BORGHI, HUGO

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Nome: BORGHI, HUGO
Nome Completo: BORGHI, HUGO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

BORGHI, Hugo

* const. 1946; dep. fed.  SP 1946-1948, 1950-1951 e 1959-1967.

 

Hugo Borghi nasceu em Campinas (SP) no dia 29 de outubro de 1910, filho de Frederico Borghi e de Maria Laurenceti Borghi, sendo neto de italianos tanto por parte de pai como de mãe e fazendo parte de uma numerosa família de sete irmãos.  Seu pai enriqueceu graças aos negócios de uma grande casa comercial em Campinas, importadora de mercadorias e representante de firmas italianas.  Possuía, também, inúmeros negócios imobiliários.

Hugo Borghi realizou seus primeiros estudos no grupo escolar do Externato São João, dos padres salesianos, em sua cidade natal, passando em seguida para o Liceu de Nossa Senhora Auxiliadora, onde terminou o curso primário e o ginásio. Ainda em Campinas, fez o curso colegial no Ginásio Diocesano, viajando depois para a Itália, onde estudou economia política no Instituto Paolo Sarpi, em Veneza, prestando seus exames finais no Instituto Bocconi, em Milão.

Retornou ao Brasil poucos dias após a vitória da Revolução de 1930, radicando-se em sua cidade natal, onde começou a trabalhar na firma de seu pai.  Após um ano foi recomendado para trabalhar na Companhia Gessy, cujos donos, os Milani, além de amigos de seu pai, eram parentes da mulher de um de seus irmãos.  Entretanto, como o dono da Gessy insistisse em manter seu salário abaixo do piso normal, alegando que seu pai era um homem rico, decidiu ele abandonar o emprego, indo para a capital no início de 1932.  Em São Paulo ingressou por concurso na empresa norte-americana Goodrish Rubber Company, na qual exerceu o cargo de inspetor.

Deflagrada a Revolução Constitucionalista em 9 de julho de 1932, Borghi deixou aquela empresa e retornou a Campinas, sem saber ainda o que fazer.  Por não possuir qualquer definição política, alistou-se nas forças constitucionalistas a exemplo da maior parte da mocidade paulista da época. Tendo aprendido a pilotar em 1932, participou da revolução como aviador. Terminado o levante com a derrota das forças paulistas no início de outu-bro, ele e outros aviadores foram chamados pelo coronel Euclides de Figueiredo, um dos líderes revolucionários, o qual os advertiu de que, em virtude da intensa participação da aviação paulista na revolução,  sofreriam sistemática perseguição. Seu pai conseguiu então, através de um de seus clientes, Plínio Pompeu, concessionário dos vagões-restaurantes das companhias de estrada de ferro Noroeste do Brasil e Mogiana, que fosse admitido na cozinha de um carro-restaurante, a fim de que, disfarçado de cozinheiro, pudesse cruzar as fronteiras de São Paulo. Isso permitiu a Hugo Borghi chegar a Porto Esperança (MT), de onde seguiu rumo ao Paraguai, pois aí pretendia alistar-se na aviação militar para lutar contra a Bolívia na guerra iniciada em 1932 entre esses dois países, devido à disputa do Chaco Boreal, episódio que passou à história com o nome de Guerra do Chaco (1932-1935).  Entretanto, as condições técnicas dos aviões paraguaios não lhe deram a segurança necessária, o que o levou a desistir da idéia. Partiu em seguida para a Argentina, onde permaneceu por seis meses, retornando afinal a São Paulo.

 

                                      Ascensão econômica e social

 

Na capital paulista, Hugo Borghi abriu um escritório de corretagem com um primo, Miguel Primo Borghi, começando a comprar e a vender café, algodão e outros produtos. Pouco depois, associou-se a Ernâni Azevedo Silva, que era genro de Wallace Simonsen. Irmão do industrial Roberto Simonsen, com quem tinha negócios em comum, Wallace Simonsen era presidente do Banco Noroeste do Estado de São Paulo e tinha ligações com um importante grupo industrial. Borghi associou-se aos proprietários de uma fábrica de óleo de caroço de algodão pertencente ao grupo, datando dessa época sua ascensão econômica e social. Em 1937, dirigia a Companhia Brasileira de Óleos e Caroço de Algodão. No mesmo ano, fundou a Casa Bancária Nova América, depois chamada Banco Continental de São Paulo, do qual seria acionista e diretor até 1946. Em 1939, já se associara também a uma fábrica de tecidos e se tornara proprietário da Companhia Nacional de Anilinas.

Hugo Borghi muito se beneficiou com a conjuntura econômica resultante da Segunda Guerra Mundial, que fez oscilarem os preços do algodão. Iniciado o conflito, os preços do produto sofreram grande baixa no Brasil, primeiramente devido às restrições do consumo e, depois, aos obstáculos criados pela Inglaterra para a exportação, de modo a proteger o algodão de procedência norte-americana e com isso atrair os Estados Unidos para o seu lado na guerra contra o Eixo. O comércio com os alemães, que eram os grandes compradores do algodão brasileiro, sofreu por outro lado violento impacto com o bloqueio imposto a partir de 1940 pela Inglaterra aos navios que se destinavam à Alemanha ou dela procediam.

Foi nesse contexto que Borghi, após reunir-se com Flávio Rodrigues, presidente da Associação dos Produtores de Algodão, e com Salvador Artigas, presidente do Sindicato dos Usineiros Nacionais de Algodão, aceitou participar de uma reunião com o ministro da Fazenda, Artur de Sousa Costa. Na reunião, Borghi, Rodrigues e Artigas pleitearam medidas de proteção governamental à lavoura algodoeira então em crise. Ainda nesse encontro, Garibaldi Dantas, assessor do ministro, manifestou-se contra qualquer ajuda governamental, alegando que esse tipo de medida constituiria um fator inflacionário. Borghi argumentou que o sistema de ajuda governamental à lavoura e à comercialização do algodão vinha beneficiando a empresa estrangeira, citando como exemplo os favores recebidos pela companhia norte-americana Anderson Clayton. Propunha ele a alteração desse sistema, de modo que o produtor brasileiro fosse amparado, em lugar dos capitais e investidores estrangeiros.

A partir dessa reunião, o governo passou a amparar a lavoura algodoeira nacional, aceitando, mediante depósito de matéria-prima em armazéns gerais, adiantar 45 cruzeiros antigos pela arroba ao produtor, o que assegurava um preço superior ao vigente no mercado, que era de 22 cruzeiros. Mais tarde, o preço garantido pelo governo elevou-se a 65 cruzeiros e, pouco antes do término da guerra, alcançou 95 cruzeiros. Sabedor dos momentos em que ocorriam as elevações de preços, Borghi realizou operações que lhe renderam lucros ex-traordinários, comprando o algodão sempre na baixa e vendendo-o na alta. O próprio governo, inclusive, chegou a financiar diversas operações desse tipo. Segundo informações do próprio Borghi, quando Gastão Vidigal, que era diretor da Carteira de Exportação e Importação (Cexim) do Banco do Brasil e mantinha negócios relativos àquele produto, divulgou que o governo cancelaria o subsídio ao algodão, teve ele um sobressalto, pois a manobra anunciada significaria violenta queda nos preços num momento em que o industrial estava com grande quantidade do produto em estoque.

Quando os preços começaram a declinar, Borghi passou a comprar o algodão oferecido pelos produtores e, como tinha que depositar dinheiro na Bolsa para assegurar a operação, recorreu novamente ao ministro Artur de Sousa Costa, que desmentiu as declarações de Vidigal, esclarecendo que o governo decidira não financiar mais as atividades das empresas estrangeiras. Borghi obteve assim o adianta-mento solicitado para realizar as operações de compra, o que lhe possibilitou alcançar grandes lucros quando, em 1945, os preços do produto começaram a subir.

 

                                            O Queremismo

 

Em princípio de 1945, a crise final do Estado Novo acelerou-se com o crescimento da oposição e a organização de novos partidos. A partir da entrevista de José Américo de Almeida à imprensa, em 22 de fevereiro da-quele ano, reivindicando a redemocratização do país, o governo viu-se obrigado a efetuar seguidos recuos, concedendo na prática a liberdade de imprensa e marcando as eleições diretas para a presidência da República e a Assembléia Nacional Constituinte. Pouco depois, as convenções da União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Social Democrá-tico (PSD) oficializaram as candidaturas do brigadeiro Eduardo Gomes e do general Eurico Gaspar Dutra às eleições presidenciais.

O governo se encontrava em posição cada vez mais defensiva frente aos ataques da opo-sição, quando o ministro Sousa Costa se reuniu com Hugo Borghi para pedir-lhe apoio econômico ao regime. Borghi prontificou-se a colaborar com 20 milhões de cruzeiros antigos, como ele próprio declarou, mas o ministro sugeriu-lhe que comprasse as rádios Clube do Rio de Janeiro, Cruzeiro do Sul do Rio de Janeiro e Cruzeiro do Sul de São Paulo, que estavam à venda, e as convertesse em eficaz instrumento de defesa do governo. Borghi assim o fez imediatamente, recebendo para tanto a contribuição governamental de cinco milhões de cruzeiros antigos.

Passou então a escrever artigos e a falar pelo rádio, arrendando ainda outras emissoras e formando uma cadeia nacional de 130 estações coligadas. Mantendo o controle dessas rádios e tomando posição em defesa do regime, Borghi integrou-se ao Movimento Queremista, iniciado em junho de 1945 para defender a convocação de uma Assembléia Constituinte com Vargas no poder. Era a "Constituinte com Getúlio", fórmula política derivada do conhecido slogan "Queremos Getúlio".  Borghi colocou suas emissoras a serviço do movimento, alugou caminhões e alto-falantes e participou diretamente de inúmeros comícios. O queremismo se fortaleceu com o apoio de políticos vinculados ao nascente Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e com a adesão do Partido Comunista Brasileiro, então chamado Partido Comunista do Brasil (PCB), além de diversos sindicatos, o que colocou em sobressalto a oposição, receosa do continuísmo de Vargas. Esses fatos levaram à deposição do presidente, que se consumou através do golpe militar de 29 de outubro de 1945.

Nesse mesmo dia, sabedor do movimento militar, Borghi interrompeu um jantar em que comemorava seu aniversário e dirigiu-se em seu próprio carro ao Palácio Guanabara, disposto a defender Vargas e o governo. Após cruzar com uma série de tanques no percurso, conseguiu aproximar-se do palácio, já então cercado de metralhadoras. Ali passou toda a noite em vigília, até que, por volta das sete horas da manhã, Vargas deixou o palácio, após haver assinado o termo de renúncia, agradecendo a colaboração de todos os correligionários que ali se encontravam.  Logo em seguida, a conselho de um amigo, o delegado Amando da Fonseca, Borghi refugiou-se na chefatura de polícia, abandonando-a alguns dias depois do movimento militar porque o chefe de polícia, coronel João Alberto Lins de Barros, também renunciara.

 

                                     A campanha em favor de Dutra

 

Logo após a queda de Vargas, Borghi chegou à conclusão de que tanto as forças que integravam o movimento queremista quanto o próprio Vargas deveriam apoiar a candidatura do general Dutra à presidência da República nas eleições de 2 de dezembro de 1945. Segundo Borghi, esse apoio era fundamental para assegurar a vitória de Dutra. Conseguiu ele então, através de um general de suas relações, Anápio Gomes, um encontro com aquele militar no dia 2 de novembro, quando lhe comu-nicou seu apoio e lhe disse que, naquele mo-mento, estava sendo realizada uma reunião da cúpula militar para deportar Vargas. Dutra seguiu imediatamente para a reunião e, duas horas depois, comunicou a Borghi que, graças à sua intervenção no encontro, conseguira de seus participantes que Vargas ficasse apenas confinado em São Borja, no Rio Grande do Sul, proibido de fazer qualquer manifestação política, mas já livre da ameaça de deportação.

Borghi iniciou sua atuação redigindo imediatamente uma entrevista em que abrandava os termos, extremamente violentos, de um pronunciamento que Dutra fizera em Santa Catarina contra Vargas, ordenando ao mesmo tempo que se imprimissem milhões de cartazes para serem afixados no Rio e em São Paulo, nos quais aparecia a sombra do vulto de Vargas com os dizeres "Ele disse - vote no PTB". Borghi empenhou-se a fundo na campanha eleitoral de Dutra, cabendo-lhe inclusive a autoria da afirmação de que o brigadeiro Eduardo Gomes teria declarado não precisar do voto dos "marmiteiros". Aproveitando um discurso pronunciado por Eduardo Gomes no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no qual este declarava não necessitar dos votos da malta de desocupados que freqüentava os co-mícios de Vargas durante o Estado Novo, Borghi descobriu que o termo "malta", além de significar "bando, súcia", designava um "grupo de operários que percorrem as linhas férreas levando suas marmitas, marmiteiros".  A afirmação divulgada por Borghi de que Eduardo Gomes dispensava os votos dos marmiteiros, dos trabalhadores, alcançou grande repercussão, caracterizando o brigadeiro como figura política antipopular.

Borghi estava em plena campanha pela eleição de Dutra quando se avistou com o ex-presidente Getúlio Vargas em São Borja para pedir-lhe que se pronunciasse a favor daquele candidato. De início, Vargas reagiu contrariamente, alegando que Dutra fora um de seus traidores. A intervenção de Alzira Vargas foi, todavia, providencial, obtendo ela do ex-presidente que este desse seu apoio a Dutra.  Entretanto, Vargas impôs duas condições: primeiro que esse apoio fosse solicitado formalmente pelo PTB; e segundo, que em troca do apoio Dutra concedesse ao PTB não apenas o comando do Ministério do Trabalho, mas também o das prefeituras em que esse partido fosse o principal catalisador dos votos a serem dados a Dutra. Vargas aceitaria mais tarde a solução proposta por Borghi, de que o PTB paulista solicitasse seu apoio.

No dia 28 de novembro, Borghi participou do comício de encerramento da campanha em favor de Dutra no Rio de Janeiro, quando leu o manifesto de Vargas em que este conclamava seus correligionários a votarem em Dutra.  Logo em seguida, Borghi, que se havia candidatado na legenda do PTB ao Senado pelo Rio de Janeiro e à Assembléia Nacional Constituinte por São Paulo, foi a este estado participar de um comício por sua candidatura, ao qual compareceram cerca de 500 mil pessoas, batendo latas e marmitas. Nas eleições de 2 de dezembro, foi ele o segundo deputado mais votado de São Paulo.

Eleito, Dutra pediu a Borghi que fosse ao Rio Grande do Sul para saber de Vargas quem  ele indicaria para o Ministério do Trabalho. Borghi sugeriu então a Vargas dois nomes: Otacílio Negrão de Lima e Nélson Fernandes. Vargas escolheu o primeiro, que efetivamente foi nomeado por Dutra.

Na Assembléia, Borghi defendeu o governo deposto, votando contra a moção Mangabeira, que exaltava as forças armadas por seu papel na queda do Estado Novo.  Por outro lado, muito hostilizado em função de um inquérito em curso sobre seus negócios, viu-se forçado a defender a si próprio.

 

                                      O "escândalo do algodão"

 

Borghi foi obrigado a responder a um inquérito que havia sido instaurado por José Linhares, sucessor de Vargas na presidência da República. O novo presidente constituíra a comissão de inquérito, formada pelo almirante Oscar de Frias Coutinho, o brigadeiro Aquino Granja e o general Scarcela Portela, para proceder a averiguações sobre os negócios do algodão e o envolvimento de Borghi com o governo. Esse inquérito transcorreu em meio a uma violenta campanha contra Borghi e o governo deposto de Vargas, movida tanto na imprensa quanto no Congresso, onde o deputado Otávio Mangabeira chegou a pedir a cassação de Borghi. O inquérito concluiu por sua culpabilidade, assim como do ex-ministro da Fazenda, Artur de Sousa Costa, e do ex-diretor da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil, Sousa Melo.  Em 4 de junho de 1946, o inquérito foi encaminhado ao presidente Eurico Dutra, que o enviou ao Ministério da Justiça, onde o mesmo não teve mais andamento.

Segundo o próprio Borghi, o inquérito fazia parte de uma campanha que teria partido da UDN com o objetivo de impedir a posse de Dutra, sob a alegação de que este fora financiado por dinheiro fraudulento, uma vez que tanto Borghi como o próprio Vargas haviam apoiado sua candidatura. Ao "escândalo do algodão" somavam-se, ainda, acusações de que Borghi dera sociedade a Rui da Costa Gama, genro de Vargas, no Banco Continental de São Paulo, o que lhe teria valido o privilégio de receber os depósitos dos fundos do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários (IAPC). Segundo Afonso Henriques, mal concluído o inquérito sobre os negócios do algodão, surgiram despachos na imprensa que informavam correr na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo um processo em que Borghi era acusado de sonegar ao fisco uma soma superior a 300 milhões de cruzeiros antigos.

 

                       As eleições de 1947 e a Secretaria de Agricultura

 

Ainda em 1946, contudo, o grande prestígio de Borghi em São Paulo permitiu-lhe eleger-se presidente do diretório do PTB naquele estado. Sempre participando da Assembléia Nacional Constituinte, começou ele a preparar sua candidatura ao governo paulista nas eleições marcadas para janeiro de 1947. Encontrava porém forte resistência dos políticos petebistas, os quais, segundo Ivete Vargas, temiam que, uma vez eleito, Borghi se articulasse com Dutra e ameaçasse o controle getulista sobre a seção do PTB em São Paulo. Borghi teve ainda de enfrentar a oposição do próprio Vargas, que, através de declarações públicas, tentou esvaziá-lo politicamente. Esse processo culminou, pouco antes das eleições, no cancelamento de sua candidatura, em virtude de recurso enviado pela comissão executiva do PTB ao Tribunal Superior Eleitoral. Considerando-se boicotado por seu próprio partido, Borghi decidiu relançar sua candidatura na legenda do Partido Trabalhista Nacional (PTN). Embora sem nenhum compromisso formal, a ala petebista mais fiel à orientação getulista, liderada por Nélson Fernandes, aderiu à candidatura de Ademar de Barros, presidente do Partido Social Progressista (PSP).  Tanto Ademar quanto Borghi tentaram negociar o apoio dos comunistas, que representavam parte do eleitorado e, segundo se presumia, podiam dar a vitória a um ou a outro. Apoiado pelo PCB, Ademar venceu as eleições, somando 393.637 votos contra 340.502 de Borghi. Mário Tavares do PSD, ficou em terceiro lugar, com 289.575 votos, e Almeida Prado, da UDN, em quarto, com 93.169 votos.

Terminadas as eleições, Borghi retornou ao PTB e convocou uma convenção, em que foi novamente eleito presidente do diretório do partido em São Paulo. Todavia, a direção nacional não reconheceu a eleição e, em março de 1947, o expulsou do partido. Em conseqüência, Borghi, juntamente com outros petebistas dissidentes, ingressou no PTN, a cuja reestruturação passou a dedicar-se.

Em 1948, tendo a Constituinte se transformado em Congresso ordinário, Borghi votou na Câmara a favor da cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas. Nesse mesmo ano, ao ser nomeado por Ademar de Barros secretário de Agricultura de seu governo, afastou-se de suas funções legislativas.

Ao assumir o novo cargo, Borghi propôs a realização de um congresso rural projetado para duas etapas. Na primeira, seria promovida uma grande concentração de trabalhadores rurais no estádio do Pacaembu e, na segunda etapa, os trabalhos do congresso seriam efetivamente instalados. Seria ele constituído de representantes eleitos em cada município, num total de 1.500 lavradores, e durante os trabalhos se debateria um temário que conjugava questões técnicas, econômicas e sociais, como a da sindicalização do trabalhador rural. Entretanto, protestos feitos pela Federação das Associações Rurais de São Paulo e da Socieda-de Rural Brasileira, conjugados à pressão da UDN,  que lançara manifesto à nação em fevereiro de 1948, denunciando o "caráter subversivo" do congresso, levaram o governador paulista a recuar de sua posição, postergando sine die aquela concentração. Em princípios de março de 1948, a idéia do congresso rural foi definitivamente abandonada com o afastamento de Borghi da Secretaria de Agricultura de São Paulo.

 

                                            As eleições de 1950

 

A partir de 1948, Borghi dedicou-se intensamente às articulações partidárias, já com vistas às eleições de 1950. Havia ele assumido a presidência do diretório do PTN em São Paulo, enquanto o deputado federal Emílio Carlos respondia pela direção nacional da agremiação. Em virtude das eleições, Borghi propôs a fusão do PTN com o PTB sob a alegação de que existiam afinidades ideológicas entre os dois partidos. Sua proposta, entretanto, caiu no vazio. As eleições foram precedidas pelo acordo entre Vargas e Ademar de Barros, através do qual este último renunciou à sua candidatura à presidência da República em troca de algumas compensações, como a da escolha do vice-presidente da chapa de Vargas e a promessa de participação na composição do ministério. Esse acordo resul-tou no apoio dado pelo PTN em São Paulo a Lucas Garcez, candidato do PSP ao governo do estado. O PTN definiu-se a favor da candidatura de Vargas à presidência da República, mas lançou Hugo Borghi como seu candidato ao governo do estado. Nas eleições realizadas em 3 de outubro de 1950, Garcez foi o vencedor, com 672.863 votos, enquanto Borghi obtinha apenas 404 mil, ficando à frente do candidato udenista, Francisco Prestes Maia.

Em termos gerais, o PTN obteve resultados decepcionantes, pois conseguiu eleger apenas cinco deputados federais por São Paulo e um único por Goiás. Para as assembléias estaduais, elegeu nove deputados em São Paulo, cinco em Goiás e quatro em Minas Gerais. Nessas mesmas eleições, o PSP elegeu 13 deputados federais na bancada paulista, o PTB, nove, o PSD, sete, e a UDN, seis. Diante disso, Borghi retornou ao PTB, juntamente com alguns po-líticos do PTN, no qual, todavia, permaneceu Emílio Carlos.

Tais remanejamentos ocorreram numa época em que o PTB enfrentava violenta crise interna, resultante da ameaça de ser a sua seção paulista absorvida pelo PSP, segundo uma proposta atribuída a Ademar de Barros. Aproveitando o reingresso de Borghi e de outros políticos no PTB, a direção nacional do partido interveio na seção paulista, destituindo seu diretório e nomeando uma comissão de reestruturação presidida por Eusébio Rocha. Segundo Ivete Vargas, uma das líderes do PTB paulista, "a vinda de Borghi não acrescentou nada; não acabou a legenda do PTN, não acabou a bancada federal e a estadual do PTN". E, referindo-se à atitude da direção nacional, afirmou: "O que eles conseguiram foi arrebentar o PTB de São Paulo".

Retomando sua atividade parlamentar em 1950, Hugo Borghi cumpriu seu mandato até o fim da legislatura, em 1951.

Em 1954, a aliança entre o PTB e o PSP já se havia desfeito, tendo Ademar de Barros assumido atitudes de oposição aberta a Vargas. Após o suicídio do presidente, quando das eleições para o governo do estado, o PTB se dividiu em diversas tendências. Um primeiro grupo aderiu ao esquema interpartidário governista que havia proposto a candidatura de Prestes Maia, também apoiado pela UDN. Um segundo grupo - que, sobretudo após a morte de Vargas, se tornou majoritário dentro do partido - deu apoio à candidatura de Jânio Quadros, tendo inclusive indicado o vice-governador em sua chapa, Porfírio da Paz. Um terceiro grupo pretendia concorrer às eleições com uma candidatura própria, tendo Borghi pressionado para que o nome escolhido fosse o seu. Entretanto, a escolha recaiu sobre Vladimir Toledo Piza, que, apesar de várias insistências, se recusou a renunciar à sua candidatura, acreditando beneficiar-se da herança política deixada por Vargas. Mas as eleições de 1954 indicaram Jânio Quadros para governador do estado.  Hugo Borghi candidatou-se ao Senado por São Paulo, na chapa da coligação PSD/ Partido Social Trabalhista (PST)/ Partido Republicano Trabalhista (PRT), não obtendo êxito.

Derrotado nas eleições, Ademar de Barros iniciou sua nova escalada rumo ao poder através da candidatura à prefeitura de São Paulo em 1957. Tentando angariar o apoio do PTB, entrou em conversações com Borghi e com José Artur da Frota Moreira, apontados pela imprensa como seus possíveis companheiros de chapa. Entretanto, a direção estadual do PTB vetou esses entendimentos, empenhando-se na campanha pela candidatura janista representada por Prestes Maia. Nessas eleições, a vitória coube à chapa Ademar de Barros-Cantídio Sampaio.

 

                                     A saída do PTB e a oposição a Goulart

 

Em 1958, diante das resistências ao seu nome dentro do PTB, tanto por parte da direção nacional quanto por parte de Ivete Vargas em São Paulo, Borghi abandonou o partido e ingressou no Partido Republicano Democrático (PRD), agremiação fundada em 1945 que mantinha relações com grupos protestantes do Rio de Janeiro. Ainda em 1958, assumiu ele a presidência do PRD, sendo-lhe conferida a responsabilidade pela mudança de nome do mesmo, que se passou a chamar Partido Rural Trabalhista (PRT). Nessa legenda Hugo Borghi foi eleito deputado federal em outubro de 1958, exercendo o mandato de fevereiro de 1959 a janeiro de 1963.

Sob sua liderança, o PRT apoiou a candidatura de Henrique Teixeira Lott à presidência da República em 1960, e na crise política advinda da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, tomou o partido das forças que defendiam a posse de João Goulart. Em outubro de 1962, Borghi reelegeu-se deputado federal sempre na legenda de seu partido.

Com a radicalização política e social ocorrida em 1963, o PRT passou para a oposição ao governo João Goulart, chegando mesmo a reivindicar a intervenção militar nos quadros governamentais e apoiar o movimento político-militar de 31 de março de 1964. Durante esta legislatura, Borghi participou dos trabalhos da Câmara como membro da Comissão de Relações Exteriores, tendo integrado a missão oficial que visitou a União Soviética, Polônia e Tchecoslováquia. Embora tivesse manifestado apoio aos postulados e objetivos que inspiraram o movimento de 31 de março de 1964, na condição de líder do PRT na Câmara, no dia 26 de outubro de 1965, votou contra a cassação de mandatos e a concessão de poderes discricionários ao governo militar. Com o Ato Institucional nº 2, assinado no dia seguinte (27/10/65), o PRT, assim como os demais partidos políticos, foi extinto. Em dezembro deste ano, a Câmara negou um pedido de licença para processar Borghi como responsável pelas dificuldades financeiras enfrentadas pelo Banco Continental. Após a implantação do bipartidarismo, passou a integrar a Aliança Renovadora Nacional (Arena), agremiação de apoio ao regime militar formada em 1966, cumprindo integralmente seu mandato parlamentar até janeiro de 1967, com o término da legislatura. Depois disso, retirou-se da vida política para dedicar-se a seus negócios.

 

Tendo adquirido terras ao sul de Portugal no início da década de 1960, empreendeu nesta região negócios ligados ao turismo. Ao final desta década também desenvolveu negócios em Marrocos e na França. Viajou regularmente a estes países até 1988, quando desfez-se dos empreendimentos em terras européias e africanas, voltando a fixar residência mais permanente no Brasil. Em 1993 Borghi participou da campanha do plebiscito para a escolha da forma (república ou monarquia) e do sistema de governo (presidencialista ou parlamentarista) a ser implantado no país no dia 1º de janeiro de 1995. Engajando-se no movimento monarquista, participou ativamente do Comitê Monárquico do Rio de Janeiro. Em 21 de abril de 1993 realizou-se o plebiscito e foram vitoriosos, por larga margem de votos, a forma de governo republicana e o sistema de governo presidencialista. Totalmente afastado da vida pública, em 1995 lançou uma autobiografia narrando sua trajetória pessoal, profissional e política.

Hugo Borghi chegou a exercer, durante dois anos, a presidência da seção paulista do Partido Trabalhista Nacional (PTN), recriado em 1986.

Como homem de negócios, Borghi foi comerciante, industrial e agricultor, dedicando-se, também, à importação e à exportação.

Faleceu em São Paulo no dia 26 de dezembro de 2002.

Casado com Angelina Bebiano Vaccabi Borghi, com quem teve um filho.

 

Jorge Miguel Mayer/Marcelo Costa

 

FONTES: ARAÚJO, M. Cronologia 1943; BORGHI, H. Força; CAFÉ FILHO, J. Sindicato; CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Deputados brasileiros (1946-1967); CÂM. DEP. Deputados brasileiros. Repertórios (1947-1951, 1951-1955, 1959-1963); CÂM. DEP. Relação dos dep.; CÂM. DEP. Relação nominal; CARDOSO, F. Partidos; CARNEIRO, G. História; DULLES, J. Getúlio; Encic. Mirador; ENTREV. BIOGRAFADO; GALVÃO, F. Fechamento; Grande Encic. Delta; HIPÓLITO, L. Campanha; Jornal do Comércio, Rio (26/3/47); LEITE, A. História; LEITE, A. Páginas; MOURÃO, M. Dutra; SAMPAIO, R. Ademar; SILVA, G. Constituinte; SILVA, H. 1945; SOC. BRAS. EXPANSÃO COMERCIAL.  Quem; TRIB. SUP. ELEIT. Dados estatísticos (1954-1955).

 

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