BECKER, JOAO

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Nome: BECKER, João
Nome Completo: BECKER, JOAO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
BECKER, JOÃO

BECKER, João

*religioso; arceb. Porto Alegre 1912-1946.

 

João Becker nasceu em Sankt Wendel, Alemanha, no dia 24 de fevereiro de 1870, filho do professor Karl Becker e de Katharina Weyand Becker.

Aos oito anos transferiu-se para o Brasil com os pais e quatro irmãos, fixando-se em São João do Montenegro (atual Montenegro, RS), onde nasceram seus dois irmãos menores. Adquiriu a nacionalidade brasileira por força da Constituição de 1891, através da chamada “Grande Naturalização”.

Estudou as primeiras letras com o pai, inicialmente em sua aldeia natal e depois no Brasil, onde Karl Becker continuou a dedicar-se ao ensino. Matriculou-se depois no Colégio dos Padres Jesuítas de São Leopoldo (RS), mais tarde Ginásio Nossa Senhora da Conceição.

Em 1891, ingressou no Seminário de Porto Alegre, dirigido por padres da Companhia de Jesus, demonstrando já como seminarista os primeiros pendores literários e filosóficos, tendo inclusive publicado alguns trabalhos. João Becker estudou teologia e filosofia, concluindo o curso seminarístico em 1892. Promovido a subdiácono em 1894, tornou-se diácono no ano seguinte. Em 1896, concluiu com distinção o curso de teologia, sendo ordenado sacerdote em agosto do mesmo ano.

Nomeado em seguida vigário da Paróquia do Menino Deus, em Porto Alegre, ali permaneceu por 12 anos, de 1896 a 1908. Nesse período, remodelou a antiga capela do Menino Deus, ampliando-a e dotando-a de uma torre. No dia da inauguração da nova capela, foi nomeado cônego honorário em comemoração do décimo aniversário de seu vicariato e pelos serviços prestados à Igreja.

Ainda em 1906, juntamente com o padre Luís Mariano da Rocha, fundou a Revista Eclesiástica, órgão da liga sacerdotal dos padres da arquidiocese. Criada a diocese de Santa Catarina (mais tarde denominada diocese de Florianópolis) em março de 1908, João Becker foi designado pelo papa Pio X para ser seu primeiro bispo em maio do mesmo ano. A sagração episcopal realizou-se no dia 13 de setembro.

Em apenas quatro anos, dom Becker realizou grandes trabalhos em sua vasta diocese, percorrendo freqüentemente a cavalo o interior de Santa Catarina. Nesse período, publicou cinco cartas pastorais e convocou o I Sínodo Diocesano. Como bispo de Florianópolis, tentou dar outro padroeiro à cidade, mandando vir da Europa uma imagem de são Floriano, que pretendia colocar na catedral em lugar da existente. Entretanto, sua iniciativa foi malsucedida em decorrência da reação popular, ainda hostil à memória de Floriano Peixoto, que reprimira duramente a Revolução Federalista no estado.

Dom João Becker foi também um pioneiro da campanha de nacionalização do ensino. Enquanto percorria o estado, introduziu nas escolas o ensino de história e geografia do Brasil, ao lado do ensino religioso.

Em 1912, o arcebispo de Porto Alegre, dom Cláudio José Ponce de Leão, renunciou a seu cargo por motivo de doença. Seu sucessor de direito, o bispo dom João Antônio Pimenta, coadjutor da arquidiocese, também se encontrava enfermo. Por sugestão do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, a Santa Sé escolheu dom João Becker para substituir o arcebispo que se retirava. Assim, no dia 1º de agosto de 1912, foi promovido a arcebispo de Porto Alegre, tomando posse no dia 8 de dezembro.

Durante seus 33 anos de arcebispado, dom João Becker foi responsável por uma série de empreendimentos: criou 15 paróquias em Porto Alegre e 50 no interior, a prelazia de Vacaria, a diocese de Caxias do Sul e as comarcas eclesiásticas. Iniciou a construção da Catedral Metropolitana de Porto Alegre. Fundou a Pia Obra das Vocações Sacerdotais e o Retiro Araceli para o clero idoso e inválido. Promoveu a formação de núcleos da Ação Católica em diversas paróquias, devendo-se também à sua iniciativa a criação de círculos operários no estado, no que contou com a colaboração do padre Brentano.

Promoveu a transferência do Seminário Episcopal de Porto Alegre para São Leopoldo, transformando-o em seminário provincial a cargo dos padres da Companhia de Jesus. Introduziu o ensino de português nas escolas paroquiais ainda antes do início da Primeira Guerra Mundial e construiu o Seminário Menor de Gravataí. Instituiu a primeira unidade da futura Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Em 1921, recebeu do papa Benedito XV o título de conde romano.

Em 1923, na pacificação do Rio Grande do Sul, João Batista Luzardo lembrou o nome de dom João Becker ao general Fernando Setembrino de Carvalho para o cargo de vice-presidente do estado, caso Protásio Antônio Alves renunciasse, o que acabou não ocorrendo.

Em 1925, dom João Becker realizou sua primeira viagem à Europa, lá permanecendo quase um ano. Como resultado dessa viagem, escreveu Viagens e estudos, obra editada em 1928. Mais tarde, em 1938, voltaria ao continente europeu para participar do Congresso Eucarístico Internacional realizado em Budapeste.

Em julho de 1930, dom João Becker condenou em termos categóricos a revolução que se preparava, num discurso proferido em Passo Fundo (RS). Pouco depois, preocupado com a “avalanche comunista”, procurou o comandante da 3ª Região Militar, o general Gil de Almeida, solicitando-lhe que conseguisse de Washington Luís uma declaração de que jamais tentara abater o Rio Grande do Sul, na esperança de enfraquecer o credo do “bolcheviquismo” entre o povo.

Após a eclosão do movimento de 1930, porém, dom João Becker irradiou para o episcopado nacional mensagem em que afirmava que a revolução estava “completamente alheia ao comunismo”, que “as instituições sociais e religiosas” nada haviam sofrido, e que o governo do estado mantinha “inalterável a ordem pública”. Dizia ainda que a revolução, “conseqüência lógica de fatos lamentáveis”, seguia, “irresistivelmente, sua marcha triunfal”, e que sua vitória faria surgir “uma nova era de prosperidade para a nação”.

A posição de dom João Becker em relação à Revolução de 1930 seria ainda confirmada quando o cardeal-secretário do Vaticano, Eugênio Pacelli (mais tarde papa Pio XII), informado de que o movimento teria tendências comunistas, indagou do arcebispo se a acusação era verdadeira. A resposta de dom João Becker, da qual Vargas mostraria uma cópia a seu secretário Roberto Alves, foi categórica, negando a “origem comunista” da revolução. Segundo Hélio Silva, esta resposta teria influído na conduta do cardeal Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro, que convenceu Washington Luís a recolher-se ao forte de Copacabana e o acompanhou em sua retirada do país. Após o final do movimento revolucionário, dom João Becker celebrou Te Deum em que louvou a vitória dos políticos gaúchos.

Em outubro de 1931, foi escolhido para falar na cerimônia de inauguração do monumento ao Cristo Redentor, no antigo Distrito Federal.

Foi secretário-geral da Liga Eleitoral Católica (LEC) no Rio Grande do Sul. Nas eleições à Constituinte, realizadas em 1933, a LEC gaúcha recomendou que os católicos votassem apenas nos candidatos do Partido Republicano Liberal (PRL), de José Antônio Flores da Cunha, rejeitando os postulantes da Frente Única Gaúcha (FUG), embora o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), componente da FUG, incluísse em seu programa os principais pontos defendidos pela LEC. Essa atitude foi criticada por Alceu Amoroso Lima, secretário-geral da LEC, porque contradizia os princípios de apartidarismo da organização.

Em julho de 1935, dom João Becker fundou no Rio Grande do Sul a Ação Social Brasileira, movimento considerado de caráter fascista. O programa da Ação Social Brasileira defendia a luta contra a ação, “direta ou velada”, do comunismo, propondo o “combate pela civilização e pela pátria, ameaçadas pela barbárie comunista” e a defesa da Constituição Federal então vigente, enquanto esta defendesse os princípios cristãos. Surgida durante o apogeu do integralismo, segundo Edgar Carone a intenção da Ação Social Brasileira era “iniciar ação mais violenta contra o comunismo e a democracia”. Ainda nessa época, segundo Hélgio Trindade, dom João Becker pronunciou-se claramente em favor do integralismo.

Em outubro de 1937, o arcebispo procurou o interventor federal no Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, que se preparava para reagir às forças federais. Dom Becker avisou-o da gravidade da situação, depois que o comandante da Brigada Militar do estado passara o comando ao Exército. Flores da Cunha acatou as considerações de dom Becker, levando em conta o fato de já estar militarmente cercado no estado, e renunciou a seu posto, fugindo para o Uruguai.

Combatido em diversos momentos por sua origem germânica, dom João Becker fez a oração fúnebre nas exéquias dos marujos brasileiros mortos em março de 1942 nos torpedeamentos de navios mercantes por belonaves alemãs. Nesta oração, o arcebispo condenou os extremismos de esquerda e de direita.

Adoecendo gravemente em setembro de 1942, dom João Becker oficiou pela última vez em novembro de 1945, amparado, devido a seu estado precário de saúde, por seus assistentes, os cônegos Alfredo Vicente Scherer e Germano Wagner. No dia 15 de junho de 1946, faleceu no palácio arquiepiscopal de Porto Alegre.

Além das 39 cartas pastorais de sua autoria, cinco como bispo de Santa Catarina e 34 como arcebispo de Porto Alegre, publicou quatro obras em latim como seminarista e o já citado Viagens e estudos (1928). Dentre suas cartas pastorais, destacam-se: A questão operária (1914), A paz no Rio Grande do Sul (1924), O comunismo russo e a sociedade cristã (2ª ed. 1930), Os católicos e a futura Constituição (1932), A religião e a pátria em face das ideologias modernas (1939) e A decadência da civilização: causas, conseqüências e remédios (1940).

Sônia Dias

 

FONTES: ALMEIDA, A. Vultos; ALMEIDA, G. Homens; BALÉM, J. Bispos; CARONE, E. República nova; Correio do Povo (16/6/46); ENTREV. TRINDADE, H.; GARDEL, L. Armoiries; Jornal do Comércio, Rio (18/6/46); LEVINE, R. Vargas; MELO, L. Subsídios; SILVA, H. 1930; TODARO, M. Pastors.

 

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