BENEDITO VALADARES RIBEIRO

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Nome: VALADARES, Benedito
Nome Completo: BENEDITO VALADARES RIBEIRO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
VALADARES, BENEDITO

VALADARES, Benedito

*interv. MG 1933-1935; gov. MG 1935-1937; interv. MG 1937-1945; const. 1946; dep. fed. MG 1946-1955; sen. MG 1955-1971.

 

Benedito Valadares Ribeiro nasceu em Pará de Minas (MG) no dia 4 de dezembro de 1892, filho do tenente-coronel Domingos Justino Ribeiro, e de Antônia Valadares Ribeiro. Seu avô, Francisco Cordeiro dos Campos Valadares, foi deputado provincial no Império. Seus tios, Martinho Álvares da Silva Campos e Benedito Cordeiro da Cunha Valadares, foram, respectivamente, presidente do Conselho e deputado no Império e na República.

Fez os estudos primários em sua cidade natal e os secundários no Colégio Dom Viçoso, em Belo Horizonte. Diplomou-se mais tarde pela Escola de Odontologia de Belo Horizonte, não chegando porém a exercer a profissão. Transferido para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, matriculou-se na Faculdade de Direito. Durante o curso, trabalhou em vários estabelecimentos de ensino da capital federal, entre os quais o Instituto Lafayette e o Colégio Alfredo Gomes, primeiro como inspetor de alunos, depois como professor. Em 1920 bacharelou-se em ciências jurídicas e sociais, retornando então a Pará de Minas, onde exerceria a advocacia por um período de 13 anos, até 1933.

Nesse período iniciou também a carreira política como vereador em sua cidade, tendo concorrido às eleições como candidato comum dos partidos municipais. Iniciada a campanha pela sucessão do presidente Washington Luís, aderiu à causa da Aliança Liberal, movimento político lançado em junho de 1929, que uniu o situacionismo dos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba e as oposições locais das outras unidades da Federação em torno da candidatura Getúlio Vargas à presidência em oposição à candidatura oficial de Júlio Prestes. Prefeito de sua cidade natal na ocasião em que eclodiu a Revolução de 1930, em outubro, logo que se configurou a vitória do movimento foi confirmado em seu cargo por Olegário Maciel, presidente estadual e seu “padrinho” político, alijando um candidato indicado por Artur Bernardes, antigo chefe do Partido Republicano Mineiro (PRM). Olegário, por sua vez, foi confirmado em seu cargo pelo chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas.

Com a eclosão da Revolução Constitucionalista em São Paulo em 1932, Valadares pediu a Olegário que facilitasse a missão do coronel Cristóvão Barcelos, que viera a Belo Horizonte solicitar para si o comando da Força Pública Mineira a fim de opor resistência aos paulistas na Serra da Mantiqueira, pois o estado estava sendo invadido ao sul pelos revoltosos. Olegário ordenou que a Força Pública seguisse sob o comando do coronel Barcelos para Passa Quatro, a fim de substituir a tropa do Exército que opunha resistência à invasão dos paulistas. Barcelos convidou então Valadares a se juntar a seu estado-maior, nomeando-o chefe de polícia de seu destacamento, que também era integrado pelo concunhado de Valadares e primo de Vargas, o capitão Ernesto Dornelles (a mulher de Valadares era irmã da mulher de Dornelles, Fabíola Pinto Dornelles). Alguns dias depois, os rebeldes foram desalojados do setor do túnel da Mantiqueira e Valadares voltou a Belo Horizonte, sendo novamente convocado pelo recém-promovido general Barcelos, que ia assumir o comando da frente de Campinas, constituída unicamente por tropas do Exército. Valadares consultou Olegário, obtendo sua aprovação. Antes de partir para a frente de Campinas, porém, foi a Pará de Minas substituir o secretário e o diretor de Obras da prefeitura, que lhe faziam oposição.

Após a derrota do movimento constitucionalista em 2 de outubro de 1932, Valadares foi indicado candidato a deputado à Assembléia Nacional Constituinte na chapa do Partido Progressista (PP) de Minas Gerais, em detrimento de políticos mais experientes, como Darci Azambuja. Segundo Carolina Nabuco, Valadares pleiteara junto a Olegário Maciel um cargo de fiscal de consumo, mas como havia uma vaga na chapa mineira para a Assembléia Constituinte, Olegário decidiu indicá-lo. As ligações pessoais de Valadares com Leopoldo Maciel, irmão do presidente mineiro, teriam influído nessa escolha, segundo Maria Luísa Heilborn. Entretanto, nas eleições de maio de 1933, Valadares não conseguiu o número de votos necessários para efetivar seu ingresso na bancada mineira. Somente nas eleições complementares de setembro sua inclusão foi confirmada, sobretudo devido à intervenção decisiva de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que ordenou a votação maciça de seu nome no 12º Distrito. Por outro lado, nos meses que se seguiram a maio de 1933, Minas Gerais ascendeu ao primeiro plano da política nacional. Detentora da maior bancada na Constituinte, tornara-se uma aliada poderosa para o Governo Provisório e os estados.

 

O “caso mineiro”

Com o falecimento súbito de Olegário Maciel em setembro de 1933, o secretário do Interior, Gustavo Capanema, assumiu interinamente o cargo de interventor estadual, pretendendo uma efetivação no posto, apoiado pelo interventor gaúcho José Antônio Flores da Cunha e por Antônio Carlos, entre outros. Virgílio de Melo Franco lançou-se também candidato com o apoio de vários dirigentes do PP e do ministro da Fazenda, Osvaldo Aranha. As duas candidaturas representavam o confronto entre os interesses dos grupos políticos tradicionais, representados por Capanema, e os dos “tenentes”, representados por Virgílio. Segundo Carolina Nabuco, Virgílio teria recebido um apoio inicial de Vargas, logo retirado devido à interferência de Flores da Cunha, que observou ao presidente do Governo Provisório constituir sua nomeação uma ameaça ao equilíbrio da bancada mineira na Constituinte. Por outro lado, a nomeação de Virgílio seria um suporte para a ambição presidencial de Aranha.

A solução do “caso mineiro”, nome pelo qual ficou conhecido o longo processo de escolha do novo interventor no estado, se arrastaria de setembro a dezembro de 1933. Durante esses quatro meses, intensificar-se-iam os apelos em torno da indicação de um nome “mineiro, civil e membro do Partido Progressista”, predicados que qualificavam por si só ambos os candidatos apresentados. A aparente neutralidade de Vargas, “cozinhando” as pretensões de Virgílio e Capanema e ordenando a seu ministro da Justiça, Francisco Antunes Maciel, que efetuasse articulações sobre a sucessão mineira sem comprometer o governo com nenhuma das correntes políticas em jogo, seria logo secundada por uma investida mais hábil do chefe do Governo Provisório. Vargas adotou então a estratégia de colocar em primeiro plano a questão da eleição para a presidência da Constituinte, apoiando incondicionalmente o nome de Antônio Carlos e recebendo em troca, por parte do líder progressista, a confirmação de sua autoridade no que tangia à nomeação do interventor mineiro. Entretanto, Vargas não se arriscaria a excluir o diretório progressista das negociações realizadas para esse fim, mantendo o compromisso de convocar Antônio Carlos para participar do processo decisório. Depois da eleição deste em 12 de novembro de 1933 para a presidência da Assembléia Nacional Constituinte, Virgílio de Melo Franco foi indicado líder da bancada do PP em substituição a Antônio Carlos. Ciente do peso que a bancada mineira teria no processo eleitoral, Vargas pretendia garantir sua eleição à primeira presidência constitucional do país no pós-1930.

No início de dezembro, atendendo à solicitação de Vargas, Virgílio e Capanema fizeram um acordo no qual se comprometiam a respeitar a decisão presidencial em relação à interventoria, desde que fosse nomeado um dos dois. Insatisfeito com essa última exigência, Vargas pediu à direção do PP que organizasse listas com nomes de prováveis candidatos. No final do processo, segundo Helena Bomeny, já era certa a exclusão dos dois principais aspirantes ao cargo. A uma dessas listas foi acrescentado o nome de Benedito Valadares por sugestão de Vargas e para surpresa de Antônio Carlos, devido à obscuridade política do deputado progressista. A nomeação de Valadares, realizada em 12 de dezembro, desencadearia contra Vargas uma reação das forças que apoiavam os candidatos preteridos, mas fora exatamente a desvinculação do novo interventor dos grupos em conflito que o habilitara ao cargo. A escolha de um tertius neutralizou as duas facções envolvidas e garantiu para Vargas um controle sobre o estado.

Inconformados com a escolha de Valadares, Osvaldo Aranha e Afrânio de Melo Franco (pai de Virgílio) pediram exoneração dos ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores, respectivamente, abrindo aguda crise política. Vargas recusou ambas as demissões e Aranha reconsiderou sua decisão, reassumindo o posto alguns dias depois. Afrânio, entretanto, não voltaria atrás, deixando definitivamente a pasta quando regressou da IV Conferência Internacional Americana. No dia 15 do mesmo mês Capanema transmitiu o cargo a Valadares sem atender aos pedidos de Virgílio para que resistisse à ordem presidencial. A comissão diretora do PP solidarizou-se com a nomeação de Valadares, sendo o único voto discordante o de Virgílio, que renunciou em seguida à liderança do partido na Constituinte, rompendo com Vargas.

 

Interventor em Minas Gerais

Em seu livro de memórias, Valadares confessou que, com a morte de Olegário Maciel, ficara “sem chefe ou guia tão necessários aos moços na vida pública”. Transferido para o Rio, onde teriam início as sessões preparatórias da Constituinte, procurara o presidente Vargas, afirmando sua condição de político novo “sem compromissos”, disposto a ter Vargas como “chefe”. Após sua designação para a interventoria mineira, tornou-se um poderoso aliado de Getúlio, de quem também recebeu integral apoio. Segundo John Wirth, seus oponentes acusavam-no de ter sido escolhido para ser o “pau-mandado” do presidente, mas nos quatro anos que antecederam ao golpe de 1937 ele astutamente aproximou-se de Vargas, fazendo parte de seu círculo mais íntimo e logo despontou como um político mineiro de primeira linha. Entre Vargas e ele existia um vínculo pessoal intenso, uma espécie de relacionamento pai-filho. Valadares nada fazia sem primeiro consultar Vargas, nem mesmo viagens políticas em seu próprio estado.

Aconselhado por Vargas, Valadares consultou Virgílio sobre a escolha de seu secretariado, não emitindo entretanto Virgílio nenhuma opinião. Valadares, então, escolheu para a chefia de seu Gabinete Civil o major-médico da Força Pública Mineira Juscelino Kubitschek e, como secretário particular, Ovídio de Abreu. Para a Secretaria do Interior nomeou Carlos Luz, indicando Noraldino Lima para a de Educação, Alcides Lins para a de Finanças, Mário Matos para a Imprensa Oficial, Mário da Silva Campos para a Diretoria de Saúde Pública e Israel Pinheiro para a Secretaria de Agricultura, Viação e Obras Públicas. Logo depois, esta última foi desmembrada, permanecendo Israel Pinheiro na de Agricultura, e assumindo Alcides Lins a de Viação e Obras Públicas e Ovídio de Abreu, a de Finanças. O engenheiro José Soares de Matos foi nomeado prefeito de Belo Horizonte.

Logo que Valadares assumiu o governo, Mílton Campos pediu exoneração do cargo de advogado-geral do estado, não voltando atrás mesmo após a recusa do interventor, que nomeou então Orosimbo Nonato. Devido à difícil situação financeira e administrativa do estado, Valadares suspendeu as nomeações de funcionários e ordenou o fechamento do Instituto Mineiro do Café, com sede no Rio de Janeiro, e a incorporação de seu ativo ao patrimônio do estado. Para o Instituto, eram transferidas determinadas taxas e impostos da renda oriunda do café, que tinha diminuído devido à desvalorização do produto e à restrição da exportação.

Segundo João Camilo de Oliveira Torres, o novo interventor, agindo com moderação e prudência, conseguiu firmar-se aos poucos, embora duramente combatido pelo espírito crítico do povo mineiro. Impôs-se aos políticos do interior, revelando-se contemporizador e sagaz. Sabia tomar atitudes populares quando era necessário e, atirando as ambições dos chefes umas contra as outras, foi aos poucos demolindo as estruturas mestras da política situacionista. Em sua gestão iria demitir 30 prefeitos eleitos em 1934, substituindo-os por elementos de sua confiança.

Entre janeiro e março de 1934 foi apresentada na Constituinte a “indicação Medeiros Neto”, sugerindo a inversão dos trabalhos, de modo a se efetuar em primeiro lugar a eleição do presidente da República para depois se votar o texto constitucional. Após várias articulações políticas, das quais, além de Valadares, participaram ministros, outros interventores e os líderes das grandes bancadas, encontrou-se uma solução conciliatória, a “fórmula Simões Lopes”, que acabou sendo aceita como alternativa à indicação Medeiros Neto. A fórmula Simões Lopes dispensava a primeira discussão do texto em plenário, considerando que esta já ocorrera na Comissão Constitucional — conhecida como “Comissão dos 26”, encarregada da elaboração do substitutivo ao anteprojeto governamental — quando as comissões parciais apresentavam suas emendas ao anteprojeto. Desse modo, tornava-se possível votar “em bloco” o substitutivo imediatamente, o que permitiria realizar a eleição presidencial no prazo de um mês, sem que houvesse inversão dos trabalhos.

Em julho de 1934, finalmente, foi promulgada a nova Constituição e Vargas foi eleito indiretamente presidente da República para um período que se estenderia até as eleições diretas, marcadas para janeiro de 1938. Em outubro realizaram-se as eleições para a Câmara Federal e para as assembléias constituintes dos estados, incumbidas de eleger os senadores federais e os governadores — em Minas Gerais, Valadares era o “candidato do presidente” ao governo do estado. Para a Constituinte Mineira, o PP elegeu 34 deputados e o PRM, 13, sendo Afrânio de Melo Franco eleito pela União Minas Autônoma. Instalada a Assembléia Constituinte, Afrânio não compareceu à sessão que apontaria o governador constitucional. Na ocasião, 5 de abril de 1935, os representantes da maioria retiraram-se do recinto e só retornaram para a eleição dos dois senadores. Valadares foi eleito com a unanimidade dos representantes do PP.

 

Governador constitucional

Segundo Valadares, seu governo foi organizado procurando “servir ao Estado” e atender às diversas correntes políticas conciliadas em torno de seu nome. Assim, foi nomeado secretário de Educação o professor José Bonifácio Olinda de Andrade, filho de Antônio Carlos, tendo Vargas sugerido Gabriel Passos para a Secretaria do Interior com o objetivo de agradar à ala política que ficara contrariada com a nomeação de Valadares como interventor. Raul de Noronha Sá, da corrente de Venceslau Brás, foi nomeado secretário da Viação e Obras Públicas e foram mantidos os demais secretários. Em substituição a Juscelino, que fora eleito deputado federal, Valadares nomeou Olinto Fonseca seu chefe de gabinete, sendo Otacílio Negrão de Lima escolhido prefeito da capital. Gabriel Passos, entretanto, logo entrou em conflito com o governador e pediu demissão.

Em 1935 foi aberta uma crise política no estado do Rio de Janeiro, com o episódio da sucessão do interventor Ari Parreiras, que era disputada por dois candidatos: o ministro da Marinha, almirante Protógenes Guimarães, apoiado pela Coligação Radical Socialista, e o general Cristóvão Barcelos, apoiado pela União Progressista Fluminense (UPF). Preocupados com o papel do estado do Rio nas eleições presidenciais previstas para 1938, o governo federal e o de São Paulo apoiavam Protógenes, enquanto o governo do Rio Grande do Sul era favorável a Barcelos. A proposta dos progressistas de indicar outro nome (Augusto Carlos de Sousa e Silva) como candidato de pacificação foi recusada por Barcelos, que não voltou atrás em sua decisão nem quando, a pedido de Vargas, Valadares, seu amigo pessoal, tentou demovê-lo.

Em outubro, após a eleição de Protógenes, marcada por atos de violência, Valadares procurou novamente o general Barcelos, conseguindo estabelecer com ele um acordo. No dia seguinte, entretanto, Barcelos ignorou o acerto, contestando a legalidade da eleição de Protógenes Guimarães. A UPF entrou com recurso para denunciar as precárias condições de segurança sob as quais o pleito se realizara, conseguindo que a Justiça Eleitoral anulasse os resultados e convocasse novas eleições. Flores da Cunha, já eleito governador do Rio Grande do Sul, empenhado em impedir o projeto continuísta de Vargas, apoiou o recurso impetrado por Cristóvão Barcelos, acusando o presidente de pressionar os constituintes fluminenses a votar em Protógenes através do ministro da Justiça, Vicente Rao. Na segunda votação, realizada, em 12 de novembro de 1935, Protógenes foi eleito governador do Rio de Janeiro por maioria de um único voto.

Em 1936, segundo Valadares, o presidente da Câmara dos Deputados, Antônio Carlos, “que pretendia substituir Getúlio Vargas na presidência”, marcou uma reunião política em Juiz de Fora (MG) com os ministros da Agricultura, Odilon Braga, e da Educação, Gustavo Capanema, convocando ainda os membros da comissão executiva do PP, da qual era presidente, e toda a Assembléia estadual, inclusive os deputados da oposição, através de convites divulgados pelo rádio do palácio da Liberdade. Ciente do desejo de Vargas de permanecer na presidência, Valadares, que desejava o fim do carlismo em Minas, enviou o chefe de polícia, Ernesto Dornelles, ao Rio de Janeiro para comunicar estes fatos ao presidente, acrescentando que, em sua opinião, Antônio Carlos se lançaria de qualquer forma na sucessão. Além disso, sugeriu a substituição do presidente da Assembléia mineira, Abílio Machado, seu amigo pessoal mas partidário de Antônio Carlos. Com a resposta afirmativa de Vargas, Valadares chamou Abílio Machado, a quem declarou estar na iminência de romper com Antônio Carlos, o que iria constrangê-lo na presidência da Assembléia. Abílio Machado concordou em não pleitear a reeleição e Valadares, então, substituiu-o por Dorinato de Oliveira Lima, apesar das pressões contrárias de Pedro Aleixo e Mílton Campos. Fez ainda um acordo político com os adversários de Antônio Carlos, Cristiano Machado, José Francisco Bia Fortes, Levindo Coelho e outros, todos elementos do PRM, não conseguindo entretanto estendê-lo a Artur Bernardes, presidente do partido. Nomeou então Cristiano Machado para o cargo de secretário de Educação em substituição ao professor Olinda de Andrada.

Em seguida, segundo Valadares, Vargas chamou-o ao Rio de Janeiro para tratar da substituição de Antônio Carlos na presidência da Câmara dos Deputados, mandando-o convidar o embaixador Raul Fernandes para o posto, o qual aceitou após consultar o governador Protógenes Guimarães. Na ocasião, aliado a Flores da Cunha, Assis Chateaubriand desenvolveu intensa campanha contra Benedito Valadares nos Diários Associados (Diário da Noite e O Jornal). Segundo Pedro Rache, Vargas declarou-se neutro no confronto Antônio Carlos versus Valadares, razão pela qual o deixaram à margem da luta. Amigo de longa data do presidente da Câmara, Chateaubriand provocou a reação do meio político, sustando o processo que levaria Antônio Carlos a renunciar. Apoiado maciçamente pelos deputados, Antônio Carlos manteve-se em seu cargo, enquanto Raul Fernandes afirmou da tribuna que o governador de Minas Gerais lhe oferecera a presidência da Câmara, “esquecendo-se naturalmente” — segundo Valadares — “de que eu era simples emissário do presidente Vargas”.

Em 1937, por ocasião da eleição para a presidência da Câmara, Vargas tentou novamente a substituição de Antônio Carlos. Dessa feita, com sucesso: Pedro Aleixo, cuja candidatura resultara de iniciativa de Benedito Valadares, derrotou Antônio Carlos por 152 votos contra 131. A posição de Antônio Carlos tornara-se difícil porque Valadares lhe havia retirado a confiança publicamente e nenhum partido o sustentava, a não ser a oposição que conseguira mantê-lo no cargo enquanto sua figura surgia como candidato à sucessão presidencial.

 

Valadares e o Estado Novo

Desde 1935, quando foi votada a Lei de Segurança Nacional autorizando o governo federal a usar poderes especiais para reprimir atividades políticas consideradas subversivas, o regime caminhava para um acentuado “fechamento”. Após a tentativa insurrecional comunista de novembro, Getúlio estabeleceu a censura aos jornais e pediu ao Congresso o estado de sítio. Durante todo o ano de 1936, o Congresso concedeu poderes de emergência ao Executivo, aprovando a instauração do estado de guerra — sucessivamente prorrogado — e a criação do Tribunal de Segurança Nacional.

Ainda em 1936, entretanto, começaram as articulações para a eleição presidencial que se deveria realizar em janeiro de 1938. A pedido de Vargas, Valadares entrou em contato com Armando de Sales Oliveira, governador de São Paulo e provável candidato, afirmando-lhe a necessidade de que nenhum governador fosse candidato como condição sine qua non para a sucessão presidencial, o que desagradou o governador paulista. A partir daí, Valadares, segundo afirmou em suas memórias, passou a trabalhar por uma candidatura única, recebendo o apoio dos governadores da Bahia e de Pernambuco, respectivamente Juraci Magalhães e Carlos de Lima Cavalcanti, bem como do governador gaúcho Flores da Cunha. Juraci escreveu uma carta a Valadares apoiando-lhe a iniciativa, pois “a hipótese de duas ou mais candidaturas, embora nobre anseio democrático, pode levar à derrocada o próprio regime, de vez que o ambiente político nacional está trabalhado por profunda e generalizada desconfiança”. A esta altura, porém, Armando Sales havia deixado o governo de São Paulo para se desincompatibilizar. Chamado novamente ao Rio de Janeiro, Valadares recebeu de Vargas a incumbência de procurar Juraci Magalhães na Bahia para tentar impedi-lo de apoiar Armando Sales, sem, entretanto, falar em seu nome. Na viagem pelo São Francisco, feita a bordo de um vapor da Navegação Mineira, Valadares fez-se acompanhar de assessores, entre os quais Carlos Luz. Convencido de que Juraci não pensava em apoiar Armando Sales, mas um candidato do Nordeste, convidou-o para uma reunião em Poços de Caldas (MG).

Em janeiro de 1937, os governadores de Pernambuco, Bahia e Santa Catarina encontraram-se em Poços de Caldas com Valadares, sendo aí abordada a realização de uma convenção nacional, a se reunir 120 dias antes do pleito presidencial. De Poços de Caldas os governadores seguiram para São Paulo, onde foram recebidos com um banquete no palácio dos Campos Elísios. Dando ciência de sua passagem por São Paulo, Valadares escreveu a Vargas para informá-lo de que Armando Sales não pretendia desistir de sua candidatura e que procurava angariar adeptos. Afirmou ainda ter havido entendimentos entre este e Flores da Cunha, aconselhando Vargas a coordenar as forças políticas para uma solução que “poderia ser ainda pacífica”.

A agitação política tomou conta de São Paulo, para lá seguindo o chefe do Estado-Maior do Exército, general Pedro Aurélio de Góis Monteiro. Foi também aumentado o efetivo das tropas federais no estado. Em abril de 1937, Vargas determinou a Valadares que colocasse a Força Pública à disposição do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, para seguir em direção a São Paulo, atitude já tomada pelo governo do Espírito Santo. De acordo com seu próprio depoimento, Valadares, temeroso de uma intervenção em seu estado, resolveu regressar a Minas Gerais e não seguir a orientação do presidente. À noite, ainda no Rio, convocou o presidente da Câmara, Pedro Aleixo, e o líder da maioria, Carlos Luz, para uma reunião, tendo ambos apoiado integralmente sua decisão. Na manhã seguinte, Valadares mandou o prefeito de Poços de Caldas, Francisco de Assis Figueiredo, a São Paulo articular uma reunião com representantes de Armando Sales e Flores da Cunha a fim de debater a situação. Pretextando ir a Juiz de Fora satisfazer exigência constitucional para poder permanecer no Rio de Janeiro, despediu-se de Vargas que, à última hora, lhe teria recomendado a articulação da candidatura de José Américo. Valadares, entretanto, hesitava em aceitar a coordenação da candidatura porque se sentia ameaçado com a pressão que Vargas e Góis Monteiro resolveram exercer sobre os governadores dissidentes, Flores da Cunha e Lima Cavalcanti, de federalização das brigadas estaduais. Segundo Hélio Silva, Valadares teria viajado sem mesmo despedir-se de Vargas, manobra considerada inexplicável no meio político, já que não ocorrera um rompimento explícito entre ambos.

Chegando a Juiz de Fora pela madrugada, o governador mineiro deteve-se em importantes contatos políticos. Ordenou que, se houvesse intervenção, a resistência não se faria nessa cidade, que era sede da região militar, mas em Barbacena, encarregando o comandante do batalhão local, coronel Vicente Torres, de organizá-la. Em suas memórias, afirmou ter conversado também com Bias Fortes e Virgílio de Melo Franco, que haviam atendido a seu chamado e se mostraram favoráveis à sua decisão, acompanhando-o até Belo Horizonte. Na capital mineira, Valadares manteve sua postura rebelde respondendo negativamente a um ofício do general Dutra, que lhe pedira para pôr suas tropas à disposição do governo federal, argumentando que o deslocamento da Força Pública mineira para territórios vizinhos “viria reavivar contra Minas animosidades trazidas pelas revoluções de 1930 e 1932”. Em seguida escreveu a Vargas, a quem acusou de provocar com sua atitude o afastamento dos governadores que, como ele, haviam sido originalmente nomeados interventores. Acrescentou que, observando a conjuntura política nacional, procurara encaminhar a solução do problema da sucessão presidencial para uma só candidatura, sendo esta a única iniciativa de natureza política que tomara, na órbita federal, sem avisar Vargas. Responsabilizou ainda o ministro da Justiça, Agamenon Magalhães, por veicular informações tendenciosas sobre a situação do país e alertou Vargas para um possível rompimento: “Não posso, digo-o com franqueza e inspirado no mais alto patriotismo, concordar com a maneira por que se está procedendo, a fim de se evitar ou perturbar a sucessão. O momento não explica nem justifica movimentos quaisquer no sentido de se implantar no país o regime ditatorial e qualquer tentativa em tal rumo nos levaria à desgraça de uma guerra civil, cujas conseqüências ninguém poderia prever.” Assim que recebeu a carta que lhe fora levada por Olinto Fonseca Filho, chefe de gabinete do governador mineiro, Getúlio tentou comunicar-se com Valadares através de Ernesto Dornelles, pedindo-lhe que não falasse pelo rádio. Segundo Hélio Silva, surgira a notícia de que Valadares romperia publicamente com o governo federal em discurso que pronunciaria pela Rádio Inconfidência. Valadares mandou avisar Vargas “que só queria a eleição”.

Logo em seguida, conforme fora articulado, os emissários de São Paulo, deputado Henrique Bayma, presidente da Assembléia Legislativa paulista, e Antônio de Moura Andrade, e o representante de Flores da Cunha, Antônio Carlos Machado, líder da bancada do Partido Republicano Liberal (PRL) na Câmara Federal, reuniram-se em Belo Horizonte com o governador de Minas Gerais, pretendendo Bayma que Valadares se manifestasse em favor da candidatura de Armando Sales. Valadares recusou a proposta e sugeriu, por sua vez, que São Paulo participasse de uma convenção que escolheria livremente um candidato comum, inclusive do agrado de Vargas. A sugestão, porém, não teve boa acolhida, percebendo o governador mineiro que Armando Sales queria ser “candidato do país”, enquanto ele, Valadares, queria “um candidato que harmonizasse o país”. Segundo Valadares, vendo inúteis seus esforços em chegar a um entendimento com São Paulo e Rio Grande do Sul, passou a encarar objetivamente a candidatura do ex-ministro da Viação de Getúlio, José Américo de Almeida, que era preconizada por Juraci Magalhães. Hélio Silva, entretanto, relata outra versão: a de que Valadares teria chegado a ler, para Henrique Bayma e João Carlos Brochado, o seu discurso de rompimento, modificando na última hora o teor do texto e mantendo-se fiel a Vargas. Apesar de haver informado, em nota à imprensa, que convidara os representantes de São Paulo e do Rio Grande do Sul para falar sobre a paz e a manutenção do regime “que sentimos ameaçado”, colocando-se ao lado da “legalidade”, Valadares reafirmou sua confiança em Vargas no discurso que fez em seguida na Rádio Inconfidência. Nele anunciou para o dia 25 de maio a realização de uma convenção para a escolha de um candidato à presidência, procedendo assim a uma súbita e radical mudança de posição.

Obtendo o endosso de Vargas — a quem telegrafara — sobre a candidatura José Américo, Valadares pôs-se a articular intensamente, sondando representantes de vários estados que se inclinaram favoravelmente à sugestão do nome indicado. Vargas, porém, em nenhum momento daria seu apoio formal a José Américo, o qual, durante algum tempo, arrastaria sua condição de candidato pseudo-oficial, semi-oficial ou oficioso. Ainda no dia 25, no palácio Monroe, no Rio de Janeiro, foi instalada a convenção que proclamaria a candidatura José Américo. Com o comparecimento maciço de representantes de todos os estados, Valadares fez o discurso de instalação.

No dia 19 de junho seguinte realizou-se a convenção do Partido Nacionalista de Minas Gerais, que surgira com a fusão do PP, elementos do PRM e outras agremiações, sob a presidência de Valadares, para apoiar a candidatura José Américo, já que Antônio Carlos estava apoiando Armando Sales. Valadares convidou José Américo para estar presente no dia 20 ao encerramento da convenção que organizaria o partido, sugerindo-lhe que empregasse em seus discursos “teses conservadoras” e que exaltasse os preceitos religiosos existentes na Constituição. Aconselhou ainda José Américo a não se colocar “nem para a direita nem para a esquerda, e sim no meio-termo conciliador, em que todos os brasileiros se sintam tranqüilos e felizes, podendo desenvolver livremente as suas iniciativas”.

A campanha eleitoral de José Américo em Belo Horizonte iniciou-se sob grande entusiasmo com a presença do candidato. Desconfiado de que Getúlio, na verdade, não endossaria sua candidatura, José Américo começou entretanto a colocar nos discursos que fazia suas dúvidas quanto à nobreza de intenções do governo federal: “Juremos todos, pelas cinzas repatriadas dos nossos mártires, que não se destruirá a liberdade dos brasileiros, com falsos regimes de autoridade, que não passariam de regimes de submissão.” Noutro discurso, declarou saber “onde está o dinheiro” e, no Nordeste, foi além, atacando diretamente o presidente Vargas.

Preocupado com a “inconveniência” dos discursos de seu candidato, Valadares procurou-o afirmando que não o apoiaria contra Vargas, de quem era amigo. José Américo recusou o pedido de Valadares de que procurasse conciliar-se com o presidente. O governador mineiro começou então a articular com Vargas o afastamento das duas candidaturas e a escolha de uma terceira. Vargas combinou com Valadares que este enviaria um emissário para tratar do assunto com o governador de São Paulo, José Joaquim Cardoso de Melo Neto, e outro com Flores da Cunha, recuando depois da idéia de incluir o Rio Grande do Sul nessa sondagem. Valadares enviou seu secretário de Finanças, Ovídio de Abreu, a São Paulo e conversou com o governador de Pernambuco, Carlos de Lima Cavalcanti, que concordou com o afastamento das duas candidaturas. Entretanto, devido ao compromisso anterior, Valadares viu-se constrangido a falar na inauguração do comitê da candidatura José Américo, no Rio de Janeiro. Na ocasião, reafirmou seu empenho na vitória de José Américo, mas insinuou estar ao mesmo tempo vigilante, ao lado das forças armadas, “na sua árdua missão de garantir a ordem e a estabilidade da pátria”.

Logo em seguida, segundo Valadares, Melo Neto teria proposto a Vargas a “revolução”, sob a condição de serem informados os militares e que eles aderissem ao movimento. Além disso, propunha que a Força Pública não fosse requisitada e ficasse sob seu comando. Aceitas as condições, Vargas mandou-o conversar com os ministros da Guerra e da Marinha, e insinuou que o manteria no cargo se a revolução triunfasse. O presidente ainda lhe teria entregue o texto da Constituição de 1934 para fazer alguma modificação que fosse necessária. Segundo Valadares, Melo Neto introduziu um artigo estabelecendo que os prefeitos seriam nomeados pelos governadores.

No dia 13 de setembro de 1937, o gabinete de Dutra foi visitado, sucessivamente, por Agamenon Magalhães, Juraci Magalhães e João Marques dos Reis. Todos estavam preocupados com a repercussão desfavorável dos discursos de José Américo e receosos das conseqüências da candidatura Armando Sales, que acreditavam relacionada com preparativos revolucionários do Rio Grande do Sul. Começavam a ser consideradas duas opções: a prorrogação dos mandatos por um ano, o que adiaria a eleição presidencial, ou a simples permanência de Getúlio no poder. Ambas implicavam a reforma constitucional e discutia-se se o governo teria o quorum necessário para tanto.

No dia 15, Valadares também visitou o ministro da Guerra, mostrando-se decepcionado com a candidatura José Américo. Reconhecendo a impossibilidade de se apoiar outro candidato, sugeria ele duas hipóteses: a reforma da Constituição, com a prorrogação dos mandatos do presidente e dos deputados por um ano, ou uma convocação dos governadores para se chegar a um acordo visando ao afastamento dos dois candidatos. Valadares solicitava que a convocação partisse dos dois ministros militares. Dutra declarou-se favorável a uma solução conciliatória e logo entendeu-se com o ministro da Marinha, almirante Aristides Guilhem, que com ela também concordou.

No dia 18 de setembro, Vargas e Dutra, as figuras decisivas do momento político, reuniram-se. Vargas informou que Valadares havia fracassado em sua tentativa de conseguir uma revisão da Constituição que permitisse a prorrogação do mandato presidencial. Por outro lado, considerava ser inviável a escolha de um terceiro candidato, pois esta solução era combatida pelas duas correntes em questão. Para ele, a vitória de Armando Sales era certa, o que seria um desastre nacional. Vargas só via, portanto, uma opção: a mudança de regime e a reforma da Constituição. Nesse sentido, procurou convencer Dutra de que o Congresso obstruía as iniciativas do Executivo, sendo necessária uma “revolução” de cima para baixo, desencadeada pelo próprio governo. Vargas contava com o apoio de Minas Gerais, mas era indispensável a adesão do Exército. Dutra pôs-se à disposição de Vargas mas achou necessário consultar outras patentes militares, como o general Manuel Daltro Filho.

Antes de regressar a Minas Gerais, Valadares voltou a procurar o ministro da Guerra, a quem notificou ter mandado duplicar os efetivos da Força Pública e organizar algumas unidades de forças irregulares. Entregou a Dutra um trabalho de Francisco Campos que se constituía do esboço de um manifesto à nação e do projeto da nova constituição a ser adotada em conseqüência do golpe de Estado. Revelou-lhe em seguida o entendimento mantido por Vargas com Plínio Salgado, que assegurara a adesão dos integralistas. A data escolhida por Vargas para a deflagração do movimento foi a da Proclamação da República.

Dutra mandou Valadares organizar em Minas duas brigadas. Uma baseada em Juiz de Fora, para atender ao Rio de Janeiro em caso de necessidade. A outra, no sul de Minas, com destino a Poços de Caldas, para ocupar Campinas (SP) ao primeiro movimento de São Paulo. O governador mineiro pediu a Dutra munição, barracas de campanha e autorização para engajar reservistas na Força Pública.

Os preparativos para o golpe aceleravam-se. Em meados de outubro, a Brigada Militar rio-grandense foi federalizada. Desse modo, neutralizava-se o único estado onde a resistência seria possível, devido ao seu poderio militar. Pressionado pelo governo federal e sem o apoio da brigada gaúcha, o governador Flores da Cunha renunciou em 18 de outubro e partiu para o Uruguai. No dia seguinte foi decretada a intervenção federal no Rio Grande do Sul, sendo nomeado interventor o general Daltro Filho. A queda de Flores da Cunha, principal aliado de Armando Sales, constituiu assim fator importante para propiciar o golpe.

No final de outubro, a pedido do presidente, Valadares enviou secretamente, em avião fretado para esse fim, o deputado Francisco Negrão de Lima ao Norte e Nordeste do país para contatar os governadores — com exceção de Juraci Magalhães e Lima Cavalcanti, ambos notoriamente em oposição a Vargas e grandes defensores da candidatura José Américo com o objetivo de angariar apoio para o golpe que Vargas visava a executar. Negrão levava uma carta-circular de apresentação aos governadores assinada e redigida por Benedito Valadares, em estreita colaboração com Vargas.

Segundo o plano golpista, o presidente da República teria seu mandato prorrogado por tempo indeterminado, os governadores, por um prazo de seis anos, podendo haver prorrogação de igual duração; em lugar da Câmara e do Senado, seriam criados uma câmara corporativa e um conselho de sábios; em conseqüência da nova estruturação política do país, consubstanciada na Constituição a ser outorgada, seriam retiradas as candidaturas de José Américo e Armando Sales; os governadores baiano e pernambucano não seriam contemplados com as vantagens concedidas aos demais, e quanto ao governador paulista, José Joaquim Cardoso de Melo Neto, sua situação dependeria do apoio que viesse ou não a dar ao governo federal.

Todos os governadores consultados por Negrão declararam-se de acordo com o golpe. Negrão voltou ao Rio de Janeiro em 1º de novembro, insistentemente assediado por parlamentares e jornalistas. Para evitar que cometesse alguma indiscrição, Valadares fez com que viajasse imediatamente para Belo Horizonte em automóvel do Executivo mineiro. Chegou àquela cidade no dia seguinte e avistou-se com Valadares, que enviou um telegrama cifrado ao presidente da República, dando conta do êxito completo da operação e informando em detalhes o que se passara.

Segundo Hélio Silva, no dia 4 de novembro, os deputados sergipanos José Barreto Filho e Armando Fontes receberam uma carta na qual se dizia que Negrão de Lima era portador de uma missiva do governador Benedito Valadares, falando em nome de Vargas e comunicando que a situação política não comportava a realização de eleições. A missão Negrão de Lima, até então envolta em mistério, vinha a público. A carta relatava ainda com detalhes o plano golpista. Os dois deputados entregaram-na pessoalmente a José Américo, em sua residência, onde, mais tarde, chegou o diretor do Correio da Manhã, Edmundo Bittencourt. Assim que se inteirou da iminência do golpe, José Américo tentou, através de amigos, um entendimento de última hora, propondo-se a conversar com Armando Sales.

No dia seguinte, o Correio da Manhã, enfrentando a censura, estampou em sua última página uma nota na qual eram anunciados os verdadeiros objetivos da missão Negrão de Lima. Imediatamente, Vargas mobilizou Valadares e este, seus contatos na imprensa, para que fosse difundida outra versão: a de que Negrão fora ouvir os governadores sobre uma solução conciliatória, dentro dos quadros legais, e não estivera com os governadores baiano e pernambucano porque estes já haviam sido ouvidos por Valadares no Rio de Janeiro.

No dia 9, o general Dutra enviou uma mensagem a Valadares solicitando que fossem expedidas ordens no sentido de pôr em prontidão a Força Pública mineira. Pediu, ainda, que se informasse ao presidente sobre a necessidade de antecipar o movimento, pois não podia mais conter os militares, dada a agitação reinante na Câmara em virtude da leitura do manifesto de Armando Sales às forças armadas. Sales atacara o “pequeno grupo” em torno do presidente, que tinha um plano preparado “longamente” para subverter as instituições brasileiras. Valadares transmitiu as informações de Dutra a Vargas, que em seguida reuniu o ministério e decidiu deflagrar o movimento no dia seguinte. À exceção de Odilon Braga, ministro da Agricultura, os demais ministros concordaram com a solução golpista.

Não houve resistência no Rio de Janeiro ou em São Paulo (o governador paulista não endossara a posição de Armando Sales). Getúlio fechou a Câmara dos Deputados e Valadares determinou o fechamento da Assembléia estadual. Armando Sales foi preso em São Paulo, removido para Minas e, após algum tempo, exilado. Ainda no dia 10 de novembro, Vargas outorgou a nova Constituição que foi assinada por ele e seus ministros.

No dia seguinte, nos termos do artigo 176 da nova Carta, o presidente baixou um decreto confirmando Valadares no cargo de governador de Minas. Os demais governadores não tiveram seus mandatos confirmados, mas foram convertidos em interventores em seus estados, com exceção do interino Heitor Collet (RJ), que foi substituído pelo capitão-tenente Ernâni Amaral Peixoto, e dos governadores Juraci Magalhães (BA) e Carlos de Lima Cavalcanti (PE), substituídos por dois interventores interinos. Desse modo, Valadares foi “premiado” por sua fidelidade a Vargas e pela estreita colaboração com o golpe de 1937, sendo o único a permanecer “governador” entre tantos interventores. Em suas memórias, assim explicou a conspiração para o golpe do Estado Novo: “É interessante observar o ser possível fazer-se uma revolução, às claras, sem o povo desconfiar. É que ela partia do governo, que estava acima de qualquer suspeita.”

Decretado o Estado Novo, o presidente da Câmara dos Deputados, Pedro Aleixo, enviou, no dia 11, uma carta a Valadares protestando contra sua participação no golpe de 1937 e anexando cópia do telegrama enviado a Vargas em protesto contra a ocupação do edifício da Câmara e contra o decreto de dissolução do Poder Legislativo. Pedro Aleixo foi mais longe em sua crítica, afirmando temer que o povo começasse a compreender que a salvação pública fora simples pretexto para que continuassem a “fruir as delícias do poder aqueles que presentemente o detêm”.

Valadares respondeu à carta e não tomou medidas contra Pedro Aleixo. Ao contrário, com o pedido de exoneração de Otacílio Negrão de Lima da prefeitura de Belo Horizonte, Valadares convidou-o para o cargo, através de Orosimbo Nonato. Pedro Aleixo respondeu que só voltaria a cargo público com o restabelecimento do regime democrático.

Também logo após a decretação do Estado Novo, Benedito Valadares informou a Vargas que em todo o estado de Minas Gerais os integralistas estavam distribuindo cartas atribuídas a militares, com o objetivo de desmoralizar o regime. Para atender a seus aliados que haviam perdido os mandatos com o golpe, promoveu o major-médico Juscelino Kubitschek a tenente-coronel e nomeou-o, a pedido, diretor do Hospital Militar. José Maria Alkmin foi nomeado para a Secretaria do Interior.

Segundo João Camilo de Oliveira Torres, Valadares foi muito combatido durante o Estado Novo, período em que Minas se tornou a principal base de apoio de Vargas. Sua preocupação como governante concentrou-se em resolver problemas econômicos e financeiros, agindo sempre com prudência, mesmo no campo administrativo. Só iniciava obras que pudesse terminar, de modo a pôr em destaque seu trabalho, e algumas delas de fato marcaram seu governo, como a da construção, no município de Contagem, da Cidade Industrial, iniciada em 1936, quando era secretário de Viação o engenheiro Odilon Dias Pereira, e terminada em 1945. Contudo, a carência de recursos levaram-no a fechar escolas normais, o que lhe custou duras críticas.

Além da construção da Cidade Industrial, Valadares elaborou um plano de industrialização do estado e fundou o Instituto de Tecnologia Industrial, com a colaboração do secretário Israel Pinheiro. Durante seu governo, na gestão do prefeito Negrão de Lima, concluiu-se em Belo Horizonte a avenida do Contorno, construindo-se a praça de esportes do Minas Tênis Clube e a sede da Prefeitura. Outra obra importante em sua administração, realizada durante as gestões dos prefeitos Negrão de Lima, José Osvaldo de Araújo e Juscelino Kubitschek, foi a construção do conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, que, por essa época, passou a ser não apenas o centro político, mas o eixo da vida do estado.

Na Secretaria da Agricultura, sob a supervisão de Israel Pinheiro, o governo criou órgãos de assistência, de ensino, de fomento e de controle, como entre outros, a Cooperativa Vinícola, em Caldas, a Feira Permanente de Amostras, a Feira Permanente de Animais, as Exposições Pecuárias, o Instituto Biológico e os entrepostos de leite e de gêneros, todos em Belo Horizonte, além do Banco Mineiro da Produção e da Companhia de Armazéns Gerais. O governo Valadares criou a Rádio Inconfidência e integrou o Triângulo Mineiro ao restante do estado, construindo a estrada Belo Horizonte-Uberaba.

A longa permanência de Valadares no poder e a sua própria maneira de ser, cautelosa e discreta, bem como o retrato que lhe pintaram os adversários políticos de homem muito inteligente, sagaz porém inculto e simplório, foram responsáveis por um dos mais ricos anedotários políticos do país. Algumas de suas famosas máximas foram incluídas por John Wirth em seu trabalho sobre Minas Gerais: “Eu não sou a favor, nem contra, muito antes pelo contrário” ou “Deixe as coisas estarem para ver como é que elas ficam” demonstram tais atributos. Segundo Veja, como falava baixo e pouco, evitando conceitos e indiscrições, ganhou fama sua sentença “Estou rouco de tanto ouvir”. Em outra frase, a ele atribuída, advertia que “a inimigo não se pede nada, nem mesmo demissão”.

Afonso Arinos de Melo Franco descreveu-o em A escalada: “Benedito Valadares, tido pelos observadores superficiais como um simples e até um primário, é, de fato, uma psicologia complicadíssima, uma inteligência viva e atilada, um líder político extremamente operoso e capaz, dentro dos quadros brasileiros. Falso tímido, na verdade combativo e tenaz, sua conduta tantas vezes imprevista e paradoxal se explica, se partirmos desta chave interpretativa invariável: Valadares não crê em nada, a não ser no poder, e no poder à maneira do Brasil, isto é, a competência para nomear, o controle da força armada e a relativa disponibilidade dos orçamentos.”

A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ao lado dos Aliados, repercutiu diretamente no processo político nacional. Por volta de 1943, já era latente a perspectiva de uma vitória aliada, criando uma atmosfera propícia à mudança de governo. E foi precisamente nesse ano que surgiu a primeira manifestação ostensiva de oposição à ditadura estado-novista: em outubro de 1943 foi divulgado o Manifesto dos mineiros, documento assinado por políticos e intelectuais do estado, reivindicando a volta do país ao regime democrático. Em suas memórias, Valadares considerou o manifesto “moderado” e revelou que não se opôs ao mesmo, o que, segundo ele, seria comprovado mais tarde, por seu esforço junto a Vargas para que restabelecesse a democracia com a convocação de eleições.

Segundo Valadares, Getúlio, entretanto, ficou contrariado com o manifesto, sobretudo por reconhecer, entre os signatários, pessoas que privavam de sua intimidade. Recomendou-lhe que pressionasse os diretores dos bancos e companhias a que pertenciam alguns desses nomes no sentido de afastá-los dos cargos. Em Belo Horizonte, Valadares falou com o presidente da Belgo-Mineira, que exonerou um dos diretores, e o mesmo ocorreu com o Banco da Lavoura, que recebeu ameaças de boicote financeiro do Banco do Brasil caso não demitisse determinado diretor. Fato mais grave foi a intervenção do governo estadual no Banco de Crédito Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais, cujos diretores também haviam assinado o documento. Segundo John Foster Dulles, a intervenção ocorreu sob a alegação de que o banco era controlado por capitalistas que residiam na França ocupada. Logo que se fizeram sentir as represálias econômicas do governo contra os signatários do manifesto, houve reações e críticas a Getúlio e a Valadares, que foi o executor da maior parte das demissões. O governador mineiro, contudo, afirmaria, em suas memórias, jamais haver demitido um só funcionário por motivos políticos. Afonso Pena Júnior foi uma dessas vozes de protesto. Telegrafou a Getúlio, condenando a “política de derribar o pau e apartar rodeio, que anda grosseiramente apregoando o infeliz delegado do governo em Minas”. Valadares, imediatamente, respondeu-lhe em linguagem desabrida, iniciando uma exaltada troca de telegramas, uma espécie de “desafio” por correspondência, que seria chamado, depois, por Afonso Pena Júnior, de “tertúlia literária”.

Segundo seu próprio relato, ao final da Segunda Guerra Mundial Valadares tentou convencer Vargas a convocar uma constituinte e restabelecer o regime democrático. Getúlio o autorizou a falar com o ministro da Justiça Alexandre Marcondes Filho, que se mostrou receptivo à idéia mas não acreditava que Getúlio concordasse. Valadares solicitou então de Getúlio que fosse permitido a Francisco Campos adaptar a Constituição de 1937 às novas condições políticas. De acordo com a idéia, Francisco Campos redigiu a proposta de reforma, mas submetida à crítica do presidente, este não a aprovou. No final de janeiro de 1945, outras vozes dissidentes somaram-se ao coro anti-Vargas, com a realização, em São Paulo, do I Congresso Brasileiro de Escritores, que pediu “completa liberdade de expressão” e exigiu um governo eleito por “sufrágio universal, direto e secreto”. No princípio de fevereiro, Virgílio de Melo Franco — que, desde o final do ano anterior, se empenhava em lançar a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência — concedeu uma entrevista a O Globo, furando a censura à imprensa. Virgílio tocou diretamente no problema das eleições, associando a sua realização à liberdade de imprensa, de reunião e de organização das forças políticas. No dia 22 do mesmo mês era publicada a histórica entrevista de José Américo de Almeida ao Correio da Manhã, carregada de críticas ao regime ditatorial. A entrevista, que causou enorme repercussão, representou, de fato, o fim da censura à imprensa. Na tarde do mesmo dia, em nova entrevista, dessa vez a O Globo, José Américo lançou publicamente a candidatura de Eduardo Gomes à presidência da República.

No dia 26 de fevereiro, Getúlio reuniu-se com os líderes gaúchos João Batista Luzardo e João Neves da Fontoura, tendo este defendido a urgência de se preparar a convocação de uma constituinte e a escolha de um candidato para concorrer com Eduardo Gomes. Dois dias depois, segundo Valadares, “premido pelas circunstâncias de ordem internacional e pelo ambiente de excitação no país”, Vargas baixou a Lei Constitucional nº 9 (Ato Adicional) prevendo eleições gerais. A data para a realização das eleições seria marcada 90 dias depois, através de decreto-lei. Sem alterar estruturalmente a Constituição outorgada de 1937, o ato provocou violentas críticas da oposição.

No dia 3 de março, segundo Valadares, o teórico estado-novista Francisco Campos fez pelo Correio da Manhã, “em linguagem acre um apelo ao patriotismo do presidente Getúlio”. De acordo com Hermes Lima, Getúlio teria exclamado ao ler a entrevista do autor da Carta de 1937: “Não pensei que meu governo estivesse tão fraco.” Francisco Campos qualificava a obra do governo no terreno das instituições políticas “como sendo a do mais absoluto niilismo”. O mês de março seria pontilhado por manifestações antiditatoriais, demonstrando que o processo de redemocratização era irreversível. Ainda neste mês, Vargas convidou o general Dutra para candidato à sucessão presidencial. Como em 1937, quando Getúlio se servira de Valadares para lançar seu candidato, o governador mineiro foi novamente incumbido dessa missão. Segundo Valadares entretanto, a ele próprio se deveu a sugestão do nome de Dutra a Vargas, a quem teria convencido da oportunidade de contrapor um outro militar à candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes.

No dia 10 desse mesmo mês, acompanhado, entre outros, do prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, o governador mineiro viajou a São Paulo com o objetivo de colher assinaturas para o manifesto em favor de Dutra. Tentava assim o retorno da política “café-com-leite”, a união de Minas com São Paulo. No entanto, o interventor paulista Fernando Costa recebeu friamente sua proposta, o mesmo ocorrendo em uma reunião com políticos paulistas no palácio dos Campos Elísios. Para coroar o insucesso da missão, Valadares foi estrondosamente vaiado no dia 12, no estádio do Pacaembu, quando foi anunciada sua presença durante uma partida de futebol. Procurou em seguida dois amigos: o cardeal de São Paulo, de origem mineira, dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, e o empresário Gastão Vidigal. No palácio Episcopal conseguiu convencer Vidigal da necessidade da candidatura Dutra para a imediata constitucionalização do país, pois Eduardo Gomes não conseguiria ser eleito com a oposição de Vargas. Vidigal seria o primeiro patrocinador de Dutra em São Paulo, articulando no dia 13 de março uma reunião a que compareceram políticos de todas as correntes, inclusive do velho Partido Republicano Paulista (PRP), e o representante do interventor com o objetivo de fortalecer a candidatura Dutra.

No dia seguinte, os jornais noticiavam, com grande destaque, a reunião política no palácio dos Campos Elísios. Estava lançada a candidatura do general Dutra em São Paulo.

De regresso a Belo Horizonte, conforme relatou em suas memórias, Valadares foi recebido com grande manifestação pública, segundo ele decorrente do exagero que haviam feito os jornais da oposição sobre a notícia da vaia. No dia 27 de março apresentou oficialmente a candidatura Dutra em Minas Gerais.

No começo de abril, as forças que se haviam aglutinado desde fevereiro em torno da candidatura Eduardo Gomes instituíram afinal o seu partido político: a União Democrática Nacional (UDN), cuja primeira convenção se realizou no dia 7. Nesse mesmo período foi criado o Partido Social Democrático (PSD), no qual se iriam congraçar políticos e lideranças ligados direta ou indiretamente ao “prestígio, patrocínio e esperanças do Estado Novo”. O PSD se organizaria fundamentalmente nos estados sob a chefia dos interventores. A narrativa da formação do PSD em Minas Gerais pelo próprio Benedito Valadares, segundo Maria do Carmo Campelo, revela claramente “como essa iniciativa de estruturação política tomada por ele com o beneplácito — senão por ordem — de Getúlio enfeixava num mesmo acontecimento a redemocratização e a preservação da máquina estadonovista”. Para o ato da fundação do PSD, a ser realizado no dia 8 de abril, quando seria indicado o nome de Eurico Dutra para concorrer às eleições presidenciais, Benedito enviou mensagem aos prefeitos para que convidassem de cinco a dez pessoas. A convenção, realizada no Estádio Benedito Valadares, elegeu a primeira comissão executiva do partido no estado: o governador mineiro foi eleito presidente, e Israel Pinheiro, vice. Foram em seguida aprovados os princípios gerais do programa do partido e homologada a candidatura Dutra à presidência da República. Em maio as eleições foram marcadas para 2 de dezembro.

No dia 17 de julho de 1945 foi instalada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a primeira convenção nacional do PSD, sob a presidência de Valadares, que fez o discurso de abertura dos trabalhos elogiando Vargas. Nereu Ramos apresentou uma moção de apoio do PSD ao presidente da República, aprovada por unanimidade. Na eleição do diretório nacional foram aclamados, por proposta de Alexandre Barbosa Lima Sobrinho, para presidente Getúlio Vargas, primeiro-vice-presidente Benedito Valadares e segundo-vice-presidente Fernando Costa. De acordo com Valadares, Getúlio “não deu a menor importância à sua eleição, pois já estava com a idéia do Partido Trabalhista Brasileiro, que ajudei a formar em Minas Gerais”. Na verdade, Valadares exerceu a presidência do PSD interinamente, já que Vargas nunca chegaria a desempenhar tais funções.

Em agosto, um grupo de seguidores de Vargas que estava organizando o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) passou a defender o adiamento das eleições presidenciais e a permanência do presidente no poder. O movimento contou com o apoio inesperado do Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), e tornou-se conhecido como “queremismo”, devido ao seu refrão: “Queremos Getúlio.” A intensificação do movimento e a posição dúbia adotada por Vargas inquietou os meios oposicionistas. Por outro lado, a candidatura Dutra começou a se esvaziar. Vargas parecia ter retirado seu apoio ao ex-ministro e os boatos da próxima deposição de Getúlio levaram Valadares a recomendar ao presidente que se mantivesse fiel ao lado de Dutra, alegando não haver outra solução.

No dia 10 de outubro foi assinado o decreto que antecipava as eleições estaduais para o dia 2 de dezembro, fazendo-as coincidir com as federais. No dia seguinte, Valadares declarou a O Globo ser favorável à medida, que, a seu ver, não traria embaraços para os partidos. A UDN entretanto protestou, considerando que a antecipação possibilitaria a interferência dos interventores nos pleitos estaduais. Um último ato de Vargas seria o estopim para sua deposição: a nomeação de seu irmão Benjamim Vargas, figura execrada nos meios políticos, para chefe de polícia do Distrito Federal em substituição a João Alberto Lins de Barros.

Na manhã de 29 de outubro, o ministro da Guerra, general Góis Monteiro, ameaçou se demitir, mas as lideranças militares não concordaram. Valadares recebeu telefonema de Dutra informando sobre o ocorrido e sua decisão de “botar a tropa na rua”. Era o rompimento com Vargas. Algumas horas antes da deposição, Valadares fez um pronunciamento pela Rádio Inconfidência em que reafirmou seu apoio à candidatura Dutra, colocando-se ao lado das forças armadas e pela redemocratização.

Deposto Vargas, foi empossado em seu lugar o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), José Linhares, que, para surpresa de Valadares, exigiu sua imediata saída do governo mineiro, com a aprovação tácita de Dutra. Valadares concordou em sair do governo e indicou para substituí-lo Ovídio de Abreu, assumindo Linhares o compromisso de fazer essa nomeação. Assinada minutos depois a nomeação foi tornada sem efeito, com a indicação para interventor em Minas do desembargador Nísio Batista de Oliveira, presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Em diversos outros estados foram também nomeados interventores as mais altas autoridades dos judiciários locais. Informado pelo general Góis Monteiro de que a decisão partira de Dutra, Valadares afinal submeteu-se, enviando instruções ao comandante da Força Policial de Minas Gerais, coronel Cândido Saraiva da Silva, para que não fosse dificultada a posse do interventor nomeado.

Após sua saída do governo mineiro, Valadares, na presidência do PSD, empenhou-se a fundo na candidatura Dutra. Os líderes pessedistas mobilizaram os antigos chefes estaduais para que estes acionassem suas poderosas máquinas eleitorais conservadas através do Estado Novo. Efetuadas as eleições na data prevista, Dutra obteve 54% da votação, com 3.251.507 votos, contra 34% atribuídos a Eduardo Gomes (2.031.341 votos). O candidato apresentado pelos comunistas, engenheiro Iedo Fiúza, obteve 10% dos votos (cerca de quinhentos mil eleitores).

 

Constituinte e deputado federal (1946-1951)

Nas mesmas eleições que deram a vitória a Dutra pela coligação PSD-PTB, Benedito Valadares foi eleito deputado por Minas Gerais à Assembléia Nacional Constituinte na legenda do PSD. Instalada em fevereiro de 1946 a Assembléia Constituinte, Fernando de Melo Viana, senador por Minas Gerais na legenda do PSD, foi escolhido seu presidente. As duas maiores bancadas estaduais eram as de São Paulo e Minas, com 37 representantes cada, sendo que mais da metade do total de representantes (173) pertenciam ao PSD.

Enquanto uma comissão era encarregada de redigir o regimento interno, o debate do plenário desviou-se das questões relativas à elaboração constitucional, concentrando-se numa intensa e infindável polêmica entre defensores e opositores do Estado Novo. Segundo Hélio Silva, “a oposição aproveitava a tribuna parlamentar, suprimida desde 1937, para revelar e criticar os aspectos mais variados da ditadura de Getúlio Vargas. Os constituintes do PSD e do PTB reagiram, defendendo as realizações do Estado Novo”.

Em março, foi constituída uma comissão constitucional encarregada de redigir o anteprojeto da nova Carta. Dos 37 membros da comissão, estabelecida com representação proporcional de todos os partidos, 19 eram do PSD, dez da UDN e dois do PTB. Cada um dos demais seis partidos tinha um representante na comissão. Como um dos elementos do partido majoritário designado membro dessa comissão, Valadares participou dos trabalhos da subcomissão de “Discriminação das rendas”. Ao lado dos deputados Artur de Sousa Costa e Aliomar Baleeiro, integrou também a comissão especial incumbida de organizar e relatar o título “Orçamento”.

A Constituição foi promulgada em 18 de setembro de 1946, sendo a Assembléia convertida em Congresso ordinário, dividido em Senado e Câmara dos Deputados. Dessa forma, os constituintes continuaram a exercer seus mandatos que se encerrariam em janeiro de 1951.

Licenciado do mandato de deputado federal para concorrer às eleições de janeiro de 1947, postulando a vaga de terceiro senador por Minas Gerais na legenda do PSD, Valadares foi derrotado, obtendo 339.875 votos contra 446.730 do candidato da coligação formada pela UDN, o Partido Republicano (PR) e o Partido Trabalhista Nacional (PTN), Artur Bernardes Filho. Nesse mesmo pleito, a UDN logrou eleger Mílton Campos governador do estado. Em conseqüência da derrota e devido ao desgaste que apresentava junto à seção mineira do partido, perdeu também a presidência do PSD, sendo substituído em fevereiro por Nereu Ramos. Em seguida reassumiu a cadeira de deputado federal na Câmara dos Deputados, participando da Comissão de Constituição e Justiça, como vice-presidente, e da Comissão de Legislação Social. Em janeiro de 1948 acompanhou a maioria da Câmara ao votar favoravelmente à cassação dos parlamentares do PCB, cujo registro fora cancelado em maio de 1947 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em 1949, na condição de prócer do PSD, participou ativamente das articulações desenvolvidas pelo seu partido para a escolha de um candidato à sucessão de Dutra. No final desse ano, na reunião do conselho nacional do PSD, colocou em debate a “fórmula mineira”: o conselho escolheria um dentre os quatro nomes já levantados — Israel Pinheiro, Ovídio de Abreu, José Francisco Bias Fortes e Carlos Luz — todos antigos colaboradores de seu governo. Em seguida, levaria o nome escolhido à apreciação de outros partidos. O nome de Cristiano Machado foi impugnado por Valadares na medida em que seria do agrado da UDN e o líder pessedista desejava impedir qualquer acordo com esse partido. A sugestão, entretanto, não foi aprovada, tentando Valadares, a partir de fevereiro do ano seguinte, indicar outros candidatos ao consenso do partido. A candidatura Israel Pinheiro, capaz de reunir getulistas e dutristas, detinha a sua preferência, mas, além desta, apresentou ele, sucessivamente, as candidaturas de Ovídio Abreu, Afonso Pena Júnior e Bias Fortes, todas sem maior sucesso.

Em março de 1950, Valadares tentou estabelecer um acordo com Ademar de Barros, líder do Partido Social Progressista (PSP). Ademar estava em entendimentos com Vargas, pretendendo apoiar a candidatura do ex-presidente em troca de um futuro apoio de Vargas às suas próprias ambições presidenciais. Em resposta à consulta de Valadares, Ademar reafirmou seu comprometimento com Getúlio, declarando que só apoiaria uma candidatura do PSD se Vargas assim o desejasse.

No final de abril duas candidaturas estavam lançadas: na legenda da UDN, a do brigadeiro Eduardo Gomes, candidato derrotado nas eleições de 1945 e que voltava à disputa eleitoral dessa vez contra Vargas, apoiado pelo PSP e, mais tarde, pelo PTB. Em meados de maio, finalmente, o PSD decidiu-se pela candidatura do mineiro Cristiano Machado, que era apoiado por Dutra. Das duas correntes que se opunham dentro do partido, a dos seguidores de Vargas, encabeçada por Nereu Ramos, e a dos partidários de Dutra, venceu esta última. Em princípios de junho, Valadares presidiu a reunião da comissão executiva do PSD mineiro, que visava a unificar o partido dando apoio irrestrito a Cristiano Machado. Em setembro, começou também a “trabalhar” a candidatura de Juscelino Kubitschek ao governo de Minas Gerais.

No pleito de outubro de 1950, Valadares reelegeu-se deputado federal ao mesmo tempo em que Vargas derrotava, por ampla vantagem, Cristiano Machado e Eduardo Comes nas eleições à presidência da República. Em Minas Gerais, o PSD reconquistou o governo, elegendo Juscelino Kubitschek.

Logo após a morte de Vargas (24/8/1954), em setembro de 1954 o presidente Café Filho recebeu uma comissão de líderes do PSD, integrada por Valadares, Lucas Nogueira Garcez, Nereu Ramos e Edgar Batista Pereira, que reivindicava o adiamento das eleições de outubro seguinte, alegando que o suicídio de Getúlio, manipulado demagogicamente, poderia levar a uma maciça votação nos candidatos petebistas. Café Filho recusou, afirmando que a função do Executivo era assegurar a realização das eleições na data marcada. Na verdade, ele não possuía força política no Congresso para sustentar medidas dessa ordem.

Realizadas as eleições, o PTB e o PSD dividiram em Minas as duas vagas para o Senado. Os trabalhistas apoiaram o pessedista Benedito Valadares e o trabalhista Lúcio Bittencourt foi apoiado pelos pessedistas, sendo ambos eleitos pela coligação PTB-PSD. A vitória do PSD em Minas Gerais foi completa, tendo o partido obtido cerca de 70% dos votos gerais, o que daria a seu governador, Juscelino Kubitschek, uma sólida base para se lançar como candidato à presidência da República. Valadares recebeu, como senador, 761.006 votos, o que superou a maior votação até então alcançada em todo o país para a Câmara Alta. Tomou posse em fevereiro de 1955.

 

No Senado

A crise político-militar de agosto de 1954 reabriu-se no ano seguinte com a campanha movida pela ala extremista da UDN contra a candidatura Kubitschek à presidência da República. Os udenistas, apoiados por setores militares representativos, batiam-se por uma candidatura única, tese endossada por Café Filho, que expressara seu temor de que a eleição do governador mineiro pudesse significar o retorno à “situação que as forças armadas fizeram ruir em 24 de agosto”. Segundo Café Filho, Valadares era contra a candidatura de Juscelino à presidência e teria afirmado, inclusive, que, com sua força política em Minas Gerais, levantaria votos para um candidato que lhe merecesse o apoio. Na verdade, por ocasião dessas articulações, Valadares, que aderira à tese do candidato único, entrou em divergência com seus correligionários, combatendo a candidatura Kubitschek. Em 19 de novembro de 1954, contudo, todos os diretórios municipais do PSD mineiro enviaram telegramas ao senador Valadares incumbindo-o de indicar o nome de Juscelino à direção nacional.

Em 10 de fevereiro do ano seguinte, em reunião realizada no gabinete do ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, ficou decidida, entretanto, a manutenção da legalidade, em qualquer circunstância, pelas forças armadas. Participaram da reunião, além de Lott, o ministro da Marinha, almirante Edmundo Jordão Amorim do Vale, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), general Canrobert Pereira da Costa, e alguns líderes do PSD, entre os quais Valadares, Armando Falcão e José Maria Alkmin. Nessa mesma data, a convenção nacional do PSD indicou Juscelino candidato do partido e foi firmada a aliança PSD-PTB, que lançou João Goulart como seu companheiro de chapa.

No dia 11 de novembro, um mês após a vitória eleitoral de Juscelino e João Goulart, o ministro da Guerra demissionário, general Lott, assumiu o controle militar do Rio de Janeiro e do país, anunciando a destituição do presidente Carlos Luz, provisoriamente instalado no cargo por motivo de doença de Café Filho. A ação era destinada, declaravam seus mentores, a assegurar a posse dos eleitos, contestada pelos setores “golpistas”. Nesse mesmo dia, a Câmara dos Deputados legitimou a iniciativa de Lott, aprovando o requerimento em favor do impedimento de Carlos Luz e de sua substituição pelo vice-presidente do Senado, Nereu Ramos. No dia 22 de novembro, após a tentativa de Café Filho de reassumir a presidência, o Congresso colocou em votação o seu impedimento. Valadares votou favoravelmente à medida, que foi aprovada, sendo confirmado Nereu Ramos no cargo.

Em 1956, Valadares integrou a delegação do Brasil à IX Sessão da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, sendo designado no ano seguinte para as comissões de Constituição e Justiça e Relações Exteriores do Senado, funções que voltaria a exercer posteriormente. Foi ainda eleito presidente da Comissão Especial do Vale do Rio Doce e integrou a Comissão de Reforma Constitucional do Senado.

Em abril de 1959, na condição de presidente em exercício do PSD, Valadares recebeu uma carta do vice-presidente Goulart pedindo-lhe o apoio do partido para a aprovação de várias emendas constitucionais e medidas legislativas de base, cujos projetos se encontravam em lenta tramitação no Congresso. Goulart condenava a dependência da economia brasileira frente aos interesses internacionais e a pressão direta de companhias estrangeiras ou de instituições por elas controladas, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Entre os projetos referidos, encontravam-se em discussão o de remessas de lucros e de retorno do capital estrangeiro, o de diretrizes e bases da educação e a Lei de Reforma Agrária, que dependia de reforma constitucional. Em junho, após o rompimento com o FMI e o afastamento do ministro da Fazenda, o governo recuou de sua política econômica, persistindo, entretanto, o impasse em torno das reformas de base.

Em 1960, Valadares foi eleito líder da bancada, função que manteria nos dois anos seguintes. Ainda nesse ano, participou novamente, a convite, da delegação brasileira à XV Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque. Em 1961 foi designado membro da Comissão de Serviço Público Civil, conservando ainda as funções que já exercia no Senado desde 1957. Já após a posse de Goulart na presidência sob o regime parlamentarista, foi reeleito senador em outubro de 1962 com 454.842 votos e desempenhou importante papel nas articulações do presidente no sentido de se antecipar o plebiscito que decidiria sobre a volta ao presidencialismo, o que ocorreu em janeiro de 1963. Ainda em 1963 foi convidado pelo presidente Goulart a acompanhá-lo, como representante do Senado, nas solenidades da coroação do papa Paulo VI.

Valadares apoiou o movimento político-militar de 31 de março de 1964, que depôs Goulart. Nesse mesmo ano tornou-se também presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, cargo para o qual seria reeleito, sucessivamente, até 1968.

Em maio de 1964 circulavam insistentes rumores sobre a cassação de Juscelino Kubitschek, candidato pessedista às eleições presidenciais que se deveriam realizar em outubro de 1965. Sua candidatura fora homologada pela convenção nacional do PSD em 19 de março de 1964, portanto, antes do movimento político-militar que depusera Goulart. A cassação de Juscelino vinha sendo defendida por representantes da chamada “linha dura” do Exército — liderada pelo general Artur da Costa e Silva, ministro da Guerra —, inconformados com a sobrevivência política do ex-presidente, e Benedito Valadares era apontado como o elemento pessedista que apoiava tal medida. No dia 9 de maio, o jornalista Carlos Castelo Branco anunciava em sua coluna do Jornal do Brasil o desmentido de Valadares a propósito da notícia de que sugerira ao general Rafael de Sousa Aguiar — outro representante da “linha dura” — a necessidade de suspensão dos direitos políticos de Juscelino. Segundo ele, ter-se-ia limitado, na conversa que tivera com aquele militar, a se manifestar favorável à tese de que “todas as candidaturas postas antes da Revolução [deviam] ser afastadas como decorrência da própria mudança das condições políticas do país”.

No final de maio, a iminência da cassação dos direitos políticos de Juscelino levou o PSD a reunir-se para discutir o problema.

Pela manhã, o presidente do partido, Amaral Peixoto — um dos mais atuantes na luta para impedir a cassação do político — encontrou-se com o presidente Castelo Branco. Logo depois, Valadares e Alkmin chegavam ao palácio da Alvorada para almoçar com o presidente. Segundo Carlos Castelo Branco, a presença de Valadares foi tomada como um dado negativo para a sorte do ex-presidente da República, “conhecida que é a opinião do senador mineiro em relação ao seu correligionário”. À tarde, Valadares, Alkmin e Amaral Peixoto compareciam à reunião, que contou também com a presença de Juscelino e Filinto Müller, entre outros.

A 3 de junho Costa e Silva formalizava o pedido de cassação de Kubitschek, provocando, ante a iminência de tal medida, numerosas tentativas para sustar o processo. No dia seguinte, o PSD distribuiu a lista de membros do diretório nacional, que subscreveram a declaração de solidariedade a Juscelino. Segundo Carlos Castelo Branco, a publicidade teve como objetivo esclarecer que Valadares não apenas comparecera, como assinara a ata de solidariedade ao ex-presidente. Na verdade, a efetivação do expurgo de Juscelino colocava o PSD num impasse político: ou o partido continuava apoiando formalmente o governo, integrando assim o bloco da maioria sob a liderança de Pedro Aleixo, ou reagia à medida, determinando uma declaração formal de independência, senão de oposição. Valadares era partidário da primeira opção.

A crise se precipitou com a iniciativa tomada por Juscelino de procurar mobilizar a opinião pública através da tribuna do Senado e conceder entrevista à imprensa, na qual reafirmava suas posições políticas. No dia 8 de junho, o ex-presidente teve cassado seu mandato senatorial e suspensos os direitos políticos por dez anos, em ato assinado por Castelo Branco. Imediatamente, o PSD se retirou do bloco parlamentar de sustentação do governo, assumindo, segundo seu presidente, Amaral Peixoto, uma posição de total independência.

No final de novembro de 1964, durante o episódio da intervenção federal em Goiás, Valadares novamente liderou uma corrente dentro do partido majoritário disposta a constituir-se no núcleo de uma operação pró-governo. Segundo Carlos Castelo Branco, enquanto Amaral Peixoto e o líder Martins Rodrigues mobilizavam o PSD para votar contra a intervenção, Valadares estava pronto “a comandar a batalha pela aprovação da intervenção e do estado de sítio”. No dia 26 de novembro, efetivada a medida, o governador Mauro Borges entregava sem resistência o governo de Goiás ao coronel interventor.

Em meados de dezembro, o jornalista Carlos Castelo Branco analisou as diferentes tendências do PSD em Minas, particularmente a liderada por Benedito Valadares, a quem chamou de “servo temeroso do poder”. No início do ano seguinte, o mesmo jornalista deu destaque a uma notícia segundo a qual Valadares estaria examinando nomes de militares, candidatos em potencial à presidência da República, que o aceitassem como companheiro de chapa. Sua preocupação com os militares foi assim explicada pelo senador: “Civil é bobagem, não toma posse.”

Em março, Valadares acompanhou o marechal Castelo Branco à inauguração da ponte da Amizade, entre o Brasil e o Paraguai. Na ocasião, a imprensa levantou a hipótese de que o senador pessedista teria examinado com o presidente o problema da sucessão governamental em Minas. Segundo Carlos Castelo Branco, a direção nacional do PSD estaria convicta de que Valadares pleiteava para si próprio o palácio da Liberdade, parecendo preocupado em afastar a candidatura de Sebastião Pais de Almeida, “seja para lisonjear, com isso, tendências notórias em certas áreas revolucionárias, seja para afastar o seu mais forte competidor, ou, pelo menos, a possibilidade de um candidato que se afirma dentro do PSD inteiramente à margem da influência valadarista”. Além do mais, ainda segundo o jornalista, o fato de Pais de Almeida ser o candidato de Juscelino bastava para que Valadares lutasse por outra solução, a que traduzisse a sua própria escolha e afirmasse o seu próprio prestígio de chefe do PSD mineiro.

Durante o mês de abril a imprensa deu relevo à intensa participação de Valadares nos acontecimentos políticos, inclusive suas sucessivas viagens com o presidente da República. Em maio, informou-se que Valadares pretendia apresentar a Castelo Branco uma lista de cinco nomes — Pedro Aleixo, Gustavo Capanema, Mauro Thibau, Celso Azevedo e Maurício Bicalho — como sugestão “para evitar a luta eleitoral em Minas”. Não havendo acordo com base nessa lista, Valadares sentir-se-ia desobrigado para apoiar a “candidatura de luta” do seu partido: Sebastião Pais de Almeida. Atribuía-se, entretanto, a Valadares a decisão de bater-se com todas as suas armas contra a indicação de Pais de Almeida ao governo do estado. Finalmente, em agosto de 1965, o TSE acolheu solicitação de líderes udenistas e negou o registro da candidatura de Pais de Almeida. O candidato pessedista tornou a ser então Israel Pinheiro, eleito governador do estado em outubro. Essa vitória, somada à do pessedista Negrão de Lima na Guanabara, provocou a edição do Ato Institucional nº 2 (AI-2) no dia 27 de outubro. Ainda em 1965, Valadares participou da delegação do Brasil à II Conferência Interamericana Extraordinária. No ano seguinte, foi representante do Senado como observador junto à Assembléia Geral da ONU.

Com a extinção dos partidos políticos determinada pelo AI-2, Valadares ingressou em 1966 na Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de apoio ao governo. No ano seguinte, além da presidência da Comissão de Relações Exteriores, foi eleito suplente das comissões de Constituição e Justiça do Distrito Federal, de Educação e Cultura e de Agricultura do Senado, atuando também posteriormente como suplente das comissões de assuntos da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC), de Finanças e de Minas e Energia. Em 1968 participou ainda dos trabalhos da Assembléia Geral da ONU. Sua indicação, durante anos seguidos, como observador brasileiro nesse fórum internacional deu margem a considerações pouco elogiosas por parte da imprensa brasileira, que não entendia por que era ele escolhido, “mesmo não sabendo uma palavra de inglês”, como observou a revista Veja.

Em 1970, seu último ano no Senado, foi eleito presidente da Comissão de Redação e titular das comissões de Ajustes Internacionais, de Legislação sobre Energia Atômica, e de Minas e Energia, continuando como suplente das comissões que integrara no ano anterior. Convencido pelo governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) a não concorrer ao Senado, desistiu de se candidatar à reeleição em novembro, passando sua cadeira a ser ocupada por Gustavo Capanema, que, ao lado de Magalhães Pinto, fora indicado pela Arena mineira. Com a derrota em que consistiu sua renúncia à candidatura, após quase 40 anos de poder, Valadares afastou-se da política, passando a viver entre sua fazenda e o apartamento do Rio de Janeiro.

Faleceu nessa cidade no dia 2 de março de 1973. De seu necrológio, feito pela revista Veja, constava uma revelação: “Para os que vêem em homens com suas habilidades o monstro da corrupção, Valadares responde com a suprema astúcia dos que só gostaram do poder: depois de 12 anos de governo e 16 de Senado, tinha dois apartamentos no Rio, 31 alqueires em Minas e alguns milhares de cruzeiros em letras de câmbio.”

Era casado com Odete Pinto Valadares, com quem teve duas filhas, uma das quais se casou com o escritor Fernando Sabino.

Ainda em vida teve seu nome dado a uma importante cidade do leste de Minas, Governador Valadares.

Publicou Espiridão (romance, 1951), A lua caiu (romance, 1962), Tempos idos e vividos (memórias, 1966) e Na esteira dos tempos (discursos parlamentares, 1966). Segundo Veja, seus adversários políticos, impossibilitados de negar os méritos de seus livros, preferiram atribuir sua autoria a escritores seus amigos, entre os quais Mário Matos e Ciro dos Anjos.

O arquivo de Benedito Valadares encontra-se depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da Fundação Getulio Vargas.

Sônia Dias

 

 

FONTES: ANDRADE, F. Relação; ARQ. DEPTO. EST. EUA; ARQ. GETÚLIO VARGAS; BANDEIRA, L. Governo; BOMENY, H. Estratégia; CAFÉ FILHO, J. Sindicato; CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Relação dos dep.; CARONE, E. Estado; CARONE, E. República nova; CASTELO BRANCO, C. Introdução; CISNEIROS, A. Parlamentares; COHN, G. Petróleo; CONSULT. MAGALHÃES, B.; Correio da Manhã (13/2/47); CORRESP. ARQ. PÚBL. MINEIRO; COSTA, M. Cronologia; Diário do Congresso Nacional; Diário de Notícias, Rio (27/5/37); DULLES, J. Getúlio; Encic. Mirador; Estado de S. Paulo (19/9/76); FRANCO, A. Escalada; FUND. GETULIO VARGAS. Cronologia da Assembléia; Grande encic. Delta; HEILBORN, M. Oligarquia; HIPÓLITO, L. Campanha; Jornal da República; LEITE, A. História; LEITE, A. Páginas; LEVINE, R. Vargas; LIMA, H. Travessia; MACEDO, N. Aspectos; Maquis; MENESES, R. Dic.; NABUCO, C. Vida; OLIVEIRA, M. História; PEIXOTO, A. Getúlio; POPPINO, R. Federal; RACHE, P. Outros; Rev. Arq. Públ. Mineiro (12/76); SENADO. Dados; SENADO. Relação; SENADO. Relação dos líderes; SILVA, G. Constituinte; SILVA, H. História; SILVA, H. 1935; SILVA, H. 1937; SOUSA, M. Estado; TORRES, J. História de Minas; VALADARES, B. Tempos; Veja (7/3/73); WIRTH, J. Minas.

 

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