ASTROJILDO PEREIRA DUARTE SILVA

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Nome: PEREIRA, Astrojildo
Nome Completo: ASTROJILDO PEREIRA DUARTE SILVA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
PEREIRA, ASTROJILDO

PEREIRA, Astrojildo

*mov. Comunista

 

Astrojildo Pereira Duarte Silva nasceu em Rio dos Índios, município de Rio Bonito (RJ), no dia 8 de outubro de 1890, filho de Ramiro Pereira Duarte Silva e de Isabel Neves da Silva. Seu pai, descendente de portugueses e formado em medicina, foi fazendeiro, comerciante e pequeno industrial, inicialmente em sua terra natal e depois em Niterói e no Rio de Janeiro.

Viveu em Rio Bonito até os 13 anos, estudando inicialmente em escola pública e depois em educandário particular. Em conseqüência da prosperidade dos negócios do pai, transferiu-se então para Nova Friburgo (RJ), onde cursou o Colégio Anchieta, instituição de elite dirigida por jesuítas. Experimentou neste período profundo sentimento religioso, manifestando desejo de tornar-se frade, mas logo em seguida desiludiu-se da fé. Aos 14 anos estava de volta à sua cidade natal, onde viveu mais um ano, até mudar-se com a família para Niterói. Na então capital do estado do Rio, matriculou-se no Colégio Abílio, que freqüentou até o terceiro ano secundário, limite de sua educação formal.

A partir desse momento, atirou-se no que depois denominaria “autodidatismo arquiatabalhoado”. Trabalhou com intermitência no comércio, seja como empregado, seja em negócios do pai. Exerceu também as funções de tipógrafo e linotipista, dedicando-se igualmente ao jornalismo, que o absorveria, de uma forma ou de outra, até o fim da vida.

Intensamente atraído pela literatura, fez-se desde cedo grande apreciador de Machado de Assis. Em 1908, resolveu visitar o escritor, ao sabê-lo agonizante. Na residência de Machado, encontravam-se presentes vários expoentes das letras, inclusive Euclides da Cunha, que descreveu a cena em artigo famoso publicado no dia seguinte: “...Apareceu um desconhecido, um adolescente de dezesseis ou dezoito anos no máximo... E o anônimo juvenil — vindo da noite — foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; e beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-a depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu. À porta, José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lhe.”

Heitor Ferreira Lima assinala que o próprio Astrojildo confirmou-lhe o fato. A identidade do jovem desconhecido teria vindo a público muitos anos mais tarde, divulgada por Afrânio Peixoto, que a teria obtido diretamente de José Veríssimo. Somente na década de 1940, Astrojildo consentiu que Lúcia Miguel Pereira, em sua biografia de Machado de Assis, revelasse ser ele o “anônimo juvenil”.

Por esta época, Astrojildo foi admitido como funcionário no Ministério da Agricultura. Em 1910, participou de comícios e passeatas, empolgado com a Campanha Civilista, movimento que promoveu a candidatura de Rui Barbosa à presidência da República, em oposição ao marechal Hermes da Fonseca.

No entanto, a derrota do candidato civilista nas eleições e o esmagamento da insurreição de marinheiros, conhecida como a Revolta da Chibata (1910), fizeram-no desenganar-se com o regime. Cada vez mais distanciado da religião, afastou-se do ambiente boêmio em que vivia, sentindo-se atraído pela doutrina anarquista, então dominante nos círculos de trabalhadores revolucionários.

Aos 19 anos, iniciou a militância política em organizações operárias, freqüentando o Centro de Resistência Operária, em Niterói, e consumindo abundante literatura literária. Passou a colaborar em jornais anarquistas, como Guerra Social em 1911, e a participar de congressos sindicais. Ainda em 1911, empreendeu, sem dinheiro, uma aventurosa viagem à Europa, sendo repatriado graças ao auxílio de uma entidade da colônia brasileira em Paris.

Em setembro de 1913, juntamente com Edgar Leuenroth e outros, participou da promoção do II Congresso Operário Brasileiro, organizado em oposição ao IV Congresso do Movimento Operário, reunido no ano anterior sob a égide do governo Hermes da Fonseca. As concepções anarquistas predominaram no conclave de 1913, que ratificou as resoluções do I Congresso (1906), preconizando a resistência encarniçada ao “capitalismo voraz e insaciável” e aprovando moção de greve geral em oposição a uma guerra mundial que se mostrava provável.

Com a eclosão do conflito em 1914, participou ativamente a partir do ano seguinte da campanha antibélica, contribuindo para a organização de reuniões e comícios em que era denunciado o “crime premeditado da burguesia européia”. Nesse sentido, escreveu diversos artigos para Barricada, O Clarim, Voz do Padeiro e outros jornais operários.

Assumindo a direção de O Debate em 1917, Astrojildo obteve para o jornal a colaboração do escritor Lima Barreto, que nele publicou artigos contra a guerra e de exaltação da Revolução Russa. Com a entrada do Brasil no conflito mundial (outubro de 1917), O Debate deixou de circular e Lima Barreto e Astrojildo passaram a colaborar em ABC, onde abordavam os mesmos temas e manifestavam solidariedade às grandes greves ocorridas em vários pontos do país em 1917 e 1918.

Em fevereiro de 1918, sob o pseudônimo de Alex Pavel, Astrojildo lançou A Revolução Russa e a imprensa, primeiro folheto editado no país em defesa do movimento bolchevista, reunindo artigos e cartas enviados aos grandes jornais censurando-os por falsear o noticiário sobre a Revolução de Outubro. Nesse mesmo ano, foi redator dos jornais Crônica Subversiva e Germinal, e em agosto sofreu sua primeira prisão, por ocasião da greve dos trabalhadores da empresa Cantareira, que fazia o transporte marítimo entre o Rio e Niterói.

Pouco depois, em novembro, em companhia de José Oiticica, Agripino Nazaré e outros expoentes dos meios literários, encontrava-se à frente da greve deflagrada naquele mês sob a liderança dos anarquistas. O movimento deveria articular-se com um levante dos escalões inferiores das forças armadas e transformar-se em insurreição para a tomada do poder. Delatados por um tenente do Exército infiltrado na organização, Astrojildo e outros 13 líderes foram presos às vésperas da eclosão do levante, que se limitou a alguns choques entre tropas militares e trabalhadores no campo de São Cristóvão (Rio) e em Magé (RJ). A greve, no entanto, apesar da intensa repressão, estendeu-se até dezembro, chegando a envolver 20 mil trabalhadores têxteis, metalúrgicos e de construção civil em defesa de aumento salarial e da jornada de oito horas.

Astrojildo cumpriu pena leve e no início de 1919 deixou a Casa de Detenção. Nesse mesmo ano, integrou o grupo libertário que, em reuniões no Rio e em Niterói, fundou um efêmero partido denominado comunista e dirigiu seu órgão de divulgação, Spartacus.

A partir de então, começou a afastar-se ideologicamente de seus companheiros, polemizando com eles em defesa dos rumos tomados pela Revolução Russa, que os anarquistas consideravam inaceitáveis. Propondo uma autocrítica dos princípios e da prática até então seguidos, que se teriam mostrado, no seu entender, incapazes de dirigir a classe operária nas grandes greves de 1917 a 1920, Astrojildo Pereira sustentou aceso debate com A Plebe, de Edgar Leuenroth, utilizando-se das páginas de O Internacional, órgão dos empregados em hotéis.

Em 1920 tornou-se diretor de Voz do Povo, diário da Federação Operária, e, em novembro do ano seguinte, criou com alguns companheiros o Grupo Comunista do Rio de Janeiro, que lançou em janeiro de 1922 a revista Movimento Comunista, publicada até junho de 1923. O grupo tornou-se o embrião do Partido Comunista, fundado em seguida.

 

A criação do Partido Comunista

Entre 25 e 27 de março de 1922 reuniu-se o congresso de fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), com a presença de Astrojildo Pereira e de mais oito representantes de cinco estados. Abílio de Nequete, delegado de Porto Alegre, representava cumulativamente o bureau da Internacional Comunista (ou Komintern) para a América Latina e o PC do Uruguai. A última sessão desse primeiro congresso, que elegeu Astrojildo secretário-geral do partido, foi realizada na casa em que residia com seus pais, em Niterói. Segundo o próprio Astrojildo, o PCB contava então com 73 militantes inscritos.

Com a instituição do estado de sítio decorrente da revolta militar de 5 de julho de 1922, o governo decretou o fechamento do partido, que passou a atuar na clandestinidade até janeiro de 1927, sofrendo nesse período a prisão de numerosos militantes.

Em seus primeiros momentos de existência, um dos problemas cruciais do PCB era obter o reconhecimento da Internacional Comunista, à qual deveriam estar filiados, nessa época de grande centralização do movimento em plano mundial, todos os partidos comunistas. Assim, ainda em 1922, foi enviado ao IV Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou, como delegado do PCB, o militante Antônio Bernardo Canelas, que residia na Europa por esse tempo. Na capital soviética, a atuação crítica de Canelas, manifestada inclusive em relação a proposições de Leon Trotski, e sua rebeldia contra a direção que os argentinos exerciam sobre as delegações latino-americanas foram malvistas pela direção do organismo internacional. O PCB foi considerado carente de maior amadurecimento para integrar a Internacional, tendo sido aceito apenas como “partido simpatizante”. A atuação de Canelas foi objeto de condenação formal da Comissão Central Executiva (CCE) do PCB. Os desentendimentos acirraram-se e Canelas terminou expulso do partido. Na ocasião, Astrojildo publicou uma réplica veemente ao relatório preparado por Canelas e ao comportamento que teve em seguida, no opúsculo O processo de um traidor, o caso do ex-comunista A.B. Canelas, (1924) publicado sem a sua assinatura, em nome do PCB.

Em 1924, Astrojildo realizou sua primeira viagem à URSS, de que resultaram suas “Cartas da Rússia”, publicadas nos jornais O País (Rio) e Solidário.

Nesse mesmo ano, o partido foi formalmente admitido na Internacional Comunista, após a visita de avaliação realizada ao Brasil por Rodolfo Ghioldi, do PC da Argentina.

Em maio de 1925, reuniu-se o II Congresso do PCB, no qual Astrojildo Pereira e Otávio Brandão exerceram papel de destaque. Logo após, iniciou-se a publicação do órgão oficial A Classe Operária, tendo aqueles dois líderes como principais redatores. Astrojildo foi confirmado como secretário-geral do partido.

O estado de sítio, instituído em 1922, foi sucessivamente prorrogado até dezembro de 1926, quando Washington Luís, empossado na presidência da República um mês antes, deixou que expirasse o prazo de sua vigência sem renová-lo. A partir de janeiro de 1927, portanto, o PCB ingressou num período de legalidade, expressando sua política através do jornal A Nação, de Leônidas de Resende, e propondo a criação de uma frente eleitoral, o Bloco Operário, que elegeu, em fevereiro, João Batista de Azevedo Lima deputado federal pela capital do país. Tal situação teve curta duração, pois, em agosto seguinte, nova legislação repressiva conhecida como “Lei Celerada” devolveu o partido à precária semilegalidade e provocou o fechamento de A Nação.

Ainda em agosto, deu-se a fundação da Juventude Comunista (JC), e pouco depois a transformação do Bloco Operário em Bloco Operário e Camponês (BOC), cujo alcance como frente eleitoral foi ampliado para compensar a dificuldade de movimentos do PCB.

Em dezembro de 1927, por deliberação do CCE do PCB, Astrojildo dirigiu-se a Puerto Suárez, na Bolívia, e estabeleceu contato com Luís Carlos Prestes, que se encontrava exilado naquele país desde o início desse ano com os remanescentes da coluna que tomou seu nome. O secretário-geral do PCB procurou convencer o líder tenentista da conveniência de uma aliança entre as forças que representavam e forneceu-lhe alguns volumes de literatura socialista. Conforme escreveu mais tarde, Astrojildo “guardava a esperança de que Prestes, ao tomar conhecimento direto das idéias marxistas, não demoraria em compreender que elas exprimiam a verdade”.

Desse contato, Astrojildo trouxe elementos para redigir uma entrevista com Prestes acerca da situação nacional. A matéria foi publicada, com grande repercussão, em janeiro de 1928 no jornal A Esquerda, dirigido por Pedro Mota Lima.

No VI Congresso da Internacional Comunista, em Moscou (1928), foi eleito membro do Comitê Executivo da organização.

Em meados de 1928, o PCB experimentou um processo de discussão interna, motivado pela cisão de um grupo de militares encabeçado por Joaquim Barbosa, secretário sindical da CCE. Esta cisão já aflorara no ano anterior com a oposição desse grupo ao estabelecimento de contatos com Prestes e com o movimento tenentista. Segundo Astrojildo, o grupo persistia na “velha posição sectária, que se agravava com certo ‘obreirismo’ radical”, embora, dado o baixo nível político e ideológico da agremiação, “o sectarismo e o dogmatismo, o esquerdismo e o oportunismo” fossem comuns a ambas as facções. O mérito principal da direção, ainda segundo o então secretário-geral, foi manter, naquelas circunstâncias, a unidade do partido. Em outubro de 1928 o BOC elegeu dois intendentes (atuais vereadores) do Distrito Federal, Minervino de Oliveira e Otávio Brandão.

O debate interno só foi superado com a realização do II Congresso, reunido por sete dias na passagem do ano de 1928 para 1929. O encontro discutiu as questões da luta contra o imperialismo e o fascismo e da atuação do PCB nos sindicatos operários, concluindo por formular nova tática, a da “terceira revolta”, concebida como continuação das insurreições tenentistas de 1922 e 1924-1926, mas dotada de caráter mais profundo, a ser alcançado através da substituição da pequena burguesia pelo proletariado na direção do processo. O congresso confirmou Astrojildo Pereira no cargo de secretário-geral e analisou o problema eleitoral e as relações entre o PCB e o BOC, reconstituído logo após. Do mesmo modo, resultou do conclave o empenho do partido na criação da Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil, que pouco depois de fundada declarava contar com 60 mil aderentes.

Em 1929, Astrojildo publicou em A Classe Operária o artigo “Sociologia ou apologética?”, estudo crítico da obra Populações meridionais do Brasil, em que eram contestadas as opiniões do autor, Oliveira Viana, que negava a existência de luta de classes na história do Brasil. O trabalho foi depois incluído nos livros Interpretações (1944) e Ensaios históricos e políticos (1979).

Em fevereiro de 1929, Astrojildo deixou o país para uma estada em Moscou, retornando apenas em janeiro de 1930. Em sua ausência, em junho de 1929, Leôncio Basbaum, que ascendera ao CC no III Congresso, foi encarregado de manter contato com Luís Carlos Prestes em Buenos Aires. Prestes declinou do convite para concorrer à presidência da República pelo PCB nas eleições de 1930, considerando muito radical o programa do partido, ao qual propôs uma série de modificações.

Na capital soviética, Astrojildo foi instado a reformular a concepção sobre o caráter da revolução brasileira de acordo com a orientação do VI Congresso da Internacional Comunista, e ao regressar ao Brasil trazia diretivas de combate ao trotskismo e de proletarização do partido. Esta última provocou a exclusão de Leôncio Basbaum do bureau político do PCB. O processo depurativo da organização conduziu seus membros a um esforço de mimetização, fazendo com que se comportassem e se vestissem como operários. Astrojildo advertiu para estas deturpações, chamando a atenção para o desvio do “obreirismo”.

Em janeiro de 1930, A Classe Operária publicou o manifesto “Pela revolução agrária e antiimperialista”, aprofundando e objetivando o programa aprovado pelo III Congresso do PCB. Nas eleições de 1º de março de 1930, o partido concorreu à presidência da República com a candidatura de Minervino de Oliveira, que alcançou número reduzido de votos.

Em abril e maio seguintes, Astrojildo participou, em Buenos Aires, da conferência do secretariado sul-americano da Internacional. Nesse encontro foram denunciadas como oportunistas as resoluções do III Congresso do PCB, por submeterem o partido ao BOC, quando o desejável seria o inverso, e pela proposta da “terceira revolta”, considerada como aceitação da hegemonia pequeno-burguesa na revolução. A nova orientação do PCB deveria opor-se às alianças com outras correntes políticas, ficando acentuada a necessidade de intensificar a proletarização do partido e censurados os “desvios de direita” de seus dirigentes. Otávio Brandão, por exemplo, foi acusado de pregar teoria “menchevista”.

A inexpressividade dos resultados eleitorais obtidos pelo PCB e o insucesso das manifestações de 1º de maio de 1930 concorreram para o fortalecimento das críticas ao desempenho do partido. Astrojildo regressou de Buenos Aires para pôr em prática as diretrizes aprovadas e promoveu a destituição de vários membros do CC, inclusive Otávio Brandão, que se opunha à “sovietização imediata” e à desativação da frente popular.

Nesse momento, o PCB contava com cerca de mil membros, além dos 250 da JC. Desse efetivo, 80% eram operários.

Em 29 de maio de 1930, de Buenos Aires, Luís Carlos Prestes lançou um manifesto recusando publicamente os acenos que lhe fazia a Aliança Liberal e afirmando-se favorável a uma revolução agrária antiimperialista promovida pela aliança entre o campesinato, o proletariado e a pequena burguesia. Esse documento suscitou intensa crítica por parte do PCB, através de grande número de artigos na imprensa. As restrições dos comunistas a Prestes se acentuaram quando este criou, em julho, a Liga de Ação Revolucionária (LAR), considerada por A Classe Operária uma iniciativa divisionista, traduzindo a recusa de Prestes em aceitar a direção do proletariado na revolução e sua pretensão de colocar-se acima das classes e dos partidos.

Prestes retrucou que a hegemonia do PCB no movimento afastaria da revolução muitos aliados. As divergências se acirravam e a luta contra o prestismo assumiu importância no partido, em especial quando alguns militantes se desligaram da organização para aderir ao movimento do líder tenentista.

Para o PCB, as posições de Prestes em favor de uma aliança mais ampla de forças sociais eram inaceitáveis, porque entendia que a “luta no Brasil, mesmo a luta contra os latifundistas, se transformará desde o início em luta contra o regime capitalista”.

A Aliança Liberal foi também objeto de críticas incisivas dos comunistas, que a denunciaram por estar preparando, “no interesse do imperialismo americano, um golpe de estado, cujo objetivo é destruir a influência do imperialismo inglês e abafar a revolução operária e agrária em movimento”.

Em agosto de 1930, Astrojildo foi preso em Niterói, quando participava de um dos comícios promovidos pelo PCB em homenagem à memória de Sacco e Vanzetti, militantes operários condenados à morte e executados nos EUA. Permanecendo encarcerado por pouco tempo, voltou a ser perseguido em outubro, quando da eclosão da Revolução de 1930 em vários estados. A polícia carioca, ainda sob as ordens de Washington Luís, promoveu o cerco dos comunistas mais conhecidos, mas Astrojildo logrou escapar.

Logo após a vitória da Revolução de 1930, o PC organizou comícios de crítica aos novos governantes.

 

Desligamento do PCB

Em novembro de 1930, Astrojildo foi colhido nas malhas do processo que ele próprio fora levado a desencadear: em reunião do CC, a ala “proletária”, dominante no partido, decidiu destituí-lo da secretaria geral, que ocupava desde a fundação. Astrojildo foi responsabilizado pelas dificuldades que entravavam o partido e acusado de resistir ao processo de proletarização, sendo excluído do CC juntamente com os demais intelectuais integrantes da direção.

Dispondo-se a fazer autocrítica e a reconhecer seus erros, foi enviado a São Paulo para atuar no Comitê Regional local. Em janeiro de 1931, estava presente à reunião do CC no Rio, que elegeu Heitor Ferreira Lima secretário-geral do partido. Nessa ocasião foi ainda uma vez criticado pela condução do PCB em 1930.

Estabelecido em São Paulo, Astrojildo publicou, em 1931, os artigos “Rui Barbosa e a escravidão”, depois incluído em Interpretações, e “Manifesto da contra-revolução”, inserido em 1935 na obra URSS, Itália, Brasil. Este último texto identificava no manifesto-programa da Legião Revolucionária de São Paulo, redigido por Plínio Salgado, os germes do integralismo, que surgiria como movimento no ano seguinte. Ambos os artigos foram reeditados em 1979 em Ensaios históricos e políticos.

Em julho de 1931, escreveu de São Paulo, comunicando seu afastamento das fileiras comunistas, mas declarando-se disposto a continuar a colaboração com o partido. Sua carta, apresentada em reunião do secretariado sul-americano da Internacional, em Montevidéu, foi considerada expressão de falta de espírito autocrítico. No entanto, sua exclusão do PC não era desejada e ficou acertado que Leôncio Basbaum, que havia sido readmitido no CC e se encontrava presente à reunião, voltasse ao Brasil incumbido de procurar Astrojildo e demovê-lo de sua decisão.

Em agosto, entretanto, o Comitê Regional de São Paulo e vários militantes comunistas, inclusive Astrojildo, foram presos e conduzidos ao Rio Grande do Sul, sendo aí libertados.

Frustrados os intentos da Internacional de recuperá-lo, Astrojildo regressou ao estado do Rio, estabelecendo-se na propriedade de sua família e mantendo-se alheio ao PC.

Em abril de 1932, casou-se com Inês Dias Pereira, filha de Everardo Dias (1883-1962), líder operário e militante anarco-sindicalista. Nesse ano, enquanto ocupava-se do comércio de bananas por atacado — negócio herdado do pai — foi expulso do PCB, no momento em que se acentuava em seu interior a orientação “obreirista” que, inclusive, cassou o direito de voto dos intelectuais no partido.

Acusado pelo PCB no VII Congresso da Internacional de ter adotado uma linha “menchevista”, Astrojildo permaneceu dedicado ao mesmo ramo comercial até 1941, depois de se ter transferido para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1934.

Não cessou entretanto sua atividade intelectual. Entre 1933 e 1934 escreveu, entre outros, o artigo “Campo de batalha”, análise da situação política do país, incluído em URSS, Itália, Brasil (1935), e reeditado na já mencionada obra de 1979.

Na situação em que se encontrava, manteve-se, nesse período, completamente desligado da trajetória do PCB, inclusive da Aliança Nacional Libertadora e do levante de novembro de 1935.

Em 1940 escrevia críticas literárias dominicais para o Diário de Notícias e em 1942 colaborou em Diretrizes.

Em 1943, mostrou-se sensível ao Manifesto dos mineiros, lançado em 24 de outubro daquele ano, declarando, segundo Afonso Arinos de Melo Franco, que o PCB discutira o documento, concluindo que contribuiria para o fim do Estado Novo.

Em 1944 publicou Interpretações, coletânea de estudos sobre literatura, história e política, incluindo seu ensaio “Machado de Assis, novelista do Segundo Reinado”, de 1942.

No ano seguinte, foi delegado do estado do Rio ao I Congresso Brasileiro de Escritores, reunido em São Paulo de 22 a 27 de janeiro de 1945. O congresso foi caracterizado pela oposição dos homens de letras à ditadura, congregando todas as linhas de pensamento favoráveis à democracia naquela conjuntura. Participou, em companhia de Carlos Lacerda, Hermes Lima, Caio Prado Júnior e José Augusto Bezerra de Medeiros, da redação da declaração de princípios do encontro, a qual propunha o retorno à legalidade democrática, o sufrágio universal direto e secreto e o pleno exercício da soberania popular.

Retorno ao PCB

Astrojildo Pereira, que já se vinha reaproximando do PCB, solicitou reingresso na agremiação em 1945, quando de sua legalização. Escreveu a carta de autocrítica que lhe foi exigida e obteve sua readmissão. No ano seguinte, foi eleito suplente do Comitê Nacional do partido.

A partir de então, intensificou sua atividade nos meios jornalísticos. Foi diretor responsável de Literatura, revista mensal surgida em 1946 e que contava em seu conselho de redação com nomes como os de Álvaro Moreira, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Aníbal Machado, Orígenes Lessa e Artur Ramos. Colaborou nos jornais do PCB, Imprensa Popular (1948-1958) e Novos Rumos (1958-1964). Foi diretor e redator-chefe de Problemas da Paz e do Socialismo, revista dedicada aos temas do movimento comunista mundial. Em 1958, fundou e dirigiu Estudos Sociais, revista teórica vinculada ao PCB, que circulou até 1964.

Em 1959 publicou Machado de Assis; ensaios e apontamentos avulsos e em 1962 Formação do PCB: 1922-1928; notas e documentos. Em 1963 lançou Crítica impura; autores e problemas.

Nos últimos anos de vida pertenceu à Comissão Machado de Assis, encarregada pelo governo federal da preparação de edições críticas modelares da obra machadiana. Nesse mesmo período, sofrendo problemas de saúde, retornou à URSS, desta feita para tratamento.

O movimento militar de 1964 provocou o desaparecimento dos órgãos de imprensa de cunho socialista em que atuava. Foi indiciado em diversos inquéritos policiais-militares, como os relativos ao PCB, ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) e à imprensa comunista, sendo preso em outubro de 1964. Entre as acusações formuladas contra sua pessoa, figuravam a de ter fundado o PCB e recrutado seu mais famoso militante, Luís Carlos Prestes. Na prisão, agravaram-se seus problemas cardíacos, tendo ficado recolhido ao Hospital da Polícia Militar, no Rio.

Em janeiro de 1965, por força de habeas-corpus, foi posto em liberdade. Nessa ocasião, ainda declarou-se à imprensa “marxista convicto” e conclamou à luta pelo restabelecimento das franquias democráticas. Com a saúde piorando progressivamente, morreu no Rio de Janeiro em 20 de novembro de 1965, sendo sepultado em Niterói.

Além do já mencionado, utilizou em seus trabalhos diversos pseudônimos, como Tristão, Astper, Basílio Torresão, Aurelínio Corvo, Júlio Bartaline, Sá Pedreira etc.

Seu arquivo particular, considerado de grande valor para o estudo do movimento operário e comunista, permaneceu em local ignorado desde 1964, reaparecendo em 1979 no Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro instalado em Milão, Itália, junto ao Instituto Feltrinelli.

Israel Beloch

 

 

FONTES: CARONE, E. República nova; CONG. BRAS. ESCRITORES. I; Correio da Manhã (27/11/65); COUTINHO, A. Brasil; CURRIC. BIOG.; DULLES, I. Anarquistas; FAUSTO, B. Trabalho; FREIRE, G. Ordem; Grande encic. Delta; Jornal do Brasil (6/1 e 21/11/65); LEVINE, R. Vargas; MENESES, R. Dic.; PEREIRA, A. Ensaios; SODRÉ, N. História da imprensa.

 

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