PEIXOTO, ALZIRA DO AMARAL

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Nome: PEIXOTO, Alzira do Amaral
Nome Completo: PEIXOTO, ALZIRA DO AMARAL

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
PEIXOTO, ALZIRA DO AMARAL

PEIXOTO, Alzira do Amaral

*aux. gab. Pres. Rep. 1937-1945.

 

Alzira Vargas do Amaral Peixoto, em solteira Alzira Sarmanho Vargas, nasceu em São Borja (RS) no dia 22 de novembro de 1914, filha de Getúlio Dornelles Vargas, que viria a ser presidente da República de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954, e de Darci Sarmanho Vargas. Seus irmãos Lutero Sarmanho Vargas e Manuel Antônio (Maneco) Sarmanho Vargas foram respectivamente deputado pelo Distrito Federal de 1951 a 1959, e prefeito de Porto Alegre de 1958 a 1960. Seu avô paterno, Manuel do Nascimento Vargas, foi líder republicano durante a Revolução Federalista de 1893 a 1895. Seu tio pelo lado paterno Benjamim (Bejo) Dornelles Vargas foi chefe de polícia do Distrito Federal durante as 24 horas que antecederam a queda de Getúlio em 29 de outubro de 1945. Seu tio por parte de mãe Válder de Lima Sarmanho foi oficial-de-gabinete do Gabinete Civil da Presidência da República de 1930 a 1939, além de embaixador do Brasil no Uruguai de 1958 a 1963 e no Peru de 1963 a 1964. Seu primo em primeiro grau Manuel Nascimento Vargas Neto, jornalista e escritor, foi deputado pelo Distrito Federal de 1946 a 1951, e sua prima em segundo grau Ivete Vargas foi deputada por São Paulo de 1951 a 1969. Seu tio-avô pelo lado materno, Valdomiro Castilho de Lima, foi interventor federal em São Paulo de janeiro a agosto de 1933.

Alzira Vargas aprendeu as primeiras letras numa escola pública de sua terra natal, transferindo-se depois para os colégios Regina Coeli e Sacre Coeur de Jesus, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, quando seu pai foi eleito deputado federal em 1923. Entre 1928 e 1930, época em que Getúlio Vargas foi presidente do Rio Grande do Sul, freqüentou em Porto Alegre o curso ginasial do Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, no qual dirigiu um jornalzinho de circulação interna. Com a vitória da Revolução de 1930 liderada pelo pai, e com a posse deste na chefia do Governo Provisório em 3 de novembro esse ano, transferiu-se novamente com a família para a capital da República, onde concluiu o curso ginasial no Colégio Aldridge, em 1932.

Por essa época, iniciou-se na vida política prestando pequenos serviços ao pai, primeiro como sua bibliotecária e, posteriormente, como sua arquivista particular. Conseguiu dessa forma superar o trinômio patriarcal postulado por Vargas, segundo o qual “mulher não precisa estudar muito, deve cozinhar, tocar piano e costurar”. Conforme declararia mais tarde em entrevista ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da Fundação Getulio Vargas (FGV), “a mulher de hoje precisa falar inglês, saber datilografia e dirigir automóvel”.

Tendo ingressado na Faculdade do Rio de Janeiro em 1933, encontrava-se nos Estados Unidos quando citando, em novembro de 1935, irrompeu em Natal, Recife e Rio de Janeiro uma revolta comunistas que foi em pouco tempo sufocada. Ao regressar ao país em maio do ano sequinte, tomou conhecimento da prisão de alguns professores, entre os quais Hermes Lima, Edgar Castro Rabelo e Leônidas Resende, acusados de aderir à ideologia comunista. Colocando- se em campo para obter sua libertação, chegou inclusive a participar de uma passeata estudantil. Em depoimento ao Cpdoc conversou com seu pai sobre a soltura daqueles professores e que foi ele próprio que lhe sugeriu que o centro acadêmico da faculdade apresentasse um documento com as assinaturas dos alunos solicitando sua libertação. Feito isto, eles foram imediatamente postos em liberdade.

 

No Gabinete Civil da Presidência

Ampliando suas atribuições como auxiliar direta do presidente, além de dedicar-se à decodificação de mensagens cifradas, Alzira passou a intérprete de inglês e responsável por parte da correspondência de Vargas com o governo norte-americano. Em janeiro de 1937, quando cursava o último ano da Faculdade de Direito, foi oficialmente nomeada pelo pai auxiliar de gabinete, passando então a integrar o Gabinete Civil da Presidência da República, chefiado por Luís Vergara. Sua posição junto a Vargas solidificou-se em 1938, após a mudança do regime decorrente da decretação do Estado Novo, em 10 de novembro do ano anterior. Com os canais institucionais interrompidos, Alzira somou às suas tarefas, como diria em seu depoimento, a função informal de interlocutora entre o povo e o governo.

Ainda no início de 1938, os integralistas, contando com o apoio de oposicionistas liberais, articularam um levante visando à deposição de Vargas. O principal episódio do movimento foi o ataque ao palácio Guanabara, residência presidencial, no dia 11 de maio. Alzira participou da precária resistência oferecida aos assaltantes, encarregando-se das comunicações telefônicas com Filinto Müller, chefe de polícia, o general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército (EME) e Francisco Campos, ministro da Justiça. Na biografia que escreveu de seu pai, põe em dúvida que a omissão das autoridades em prestar auxílio ao palácio assediado tivesse sido causada por motivos apenas circunstanciais.

Em 1939, Alzira casou-se com Ernâni Amaral Peixoto, ex-ajudante-de-ordens de seu pai e na época interventor federal do estado do Rio de Janeiro. Ao lado do marido, atuou muitas vezes como mensageira especial entre Vargas e Franklin Roosevelt, — presidente norte-americano —, realizando várias viagens aos Estados Unidos. Também nesse período, criou em Niterói a Fundação Anchieta, a Escola de Enfermagem e a Escola de Serviço Social, estas duas hoje integradas à Universidade Federal Fluminense, fundou em Petrópolis (RJ) a Maternidade Divina Providência.

Com o enfraquecimento do Estado Novo no final da Segunda Guerra Mundial e com o início da redemocratização do país em 1945, coube a Alzira, por ordem, de seu pai, articular a formação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O objetivo era evitar que as bases sindicais ligadas ao getulismo fossem atraídas pelo Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), que acabou por ser legalizado ainda nesse ano. O PTB foi fundado no dia 15 de maio, mas Alzira não ingressou em seus quadros; na verdade, ao longo de sua vida jamais se filiaria a qualquer partido.

Com a queda de Vargas em 29 de outubro de 1945 e seu “exílio” em São Borja, Alzira permaneceu no Rio, mantendo-o informado dos acontecimentos políticos através de correspondência diária. Nessa época, com a saída de Amaral Peixoto do governo do estado do Rio, a filha de Vargas se demitiu dos vários cargos que ocupava em entidades de caráter social, entre as quais a Legião Brasileira de Assistência (LBA), a Fundação do Menor e a Comissão do Bem-Estar do Menor, pertencente ao Ministério do Trabalho.

 

O retorno de Vargas e a crise de 1954

Após o retorno do pai à presidência da República e do marido ao governo do estado do Rio através das eleições de 3 de outubro de 1950, Alzira voltou a desempenhar funções oficiais, participando em 1952 e 1953 das delegações brasileiras às conferências internacionais do Trabalho, promovidas em Genebra pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência especializada pertencente ao sistema das Nações Unidas. Além dessas atividades, fez parte da equipe que colaborou com Josué de Castro, então presidente da recém-criada Comissão Nacional do Bem-Estar Social.

Principal auxiliar de Vargas, Alzira exerceu papel de grande relevo na crise político-militar de 1954, que culminou com o suicídio do pai. O assassinato do major Rubens Vaz, no dia 5 de agosto desse ano, em atentado na rua Toneleros cujo alvo era o jornalista oposicionista Carlos Lacerda, foi o estopim dessa crise, que se aprofundou mais ainda quando o inquérito policial deixou claro o envolvimento de membros da guarda pessoal de Vargas.

Na seqüência dos acontecimentos, quando crescia a pressão para que Getúlio renunciasse, Alzira foi procurada por um auxiliar do presidente que lhe mostrou uma nota rascunhada pelo pai contendo as seguintes palavras: “À sanha dos meus inimigos deixo o legado de minha morte.” Instruindo o funcionário para que recolocasse a nota em seu devido lugar, Alzira, quando mais tarde sondou o pai a respeito dessas palavras, dele ouviu a resposta que, “muito embora não cogitasse em renunciar, tampouco pensava em suicídio”.

O andamento do inquérito policial acentuou a ligação de elementos vinculados ao presidente da República com o atentado da Toneleros, tendo a Justiça chamado Lutero Vargas a depor. No dia 23 de agosto, os generais do Exército fizeram circular um manifesto de apoio ao dos brigadeiros, datado do dia anterior, no qual propunham a renúncia de Vargas como única saída para a crise. Na madrugada do dia 24, após haver sido procurado pelo marechal João Batista Mascarenhas de Morais e pelo general Euclides Zenóbio da Costa, ministro da Guerra, que tentaram em vão convencê-lo a renunciar ou solicitar uma licença, Vargas decidiu reunir seu ministério.

Encontrando-se àquela altura em Niterói, Alzira e Ernâni Amaral Peixoto receberam um telefonema de Benjamim Vargas convidando-os a participar da reunião. Nesse encontro, após ouvir o informe de Zenóbio da Costa, a filha de Vargas contestou-o afirmando que a crise não passava de uma conspiração de gabinete: segundo as informações que obtivera, somente 13 generais, e não 80, haviam assinado o manifesto e, dentre estes, apenas o general Henrique Teixeira Lott possuía comando; a Vila Militar não aderira até então ao movimento e os fuzileiros navais só interviriam se atacados. A única unidade da Aeronáutica com autonomia de vôo, sediada em Santa Cruz sob o comando do coronel Osvaldo Pamplona, manifestava-se a favor do governo.

À explicação de Zenóbio de que sua intervenção fora alertar quanto à extensão de qualquer medida destinada a preservar a integridade do governo, Alzira desculpou-se com o pai e retirou-se da reunião. A discussão que se seguiu entre Aguinaldo Caiado de Castro, chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, e Zenóbio da Costa, o primeiro favorável à resistência ao golpe e o segundo considerando-a inviável, foi interrompida por Vargas, que condicionava sua licença à manutenção da ordem pelos militares.

Logo após a reunião Alzira procurou o pai em seu quarto, encontrando-o em companhia de Benjamim. Em presença de ambos o presidente mostrou a chave de um cofre, advertindo-os de que, caso lhe acontecesse algo, deveriam retirar dali alguns valores e papéis de importância. Por volta das seis horas da manhã, Alzira voltou a procurar o pai para informá-lo de que alguns oficiais do Exército lhe pediam autorização para agir em seu nome a fim de deter Juarez Távora e Eduardo Gomes. Vargas respondeu-lhes ser desnecessária qualquer medida, pois Café Filho iniciara a formação de seu ministério assim que tomou conhecimento de sua decisão de licenciar-se temporariamente. Em vista disso, Alzira retirou-se.

Pouco depois, Alzira recebeu um telefonema do general Ciro do Espírito Santo Cardoso em que este lhe comunicava o resultado da reunião dos generais, na qual Zenóbio da Costa informara que a licença de Vargas seria definitiva, e não por dois meses, conforme ficara acertado na reunião ministerial. A conversa telefônica entre ambos foi interrompida quando alguém avisou a filha de Vargas que este se suicidara. Nessa mesma manhã, Alzira abriu o cofre do pai e dele retirou diversos papéis, entre os quais duas cópias do que passaria à história como a carta-testamento.

 

O pós-1954

Em 1955 Ernâni Amaral Peixoto deixou o governo do estado do Rio e no ano seguinte foi nomeado embaixador do Brasil nos EUA. Alzira seguiu com o marido para Washington, onde permaneceu até 1959. De volta ao país, publicou em 1960 uma biografia do ex-presidente intitulada Getúlio Vargas, meu pai. Com a morte de sua mãe em 1968, substituiu-a na presidência da Casa do Pequeno Jornaleiro. Durante todo esse período, acompanhou a carreira política do marido, que foi presidente do Partido Social Democrático (PSD) de 1952 até sua extinção em 1965, ministro da Viação de 1959 a 1961, ministro extraordinário da Reforma Administrativa em 1963, deputado federal de 1963 a 1971 e senador a partir deste último ano.

Grande defensora da obra e do papel político de Getúlio Vargas, Alzira conservou os arquivos de seu pai, que começara a organizar na década de 1930. Em 1973 doou-os ao Cpdoc da FGV, instituição criada e desde então dirigida por sua única filha, Celina do Amaral Peixoto Moreira Franco, que em 1980 assumiu também a direção do Arquivo Nacional. Seu ex-genro, Wellington Moreira Franco, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro de 1975 a 1977 e de 1995 a 1999, prefeito de Niterói de 1977 a 1982 e governador do estado do Rio de Janeiro de 1987 a 1991.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 26 de janeiro de 1992.

O arquivo de Alzira Vargas do Amaral Peixoto encontra-se depositado no Cpdoc.

Amélia Coutinho

 

FONTES: DULLES, J. Getúlio; ENTREV. BIOG.; Folha de S. Paulo (28/8/77); Grande encic. Delta; LEVINE, R. Vargas; MACHADO, F. Últimos; PEIXOTO, A. Getúlio; SILVA, H. 1935; SILVA, H. 1954; TAVARES, J. Radicalização.

 

 

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