ELMO DE ARAUJO CAMOES

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Nome: CAMÕES, Elmo
Nome Completo: ELMO DE ARAUJO CAMOES

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
CAMÕES, Elmo

CAMÕES, Elmo

*pres. Bco. Central 1988-1989.

 

Elmo de Araújo Camões nasceu na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal,  no dia 31 de janeiro de 1927, filho de Martinho Leal de Camões e Angélica de Araújo Camões.

Técnico em administração e funcionário de carreira do Banco do Brasil, ingressou nessa instituição em 1946, iniciando suas atividades profissionais na agência de São Borja (RS). Em seguida, foi transferido para a agência metropolitana do Rio de Janeiro, onde exerceu as funções de assistente e chefe de serviços. Foi também secretário de gabinete do Departamento de Redesconto até 1960, cujo diretor de carteira era Tancredo Neves.

Como funcionário do Banco do Brasil foi gerente de câmbio da agência de Assunção, Paraguai (1960-1963); representante do Brasil na Comissão Mista Brasil/Paraguai (1960-1963); gerente de câmbio na agência de Montevidéu, no Uruguai (1963-1967); assessor da delegação brasileira na Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc) (1963-1967);  operador de câmbio, chefe de divisão das operações de câmbio e participante dos grupos de trabalho para a reorganização da administração de câmbio no Banco Central do Brasil (1967-1972); representante do Banco do Brasil no 1o Encontro de Técnicos de Operação de Câmbio em Montevidéu, e no 4o Encontro sobre Assuntos Monetários na Alalc, em Buenos Aires (1968); representante da administração de operações de Câmbio do Banco Central do Brasil no 6o Congresso Nacional dos Bancos, em Brasília, e conferencista no Banco do Estado de São Paulo (Banespa) e na Companhia Vale do Rio Doce sobre câmbio e comércio exterior (1971).

Em 1972 transferiu-se para o Banespa, onde ocupou o cargo de gerente-geral da agência de Nova Iorque. Nos Estados Unidos foi ainda diretor da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos e membro do conselho diretor do Institute Foreign Bank of New York (1972-1976). Foi também membro do conselho de administração da Companhia Brasileira de Entrepostos e Comércio (1976); diretor de câmbio e comércio exterior (1976-1977); diretor reeleito da área internacional, membro do conselho de administração e representante do Banespa no Brasilvest (1977-1981); presidente da Câmara Brasil/Paraguai (1978-1982).

Aposentou-se em 1978, mas continuou vinculado ao setor financeiro, passando à iniciativa privada. No ano seguinte tornou-se membro do conselho curador da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior, atividade que exerceria até 1982. Em 1981 integrou pela primeira vez a direção de uma instituição financeira privada, tornando-se diretor-presidente do Banco Société Génerale (Sogeral), que então iniciava suas atividades no Brasil. De 1981 a 1987, ocupou vários cargos nessa instituição e no sistema financeiro: membro do conselho de administração do Sogeral (1981); presidente do Forex Clube Brasileiro - São Paulo (1981); presidente da comissão de câmbio e comércio exterior da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) (1981); membro do comitê central de administração das instituições financeiras do Grupo Sogeral (1983); membro do conselho de administração da Sogeral Leasing - Arrendamento Mercantil (1983); diretor setorial de câmbio e comércio exterior e membro do conselho superior de orientação da Febraban (1983); presidente do conselho de administração do Sogeral (1985); membro do conselho superior de orientação da Febraban; membro do Conselho Monetário Nacional, como representante do sistema financeiro nomeado pelo presidente da República José Sarney.

Em março de 1988 assumiu a presidência do Banco Central (BC) substituindo Fernando Milliet. Novamente indicado por José Sarney, de que era amigo pessoal, teve seu nome bem recebido pelos empresários e pelo mercado financeiro. Ao tomar posse, Camões afirmou que a política monetária e creditícia que cabia ao BC deveria ter inicio com a redução dos gastos do próprio governo. Ao mesmo tempo, tranqüilizou o setor financeiro privado dizendo que a evolução das taxas de juros deveria estar vinculada à necessidade de procurar um índice real positivo cujo nível não inibisse o investimento econômico nem estimulasse a especulação da atividade financeira. Para tanto Camões descartou o pagamento de juros negativos – abaixo da inflação – no overnight. Além disso, afirmou que o déficit público gerava distorções das quais a mais visível era a aceleração da inflação.

Camões iniciou um processo de reforma na instituição para modificar a estrutura de suas divisões internas, das normas operacionais e das diretorias. Segundo ele, tais medidas objetivavam formar um Banco Central semelhante aos que existiam em outros países. No bojo dessas reformas, defendeu a garantia para os investimentos de longo prazo, dada a predominância dos investimentos de curto prazo em função dos altos patamares das taxas de juros. Em relação à dívida externa, defendeu a existência no país de um corpo técnico negociador, bem como a conversão da dívida externa em papéis de risco, e promoveu em sua gestão vários leilões para a conversão de títulos da dívida em investimentos de risco. Em relação à reforma do mercado financeiro, defendia que o mercado pudesse ser menos concentrado com a participação de um número maior de bancos de modo que ficasse mais ágil e criativo. Em relação à política cambial, defendia uma taxa de câmbio flexível que acompanhasse a inflação, com minidesvalorizações freqüentes desde que se pagasse ao exportador o custo real do dólar em cada momento.

Ainda em março surgiu a primeira denúncia de operações irregulares realizadas por Camões no sistema financeiro, quando ainda pertencia à direção do Sogeral. A operação teria sido efetuada em abril de 1983 e teria incorrido no Art. 34 da Lei 4.595 que proibia às instituições financeiras a concessão de adiantamentos ou de empréstimos a seus diretores ou parentes, pois, parte do empréstimo teria retornado a dois diretores do Sogeral. Camões era um dos citados, juntamente com outro então diretor do banco, Naji Nahas, seu acionista majoritário. Camões negou as acusações, mas acabaria sendo incluído no inquérito policial aberto em novembro daquele ano para apurar a operação financeira. Pouco tempo depois, o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional absolveu o Sogeral e seus diretores, com exceção de Naji Nahas e de Augusto MacDowell Leite de Castro, acusados de beneficiários do empréstimo irregular.

Em abril, Camões anunciou que o BC iria liberar as tarifas bancárias, deixando que o mercado regulasse os valores que seriam cobrados, medida que era apoiada pelos banqueiros. Em maio, voltou a se pronunciar sobre o déficit público e divulgou a informação de que o governo promoveria cortes e a liberalização de importações para neutralizar o excesso de liquidez causado pelos saldos positivos da balança comercial. A preocupação das autoridades monetárias, segundo ele, estava voltada para o excesso de liquidez e para o nível das taxas de juros que estariam propiciando a formação de estoques especulativos. Defendeu ainda, ao contrário do que afirmara quando de sua posse, que a alta inflação do país só se resolveria com um choque heterodoxo na economia.

Em outubro daquele ano, Juarez Soares, diretor da Dívida Pública do BC, elevou em 50% as taxas do overnight, o que causou a queda das cotações das Bolsas de Valores e um prejuízo da dívida pública de 100 bilhões de cruzados, episódios que motivaram sua demissão em seguida. Tanto Soares como Camões foram chamados ao Senado para deporem na Comissão de Fiscalização. Na ocasião, havia forte suspeita de que pessoas ligadas ao mercado financeiro sabiam antecipadamente da alta. Em seu depoimento, Camões defendeu a medida adotada por Soares como tecnicamente correta e respondeu ao senador Carlos Chiarelli (PFL-RS) que sua demissão se devia a fatores políticos.

Segundo Ricardo Noblat, a saída de Elmo Camões da presidência do BC foi desencadeada por problemas ocorridos com a Distribuidora Capitânea, de propriedade de seu filho Elmo Camões Filho, da qual o próprio Camões também era sócio. A distribuidora, que operava no mercado futuro de dólares, sofreu ameaça de intervenção pelo BC por ter contabilizado prejuízo de 100 milhões de cruzados novos, no rastro das operações promovidas pelo especulador Naji Nahas na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. A diretoria do Banco Central resolveu intervir na Capitânea durante viagem particular de Elmo Camões à Suíça. No entanto, como Camões já se encontrava de volta ao Brasil quando a questão veio à tona, a intervenção na Capitânea não se consumou. Para que a medida tivesse validade, era necessária a assinatura de Elmo Camões, que, a essa altura, tentava diminuir o prejuízo do filho, recorrendo para tanto a banqueiros do eixo Rio-São Paulo que se comprometeram a ajudá-lo. O incidente envolvendo a Capitânea constrangeu Elmo Camões a pedir demissão da presidência do Banco Central, sendo substituído no cargo por Vadico Valdir Bucchi.

Em seguida, Camões passou a prestar consultoria financeira a empresas. Presidente da Seomac-Participações, Investimentos e Representações em 1990, no ano seguinte voltou a atuar no mercado financeiro, tornando-se superintendente do departamento internacional e de câmbio do Banco Martinelli, instituição que seria liquidada em 1999. Um ano antes, Camões  encerrou suas atividades.

Casou-se com Maria Luísa Lages Camões, com quem teve três filhos.

 

Ednílson Cruz

 

FONTES: Estado de S. Paulo (18 e 21/10, 30/11/88); Folha de São Paulo (8/5/88; 19/6/91; 19/10/96); Globo (28/3, 16/4, 18/10/88; 19/6/91);. Jornal do Brasil (10 e 13/3/88, 18/9/88; 19/10/1996); NOBLAT, R. Céu.

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