ALVARO DE BARROS LINS

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Nome: LINS, Álvaro (1)
Nome Completo: ALVARO DE BARROS LINS

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
LINS, ÁLVARO (1)

LINS, Álvaro (1)

*ch. Gab. Civ. Pres. Rep. 1956; emb. Bras. Portugal 1956-1959.

 

Álvaro de Barros Lins nasceu em Caruaru (PE) no dia 14 de dezembro de 1912, filho de Pedro Alexandrino Lins, que durante 18 anos foi secretário da prefeitura daquela cidade, e de Francisca de Barros Lins.

Seus primeiros estudos foram realizados em sua cidade natal entre 1919 e 1924. No ano seguinte, matriculou-se em regime de internato no Colégio Salesiano de Recife e aí iniciou o curso secundário, que concluiria em 1930 no Ginásio do Recife. Já nessa época destacava-se por sua facilidade para redigir.

Interessado também desde jovem pela política, acompanhou a campanha da Aliança Liberal, tendo conhecido João Neves da Fontoura, um de seus mais eloqüentes oradores, durante a caravana aliancista pelo Nordeste. Entusiasmado com a Revolução de 1930, que instaurou o Governo Provisório chefiado por Getúlio Vargas, já no ano seguinte, entretanto, acompanhou o início da conspiração paulista contra a ameaça de perpetuação de um governo discricionário. Ainda em 1931 ingressou na Faculdade de Direito de Recife e, no ano seguinte, assinou um manifesto de solidariedade à campanha de João Neves da Fontoura em favor da constitucionalização do país, levada às últimas conseqüências com a revolução deflagrada em São Paulo em julho do mesmo ano.

Também em 1932, a convite do padre Félix Barreto, catedrático de humanidades, iniciou-se no magistério, lecionando história da civilização no Ginásio do Recife. Ainda nesse ano, em novembro, assinou na capital pernambucana um manifesto de apoio ao documento com que Plínio Salgado havia lançado, um mês antes, o movimento integralista. Por essa época, como representante do diretório dos estudantes, escreveu seu primeiro trabalho, que levava o título A universidade como escola de homens públicos, lido na solenidade de abertura do ano letivo de 1933. Ainda nesse período, lecionou geografia geral no Colégio Nóbrega, no Instituto Nossa Senhora do Carmo e na Escola Normal Pinto Júnior, todos em Recife, e iniciou sua carreira jornalística como redator do Diário de Pernambuco.

Destacando-se por seus artigos na imprensa e por sua atuação no meio estudantil, foi convidado em outubro de 1934 por Carlos de Lima Cavalcanti, interventor (1930-1934) e depois governador de Pernambuco (1935-1937), para ocupar a Secretaria de Governo estadual. Concluindo seu curso de direito em 1935, além das funções administrativas da Secretaria de Governo, continuou a exercer atividades jornalísticas na redação e, mais tarde, na direção do Diário da Manhã, órgão de propriedade do governador, que havia sido “o baluarte da Revolução de 1930 no Nordeste”.

Na última fase do governo Lima Cavalcanti, Álvaro Lins exerceu grande influência na política administrativa do estado de Pernambuco. De tal forma se projetara dentro do governo estadual que, em 1936, seu nome fazia parte da chapa do Partido Social Democrático (PSD) de Pernambuco, fundado por Lima Cavalcanti, para disputar uma cadeira à Câmara dos Deputados. Essa chapa daria apoio à candidatura de José Américo de Almeida à presidência da República nas eleições que deveriam se realizar em janeiro de 1938. No entanto, o golpe de 10 de novembro de 1937, que instaurou o Estado Novo (1937-1945), suspendeu as eleições. Levou também à intervenção em Pernambuco, sendo Lima Cavalcanti substituído por Agamenon Magalhães. Com isso, Álvaro Lins deixou a Secretaria de Governo e abandonou seus planos políticos, permanecendo em Recife por mais alguns anos.

 

Crítico, jornalista e professor

Esse fato, na opinião de João Neves da Fontoura, foi determinante para que Álvaro Lins se voltasse para o exercício da crítica literária. João Neves afirmou que, no caso, “a política serviu à literatura”. Foi através da atividade literária que Álvaro Lins se fez presente na resistência ao Estado Novo. Sobre sua posição ideológica nesse período, afirmou Josué Montelo: “Antinazista e antifascista, tendo como ideal na década de 1940 a fórmula socialista de direção na economia, dava maior valor à liberdade e à justiça do que à ordem.”

Aperfeiçoando-se na sátira e na crítica social, Álvaro Lins publicou em 1939 seu primeiro livro, intitulado História literária de Eça de Queirós, que lhe custou a perda da cadeira que ocupava no Colégio Nóbrega. Transferiu-se para o Rio de Janeiro no ano seguinte, começando a trabalhar no Correio da Manhã, cujo suplemento literário dirigiu. Foi a partir dessa época que começou a construir, semana após semana, os volumes depois publicados sob o título de Jornal da crítica (sete séries editadas em 1941, 1943, 1944, 1946, 1947, 1951 e 1963). Ao contrário de Humberto de Campos, que o antecedeu naquele jornal, Álvaro Lins não considerava a crítica como “uma espécie de magistratura literária” — O tipo de crítica a que se propunha era, como dizia, “uma arte e um novo gênero literário de criação”, baseado no princípio de que “o ato de tudo aceitar, como o de tudo negar, não era um ato de crítica, e, sim, um ato de positiva ou negativa apologia”.

Durante sua longa permanência no Correio da Manhã (1940-1956), Álvaro Lins iria conviver com renomados escritores e com outros críticos literários. Oto Maria Carpeaux na época o cognominou “o crítico da coragem”, Alceu Amoroso Lima o chamou de “o maior de nossos críticos vivos” e Antônio Cândido o considerou “o maior crítico de ficção que já apareceu no Brasil”.

Ainda em 1940, por ocasião do centenário do nascimento do barão do Rio Branco, Álvaro Lins foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores a escrever um livro sobre ele. Esse livro, escrito com base no material do arquivo e da biblioteca do Itamarati, foi publicado em 1945 sob o título Rio Branco — o barão do Rio Branco — 1845-1912 e recebeu os dois maiores prêmios literários do país. No estudo “Biografia e autenticidade”, em seu livro O relógio e o quadrante (publicado em 1964, contendo estudos críticos, a maior parte da década de 1940), o próprio Álvaro Lins definiria a biografia como “criação histórica e não romanesca, como ciência da documentação e arte da expressão”.

Empenhado, dentro de sua própria profissão, na derrubada do Estado Novo, Álvaro Lins compareceu, como delegado de Pernambuco, ao I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em São Paulo de 22 a 27 de janeiro de 1945. Por essa época, declarou que “pelo seu próprio caráter, a função da inteligência é libertadora, dialética, oposicionista e revolucionária”.

Com a deposição de Vargas em fins de outubro de 1945 e a eleição do general Eurico Dutra para a presidência da República em dezembro do mesmo ano, João Neves da Fontoura assumiu em janeiro de 1946 o Ministério das Relações Exteriores, logo convidando Álvaro Lins para consultor técnico da Divisão Cultural do Itamarati. Mesmo com a saída de João Neves do ministério em julho, Álvaro Lins permaneceria no cargo até 1952, exercendo ainda nesse período as funções de delegado governamental, secretário e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC), agência especializada da UNESCO no Brasil.

Em 1948 fez uma viagem de estudos pela Europa e, a partir do ano seguinte, passou a ser incluído no quadro de examinadores dos candidatos ao Instituto Rio Branco.

Nesse mesmo biênio presidiu a Associação Brasileira de Escritores, que se destacara por sua atuação em prol da redemocratização do país. Em 1950 começou a lecionar história geral e língua portuguesa no Instituto de Educação, no Rio de Janeiro, e no ano seguinte, depois de quase dez anos ocupando em caráter interino a cátedra de literatura no Colégio Pedro II, prestou concurso pleiteando sua efetivação. Apresentou então a tese intitulada A técnica do romance em Marcel Proust e obteve a primeira colocação, concorrendo com outros quatro candidatos.

Em 1952, durante o segundo governo Vargas (1951-1954), estando mais uma vez João Neves da Fontoura à frente do Ministério das Relações Exteriores, Álvaro Lins foi convidado a lecionar literatura e história do Brasil na cadeira de estudos brasileiros, criada por incentivo de João Neves na Universidade de Lisboa. Aceitando reger aqueles cursos em missão oficial do Itamarati, ministrou, já naquele ano, a aula inaugural da nova cadeira. Em junho de 1953, quando as oscilações da política interna brasileira levaram à demissão de João Neves, quis renunciar às suas funções em Lisboa, não o fazendo diante dos insistentes pedidos do ministro demissionário. Regressou, entretanto, ao Brasil em agosto de 1954, devido à crise político-militar desencadeada pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas.

De volta ao país, reassumiu as atividades jornalísticas e a cátedra de literatura no Colégio Pedro II, passando também a dirigir a revista Studio, órgão da Congregação dos Professores Catedráticos daquela instituição de ensino. Em outubro de 1954 candidatou-se à Academia Brasileira de Letras para ocupar a cadeira número 17, vaga com a morte de Edgar Roquete Pinto. Eleito por unanimidade em abril de 1955, tomaria posse em julho de 1956.

 

Na posse de Juscelino

No período entre o último trimestre de 1955 e janeiro de 1956, participou ativamente, como jornalista e como político, da luta para garantir a posse de Juscelino Kubitschek na presidência da República. Juscelino havia sido eleito em outubro de 1955, mas tinha contra si um movimento político-militar que invocava a necessidade da maioria absoluta nas eleições, embora essa exigência não constasse de nenhum texto legal. Nessa época, trabalhando ainda no Correio da Manhã, Álvaro Lins deixou de lado a crítica literária para assumir a direção política do jornal com o apoio incondicional de seu proprietário, Paulo Bittencourt.

Às vésperas do Movimento do 11 de Novembro de 1955 que, sob a liderança do general Henrique Teixeira Lott, iria provocar a deposição dos presidentes Carlos Luz, em exercício, e Café Filho, licenciado, e garantir a posse de Juscelino, Álvaro Lins redigiu três editoriais contra o então deputado federal Carlos Lacerda que se tornaram famosos. Os editoriais e artigos que escreveu em defesa da preservação dos princípios constitucionais representaram uma advertência contra a conspiração que se tramava. Sua importância foi ainda maior devido à influência e à penetração do Correio da Manhã nas correntes de resistência ao golpe.

Empossado finalmente na presidência da República em janeiro de 1956, Kubitschek convidou Álvaro Lins para chefiar seu Gabinete Civil, tendo como subchefe Josué Montelo. Em novembro desse mesmo ano, entretanto, Álvaro Lins deixou o cargo para assumir a embaixada do Brasil em Lisboa.

 

Embaixador em Portugal

Pouco depois da chegada de Álvaro Lins a Lisboa, em junho de 1957 o presidente de Portugal Francisco Higino Craveiro Lopes visitou o Brasil, estabelecendo na ocasião os termos dos atos de regulamentação do Tratado de Amizade e Consulta entre Brasil e Portugal. Álvaro Lins considerava tal acordo “lesivo aos interesses do Brasil”. De fato, suas posições tornariam inevitável seu choque com a ditadura salazarista e o colonialismo por ela sustentado. O impasse foi criado quando, no início de 1959, a embaixada brasileira concedeu asilo ao líder oposicionista português, general Humberto Delgado. Esse asilo, homologado pelo Itamarati como uma decisão do governo brasileiro, não foi reconhecido pelo governo de Portugal, o que consistiu, nas palavras de Álvaro Lins, um “flagrante desacato” ao próprio governo Kubitschek.

Sentindo-se nesse episódio abandonado por não ter podido contar com o presidente Kubitschek “para desagravá-lo e desafrontar a representação do Brasil em Lisboa”, Álvaro Lins protestou com veemência quando, na primeira quinzena de julho de 1959, uma comissão especial do governo português chegou ao Rio de Janeiro com o objetivo de convidar Kubitschek para participar dos festejos henriquinos em Portugal no mês seguinte, na condição de co-anfitrião e co-chefe de Estado português. O presidente brasileiro não só aceitou o convite como, cerca de um mês depois, solicitou que Portugal concedesse asilo político em seu território ao ditador Fulgencio Batista, deposto pela Revolução Cubana em janeiro de 1959.

Opondo-se frontalmente à ida do presidente brasileiro a Portugal, Álvaro Lins recebeu da União Nacional dos Estudantes (UNE) uma moção de apoio estimulando-o a não ceder diante do impasse criado e a sustentar o princípio de asilo em face do governo de Salazar. Pouco tempo depois, descontente com a posição assumida por Juscelino, escreveu-lhe uma carta rompendo política e pessoalmente com o presidente e condenando seu “compromisso com a ditadura salazarista”. Acusava ainda a política do governo Kubitschek de “cumplicidade com as ditaduras, de maneira particular com a de Portugal, a do Paraguai e a da República Dominicana”.

Em outubro de 1959 Álvaro Lins foi exonerado da embaixada em Portugal, porém, antes de deixar seu posto em Lisboa, devolveu ao governo português a condecoração da Grã-Cruz da Ordem de Cristo, que lhe fora conferida pelo presidente Craveiro Lopes. Deixando, segundo suas próprias palavras, “de cabeça erguida” a embaixada em Portugal, recusou-se também a aceitar as missões que lhe foram oferecidas pelo governo brasileiro em diversas partes do mundo, identificando explicitamente naqueles oferecimentos “um caráter de compensação material”, quando, dizia, o que havia entre ele e o presidente Kubitschek era “um estrito e indeclinável problema político, moral e diplomático”.

De volta ao Brasil, recolheu-se a sua cátedra de literatura e à preparação de uma obra que, nas palavras de Alceu Amoroso Lima, foi “a mesma de sua vida, [dedicada ao] estudo da história de nossas letras em união constante com a evolução de nossa formação político-social”. Essa obra seria publicada em 1963 sob o título de Literatura e vida literária.

Ainda em 1960 publicou Missão em Portugal, relato do dia-a-dia de sua experiência na embaixada em Lisboa, incluindo o episódio do asilo concedido ao general Humberto Delgado. Nesse livro, que lhe valeu o prêmio Jabuti, conferido pela Câmara Brasileira do Livro à personalidade do ano, foi publicada também sua carta de rompimento com Juscelino Kubitschek. Nesse mesmo ano presidiu na Faculdade de Direito de São Paulo a I Conferência Sul-Americana Pró-Anistia para os Presos Políticos e Exilados da Espanha e Portugal

A partir de março de 1961, Álvaro Lins passou a dirigir o suplemento literário do Diário de Notícias do Rio de Janeiro. No ano seguinte chefiou a delegação brasileira ao Congresso Mundial da Paz, realizado em Moscou, e em 1963 tornou-se membro do Conselho Mundial da Paz, com sede em Viena, na Áustria, tendo feito também uma viagem cultural a Cuba.

Em outubro de 1963 foi um dos fundadores do Comando dos Trabalhadores Intelectuais (CTI), associação constituída no Rio de Janeiro visando à formação de uma frente única com organizações sindicais, estudantis e correntes políticas de esquerda, em defesa das liberdades democráticas e de reformas sociais. O CTI foi, no entanto, extinto pelo movimento político-militar de 31 de março de 1964, sem que tivesse chegado a ter qualquer atuação significativa.

Deixando o Diário de Notícias em junho de 1964, dedicou os últimos anos de sua vida a escrever livros.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 4 de junho de 1970, sendo substituído na Academia Brasileira de Letras por Antônio Houaiss.

Era casado com Heloísa Ramos Lins, com quem teve dois filhos.

Além das obras já citadas e de inúmeros outros trabalhos, escreveu: Alguns aspectos da decadência do Império (1939), Poesia e personalidade de Antero de Quental (biografia, 1942) Notas de um diário de crítica (v. 1, 1943), A glória de César e o punhal de Brutus (ensaio, 1962), Os mortos de sobrecasaca (ensaio, 1963), Notas de um diário de críticas (v. 2, 1963), Literatura e vida literária (diário, 1963), Ensaio sobre Roquete Pinto e a ciência como literatura (1967), Sagas literárias e teatro moderno no Brasil (1967), Filmografia, história e crítica na literatura brasileira (1967), A poesia moderna do Brasil (1967), O romance brasileiro (1967) e Teoria literária (1967).

Vera Calicchio

 

 

FONTES: ACAD. BRAS. LETRAS. Anuário (1965 e 1969); ACAD. BRAS. LETRAS. Discursos (14 e 21); BRINCHES, V. Dic.; COELHO, J. Dic.; CONG. BRAS. ESCRITORES, I; CORTÉS, C. Homens; COUTINHO, A. Brasil; Encic. Mirador; FONTOURA, J. Depoimentos; Grande encic. Delta; HIRSCHOWICZ, E. Contemporâneos; INST. NAC. LIVRO. Índice; Jornal (10/10/45); Jornal do Comércio, Rio (5/5/63); LIMA, A. Companheiros; LINS, A. Missão; LINS, A. Rio; MIN. GUERRA. Subsídios; MIN. REL. EXT. Anuário; Rev. Acad. Bras. Letras (1 a 6/70); Veja (6/ 70).

 

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