IV Plano Diretor da Sudene. Nesse mesmo mês, Euler Bentes desligou-se da Sudene, em solidariedade ao ministro do Interior, sendo substituído pelo general Tácito Teófilo Gaspar de Oliveira.

Retornando às suas atividades militares, foi promovido a general-de-divisão em julho do mesmo ano. Mais tarde, assumiu a direção do Departamento de Economia e Finanças do Ministério do Exército, durante a gestão do general Orlando Geisel.

Em março de 1974, alguns dias após a posse do general Ernesto Geisel na presidência da República, Euler Bentes recebeu a patente de general-de-exército e, no mês seguinte, foi empossado na chefia do Departamento Geral de Serviços do Exército, em substituição ao general Reinaldo Melo de Almeida, designado para comandar o I Exército. Permaneceu no cargo até agosto seguinte, tendo sido substituído pelo general José de Azevedo Silva. Passou então a chefiar o Departamento de Material Bélico do Exército, vago desde a saída do general Vicente de Paulo Dale Coutinho, nomeado ministro do Exército. Nesse posto, implementou o desenvolvimento da indústria bélica brasileira, que culminou com a criação, em 1976, de uma empresa estatal dedicada ao ramo, a Indústria de Material Bélico (Imbel). Na época da criação da Imbel a imprensa chegou a veicular seu nome como possível presidente da empresa, o que, contudo, não ocorreu. Permaneceu à frente do departamento até março de 1977 quando, após 12 anos de generalato, passou à reserva.

De acordo com notícias veiculadas pelo Jornal do Brasil, ao deixar a ativa Euler Bentes teve seu nome cogitado pelo ministro da Indústria e Comércio, Ângelo Calmon de Sá, para ocupar um importante posto no setor siderúrgico. A proposta, entretanto, não foi aceita pelo presidente Geisel, que teria alegado a necessidade de mantê-lo disponível para um cargo mais importante no futuro.

Além dos citados, durante a carreira militar fez os cursos da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), da Escola de Estado-Maior e da Escola Superior de Guerra (ESG) e o curso de instrução de oficiais de engenharia, em Fort Beloir, na Virgínia (EUA). Foi instrutor na Academia Militar e na EsAO, além de subcomandante do 4º Batalhão de Engenharia, sediado em Itajubá (MG), e do 2º Batalhão Ferroviário, em Rio Negro (PR). Chefiou também o gabinete da Diretoria de Vias de Transporte, o estado-maior da 6ª Divisão de Infantaria e a 2ª Seção do Estado-Maior do Exército. Foi ainda comandante do 1º Grupamento de Engenharia e da EsAO e membro do corpo permanente da ESG.

Candidato à presidência da República

Durante todo o ano de 1977 verificaram-se manifestações de descontentamento no interior das forças que tradicionalmente vinham apoiando o regime instalado em 1964. Assim, em fevereiro de 1977, Severo Gomes foi exonerado do Ministério da Indústria e Comércio por suas críticas à orientação da política econômica do governo. No próprio partido governista, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), o senador mineiro José de Magalhães Pinto lançara-se como candidato civil à sucessão do presidente Geisel, fundando em maio daquele ano a Frente Nacional pela Redemocratização, movimento que objetivava reunir setores civis e militares de oposição ao governo, e que teve em Euler Bentes uma de suas primeiras adesões.

No início de janeiro de 1978, quando foi confirmado o nome do chefe do Serviço Nacional de Informações, general João Batista Figueiredo, como candidato oficial à presidência da República, as dissidências no interior do governo acentuaram-se ainda mais. Na ocasião, o chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, general Hugo Abreu, apresentou seu pedido de exoneração ao presidente Geisel por discordar da forma como havia sido encaminhada a sucessão presidencial, a qual considerava uma imposição do presidente, em detrimento da orientação fixada pelo regime de 1964, que reclamava um nome consensual às forças armadas. A partir de então, setores dissidentes das forças armadas passaram a empenhar-se na articulação de uma candidatura alternativa à de Figueiredo.

A candidatura de Magalhães Pinto, além de ter ficado isolada em seu próprio partido, não conseguiu a adesão do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), agremiação oposicionista. Ao mesmo tempo, a candidatura de Euler Bentes passou a ser articulada pelo ex-ministro Severo Gomes, despertando a simpatia dos mais variados setores do cenário político: dissidentes da Arena, representantes do MDB, empresários e militares. Como o nome de Magalhães Pinto não conseguisse se firmar e o de Euler Bentes ganhasse força e, ainda assim, o senador insistisse em manter sua candidatura, foram necessárias várias negociações até que ambos entrassem num acordo. Destacou-se nesse processo o general Hugo Abreu — que acabara de ser transferido para a reserva — como mediador entre os candidatos, acabando por convencer Magalhães Pinto a abrir mão de sua candidatura em favor da do general.

Desse modo, a frente continuava fortalecida e, dada a impossibilidade do lançamento de nomes desvinculados de partidos políticos, o MDB passou a ser pressionado para que assumisse a candidatura de Bentes como única forma de viabilizá-la. Depois de muitas negociações, o MDB acabou decidindo incorporar-se à Frente Nacional pela Redemocratização e, no dia 17 de agosto de 1978, em cerimônia realizada no Congresso Nacional, Euler Bentes assinou sua ficha de filiação ao partido. Pouco depois, no dia 23 de agosto, realizou-se a convenção nacional do MDB, onde foram feitas duas votações: uma, que decidiu a participação do partido no Colégio Eleitoral de 15 de outubro, e outra, que homologou a chapa formada por Euler Bentes e o senador gaúcho Paulo Brossard, candidatos à presidência e vice-presidência da República, respectivamente, em oposição aos candidatos arenistas João Figueiredo e Aureliano Chaves, governador de Minas Gerais, escolhidos em abril.

No entanto, no início de outubro, o partido oposicionista se mostrava cada vez mais dividido em torno da questão da viabilidade ou não de uma candidatura alternativa. Alguns consideravam que seria um desgaste para o partido apresentá-la, enquanto outros chegavam a ser contra a participação do MDB no Colégio Eleitoral. Para resolver a controvérsia foi necessária a realização, no dia 10 de outubro, de uma reunião sigilosa da executiva nacional do partido com Euler Bentes, na qual ficou decidido que as candidaturas seriam definitivamente mantidas. Nas eleições realizadas no dia 15 de outubro de 1978 saíram vitoriosos os candidatos da situação, que obtiveram 355 votos contra 226 dados à chapa Euler-Brossard.

No dia 18 de abril de 1979, após a posse do novo governo, foi divulgado pela imprensa um documento reivindicando a convocação urgente de uma assembléia nacional constituinte que reimplantasse o estado de direito no país, assinado por Euler Bentes e por empresários, intelectuais, políticos da oposição e líderes sindicais. Desde então, Bentes afastou-se da vida pública, não se dedicando a nenhuma atividade profissional.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 23 de julho de 2002.

Casado com Maria José Pais Bentes, teve dois filhos.

 

FONTES: CORRESP. SECRET. GER. EXÉRC.; CORRESP. SUDENE; Globo (24/7/02); INF. BIOG.; Jornal do Brasil (3/4/74, 30/4/75, 3/7/76, 25/3 e 6/11/77, 18 e 24/8 e 11/10/78); KLEIN, L. Cronologia; Pasquim (7 e 13/7/78); Rev. Clube Militar (6/50); SODRÉ, N. Militar; SODRÉ, N. Memórias; Veja (30/8/78).

 

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