Ação democrática Popular (ADEP)

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: ACAO DEMOCRATICA POPULAR (ADEP)
Nome Completo: Ação democrática Popular (ADEP)

Tipo: TEMATICO


Texto Completo:

AÇÃO DEMOCRÁTICA POPULAR (Adep)

Organização criada em março ou abril de 1962, com o objetivo de canalizar recursos para os candidatos contrários ao presidente João Goulart que concorreriam às eleições legislativas e para o governo de 11 estados, marcadas para outubro daquele ano. Era subsidiária do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), entidade fundada em 1959 com o intuito de “defender a democracia” através da bandeira do anticomunismo. Foi dissolvida, juntamente com o IBAD, por ato do Poder Judiciário datado de 20 de dezembro de 1963, sob a acusação de “exercer atividade ilícita e contrária à segurança do Estado e da coletividade”.

O representante legal da Adep foi o general Gentil João Barbato. Outros nomes da diretoria da organização eram Hélcio José Domingues França (tesoureiro e secretário-geral), Antônio Silvério Leopoldo e Artur da Costa Junqueira.

Atuação

O surgimento da Adep, por iniciativa de Ivan Hasslocher, também fundador do IBAD, deveu-se à necessidade sentida pela direção daquele instituto de intervir diretamente no pleito de outubro de 1962, financiando políticos considerados “democratas”. Em pouco tempo, 126 empresas do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul — das quais 86 ou 88 contribuíam também para os cofres do IBAD — se cotizaram para custear a campanha eleitoral dos candidatos contrários a Goulart. Caberia à Adep gerir o dinheiro entregue pelas empresas, cujo montante estimado alcançou um total de um bilhão de cruzeiros antigos.

Segundo diversas fontes, inclusive o próprio embaixador dos Estados Unidos do Brasil na época, Lincoln Gordon, várias empresas estrangeiras, sobretudo norte-americanas, teriam patrocinado a campanha de diversos candidatos em 1962. Gordon afirmou que o total despendido com essa finalidade teria chegado, no máximo, a cinco milhões de dólares. As operações com dinheiro estrangeiro se processavam através do Royal Bank of Canada e do Bank of Boston.

A Adep contava para seu funcionamento com um grande número de militares, em geral coronéis e generais da reserva. Eles eram recrutados pelo general Barbato e pelo coronel Jurandir Palma Cabral e, na maioria dos casos, eram designados para comandar as seções estaduais da organização.

A finalidade a curto prazo da Ação Democrática Popular era formar uma numerosa bancada na Câmara dos Deputados, o que, num regime parlamentarista como o então vigente no Brasil, significaria um peso ponderável na direção do país. A organização pretendia também eleger o maior número possível de governadores e vice-governadores de sua confiança. O coroamento da atividade eleitoral da Adep seria, por fim, a apresentação de um nome perfeitamente afinado com seus interesses como candidato às eleições presidenciais de 1965.

Os candidatos auxiliados pela Adep deveriam comprometer-se, se eleitos, a seguir a orientação ideológica da entidade dentro do Congresso, exigência que com o tempo foi relaxada. A organização apoiou cerca de 250 candidatos a deputado federal, seiscentos candidatos a deputado estadual, diversos candidatos ao Senado e oito candidatos a governador, a saber: João Cleofas (Pernambuco), Antônio Lomanto Júnior (Bahia), general Edmundo Macedo Soares (Rio de Janeiro), Fernando Ferrari (Rio Grande do Sul), Petrônio Portela (Piauí), Leandro Maciel (Sergipe), Virgílio Távora (Ceará) e Paulo Pinto Néri (Amazonas). Apenas Lomanto Júnior, Portela e Távora conseguiram ser eleitos. Na verdade, muitos dos concorrentes ajudados pela Adep não se conseguiram eleger. Dos 48 deputados federais eleitos por Minas Gerais, apenas 14 receberam favores da entidade, e entre esses 14, quase todos haviam alcançado maior votação em pleitos anteriores.

Entre os candidatos acusados de se terem beneficiado da ajuda da Adep incluíam-se José Martins Rodrigues, Paulo Sarasate, Armando Falcão, Djalma Marinho, Ernâni Sátiro, José Costa Cavalcanti, Nilo Coelho, João Mendes, Dirceu Cardoso, Raimundo Padilha, Aliomar Baleeiro, Fidélis do Amaral Neto, Armando Nogueira, Laerte Vieira, Plínio Salgado, Pascoal Ranieri Mazzilli, Raul Pilla, Euclides Triches, Válter Peracchi Barcelos, Daniel Faraco, José Bonifácio Lafayette de Andrada e Rachid Saldanha Derzi.

A ajuda concedida aos candidatos podia tomar a forma de cartazes e faixas, cédulas de propaganda, veículos com aparelhos sonoros e dinheiro, ou somente dinheiro, em quantias estipuladas por Hasslocher.

Durante a campanha eleitoral, a Adep — através da agência de publicidade Promotion, outro órgão subsidiário do IBAD — patrocinou programas de televisão de cunho político-eleitoral, transmitidos por 13 emissoras de TV do país. Esses programas, que foram ao ar entre julho e setembro de 1962, intitulavam-se “Assim é a democracia”, “Democracia em marcha”, “Julgue você mesmo”, “Conheça seu candidato”.

Além dessas atividades diretamente ligadas à campanha eleitoral, a Adep exercia pressão econômica sobre empresas privadas que não comungassem com seu pensamento (como, por exemplo, a agência de propaganda Denison, que distribuíra anúncios ao jornal governista Última Hora) promovia campanhas de desmoralização de homens públicos cujas atuações lhe desagradassem (como foi o caso do senador José Ermírio de Morais, que apoiou a candidatura de Miguel Arrais — acusado de pró-comunista — ao governo de Pernambuco, e do primeiro-ministro Francisco Clementino de San Tiago Dantas, que votou contra a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos e era acusado de simpatizante do regime soviético), e concedia um apoio incondicional à manutenção do parlamentarismo, regime sob o qual os poderes do Executivo eram restringidos.

Devido à ação ostensiva desenvolvida pelo IBAD e pela Adep na campanha eleitoral de 1962, em maio de 1963 foi instalada uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) com o intuito de investigar a atuação daquelas entidades. Baseado parcialmente em informações reveladas pela CPI, o presidente João Goulart, através do Decreto nº 52.425, de 31 de agosto de 1963, determinou a suspensão por três meses das atividades da Adep e do IBAD. Em 28 de novembro, o Decreto nº 53.042 prorrogou por mais três meses a suspensão, até que, em dezembro, as duas organizações foram finalmente dissolvidas por decisão judiciária.

Sérgio Lamarão

FONTES: Correio da Manhã (20/12/63); DUTRA, E. IBAD; Jornal do Brasil (7 e 10/3/77); SCHMITER, P. Interest; Veja (16/3/77).

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados