KRUEL, AMAURI

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Nome: KRUEL, Amauri
Nome Completo: KRUEL, AMAURI

Tipo: BIOGRAFICO


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KRUEL, AMAURI

KRUEL, Amauri

*militar; rev. 1930; dir.-ger. DFSP 1957-1959; ch. Gab. Mil. Pres. Rep. 1961-1962; min. Guerra 1962-1963; comte. II Ex. 1963-1966; dep. fed. GB 1967-1971.

 

Amauri Kruel nasceu em Santa Maria (RS) em 11 de abril de 1901, filho do fazendeiro José Carlos Kruel e de Ana Weber Kruel. Seu irmão Riograndino Kruel alcançou o generalato e foi diretor-geral do Departamento de Polícia Federal (DPF) de 1964 a 1966.

Sentou praça em março de 1918 ingressando na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, de onde saiu aspirante-a-oficial da arma de cavalaria em janeiro de 1921. Três meses depois foi promovido a segundo-tenente e em setembro de 1922 a primeiro-tenente. Em 1923, quando servia no 7º Regimento de Cavalaria, em Santana do Livramento (RS), juntou-se a alguns companheiros de farda em manifestações de apoio à Revolução Federalista. Liderados por Joaquim Francisco de Assis Brasil, os revoltosos protestavam contra a quinta reeleição consecutiva do líder republicano Antônio Augusto Borges de Medeiros à presidência do estado. A luta se estendeu de janeiro a novembro de 1923 e foi encerrada pelo Pacto de Pedras Altas, que estipulou a manutenção de Borges no governo, mas vedou nova reeleição.

Em 1924 Kruel fez o curso de equitação na Escola de Estado-Maior do Exército, no Rio, e no ano seguinte tornou-se instrutor de equitação de oficiais na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), na mesma cidade. Em 1926 fez o curso de cavalaria na Vila Militar, também no Rio, do qual foi instrutor de 1927 e 1928. Designado ajudante-de-ordens do subchefe do Estado-Maior do Exército (EME) em março de 1929, tomou parte, no Rio, da Revolução de 1930, que depôs o presidente Washington Luís no dia 24 de outubro e colocou Getúlio Vargas no poder. Permaneceu no EME até março de 1931 e no mês seguinte ingressou na Escola do Estado-Maior. Mais tarde tornou-se membro do Clube 3 de Outubro, organização criada em maio de 1931 para congregar as correntes tenentistas partidárias da manutenção e do aprofundamento das reformas instituídas pela Revolução de 1930. Em dezembro de 1931 foi promovido a capitão.

Em 1933 foi nomeado diretor de trânsito do Distrito Federal, durante a interventoria de Pedro Ernesto Batista. Em dezembro desse ano concluiu o curso da Escola de Estado-Maior e foi promovido a major. Instrutor de tática de cavalaria na Vila Militar entre março de 1934 e abril de 1936, daí saiu para comandar a Polícia Municipal do Rio de Janeiro até meados de 1937. De outubro desse ano a janeiro de 1939 foi adjunto do gabinete da Inspetoria Geral de Ensino do Exército e de março de 1939 a março de 1940 foi subcomandante do 12º Regimento de Cavalaria Independente, sediado em Bajé (RS).

Instrutor-chefe do curso de cavalaria da Escola de Estado-Maior em junho de 1941, em fevereiro do ano seguinte foi designado membro da Missão de Instrução Militar do Exército no Paraguai, porém recusou a designação e permaneceu como instrutor até meados de 1943.

Na Segunda Guerra Mundial

Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial em agosto de 1942 e a conseqüente estruturação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), um grupo de oficiais brasileiros foi enviado aos EUA para participar de cursos em bases militares norte-americanas. Enviado em julho de 1943 a Fort Leavenworth, no estado de Kansas, para um estágio de três meses, Kruel foi promovido a tenente-coronel em agosto e retornou ao Brasil em outubro.

No final desse ano, o comando da FEB — constituída pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) — foi oficialmente entregue ao general João Batista Mascarenhas de Morais. Kruel foi então convidado a integrar o Estado-Maior Divisionário. Em maio de 1944, passou também a fazer parte do Estado-Maior Especial, instalado secretamente no Rio de Janeiro com a função de planejar e executar o embarque da 1ª DIE para a Europa, dividida em vários escalões. Esse organismo foi composto ainda por outros dois oficiais do Estado-Maior Divisionário, o coronel Floriano de Lima Brayner e o tenente-coronel Humberto de Alencar Castelo Branco, e por dois membros da Missão Militar norte-americana, os tenentes-coronéis Sewel e Strong. Kruel ficou responsável pelo embarque do 1º Escalão no navio norte-americano General Mann, efetuado na noite de 30 de junho.

Em 16 de julho o 1º Escalão desembarcou em Nápoles, na Itália, sob o comando do general Mascarenhas de Morais. Em 5 de agosto foi incorporado ao V Exército Aliado, comandado pelo general norte-americano Mark Clark, e em seguida instalou-se na localidade de Vada para treinamento. Ligado ao grupo do general Euclides Zenóbio da Costa, Kruel participou dos ataques à chamada Linha Gótica, em poder dos alemães, tomando parte nas operações do vale do rio Sercchio, que envolveram, entre outras, a conquista da cidade de Coreglia, em 6 de outubro, e a batalha travada nas proximidades de Castelnuovo di Gartagnana, na noite do dia 31, quando as tropas brasileiras foram surpreendidas por um contra-ataque alemão e tiveram de recuar.

Em início de novembro, as tropas brasileiras foram conduzidas para o vale do rio Reno, ocupando assim a linha de frente do V Exército Aliado. Mascarenhas de Morais instalou em Porretta Terme seu quartel-general avançado, que compreendia, entre outras, a 2ª Seção — de Informações — chefiada por Kruel. O principal objetivo da campanha nesse período era a tomada de Castelnuovo, que deveria ser precedida pela tomada de Monte Castelo, ponto de defesa alemã daquela região. Nos dias 24, 25 e 29 de novembro e 12 de dezembro, a Task Force 45, comandada pelo general Paul Rutlegde e apoiada pelo 3º Batalhão (6º Regimento de Infantaria) e o Esquadrão de Reconhecimento brasileiros, atacou sem êxito a fortificação de Monte Castelo. Segundo depoimento do próprio general Mascarenhas de Morais, o fracasso dessas investidas decorreu de uma preparação inadequada e insuficiente das forças brasileiras e também das deficiências dos meios empregados no cumprimento da missão, da falta de apoio da artilharia e da aviação e de coordenação entre as unidades, e das condições climáticas adversas.

De acordo com o relato de John Foster Dulles, por outro lado, quando se preparava o ataque de 12 de dezembro, Amauri Kruel apresentou uma avaliação da força inimiga à 3ª Seção, de Operações, chefiada por Castelo Branco, tentando demonstrar que a investida, tal como fora planejada, não teria sucesso. Com base em informações fornecidas por sua seção, Kruel revelou que os alemães haviam-se fortificado, cavando trincheiras, colocando minas por trás das redes protetoras de arame farpado e aumentando o número de posições artilhadas. Considerou ainda um erro tentar o avanço com soldados de infantaria, já que seria preciso atravessar uma longa distância para atingir o local. Castelo Branco rejeitou a avaliação de Kruel e, no dia 8 de dezembro, em reunião que contou com a presença do general Mascarenhas de Morais e dos principais oficiais do Estado-Maior Divisionário, teve seu plano aprovado, o que desagradou a Kruel e a Brayner. O revés sofrido pelos brasileiros no dia 12 significou uma baixa de 145 soldados, entre mortos e feridos, e acirrou as disputas entre Kruel e Brayner, de um lado, e Castelo Branco, de outro, o qual, sentindo-se responsabilizado pelo desmantelamento das tropas, retirou-se da reunião do comando da FEB realizada no dia 13 de dezembro.

Em 3 de fevereiro de 1945 Kruel criou o Serviço de Contra-Informação, vinculado à 2ª Seção do Estado-Maior da 1ª DIE, ainda sob seu comando. No dia 25 seguinte, as tropas brasileiras conseguiram afinal tomar Monte Castelo, possibilitando a conquista de Castelnuovo em 5 de março. Terminada a guerra em 8 de maio de 1945 com a vitória final dos Aliados em toda a Europa após a queda de Berlim, na Alemanha, Kruel recebeu elogios do general Mascarenhas de Morais e foi condecorado pelo general Mark Clark por sua campanha na Itália.

De 1945 a 1961

De volta ao Brasil, Kruel foi nomeado no dia 12 de outubro de 1945 — pouco antes da queda de Vargas, ocorrida no dia 29 desse mês — chefe do Estado-Maior da Inspetoria da Arma de Cavalaria, cargo que deixou dois meses, mais tarde para tornar-se adjunto do adido militar junto à embaixada do Brasil em Londres. Ainda no posto de tenente-coronel, exerceu as funções de instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior e de comandante do 1º Regimento de Reconhecimento Mecanizado, no Rio. Em março de 1947 foi promovido a coronel e no mês seguinte deixou o posto que ocupava em Londres. Entre junho e novembro desse mesmo ano comandou o 1º Regimento de Cavalaria Mecanizada, no Rio, daí seguindo para Santo Ângelo (RS), para comandar o regimento mecanizado local. Assumindo em janeiro de 1949 a chefia da 2ª Seção da 1ª Subchefia do EME, fez em seguida um curso especial de informações e foi responsável por um inquérito sobre atividades comunistas no Exército. Em setembro de 1953 deixou o cargo que ocupava para comandar o 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, os Dragões da Independência, no Distrito Federal.

Em fevereiro de 1954, quando a opinião pública debatia a elevação do salário mínimo em 100% proposta por João Goulart, ministro do Trabalho do segundo governo Vargas, a imprensa publicou o Manifesto dos coronéis, assinado por 82 coronéis e tenentes-coronéis. O documento criticava a política econômica e financeira adotada pelo governo, apontava as conseqüências da má administração do patrimônio público e referia-se ao declínio da autoridade diante dos acontecimentos que se processavam em todo o país. Além disso, protestava contra a exigüidade dos recursos destinados ao Exército, enumerando as dificuldades de vida dos oficiais subalternos e dos praças, e opunha-se ao aumento do salário mínimo em 100%.

Primeiro signatário do documento, Kruel foi quem o entregou pessoalmente ao ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, o qual, entretanto, nada comunicou ao presidente. Tomando conhecimento do manifesto apenas através da imprensa, no dia 18 de fevereiro Vargas exonerou o ministro da Guerra, substituindo-o pelo general Zenóbio da Costa. Por outro lado, no dia 22 Goulart entregou a Vargas seu pedido de demissão em relatório expondo o problema do salário mínimo no país. No dia 1º de maio, tendo já explicado à oficialidade as dificuldades dos trabalhadores após oito anos seguidos de inflação, Vargas aumentou o salário mínimo em 100%, de acordo com a proposta de Goulart.

Em março de 1954 Kruel foi promovido a general-de-brigada, tornando-se o mais jovem general brasileiro. Nessa ocasião exercia o comando da Artilharia Divisionária da 1ª Divisão de Infantaria, onde permaneceu até o mês seguinte. Em dezembro, após a morte de Vargas e já no governo de João Café Filho, assumiu o comando da 1ª Divisão de Cavalaria, posto que deixou em julho de 1955 para chefiar o Estado-Maior da Zona Militar Sul. Segundo seu depoimento foi nesse período que conheceu casualmente João Goulart em São Borja (RS), nascendo daí uma forte amizade entre ambos.

Em junho de 1956, no governo de Juscelino Kubitschek, Kruel foi designado comandante da Infantaria Divisionária da 1ª Divisão de Infantaria, na Vila Militar, no Rio, daí saindo em fevereiro de 1957 para comandar o Núcleo de Divisão Blindada. Três meses depois, em maio, portanto, foi nomeado chefe do Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP), órgão que antecedeu o Departamento de Polícia Federal (DPF).

Em 1958 viajou a Washington em companhia do coronel Danilo Nunes, então chefe do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), entrevistando-se na capital norte-americana com o presidente Dwight Eisenhower. Promoveu campanhas contra a criminalidade e tentou moralizar o órgão que dirigia. Em junho de 1959, após uma áspera troca de palavras com o deputado federal da União Democrática Nacional (UDN), Geraldo de Meneses Cortes, membro da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instituída para apurar atos de corrupção no DFSP, agrediu fisicamente o parlamentar. Esse fato obrigou-o a pedir demissão do cargo que ocupava no início de julho de 1959.

Nomeado comandante da Divisão Blindada em agosto de 1959, deixou o cargo poucos dias depois para seguir para Nova Iorque como assessor militar do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU). Retornou ao Brasil no mês seguinte à posse de Jânio Quadros na presidência da República, ocorrida em janeiro de 1961, e em julho foi nomeado embaixador do Brasil na Bolívia. No entanto, diante da renúncia de Jânio em 25 de agosto seguinte, recusou-se a assumir o posto.

Na chefia do Gabinete Militar

Com a renúncia de Jânio, instalou-se no país uma grave crise provocada pelo veto dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart, então em viagem oficial à República Popular da China. Enquanto Goulart iniciava sua viagem de volta ao Brasil, formou-se no Rio Grande do Sul, sob a liderança do governador Leonel Brizola, um movimento de resistência em favor de sua posse. Diante disso, Kruel viajou do Rio para Porto Alegre, onde integrou a comitiva que em 1º de setembro recebeu Goulart para em seguida conduzi-lo a Brasília. No dia 2, o Congresso aprovou a Emenda Constitucional nº 4, que, instituindo no país o regime parlamentarista, permitiu afinal a posse de Goulart cinco dias depois.

No dia 8 de setembro Kruel foi nomeado chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, passando a exercer também, nessa condição, os cargos de secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional e de presidente da Comissão Especial da Faixa de Fronteiras.

Tendo seus poderes presidenciais diminuídos, mas estando relativamente respaldado pela maioria do Congresso, Goulart tentou, desde o início de seu governo, antecipar o plebiscito previsto pela Emenda nº 4 para princípios de 1965, através do qual o eleitorado decidiria sobre a manutenção ou não do regime parlamentarista. As crises políticas se sucediam, e, no final de junho de 1962, o primeiro-ministro do governo parlamentar, Tancredo Neves, ligado ao Partido Social Democrático (PSD), renunciou. O nome de Francisco Clementino de San Tiago Dantas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), foi indicado para substituí-lo e recusado pela Câmara. No dia 3 de julho o presidente do Senado, o pessedista Auro de Moura Andrade, teve seu nome aprovado pela Câmara, mas renunciou dois dias depois devido à recusa do presidente em homologar o gabinete ministerial que ele propunha. O impasse foi resolvido no dia 10 de julho com a indicação do nome de Francisco de Paula Brochado da Rocha, aprovado afinal pelo Congresso.

Comprometendo-se a adotar um programa de emergência no combate à inflação e empenhado na antecipação do plebiscito para dezembro daquele ano, no dia 10 de agosto de 1962 Brochado da Rocha solicitou ao Congresso que delegasse poderes ao governo para legislar sobre alguns temas importantes, como o monopólio da importação de petróleo e derivados, o comércio de minérios e materiais nucleares, a regulamentação do Estatuto do Trabalhador Rural e o controle da moeda e do crédito. Em 13 de setembro o primeiro-ministro voltou a insistir na antecipação do plebiscito para 7 de outubro e mais uma vez teve seu pedido recusado pelo Congresso. Diante disso, no dia seguinte exonerou-se do cargo, sendo acompanhado por todo o conselho de ministros.

Dada a gravidade da crise política então instalada, a Câmara dos Deputados aprovou no dia 15 o projeto de lei complementar de autoria de Gustavo Capanema e de Benedito Valadares fixando a data do plebiscito em 6 de janeiro de 1963. Logo em seguida Goulart formou um novo gabinete, nomeando Hermes Lima para o cargo de primeiro-ministro. Amauri Kruel foi então convidado a assumir a pasta da Guerra, ocupada anteriormente pelo general Nélson de Melo.

No Ministério da Guerra

Em 18 de setembro de 1962 Kruel foi empossado no Ministério da Guerra e em 28 de dezembro pronunciou-se publicamente a favor do presidencialismo declarando que o sistema parlamentarista havia “instaurado na República o reinado da irresponsabilidade, impedindo o governo de governar”. A seu ver, esse regime havia criado igualmente um “estado de perplexidade na opinião pública, emperrando o mecanismo da administração e suscitando o enfraquecimento do ritmo vital do país”.

Em 6 de janeiro de 1963 foi realizado afinal o plebiscito e, por esmagadora maioria de votos, o país retornou ao presidencialismo. No dia 23, quando Goulart nomeou um novo ministério, Kruel foi mantido na pasta da Guerra. Durante esse período, bastante tumultuado pela atuação das organizações sindicais e das forças de esquerda, que exigiam desorganizada e apressadamente profundas mudanças estruturais na sociedade, Kruel fez diversos pronunciamentos de caráter anticomunista. Em conseqüência, tornou-se alvo dos ataques sistemáticos do deputado federal pela Guanabara Leonel Brizola, que até aquele momento concentrara seu ímpeto oposicionista nos ministros San Tiago Dantas, da Fazenda, e Antônio Balbino, da Indústria e Comércio, e passou então a combater sua permanência no Ministério da Guerra.

Por essa época os debates que eram travados na sociedade chegaram aos quartéis. No dia 12 de maio, cerca de mil sargentos do Exército reuniram-se no auditório do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários (IAPC) com a presença de dirigentes do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), entre os quais Hércules Correia e Osvaldo Pacheco. Na ocasião o sargento Gelci Rodrigues Correia pronunciou um violento discurso jurando “defender a ordem em nossa pátria, mas não essa que está aí, que beneficia somente uns poucos privilegiados”. No dia 23, Kruel determinou que o sargento fosse punido com 30 dias de prisão, afirmando em seu despacho que “de há muito vem este ministério acompanhando a conjuntura político-militar e constatando a ação nefasta de elementos estranhos ao campo militar que, num trabalho de agitação, procuram conturbá-lo”. Quando no dia 23 de junho, exatamente um mês depois, o presidente da República reformulou o ministério, Kruel foi demitido da pasta da Guerra e substituído pelo general Jair Dantas Ribeiro.

A queda de João Goulart

Segundo suas declarações posteriores, chegando ao Rio logo após sua exoneração do ministério, Kruel foi recebido por diversos generais liderados por Mascarenhas de Morais, que lhe pediu que chefiasse um movimento destinado a depor o presidente da República. Apesar de naquele momento já estar convencido de que as concessões do governo federal às pressões das esquerdas acabariam levando o país ao regime comunista e de que, em conseqüência, era necessária uma intervenção militar no processo político, respondeu aos companheiros, que, como ex-auxiliar direto do presidente, não aceitaria a tarefa de chefiar o movimento, mas dele participaria quando fosse deflagrado.

Promovido a general-de-exército em novembro de 1963, no mês seguinte Kruel assumiu o comando do II Exército, sediado em São Paulo, em substituição ao general Peri Constant Bevilacqua.

No dia 13 de março de 1964, ao lado de seus ministros, inclusive dos ministros militares, de vários governadores e representantes sindicais e estudantis, Goulart pronunciou um discurso para cerca de duzentas mil pessoas em um grande comício realizado no Rio de Janeiro, e assinou publicamente vários decretos-leis de interesse social. A partir desse momento, a conspiração entre civis e militares para depor o presidente foi intensificada.

A adesão de Kruel ao movimento político-militar que em 31 de março de 1964 destituiu João Goulart tornou-se um assunto polêmico. Segundo Roberto de Abreu Sodré, membro do grupo civil que coordenou a conspiração contra o governo Goulart em São Paulo, um dos esquemas estabelecidos para o movimento militar incluía a deposição do então governador paulista Ademar de Barros e a prisão do comandante do II Exército, Amauri Kruel. Abreu Sodré explicou que “havia receio de que o governador não mantivesse sua fidelidade ao movimento, e o general Amauri Kruel não havia ainda definido a sua posição, como não definiu até o dia 1º de abril”.

Entretanto, o general Riograndino Kruel desmentiu categoricamente as afirmações de Sodré e do marechal Odílio Denis, também nesse sentido. Segundo seu depoimento, quando seu irmão era ministro da Guerra, ele próprio lhe propusera que “desse o golpe naquele estado de coisas”. Amauri Kruel lhe respondera que enquanto permanecesse no ministério não trairia João Goulart e que estava seguro de que sua permanência no governo era muito mais útil ao país do que fora dele. Além disso, mais tarde, o próprio Amauri chegara a sugerir ao presidente que alterasse sua orientação política de acordo com a posição do Exército. Como a resposta de João Goulart fora que não abandonaria as diretrizes de seu partido, o PTB, o ministro da Guerra teria dito: “Presidente, o Exército não aceitará a sua política e mais cedo ou mais tarde o senhor ficará sozinho com os seus amigos e eu não poderei acompanhá-lo.”

Ainda segundo o general Riograndino, ao se encontrar no início de março com o general Orlando Geisel para inteirar-se da marcha da conspiração, soubera que o então chefe do EME, o general Humberto de Alencar Castelo Branco, estava disposto a chefiar o movimento no Rio e em Minas Gerais. Nesse dia informara seu interlocutor da firme disposição de seu irmão, no comando do II Exército, de levantar integralmente todo o estado de São Paulo, já perfeitamente entrosado com o governador Ademar de Barros e a Força Pública local.

De acordo com as declarações de Riograndino, o movimento militar deveria eclodir no Rio, mas foi deflagrado antecipadamente em Minas Gerais, sob a liderança do general Olímpio Mourão Filho. Os comandos de São Paulo e do Rio, apanhados de surpresa, organizaram-se rapidamente a fim de garantir o levante em Minas. Ao tomar conhecimento do fato, às seis horas da manhã de 31 de março Riograndino telefonou para Castelo, fez algumas articulações no Rio e rumou para São Paulo. Ao chegar à capital paulista, foi informado pelo major Vinícius Kruel, seu sobrinho, de que o dispositivo do II Exército estava preparado, faltando apenas a adesão ao movimento dos generais Aluísio Mendes e Antônio Bandeira, este último comandante da 2ª Região Militar. Assim, somente após a adesão desses generais, ocorrida no final da tarde do dia 31, o manifesto do II Exército, elaborado desde as primeiras horas da manhã, foi lançado para todo o país. Logo em seguida, comandando o II Exército, o general Amauri Kruel marchou para o Rio de Janeiro, encontrando-se com o I Exército na altura da cidade de Resende (RJ).

O movimento foi rapidamente vitorioso e no dia 1º de abril o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu a presidência da República. No dia 9, o autodenominado Comando Supremo da Revolução, constituído pelo general Artur da Costa e Silva, o almirante Augusto Rademaker e o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo, que na realidade governava o país, editou um ato institucional, que mais tarde se tornaria conhecido como Ato Institucional nº 1 (AI-1), formalizando as transformações políticas introduzidas pelo movimento político-militar. Transferindo para o Executivo importantes atribuições do Legislativo, o AI-1 possibilitou a punição, cassação e expulsão de centenas de adversários do novo regime e estabeleceu que o novo presidente da República seria eleito indiretamente pelo Congresso.

Em meio às articulações para a escolha do novo presidente, o PSD lançou a candidatura do ex-presidente Eurico Gaspar Dutra, enquanto em São Paulo deputados e vereadores liderados pelo deputado Januário Mantelli Neto enviaram um manifesto aos membros do Congresso recomendando a candidatura do general Amauri Kruel. Logo em seguida, o senador Lino de Matos, do Partido Trabalhista Nacional (PTN), divulgou uma nota de apoio ao comandante do II Exército. Kruel, entretanto, não aceitou a indicação de seu nome e no dia 11 de abril encontrava-se entre as autoridades presentes à sessão da Câmara dos Deputados em que Castelo Branco foi eleito presidente da República.

Em 9 de agosto de 1966 Kruel passou para a reserva, a pedido, e foi promovido a marechal. Deixando na ocasião o comando do II Exército — que só seria assumido pelo general Jurandir de Bizarria Mamede em dezembro —, lançou um manifesto criticando os rumos tomados pelo regime. O documento alcançou tamanha repercussão política que o jornal Diário de São Paulo de 11 de agosto chegou a anunciar que Kruel poderia ser preso naquele mesmo dia. Segundo matéria publicada no Jornal do Brasil em outubro, Kruel se posicionara contra as eleições indiretas instauradas pelo AI-2 (27/10/1965) ao afirmar que sem o processo eleitoral a democracia seria uma mistificação, e que “atualmente o inimigo vive nas próprias entranhas da Revolução”.

Em novembro de 1966, após uma rápida campanha eleitoral, Kruel obteve uma suplência de deputado federal pela Guanabara na legenda do partido oposicionista, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Em abril de 1967 assumiu uma cadeira na Câmara, onde foi membro efetivo da Comissão de Segurança, pronunciou vários discursos sobre a segurança nacional e defendeu a criação de uma empresa nacional para desenvolver no país a tecnologia nuclear, a Atomobrás. Exerceu o mandato até o final da legislatura, em janeiro de 1971. Afastando-se da vida pública, dedicou-se a partir de então à fazenda de sua propriedade em Linhares (ES) e às atividades empresariais.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 23 de agosto de 1996.

Foi casado em primeiras núpcias com Cândida Cezimbra Kruel, com quem teve um filho. Contraiu novas núpcias com Maria Helena Kruel.

Amélia Coutinho

 

FONTES: Almanaque Mundial (1965); ARQ. CLUBE 3 DE OUTUBRO; ARQ. GETÚLIO VARGAS; BALDESSARINI, H. Crônica; BANDEIRA, L. 24; BENEVIDES, M. Governo Kubitschek; CÂM. DEP. Deputados brasileiros. Repertório (6); CONSULT. MAGALHÃES, B.; CORRESP. GAB. MIL. PRES. REP.; CORRESP. SECRET. GER. EXÉRC.; COUTINHO, A. Brasil; Diário de São Paulo (11/8/66); DULLES, J. Getúlio; Encic. Mirador; FED. ESC. ISOLADAS DO EST. RJ. Ministros; Globo (25/8/96); Grande encic. Delta; Jornal do Brasil (8/10/66, 16/7/73, 19/7/75 e 9/11/77); Jornal do Comércio, Rio (25/1/63); JUREMA, A. Juscelino; KUBITSCHEK, J. Meu; MIN. AER. Almanaque (1963); Tribuna da Imprensa (8/3/54); VÍTOR, M. Cinco.

 

 

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