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Os Desafios do Capitalismo Global Poder comemorar a virada do século 20 é um fato hilariante na vida de qualquer um. Chegar ao século 21 obriga-nos a olhar mais adiante. Nestas últimas semanas, muitos articulistas nacionais e estrangeiros enfatizaram às inúmeras conquistas científicas e tecnológicas do homem no século 20, pois nunca se chegou às fronteiras do conhecimento de forma tão rápida e tão disseminada, e, ao mesmo tempo, descortinam-se novos horizontes para o desenvolvimento do saber humano. Contrastando com os avanços científicos da humanidade, o fim do comunismo e o da Guerra Fria têm como marco histórico queda do Muro de Berlim. Politicamente, o comunismo foi o símbolo da utopia do atraso e da maior humilhação àqueles que, ao longo de 50 anos, acreditaram em uma sociedade igualitária, comunal e feliz. Essa utopia propiciou uma nação nuclearmente poderosa, mas socialmente pobre e cruel. Na antigo União Soviética, a renda por habitante chegou a US$ 5.300,00. Após a transição, com a formação da Rússia, em 1998, a renda per capita caiu para US$ 2.380,00, enquanto a japonesa é de US$ 32.380,00, a dos norte-americanos, US$29.340,00 e a dos alemães, US$ 25.850,00. Essas discrepâncias de renda por habitante entre o bloco comunista e os países capitalistas confirmam, inequivocamente, a prosperidade material desses últimos. Neste fim de século, os resultados econômicos de vários países - Cingapura, Suécia, Noruega, e muitos outros - revelaram a vocação à prosperidade social e material do seu povo. Isso reafirma a tese de que ainda não se descobriu um sistema de produção melhor do que o capitalismo. No entanto, é ilusão pensarmos que o capitalismo poderá reinar eternamente, promovendo a riqueza de poucos. Existem vários fatores que poderão aniquilar o capitalismo da mesma forma com que o comunismo foi varrido da antiga União Soviética. O mais importante deles refere-se ao fato de que quase dois terços da humanidade vivem com menos de US$ 2,00 por dia. Isso significa que 3,5 bilhões de pessoas vivem em um estado de pobreza. No Brasil, um quarto da população vive abaixo da linha da pobreza. A pobreza é uma condição humana inaceitável. Ela é fruto da injustiça social, do caráter corrupto das políticas públicas e do baixo nível de representatividade da sociedade no processo de decisão do desenvolvimento econômico. A pobreza não se traduz unicamente pela diferença do nível de renda entre pessoas. Ela transcende essa medição econômica; trata-se das privações de bens essenciais e das oportunidades que todo indivíduo pode almejar na sociedade. Todo indivíduo deve ter acesso à educação básica, à moradia, aos serviços médicos essenciais, à alimentação, à cultura e ao lazer. Na privação desses bens, serviços e oportunidades, a desigualdade social continuará crescendo no século 21. A pobreza gera a fome e, por seu turno, enraíza a miséria social, criando, assim, um círculo vicioso entre a pobreza-fome-pobreza. A fome é um fator restritivo no desenvolvimento do ser humano. Se a conhecida premissa de que o principal ativo do pobre é sua força de trabalho e, portanto, sua renda, um cidadão subnutrido jamais terá condições de se manter empregado no mercado de trabalho competitivo. Sua renda contempla no máximo sua sobrevivência, e não a obtenção de bens materiais essenciais para o seu desenvolvimento. O pobre é marginalizado do mercado de trabalho por não estar apto à geração do lucro desejado pelo setor produtivo, privando-se, assim, de salários, férias, fundo de garantia pelo tempo de serviço, assistência médica e da alimentação permanente. Mesmo que o pobre não possa desfrutar dos benefícios da sociedade organizada, a pobreza é devastadora. Ela pode destruir o meio ambiente e transmitir doenças incuráveis. Esses excluídos do progresso material da sociedade capitalista têm o poder de se organizar e de votar democraticamente contra a prosperidade de poucos, levando o país ao caos social. O sistema capitalista entra no século 21 vitorioso e com uma das mais importantes invenções do homem moderno: a internet. Quando se inventou a eletricidade, a máquina a vapor, o computador, o relógio, o telégrafo, o telefone, a televisão, etc., todas essas inovações não disseminaram o conhecimento humano. Foi a era da tecnologia. A internet possibilita ao homem expandir, interagir e difundir conhecimentos pelo mundo. Estamos de fato na era do poder do conhecimento humano. Desse novo mundo de poder e da propagação do conhecimento poderão fazer parte somente os que estiverem acima da linha da pobreza. Os dois terços da humanidade que vivem abaixo da linha da pobreza estão excluídos dessa prosperidade social e material do homem. O mundo conta com 5,5 bilhões de pessoas. Somos muitos vivendo desordenada e injustamente. No século 21, não será o conhecimento humano, mas a pobreza o maior risco social, material e ambiental deste planeta. Reduzir a pobreza não é tarefa fácil, mas urgente. Trata-se de uma missão conjunta entre governos, sociedade e instituições internacionais. Existem três aspectos-chaves que devem estar presentes no esforço para se reduzir a propagação do círculo vicioso: pobreza - fome - pobreza: credibilidade governamental; crescimento econômico sustentável e políticas de desenvolvimento social. Um governo corrupto nas suas decisões fiscais e sem direcionamento social não é portador de credibilidade perante a sociedade. Um governo que dá as costas à inserção da economia empresarial nos mercados internacionais é irresponsável e imoral. É obvio que o ponto de partida para a redução das desigualdades de renda é o crescimento econômico sustentável. Caso nenhum desses aspectos anteriores existir, não há política de desenvolvimento social crível, mas demagógica e ilusória aos olhos da imensidão de pessoas pobres, desnutridas e ignorantes. Políticas de desenvolvimento econômico devem estar voltadas à inclusão social por meio de um Estado desejável, eficaz e provedor das necessidades essenciais da sociedade; uma classe empresarial empreendedora e audaciosa no mercado internacional; e uma nação sem analfabetos, na qual todos possam viver acima da linha da pobreza. A história recente ensinou-nos que o maior risco à prosperidade de poucos é a miséria de muitos. Ernesto
Lozardo, |