CARLOS MARTINS PEREIRA E SOUSA

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Nome: MARTINS, Carlos
Nome Completo: CARLOS MARTINS PEREIRA E SOUSA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
MARTINS, CARLOS

MARTINS, Carlos

*diplomata; emb. Bras. EUA 1939-1948; emb. Bras. França 1948-1949.

 

Carlos Martins Pereira e Sousa nasceu em Porto Alegre no dia 4 de novembro de 1884, filho de Domingos Martins Pereira e Sousa e de Henriqueta Martins Pereira e Sousa.

Diplomou-se pela Faculdade de Direito de sua cidade natal, onde foi colega de Getúlio Vargas e João Neves da Fontoura. Posteriormente, recebeu os títulos de doutor em ciências e artes e em direito pelas universidades norte-americanas de Rutgers e Siracusa.

Em março de 1905, foi nomeado pelo presidente do Rio Grande do Sul, Antônio Augusto Borges de Medeiros, promotor público em Pelotas (RS), passando em seguida à condição de juiz distrital na mesma cidade.

Ingressou no Ministério das Relações Exteriores em novembro de 1906, tornando-se segundo-secretário da missão brasileira em Assunção. Em maio de 1908 foi nomeado para servir em Berlim, e em janeiro do ano seguinte foi designado para Viena. De setembro de 1905 a junho de 1913, Carlos Martins esteve lotado em São Petersburgo então capital do Império Russo, ausentando-se temporariamente do cargo em 1912 para efetuar uma missão diplomática em outros países da Europa.

Em março de 1914, após uma breve passagem por Roma, Carlos Martins retornou a Viena, onde foi promovido, em janeiro de 1918, a primeiro-secretário e, em seguida, a conselheiro de legação. Permaneceu nesse posto até 1921, quando foi designado para servir em Londres, em caráter provisório. Regressou ao Brasil em outubro de 1921 por um período de dois anos, reassumindo depois o posto na Inglaterra.

Em maio de 1926, casou-se em Paris com Maria Martins, que veio a se destacar como escultora, com obra reconhecida no Brasil e no exterior. Pouco depois, foi nomeado ministro residente em Quito, e dois anos mais tarde tornou-se cônsul-geral em Amsterdam. De 1929 a 1931, desenvolveu uma missão de estudos em vários países da Europa sobre assuntos referentes à imigração. Em abril de 1931, foi promovido a ministro de segunda classe e designado para Copenhague, ascendendo em agosto do ano seguinte ao posto de ministro de primeira classe. Nessa condição, participou, ainda em 1932, da Conferência de Desarmamento, realizada em Genebra.

Carlos Martins foi nomeado embaixador em Tóquio em março de 1934, sendo transferido no ano seguinte para Bruxelas, onde chefiou a representação brasileira até novembro de 1938. Em fevereiro do ano seguinte, substituiu Mário de Pimentel Brandão como embaixador nos Estados Unidos. Iniciou sua longa permanência em Washington estabelecendo contato com a missão brasileira chefiada por Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, encarregada de negociar com o governo norte-americano uma série de acordos de cooperação econômica e militar. Apesar da expectativa que cercou esses entendimentos, seus resultados práticos imediatos foram limitados. No plano militar, iniciou-se um processo de colaboração entre os dois países com o intercâmbio de visitas, ainda em 1939, dos generais George Marshall ao Brasil e Pedro Aurélio de Góis Monteiro aos Estados Unidos. No plano econômico, o acordo firmado por Aranha para o pagamento da dívida externa do país não pôde ser implementado devido à oposição dos chefes militares brasileiros, cujo descontentamento foi “bastante forte e até verbal”, conforme declarou Carlos Martins a Sumner Welles, subsecretário de Estado norte-americano. Os militares desejavam que todo o excedente de divisas estrangeiras fosse utilizado na compra de equipamentos para a modernização das forças armadas.

Em setembro de 1939, Carlos Martins chefiou a delegação brasileira à Reunião de Consulta das Repúblicas Americanas, realizada no Panamá, que declarou a neutralidade do hemisfério em relação à guerra recém-deflagrada na Europa. De volta a Washington, comunicou ao presidente Getúlio Vargas, em janeiro de 1940, o desinteresse da United States Steel Company em levar à frente o projeto de implantação de uma usina siderúrgica no Brasil. Carlos Martins iniciou entendimentos com a Ford, Bacon & Davis, mas foi logo informado da nova estratégia fixada pelo governo brasileiro, que decidiu acelerar as conversações com a empresa alemã Krupp e reorientar as negociações nos Estados Unidos no sentido de obter apenas financiamento para a criação de uma empresa nacional.

Em maio de 1940, Sumner Welles manifestou a Carlos Martins a preocupação de seu governo com o agravamento da guerra na Europa e suas conseqüências sobre a segurança do continente americano, propondo que dois oficiais dos Estados Unidos viajassem reservadamente ao Rio de Janeiro, então Distrito Federal, para negociar um acordo com os chefes militares brasileiros. Nessa ocasião, Martins reiterou o propósito do governo de Vargas de colaborar na defesa do hemisfério, mas ressaltou a necessidade de uma solução para a questão siderúrgica.

Em 11 de junho de 1940, Vargas pronunciou um discurso a bordo do encouraçado Minas Gerais em defesa do fortalecimento econômico e militar do Brasil, criticando duramente as idéias liberais e elogiando implicitamente a organização política adotada pelos países do Eixo. Dezoito dias mais tarde, em novo pronunciamento, condicionou o aprofundamento da colaboração pan-americana à ajuda econômica e militar dos Estados Unidos. Esses discursos alarmaram os norte-americanos, que se dispuseram a retomar as negociações sobre a questão siderúrgica. Carlos Martins transmitiu essas informações ao governo brasileiro em 6 de julho e participou dos entendimentos que levaram, em 24 de setembro, à concessão de um empréstimo de 20 milhões de dólares pelo Export and Import Bank (Eximbank) para a formação de uma empresa estatal brasileira. Em junho de 1941, Martins assegurou nos Estados Unidos a fabricação dos equipamentos para a usina siderúrgica brasileira, que seria instalada em Volta Redonda (RJ) e inaugurada em 1946.

Ainda no primeiro semestre de 1941, Brasil e Estados Unidos intensificaram as conversações sobre os planos de defesa militar do hemisfério, mas não chegaram a um acordo imediato sobre duas questões fundamentais: a instalação de bases aéreas e navais norte-americanas no litoral nordestino e a modernização do equipamento das forças armadas brasileiras. Os generais Eurico Gaspar Dutra (ministro da Guerra), Góis Monteiro (chefe do Estado-Maior do Exército) e outras autoridades militares eram favoráveis à manutenção da neutralidade do Brasil em relação à guerra, enquanto os Estados Unidos consideravam prioritário o envio de material bélico aos seus aliados europeus. Entretanto, as negociações prosseguiram. Em julho, o governo brasileiro concordou com a utilização de bases em seu território pelos norte-americanos em caso de agressão aos países do hemisfério. Em outubro, Carlos Martins assinou em Washington um acordo para a transferência de armamentos e munições no valor de cem milhões de dólares, nos termos da Lei de Empréstimo e Arrendamento (Lend and Lease Act), que autorizava o presidente Roosevelt a estender a ajuda militar a qualquer país cuja defesa fosse considerada vital para os Estados Unidos.

Em dezembro de 1941, após o ataque japonês à base de Pearl Harbor, no Havaí, o presidente Roosevelt pediu ao governo brasileiro, através de Carlos Martins, permissão para o envio de técnicos norte-americanos às bases de Belém, Natal e Recife. O pedido foi aceito, mas em vez de técnicos foram enviadas tropas, o que levou o chanceler Osvaldo Aranha a recomendar a Carlos Martins maior cautela em relação às solicitações de Washington. Em 28 de janeiro de 1942, o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo, e no mês seguinte submarinos alemães começaram a operar no litoral brasileiro contra navios mercantes. Vargas solicitou então urgência na entrega do material bélico prometido pelos Estados Unidos. Em março, durante os entendimentos realizados em Washington pelo ministro da Fazenda, Artur de Sousa Costa, Carlos Martins acertou com o governo norte-americano o fornecimento de canhões e guarnições de artilheiros aos navios brasileiros que navegavam na rota dos Estados Unidos.

Depois de declarar guerra ao Eixo em agosto de 1942, o Brasil se tornou progressivamente o principal aliado dos Estados Unidos na América Latina. Em abril do ano seguinte, foi formada a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que enviou seu primeiro contingente para a Itália cerca de um ano depois sob o comando do general João Batista Mascarenhas de Morais. Nesse período, a Inglaterra procurou contrabalançar a influência norte-americana na América Latina estendendo sua ajuda militar à Argentina, que se mantinha neutra em relação ao conflito mundial. Em meio ao acirramento da rivalidade entre Brasil e Argentina, Carlos Martins comunicou ao Rio de Janeiro, em janeiro de 1944, a disposição do governo norte-americano de fornecer rapidamente material para uma divisão motorizada sediada no Rio Grande do Sul. Em junho, diante dos rumores de que a Argentina se preparava para atacar o Brasil, o embaixador norte-americano Jefferson Caffery propôs a assinatura de um acordo de segurança entre seu país e o Brasil.

Em agosto de 1944, a Sociedade Amigos da América foi fechada, gerando grave crise entre Getúlio Vargas e o chanceler Osvaldo Aranha, que se demitiu de suas funções. Pouco depois, Carlos Martins retornou ao Rio de Janeiro, suscitando rumores de que o Brasil iria repudiar a política desenvolvida pelos Estados Unidos e se aproximar da Argentina. Entretanto, esta possibilidade foi afastada pelo próprio Vargas em discurso proferido no mês seguinte durante a abertura dos trabalhos da Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos. No início de 1945, quando os rumos da guerra já estavam definidos a favor dos Aliados, Vargas assumiu novos compromissos com os norte-americanos e, pressionado pela nova conjuntura internacional e pelo crescimento da oposição ao Estado Novo, adotou medidas no sentido da redemocratização do país.

Em fevereiro de 1945, Carlos Martins viajou à cidade do México como delegado brasileiro à Conferência Interamericana sobre Problemas da Guerra e da Paz. Em março, após entendimentos patrocinados pelo governo dos Estados Unidos, Martins assinou em Washington com o embaixador da União Soviética, Andrei Gromyko, o protocolo de reatamento das relações diplomáticas entre os dois países. Em junho, integrou a delegação brasileira à conferência de fundação da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em San Francisco, nos Estados Unidos, e em outubro viajou para Montreal, no Canadá, como chefe da delegação brasileira à conferência de criação da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Ainda em outubro, o governo de Washington comunicou a Carlos Martins a passagem pelo Rio de Janeiro de dois encouraçados e outras unidades navais menores, recém-desmobilizadas das operações de guerra no oceano Pacífico. Na ocasião, embaixador brasileiro lembrou ao chanceler Pedro Leão Veloso que, depois do mal-estar produzido pelas declarações do embaixador norte-americano Adolf Berle Júnior sobre as eleições presidenciais brasileiras previstas para dezembro, a visita da frota dos Estados Unidos teria “um péssimo efeito”. Com a queda de Vargas e o fim do Estado Novo em 29 de outubro, o assunto passou para segundo plano.

Em setembro de 1946, Carlos Martins foi designado representante do Brasil na Assembléia Geral da ONU. Encerrou sua missão em Washington em abril de 1948, assumindo a chefia da embaixada em Paris, onde permaneceu até novembro do ano seguinte. Em 1952, apesar de aposentado do serviço diplomático, foi enviado a Tóquio para assinar o tratado de paz entre o Brasil e o Japão.

Carlos Martins Pereira e Sousa faleceu no Rio de Janeiro no dia 18 de fevereiro de 1965.

Publicou diversas obras, como Problemas do dia (1929), Uma política de imigração (1929) e Contra a dinâmica da guerra, a técnica da paz (1930).

Paulo Brandi

 

 

FONTES: BANDEIRA, L. Presença; CONSULT. MAGALHÃES, B.; Globo (19/12/65); GUIMARÃES, A. Dic.; MACEDO, R. Efemérides; MIN. REL. EXT. Almanaque (1942); MIN. REL. EXT. Anuário (1949); SILVA, H. 1942.

 

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