BHERING, MARIO PENA

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Nome: BHERING, Mário Pena
Nome Completo: BHERING, MARIO PENA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

BHERING, Mário Pena

*pres. Eletrobrás 1967-1975 e 1985-1990.

 

Mário Pena Bhering nasceu em Belo Horizonte no dia 24 de maio de 1922, filho de José Bretas Bhering e de Maria do Carmo Pena Bhering. Seu pai trabalhou para o governo de Minas Gerais como engenheiro e administrador da Estrada de Ferro Oeste de Minas e da Rede Mineira de Viação. Seu tio, Otávio Goulart Pena, foi prefeito nomeado de Belo Horizonte de dezembro de 1932 ao final de 1933.

Estudou no Colégio Arnaldo, iniciando o curso superior na Escola de Engenharia de Belo Horizonte. Com a transferência da família para o Rio de Janeiro, prosseguiu o curso na Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Formado em 1945, viajou para os Estados Unidos, realizando curso de extensão em Milwaukee, oferecido pela Allis Chalmers, grande fabricante de equipamentos hidráulicos e elétricos. Após dois anos de estágio nos EUA, retornou ao país para trabalhar como representante da Allis Chalmers. Nessa condição, participou da concorrência de venda de equipamentos para a usina de Paulo Afonso, vencida pela Westinghouse.

Em 1950, durante a campanha de Juscelino Kubitschek para o governo mineiro, foi convidado pelo engenheiro Lucas Lopes para juntar-se ao grupo que veio a organizar as Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemig). A constituição da empresa em maio de 1952 representou um marco decisivo da intervenção do poder público estadual nas atividades de energia elétrica. Sob a presidência de Lucas Lopes, sua primeira diretoria foi composta por Mário Bhering, Mauro Thibau, John Cotrim e Pedro Laborne.

Como diretor comercial, Bhering foi responsável pelas negociações para a compra e o financiamento dos equipamentos necessários à implantação do plano estadual de eletrificação. A experiência e o conhecimento da vida americana o ajudaram bastante nos contatos com organismos financeiros sediados em Washington ou Nova Iorque durante a fase inicial de sua carreira na Cemig. Conduziu os entendimentos com o Banco Mundial e o Eximbank para a concessão dos empréstimos relacionados às usinas de Itutinga e Camargos, ambas aproveitando as águas do rio Grande, e à montagem dos sistemas de transmissão e distribuição da Cemig.

Escolhido para ocupar a vice-presidência da Cemig em 1955, teve participação destacada no esquema de financiamento externo e de fornecimento de equipamentos para a hidrelétrica de Três Marias, no alto São Francisco, e a rede de transmissão associada à usina. Ainda nessa condição, representou a empresa no ato de constituição da Central Elétrica de Furnas, em fevereiro de 1957. Principal iniciativa do presidente Juscelino Kubitschek no campo da produção de energia elétrica, Furnas foi organizada como sociedade de economia mista sob controle da União, com a participação dos governos de Minas e São Paulo e dos grupos estrangeiros Light e American & Foreign Power Company (Amforp).

Apesar do avanço da intervenção do Estado no setor de energia elétrica, o projeto de criação das Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobrás), proposto por Getúlio Vargas em 1954, permaneceu praticamente bloqueado no Congresso até o final da década. Lucas Lopes e outras personalidades influentes na administração JK endossaram manifestações de clara oposição ao projeto da Eletrobrás, como a Semana de Debates sobre Energia Elétrica, ocorrida em São Paulo, em 1956. O encontro reuniu dezenas de engenheiros, técnicos e industriais ligados ao setor, incluindo dirigentes da Cemig, como Bhering, Thibau e Cotrim.

Foi por intermédio de Bhering que a Cemig tomou conhecimento em 1961 da possibilidade de obter recursos da Organização das Nações Unidas (ONU) para o levantamento do potencial hidroenergético de Minas, tendo em vista o planejamento ordenado da expansão do sistema elétrico da empresa. Por sugestão do Banco Mundial, o levantamento acabaria abrangendo as demais bacias hidrográficas da região Sudeste, com a participação de técnicos norte-americanos e canadenses do consórcio Canambra.

Segundo depoimento de Paulo Richer, primeiro presidente da Eletrobrás, a constituição da holding em 1962 contou com a importante participação de vários assistentes da Cemig, cedidos por Bhering.

Em julho de 1965, assumiu pela primeira vez a presidência da Cemig, respondendo interinamente pelo cargo até outubro. Por indicação do governador Israel Pinheiro, foi eleito presidente efetivo no final de março de 1966, em substituição a Celso Melo de Azevedo.

Com a posse do general Artur da Costa e Silva na presidência da República em março de 1967, foi convocado para comandar a Eletrobrás no lugar de Otávio Marcondes Ferraz, sendo substituído na Cemig por João Camilo Pena. Constituída em 1962, a Eletrobrás já atuava, direta ou indiretamente, em quase todo o território nacional como holding das empresas federais de energia elétrica. As mais importantes eram Furnas e a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), destacando-se ainda as diversas subsidiárias adquiridas da Amforp em novembro de 1964.

A primeira gestão de Bhering na Eletrobrás durou oito anos, correspondendo em grande parte ao ciclo de crescimento da economia nacional conhecido como “milagre brasileiro”. Ao longo desse período, a Eletrobrás consolidou suas atividades: principal agência financeira setorial, passou a exercer de fato a coordenação do planejamento da expansão dos sistemas elétricos brasileiros e de outros trabalhos de vulto, como a unificação da freqüência no padrão de 60 hertz. O grupo Eletrobrás ampliou sua presença nos investimentos e na produção do setor, crescendo por meio da criação de novas subsidiárias, como as Centrais Elétricas do Sul do Brasil (Eletrosul) e as Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte), organizadas em 1968 e 1973, respectivamente. Por outro lado, quase todas as antigas empresas do grupo Amforp passaram do controle da holding para as concessionárias estaduais, excetuando-se apenas a companhia atuante no Espírito Santo.

A Eletrobrás também foi chamada a participar da construção da usina de Itaipu, no rio Paraná, primeiro grande empreendimento binacional do Brasil. As bases legais do projeto foram estabelecidas pelo Tratado de Itaipu, assinado em abril de 1973, após prolongadas negociações entre os governos brasileiro e paraguaio. Bhering foi um dos principais negociadores junto à Administración Nacional de Electricidad (ANDE), empresa estatal paraguaia que dividiu com a Eletrobrás a responsabilidade pela construção e operação da usina, sendo eleito em 1974 para o conselho de administração da Itaipu Binacional.

Outros marcos importantes de sua primeira gestão na presidência da Eletrobrás foram o esforço pioneiro de reconhecimento do potencial energético da Amazônia, a organização dos Grupos Coordenadores para Operação Interligada (GCOI), a criação do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) e a elaboração do plano de expansão de longo prazo dos sistemas elétricos interligados das regiões Sudeste e Sul, conhecido como Plano 90.

Em novembro de 1975, já no governo do general Ernesto Geisel, Bhering renunciou à presidência da Eletrobrás, por divergências com o ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki, relacionadas ao programa de desenvolvimento nuclear formulado pelo governo Geisel em cooperação com a República Federal da Alemanha. Firmado em junho de 1975, o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha previu a implantação de uma indústria nuclear integrada no país e a instalação de oito centrais nucleares até 1990. Cumpre ressaltar que o Plano 90 da Eletrobrás recomendara efetivamente a instalação de apenas duas usinas nucleares, além da central de Angra I, já em fase de construção.

Mário Bhering foi substituído no comando da Eletrobrás por Antônio Carlos Magalhães, que acabara de cumprir seu primeiro mandato como governador da Bahia. Entre 1977 e 1983, sob orientação do general José Costa Cavalcanti, participou da condução da obra da Itaipu Binacional, de sua política de suprimentos e dos entendimentos com o diretor geral paraguaio Enzo Debernardi. Foi delegado brasileiro nas negociações tripartites com a Argentina e o Paraguai para definição das características técnicas da hidrelétrica de Corpus e do regime hidráulico a jusante de Itaipu.

Em março de 1983, convidado pelo governador de Minas, Tancredo Neves, tornou-se presidente da Cemig pela segunda vez. Durante sua nova gestão, a empresa foi transformada em Companhia Energética de Minas Gerais. Mantida a sigla tradicional, a Cemig buscou ampliar seu leque de atividades, incorporando fontes alternativas de energia, como a gaseificação de biomassas.

A exemplo do que acontecera em 1967, deixaria a estatal mineira para exercer novamente o comando da Eletrobrás, também por indicação de Tancredo, eleito presidente da República em janeiro de 1985. Seu nome foi confirmado por José Sarney, que assumiu o governo da Nova República em virtude da doença e posterior falecimento de Tancredo.

Bhering ocupou a presidência da Eletrobrás em abril de 1985, substituindo o general José Costa Cavalcanti, e transmitindo seu cargo na Cemig a Guy Villela Pascoal. Dirigiu a holding federal ao longo do governo Sarney (1985-1990), enfrentando sérias dificuldades decorrentes do agravamento da crise econômico-financeira do país e da escassez de recursos do setor elétrico. Nesse período, o relacionamento da Eletrobrás com suas subsidiárias e sobretudo com as empresas estaduais foi marcado por conflitos de interesse cada vez mais acentuados. Bhering não conseguiu levar a bom termo o Plano de Recuperação Setorial (PRS), lançado em 1985. De todo modo, foram praticamente concluídas as hidrelétricas de Itaipu e Tucuruí, no rio Tocantins, bem como iniciada a construção da usina de Xingó, no rio São Francisco.

Bhering deu grande destaque ao tratamento das questões ambientais, incorporadas de forma sistemática nos estudos de planejamento da Eletrobrás. Foi também o principal idealizador e o primeiro presidente do Centro da Memória da Eletricidade no Brasil, criado em 1986. Nesse mesmo ano, tornou-se consultor da diretoria do grupo Tratex-Rural/Servix e membro do conselho deliberativo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Deixou a presidência da estatal em junho de 1990, no início do governo Fernando Collor de Melo, sendo substituído no cargo por José Maria Siqueira de Barros.

Em 1992, reassumiu a presidência da Memória da Eletricidade. Entre 1994 e 2006, atuou também como diretor e consultor da BFB Engenharia e Consultoria Ltda.

Faleceu em Belo Horizonte no dia 1° de setembro de 2009.

Foi casado nos EUA com Betty June Bhering, com quem teve três filhas.

A par de suas atividades no setor de energia elétrica, dedicou-se à prática artística, em especial à produção de aquarelas, tendo realizado exposições em várias cidades brasileiras. Sua obra artística foi retratada em Mário Bhering: a história da aquarela (2005), de autoria da historiadora Cristina Ávila. Sobre sua trajetória profissional, foi publicado Mário Bhering: memória do setor elétrico brasileiro (2006), organizado pelo jornalista Alexandre Falcão.

 

Paulo Brandi

 

FONTES:  CEMIG. Mário; CEMIG. Relatório anual; CENT. MEM. ELET. BRAS. & CPDOC. Mário; CENT. MEM. ELET. BRAS. Memórias; CURRIC. BIOG.; ELETROBRÁS. Relatório anual (vários anos); Globo (2/9/09);MONTEIRO, N.G. Dicionário biográfico de Minas Gerais; PRESIDENTES.

 

 

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