Evany Gomes de Matos Mendonça

Entrevista

Evany Gomes de Matos Mendonça

Entrevista realizada no contexto do projeto "Memória da assistência social no Brasil: constituição de banco de entrevistas", desenvolvido em convênio com o Ministério da Previdência e Assistência Social através de sua Secretaria de Estado de Assistência Social, entre 2001 e 2002, com o objetivo de constituir um acervo de depoimentos sobre o tema a ser disponibilizado no CPDOC e no Centro de Referência e Estudos da Assistência Social. A escolha da entrevistada justificou-se por ter sido diretora da Escola de Serviço Social de 1961 a 1971, participando de vários projetos, inclusive ligados ao arcebispo D. Hélder Câmara.
Forma de Consulta:
Entrevista em texto disponível para download.

Tipo de entrevista: Temática
Entrevistador(es):
Angela Maria de Castro Gomes
Dulce Chaves Pandolfi
Data: 15/3/2002 a 18/3/2002
Local(ais):
Recife ; PE ; Brasil

Duração: 4h40min

Dados biográficos do(s) entrevistado(s)

Nome completo: Evany Gomes de Matos Mendonça
Nascimento: 1/10/1920; Sertânia; PE; Brasil;

Formação: Assistente Social.
Atividade: Professora aposentada.

Equipe

Levantamento de dados: Angela Maria de Castro Gomes;Dulce Chaves Pandolfi;
Pesquisa e elaboração do roteiro: Angela Maria de Castro Gomes;Dulce Chaves Pandolfi;

Técnico Gravação: Clodomir Oliveira Gomes;

Temas

Assistência à infância;
Assistência social;
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe;
Estatuto da Criança e do Adolescente ;
Etelvino Lins;
Evany Gomes de Matos Mendonça ;
Fundo das Nações Unidas para a Infância ;
Hélder Câmara (Dom);
Legião Brasileira de Assistência;
Ministério da Educação e Cultura;
Paulo Reglus Neves Freire ;
Revolta comunista (1935);
Revolução de 1930;
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene);
União Democrática Nacional;

Sumário

1a Entrevista: 15.03.2002
Fita 1-A: Nome e origens familiares: pai de Barreiros/PE e mãe do Crato/CE; pais se conheceram em Ouricuri/PE, por ligação com a música; revolta no Crato: revolução de Floro Bartolomeu; personalidade do pai: pessoa de idéias avançadas para a época; relações entre a profissão do pai e as várias cidades em que viveu; referência à cidade em que nasceu e cidades em que viveu: Ouricuri/PE; Bodocó/PE; Sertânia/PE (cidade em que nasceu); Lagoa do Monteiro/PB; Rio Branco/PE e BomConselho/PE, onde passou parte da infância e iniciou processo de alfabetização; não freqüentou escola primária, sendo alfabetizada pelo pai por um método diferente do tradicional; pai dava aulas em casa para crianças da elite de Bom Conselho; histórias sobre Lampião: "terrorismo" do pai sobre uma possível passagem do bando de Lampião em Bom Conselho; morte do irmão mais novo: grande abalo na família, que provoca transferência de Bom Conselho para Palmares/PE; consagração a Santa Joana d'Arc; doença da mãe em Palmares e transferência para Recife; mudanças no estilo de vida; ligações com a Igreja Católica; matrícula na Escola de Aplicação da Escola Normal de Recife, onde estavam ocorrendo experiências de modernização do ensino; entrada do irmão Hélio no Ginásio de Recife; Revolução de 30 em Recife: tiroteios e necessidade de sair de casa, mas pai não se envolvia política; vida em Caruaru onde passou a adolescência; pai se torna agente postal telegráfico; conclusão do Ginásio em Caruaru; início do Curso Normal Rural: funcionamento do curso; nascimento da irmã mais nova; transferência do pai para Recife devido a perseguições políticas.

Fita 1-B: Movimento comunista de 1935 e querelas políticas locais; vida da família em Recife: condições precárias de moradia; estudos na Escola Normal de Recife; características do curso no Ginásio de Caruaru: colégio misto de orientação católica e privado; o colégio dava liberdade aos alunos para discutir até assuntos relativos à sexualidade; a maioria dos alunos era de meninos; duração do curso no Ginásio de Caruaru; formação na Escola Normal de Recife: pedagogia moderna e professores altamente gabaritados; experiência como professora primária: a escola pertencia ao estado de Pernambuco, mas funcionava em uma casa; a turma era composta por três classes simultâneas; a dona da casa "mandava" na escola; o salário de professora servia para ajudar a família; as professoras eram valorizadas na época; casamento do irmão Hélio; vida social mais ativa quando se muda para o bairro das Graças, em Recife; opiniões sobre casamento; gosto por festas; entrada no Curso Normal de Educação Física: um braço do CPOR; os professores eram sargentos do Exército; dificuldades com natação durante o curso; boa classificação no curso; experiência como professora de Educação Física na Escola Experimental de Recife; convite de Lourdes Morais para cursar Serviço Social; ligação da família com a Igreja Católica.

Fita 2-A: Participação de Hélio no movimento integralista; interesse de Evany por política só se iniciou após o ingresso na Escola de Serviço Social de Recife; amizade com o político Etelvino Lins; interesse por música e literatura; escolas em que deu aulas de Educação Física; ingresso no curso de Serviço Social da Escola de Recife: não sabia exatamente o que era Serviço Social, incentivo de Liete Silveira; a Escola funcionava no Juizado de Menores e depois se transferiu para casa comprada com recursos da LBA; estudava na Escola e dava aulas de Educação Física; levou dez anos para concluir o curso; o início do despertar para o social com o ingresso na Escola; as disciplinas do curso e sua experiência como monitora; deixa de dar aulas de Educação Física para se dedicar só à Escola; fica à disposição da Escola antes mesmo da formatura; áreas de trabalho do Serviço Social na ocasião; início da carreira profissional na Escola de Serviço Social de Recife: professora de Serviço Social de Família; torna-se vice-diretora logo após a formatura; crítica aos fundamentos do Serviço Social utilizados na Escola, naquele momento: utilização de conceitos e orientações inadequados à realidade brasileira; forte influência das experiências do Serviço Social francês e belga no ensino no Brasil; criação da Escola de Serviço Social de Recife: importância da figura de Rodolfo Aureliano, o juiz de menores; ligação da Escola de Recife com o Instituto de Educação Familiar e Serviço Social do Rio de Janeiro; vínculos entre religião católica e ensino do Serviço Social.

Fita 2-B: Não foi gravada.

Fita 3-A: Crítica à ligação entre religião e Serviço Social: o trabalho de Serviço Social não devia ser proselitismo católico; experiência na direção da Escola de Recife entre 1961 e 1971; influência da Juventude Universitária Católica (JUC) na Escola de início dos 60; contatos com o professor Paulo Freire; posição política conservadora da Igreja quando assume a direção; radicalização do movimento estudantil em Recife e na Escola de Serviço Social, após 1964; relações com autoridades do regime militar em função de sua posição como diretora da Escola: envolvimento de alunos e convocação por militares; primeiros contatos com Dom Hélder Câmara; características da Escola de Serviço Social de Recife quando de seus inícios: curso composto majoritariamente por mulheres de diversas origens sociais; postura moralista e muito religiosa; existência de amplo mercado de trabalho para as assistentes sociais nos Institutos de Aposentadorias e Pensões; regulamentação da profissão de assistente social; trabalho no SESI: descompasso entre o aprendizado na Escola e a função exercida; não havia a mobilização dos operários, nem trabalho com Serviço Social de Caso; a União Democrática Nacional (UDN) e os estudantes de Direito como forças de mobilização dos trabalhadores, no SESI; currículo do curso de Serviço Social: as disciplinas existentes.

Fita 3-B: Currículo do curso de Serviço Social: importância dos estágios, contabilizados como matéria no curso; o trabalho de conclusão de curso; o início da influência norte-americana no Serviço Social: organização do ensino de Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade; os professores do curso na década de 1960; o prestígio da Escola junto à comunidade acadêmica; a incorporação da Escola de Serviço Social de Recife à Universidade Federal de Pernambuco; resistências à incorporação por parte dos professores da Escola e da Universidade; sua nomeação como Chefe do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco; convênio da Escola de Serviço Social de Recife com o UNICEF; intermediado pela Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), propiciou a expansão da Escola; importância da conduta moral das alunas da Escola de Serviço Social de Recife: deveriam manter uma postura "politicamente correta" para continuarem na Escola; essa situação se flexibiliza na gestão de Evany Mendonça como diretora da Escola; fontes de renda da Escola: recursos provenientes da mensalidade paga pelos alunos e de verbas encaminhadas pelo Ministério da Educação.


2a Entrevista: 18.03.2002
Fita 4-A: Relações entre a Escola de Serviço Social de Recife e a LBA: contribuição para a compra da casa onde funcionava a Escola, fornecimento de bolsas de estudos, abertura de campos de estágio e canalização de recursos; trabalho no Departamento Nacional da Criança/UNICEF; remuneração dos professores da Escola de Serviço Social de Recife; fontes de renda da Escola e convênio com o Ministério da Educação: verbas para a manutenção da Escola; relações da Escola de Serviço Social de Recife com a Igreja Católica: concessão de bolsas de estudos para as dioceses do interior de Pernambuco; intercâmbio com outras Escolas de Serviço Social do Brasil e do exterior: Associação Brasileira das Escolas de Serviço Social (ABESS); integração e oficialização das Escolas de Serviço Social; União Católica Internacional do Serviço Social (UCISS) e sua influência na criação das Escola de Serviço Social no Brasil; convênio da Escola de Recife com o UNICEF; convênio da Escola com a SUDENE: curso de preparação de técnicos de desenvolvimento social; perseguições políticas em meados dos anos 1960: alunos e professores da Escola presos e/ou exilados; impactos do movimento militar de 1964 na Escola: vigilância dos militares, Escola vista como sendo de esquerda: professores interrogados e expulsos.

Fita 4-B: O movimento militar de 1964 e o funcionamento da Escola de Serviço Social de Recife: utilização do método de Paulo Freire; utilização da Escola como local de reuniões contra a ditadura, pelos alunos; relacionamento com alunos nesse momento: relação amistosa, porém reservada; relações com a Igreja Católica: aproximação com a ala progressista da Igreja; trabalho com Dom Hélder Câmara: trabalhos sociais ligados à arquidiocese de Recife em associação com a Escola de Serviço Social; trabalhos de Evany na arquidiocese após sua saída da Escola de Serviço Social; trabalho no Departamento Nacional da Criança/UNICEF: coordenação regional do programa de distribuição de leite, que abrangia os estados de Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte; viagens para supervisão dos trabalhos; curso sobre proteção materno-infantil no Centro Internacional da Infância: palestras sobre controle da natalidade e desenvolvimento; contato com assistentes sociais de vários países; estágio, no Chile, no Programa de Mobilização Comunitária: proposta de trabalho com crianças e adolescentes; Seminário sobre Desenvolvimento Econômico e Social promovido pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), em Santiago do Chile: críticas à falta de um projeto para o desenvolvimento social na América Latina; interpretação do Serviço Social na perspectiva marxista; distinções entre serviço e assistência social; distinção entre trabalhador social e assistente social; questão da falta de políticas públicas no âmbito do Serviço Social.

Fita 5-A: Crítica às políticas sociais desenvolvidas no país: péssimos trabalhos assistencialistas, não existe política social estruturada, não há política social de saúde e educação; o Centro Interuniversitário da Estudo da América Latina Ásia e África (CIELA) e as políticas relativas aos meninos(as) de rua: críticas no geral e destaque positivo para o projeto Axé; críticas ao programa bolsa-escola: extremamente assistencialista; ênfase nas diferenças entre assistência social e filantropia ; o exemplo da LBA: trabalho de assistência sem expressão; o Centro Brasileiro da Infância e Adolescência (CBIA): mais sério que a LBA; a experiência de coordenação do Fórum de Defesa da Criança e do Adolescente; observações sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente: a participação dos meninos(as) de rua na discussão; crítica à forma como se estruturaram os conselhos Tutelares de Proteção à Criança e ao Adolescente; trabalho na coordenação da Pastoral Social da paróquia de Boa Viagem: o despertar da consciência crítica das pessoas; os programas sociais da prefeitura de Recife e o governo do Partido dos Trabalhadores.

Fita 5-B: Importância dos movimentos de reconceituação do Serviço Social na América Latina: utilização da teoria marxista para se estudar a realidade; desvalorização do Serviço Social nos programas sociais de governo; principais nomes do Serviço Social no Brasil na revalorização da profissão; a importância dos cursos da PUC do Rio e de São Paulo; o curso da UFRJ; a experiência do curso de pós-graduação em Serviço Social na PUC do Rio; dificuldades para encontrar um orientador; conclusão do mestrado em Brasília; curso de desenvolvimento urbano da USAID nos EUA: visitas a várias entidades, contato com as comunidades locais; militância nas associações de classes: Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABESS), Associação Brasileira de Assistentes Sociais (ABASS) e Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco (ADUFEPE).

Fita 6-A: Experiência como professora do curso de mestrado de Serviço Social no Recife; frustração relativa com a profissão; crítica à falta de preocupação governamental com o social e com políticas sociais; importância da discussão das diferença entre serviço social e assistência social; observações finais e agradecimentos.
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