Ciro Ferreira Gomes

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Nome: GOMES, Ciro
Nome Completo: Ciro Ferreira Gomes

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

GOMES, Ciro

*gov. CE 1991-1994; min. Faz. 1994; cand. Pres. Rep. 1998 e 2002; min. Integr. Nac. 2003-2006; dep. fed. CE 2007-2011

 

 

Ciro Ferreira Gomes nasceu em Pindamonhangaba (SP) no dia 15 de novembro de 1957, filho do cearense José Euclides Ferreira Gomes Filho e da paulista Maria José Ferreira Gomes.

Sua família paterna militou na política cearense desde a proclamação da República, quando seu bisavô José Euclides Ferreira Gomes se tornou prefeito de Sobral, cargo que mais tarde também seria ocupado por seu avô e seu pai. Seu irmão Cid Gomes foi deputado estadual (1991-1996), prefeito de Sobral (1997-2005), governador do Ceará por dois mandatos (2007-2015) e em 2015 foi Ministro da Educação no governo Dilma Rousseff. Ivo Gomes, outro de seus irmãos, exerceu o cargo de deputado estadual cearense por diversos mandatos. Seus tios paternos também exerceram cargos políticos: João Frederico Ferreira Gomes foi deputado estadual no Ceará. Vicente Antenor Ferreira Gomes, conhecido como Nôzinho, foi deputado estadual e prefeito do município cearense de Itapipoca. Entre os primos, Pimentel Gomes foi deputado federal (1995-1999; 2001-2002; 2003) e Tin Gomes atuou como vereador em Fortaleza e posteriormente como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Ceará.

Quando Ciro tinha três anos de idade, a família mudou-se para Sobral. Após concluir o curso secundário em uma escola pública da cidade, transferiu-se para Fortaleza e ingressou em 1976 na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (Ufce). Na faculdade, militou ativamente em um grupo denominado Habeas-Corpus, ligado à esquerda católica, mantendo — segundo seu depoimento, publicado no livro No país dos conflitos — “um certo alheamento da luta partidária”. Em 1979, ano da reabertura da União Nacional dos Estudantes (UNE), candidatou-se à vice-presidência da entidade em uma chapa social-democrata considerada pelos grupos mais radicais da entidade como de direita. Formou-se no fim desse ano.

Depois de formado, voltou a Sobral para lecionar na universidade local e advogar. Na ocasião, seu pai havia sido eleito prefeito da cidade na legenda do Partido Democrático Social (PDS) em oposição ao grupo de Virgílio Távora, um dos três principais coronéis da política cearense. Em 1982, preocupado com sua sucessão e com a preservação da herança política da família, José Euclides conseguiu incluir o nome de Ciro na lista de candidatos do PDS à Assembleia Legislativa do Ceará, mesmo tendo-se esgotado o prazo de filiação. Segundo seu próprio depoimento, Ciro aceitou a candidatura sob a condição de fazer uma campanha completamente livre para defender suas idéias, sem constrangimentos por parte do PDS. Com um discurso voltado contra as elites cearenses e defendendo o “voto camarão”, forma de protesto da oposição que induzia o eleitor a votar apenas para deputado federal e estadual, prefeito e vereador, deixando em branco os votos para senador e governador, conseguiu eleger-se. Foi o deputado mais votado em Sobral, onde obteve 11.600 votos.

Assumindo o mandato em fevereiro de 1983, pronunciou-se contra o governador eleito pelo seu próprio partido, Luís Gonzaga Mota (1983-1987), e chamou a atenção da imprensa local ao reintroduzir no Legislativo cearense o debate sobre as questões nacionais, democracia, liberdade, reforma social e “até assuntos internacionais”, o que teria sido, segundo ele, uma antiga tradição abandonada pela política cearense contemporânea. Foi nesse momento em que se deu sua aproximação com Tasso Jereissati, que presidia o Centro Industrial do Ceará (CIC) e despontava como uma moderna liderança empresarial e política no estado. Convidado pelo comitê de imprensa da Assembleia cearense para realizar uma palestra, Tasso impressionou-se com a atenção e os questionamentos de Ciro e convidou-o a participar de conversas particulares e das conferências promovidas pelo CIC.

As relações entre Ciro e Tasso estreitaram-se ao longo de 1984, durante campanha pelas eleições diretas para a presidência da República e, a seguir, durante a campanha da Aliança Democrática, cujo candidato, Tancredo Neves, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), derrotou Paulo Maluf, do PDS, no Colégio Eleitoral reunido em 15 de janeiro de 1985. Na ocasião, Ciro havia deixado o PDS e ingressado no PMDB, para onde também havia se transferido o governador Gonzaga Mota. Segundo ele, o PMDB do Ceará “não valia nada”, havendo grande insegurança quanto ao posicionamento de seus filiados em relação ao apoio a Tancredo Neves.

Após as eleições, e com a crise política aberta pela morte de Tancredo Neves antes de ser empossado, Ciro conta que passou a ser perseguido por Gonzaga Mota até que este decidiu apoiar o nome de Tasso Jereissati para seu sucessor no governo estadual. Segundo seu depoimento, após um bem-sucedido teste de popularidade em Sobral, onde organizou a primeira reunião política do candidato, foi que Tasso se decidiu a entrar na disputa pelo governo do estado como candidato do PMDB.

Nas eleições de novembro de 1986, enquanto Tasso vencia a disputa contra Adauto Bezerra, candidato do Partido da Frente Liberal (PFL), Ciro conquistou seu segundo mandato de deputado estadual. Convidado por Tasso para exercer a liderança do governo na Assembeia estadual, teve de enfrentar as reações dos parlamentares à política de enxugamento da máquina administrativa promovida pelo novo governador. Seu esforço valeu-lhe o convite de Tasso para disputar a prefeitura de Fortaleza nas eleições municipais de novembro de 1988, dando prosseguimento à estratégia de isolamento político dos coronéis e de extinção do clientelismo no Ceará.

Eleito, assumiu o governo da capital cearense em janeiro de 1989, recebendo, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, uma herança pesada da ex-prefeita Maria Luísa Fontenele, do Partido dos Trabalhadores (PT-CE), que deixou os serviços públicos paralisados e o lixo sobre as calçadas. Em apenas um ano, segundo a mesma reportagem, Ciro limpou as ruas, tapou buracos, reabriu postos de saúde, recuperou escolas e colocou em dia os salários dos 22 mil funcionários do município. No ano seguinte, obteve o melhor índice de aprovação entre os prefeitos das capitais, com 77% da avaliação de seu desempenho como ótimo/bom, segundo a Folha de S. Paulo.

Contudo, após 15 meses à frente de uma bem-sucedida administração municipal, deixou o cargo para, novamente a convite de Jereissati, candidatar-se à sua sucessão no pleito de outubro de 1990, na legenda do recém-criado Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Ao deixar a prefeitura, foi substituído pelo vice-prefeito Juraci Magalhães, do PMDB. Ainda no primeiro turno, obteve 56% dos votos. Saiu vencedor em todas as urnas de Fortaleza, sendo que em três delas contabilizou 100% dos votos válidos. Foi o único governador do PSDB eleito em 1990.

 

No governo do Ceará

Assumindo o governo em 15 de março de 1991, Ciro incentivou a criação de micro e pequenas empresas pelo interior do estado, deu continuidade ao enxugamento da máquina administrativa iniciado na gestão de Jereissati, combateu a sonegação para aumentar a arrecadação e investiu maciçamente em saúde e educação. Sua gestão transformou-o em campeão de popularidade entre os governadores, com 64% de aprovação, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em julho de 1992. Reduzindo em 1/3 os índices de mortalidade infantil no estado, por meio do programa Viva Criança, propagandeado pelo humorista cearense Renato Aragão, foi o primeiro governante latino-americano a receber, em 1993, o prêmio Maurice Paté, concedido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Para realizar esse trabalho, contou, além do engajamento da Igreja Católica e dos meios de comunicação, com um verdadeiro exército de agentes de saúde que levou assistência médica a 350 mil famílias, atingindo quase 1/3 da população cearense.

Outra obra de impacto realizada em seu governo foi a construção, com a ajuda de pequenas empreiteiras, de um canal de 115 quilômetros para levar as águas do rio Jaguaribe até a capital, numa tentativa de enfrentar os problemas ocasionados pela grande seca sofrida pelo estado em 1993.

No plano político, segundo reportagem publicada pela Carta Capital, Ciro indispôs-se com seu padrinho político no princípio de 1992, ao permitir que fiscais da Secretaria da Fazenda autuassem a empresa Grande Moinho, do grupo Jereissati, sob a acusação de contrabando de trigo. Segundo a revista, a questão foi resolvida após apresentação de documento da Receita Federal autorizando a operação, mas deixou profundas mágoas em Carlos Francisco, irmão de Tasso e administrador das empresas da família, que não se conformou com o fato “do criador Tasso não ter rompido com sua criatura”.

Apesar de ter apoiado, num primeiro momento, a candidatura de Fernando Collor de Melo, eleito presidente da República em 1989, e elogiado seus primeiros atos de governo, passou a defender sua renúncia após as denúncias de corrupção em sua administração, tornando-se alvo de ataques do governo federal, dirigidos também a Tasso Jereissati, que articulava a sustentação de uma eventual ascensão do vice-presidente da República, Itamar Franco, à presidência. Com Tasso, organizou manifestações de rua no Ceará a favor da abertura do processo de impeachment de Collor, cuja admissibilidade acabou sendo aprovada pela Câmara dos Deputados em 29 de setembro de 1992. Após a votação, Collor foi afastado da presidência e renunciou no dia 29 de dezembro, pouco antes da conclusão do processo pelo Senado. Com sua renúncia, Itamar Franco, presidente interino desde 2 de outubro, foi efetivado no cargo.

No dia seguinte, realizaram-se eleições municipais em todo o país. Nessa ocasião, Ciro sofreu duas importantes derrotas políticas: não conseguiu eleger um correligionário para a prefeitura de Fortaleza — o escolhido pelo eleitorado da capital foi seu secretário de Finanças, Antônio Cambraia, do PMDB, lançado por Juraci Magalhães —, nem para a de Sobral, onde Aldenor Façanha Júnior, do PDS, venceu Raimundo Pimentel, do PSDB.

Parlamentarista, não poupou duras críticas ao PT por ter optado pela defesa do presidencialismo, sistema de governo que seria confirmado pelo plebiscito realizado em 21 de abril de 1993, dificultando uma eventual aliança daquele partido com o PSDB nas eleições presidenciais do ano seguinte.

No início de 1994, rompeu violentamente com o ex-governador de São Paulo e então presidente do PMDB, Orestes Quércia, a quem ameaçou processar por ter chamado a ele e a seu pai, José Euclides, de ladrões, segundo noticiou a Folha de S. Paulo. Também elogiou a gestão de Fernando Henrique Cardoso à frente do Ministério da Fazenda, declarando que sua eventual candidatura à presidência da República não afetaria o sucesso do Plano Real.

Em setembro de 1994, foi surpreendido pelo convite do presidente Itamar Franco para assumir o Ministério Fazenda no lugar do embaixador Rubens Ricupero, que, por sua vez, havia substituído Fernando Henrique após a desincompatibilização deste para concorrer à presidência da República nas eleições daquele ano em uma coligação formada pelo PSDB, o PFL e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Aceito o convite, foi substituído no governo cearense pelo desembargador Francisco Adalberto Barros de Oliveira Leal, presidente do Tribunal de Justiça do estado, uma vez que seus substitutos naturais, o vice-governador Lúcio Alcântara e o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Francisco Aguiar, haviam-se afastado dos cargos para concorrer às eleições de outubro, o primeiro ao Senado e o segundo à reeleição. Deixou o governo do Ceará com o mais alto índice de aprovação – 74% – entre os governadores de 12 estados pesquisados pelo Instituto Datafolha naquele mês, tendo proporcionado ao estado um crescimento de 8% em seu produto interno bruto, assegurado 50% de sua arrecadação mensal para investimentos e zerado suas dívidas interna e externa.

Considerado um “bom comunicador” pelo presidente da República, que se identificava com seu estilo direto, contundente e impetuoso de criticar os adversários, Ciro passou a ser considerado um tucano que não ficava “em cima do muro”. Sua indicação para o Ministério da Fazenda reforçava a posição do PSDB no governo federal e garantia a continuidade do Plano Real.

 

No Ministério da Fazenda

Sua gestão à frente do Ministério da Fazenda, iniciada em 8 de setembro de 1994 foi marcada pela polêmica, característica de seu estilo. As primeiras medidas que adotou, reduzindo as alíquotas de importação de 445 produtos, e sua interferência nas negociações da greve dos petroleiros para evitar o repasse de aumentos salariais para os preços, comprometeram, segundo noticiou a Folha de S. Paulo, os acordos fechados nas câmaras setoriais entre trabalhadores, empresários e governo, além de colocá-lo em confronto com a equipe econômica que monitorava o Plano Real. Não hesitou em confrontar-se com os sindicalistas, cancelando o acordo fechado pela Petrobras com os petroleiros, que reivindicavam aumento salarial bem acima do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), jogando a categoria em uma das mais longas e tumultuadas greves de sua história.

Para preservar a continuidade do plano de estabilização econômica, também se manifestou contra a proposta de elevação do salário mínimo para cem reais. Com o objetivo de dar mais competitividade à economia, extinguiu a cobrança do PIS/Pasep e do Cofins sobre as exportações. Num esforço para acabar com a indexação na economia, criou a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que deveria substituir a Taxa de Referência (TR) nos financiamentos à produção. Para implementar a TJLP, bateu de frente com o secretário-executivo de seu ministério, Clóvis Carvalho, que, ainda segundo seu depoimento, havia engavetado o projeto. Também tiveram grande repercussão suas declarações chamando de “otários” os consumidores que pagavam ágio na compra de carros populares e de “ladrões” e “canalhas” os empresários que o cobravam, entrando em choque com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) ao classificar comoterroristas” as reações do empresariado paulista às medidas tomadas para conter o consumo.

Em novembro, viajou para Buenos Aires para discutir com o ministro da Economia argentino, Domingo Cavallo, uma ampla pauta de assuntos que incluía desde padrões de embalagens até a política automotriz, e acertar os termos finais do acordo sobre tarifas do Mercosul, que seria assinado no mês seguinte na cidade de Ouro Preto (MG).

Ainda em dezembro, pouco antes de deixar o cargo – em janeiro de 1995 Itamar Franco passaria o governo a Fernando Henrique Cardoso, vitorioso na eleição de outubro de 1994 –, criticou duramente a escolha do senador José Serra (PSDB-SP) para ministro do Planejamento do novo governo, acusando-o de ter combatido a política cambial que sustentava o Plano Real.

Em 1º de janeiro de 1995, foi substituído no Ministério da Fazenda por Pedro Malan. Em seguida, viajou para os Estados Unidos para um período de estudos na Universidade de Harvard sobre os aspectos políticos da inflação brasileira, produto, segundo declarações dadas ao jornal O Estado de S. Paulo, “dos oligocratas, corporocratas e plutocratas” que controlavam o país. Após deixar o ministério, passou a escrever aos domingos uma coluna para o Jornal do Brasil.

Em abril foi acusado pelo deputado Paulo Bernardo (PT-PR) de ter transferido para o novo governo despesas da ordem de 3,3 bilhões de reais, assumidas por Itamar Franco para fechar com saldo positivo o caixa do Tesouro Nacional, atribuiu a Serra a origem da acusação. Atacou também a decisão do governo brasileiro de impor cotas para a importação de automóveis e rever pontos do acordo do Mercosul que haviam sido decididos em sua gestão em conjunto com a mesma equipe econômica que ascendera ao poder com o presidente, criando assim um impasse nas negociações com a Argentina. Mais uma vez criticou José Serra, acusando-o de favorecer a indústria paulista ao introduzir mudanças nas regras de importação.

As críticas a Serra refletiam na verdade uma queixa maior em relação à seção paulista do PSDB. As divergências haviam começado com a disputa pela presidência do partido em 1992, quando Ciro trabalhou pela candidatura vitoriosa de Tasso Jereissati, derrotando o governador de São Paulo, Mário Covas, que apoiava o nome de Euclides Scalco (PSDB-PR). Seus atritos com Mário Covas acirraram-se quando ocupava o Ministério da Fazenda, com a explosão da crise do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), e culminaram quando Covas o processou por ter denunciado, segundo seu próprio depoimento, o tratamento privilegiado que o governo federal vinha dando ao Banespa, em detrimento de outros bancos estaduais que acabaram sendo fechados, como os do Piauí e do Rio Grande do Norte.

Em novembro de 1995, em entrevista a O Estado de S. Paulo, negou ter-se encontrado com o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), José Rainha, que fora acusado de duplo homicídio no estado do Espírito Santo em 1989, e havia apresentado como álibi sua presença no dia do crime em reunião com Ciro, então prefeito de Fortaleza.

Desgostoso menos com a política e mais com os políticos, conforme declarou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, recusou convite do governador Tasso Jereissati para concorrer novamente à prefeitura de Fortaleza nas eleições municipais de 1996, mesmo sendo seu nome o mais cotado do PSDB para ocupar o cargo, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha. Como alternativa, apresentou ao PSDB a candidatura de Maria do Socorro França, que foi derrotada por Juraci Magalhães, do PMDB. Ajudou a articular uma aliança entre o PSDB e o PT para apoiar a candidatura de seu irmão, o deputado estadual Cid Gomes (PSDB-CE), à prefeitura de Sobral, mas este também foi derrotado pelo candidato do PMDB. Na mesma ocasião, sua esposa Patrícia Gomes, ex-militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi eleita vereadora em Fortaleza na legenda do PSDB.

Sem mandato, passou a atacar a “política do Estado mínimo” praticada, segundo seu depoimento, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, e a defender um Estado forte, planejador e dirigista, capaz de fixar metas para a sociedade e de definir políticas sociais e de desenvolvimento para o país. Em artigo publicado pelo Jornal do Brasil, criticou o governo federal pela falta de “um projeto nacional comovente que mobilize a sociedade brasileira” e por ter errado “perigosamente no cronograma das reformas”. Denunciando a “cultura política da conciliação e da transação que sempre marcou o pensamento conservador brasileiro e tem surpreendentemente encontrado em nosso governo uma prática absolutamente inquietante”, criticou o presidente por estabelecer ummodelo de interlocução política desgastante por ser personalista, não institucional, simplificador de complexidades sofisticadas, tudo perdoado em começo de governo, mas de preço caríssimo se levado assim por muito tempo”.

Durante o período que passou nos Estados Unidos, começou a articular com o economista e professor de Harvard Roberto Mangabeira Unger, um dos principais ideólogos do Partido Democrático Trabalhista (PDT), a formação de um grupo voltado para a busca de novas opções políticas para a esquerda latino-americana, que incluía cientistas políticos como o mexicano Jorge Castañeda e políticos como o ex-presidente Itamar Franco, o ex-prefeito de Porto Alegre Tarso Genro (PT-RS), e o senador Pedro Simon (PMDB-RS).

 

Candidatura à presidência e ida para o PPS

Situando-se como um político de centro, em 1997 colocou-se como um eventual candidato da oposição à sucessão de Fernando Henrique Cardoso, que, com a aprovação da emenda da reeleição pelo Congresso naquele ano, poderia concorrer a um segundo mandato consecutivo nas eleições de outubro de 1998. Conforme declarou em seu livro-depoimento, assim fez porque, “se você dissesse que há 20 brasileiros que podem vir a ser presidente da República, eu acho que seria um dos 20”, desde que contasse com apoio popular.

Segundo reportagem publicada pelo Jornal do Brasil, em agosto de 1997 começou a articular com Roberto Freire, senador por Pernambuco e presidente do Partido Popular Socialista (PPS) – criado em 1992 em decorrência de divergências internas no Partido Comunista Brasileiro (PCB) – um movimento que pretendia reunir, em torno de um novo partido ou de uma coligação, setores da oposição descontentes com suas filiações partidárias originaiscomo os governadores do Paraná, Jaime Lerner, e do Espírito Santo, Vítor Buaiz, que então abandonaram o PDT e o PT para se filiar respectivamente ao Partido da Frente Liberal (PFL) e ao Partido Verde (PV). O objetivo do movimento era buscar alternativas de centro-esquerda para a coalizão de centro-direita que, segundo Ciro, passara a controlar a política nacional após a eleição de Fernando Henrique.

Percebendo a inviabilidade da criação de uma nova legenda capaz de unir a oposição, no final de setembro desligou-se do PSDB e filiou-se ao PPS. No mês seguinte foi lançado pelo PPS candidato à presidência da República. Em junho de 1998, sua candidatura foi homologada, recebendo o apoio do Partido Liberal (PL) e do Partido da Mobilização Nacional (PMN). Seus principais adversários eram o presidente Fernando Henrique e Luís Inácio Lula da Silva, candidato da coligação de esquerda comandada pelo PT e integrada ainda pelo PDT, pelo PCdoB, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e pelo PCB.

Durante a campanha, Ciro Gomes criticou a política econômica de Fernando Henrique em relação à venda do patrimônio público, à explosão das dívidas interna e externa, e à valorização artificial do real. Seu programa de governo previa a redução drástica dos juros e a adoção de um câmbio flutuante. Em relação ao candidato petista, suas críticas se dirigiram ao fato de Lula não ter vivência administrativa, por jamais ter governado. No último mês da campanha, diante da perspectiva de Fernando Henrique vencer as eleições no primeiro turno, Ciro e Lula cessaram os ataques recíprocos e buscaram aproximar-se na oposição ao presidente. Fernando Henrique foi de fato eleito no primeiro turno, com 53% dos votos, e Ciro Gomes ficou em terceiro lugar, com cerca de 10% dos votos.

O início do segundo mandato de Fernando Henrique, em janeiro de 1999, foi marcado por uma forte desvalorização do real em consequência de uma grave crise financeira iniciada na Rússia que provocou um grande movimento de fuga de capitais dos chamados países emergentes. Para evitar a saída desses recursos, o governo decidiu elevar mais uma vez a taxa de juros, que em março chegaria a 45% ao ano. Como consequência, o Brasil experimentou o maior endividamento público interno de sua história.

Em encontro com Fernando Henrique ainda em janeiro – o primeiro desde sua saída do PSDB em 1997 –, Ciro sugeriu a centralização do câmbio e o controle sobre a fuga de capitais como medidas emergenciais para a crise. Defendeu ainda que o governo procurasse os credores para negociar um alongamento do perfil da dívida. Segundo ele, as dificuldades enfrentadas pela economia brasileira residiam na política econômica “conservadora” adotada pelo governo, e apenas exigir mais sacrifícios da população para cumprir as metas de ajuste fiscal não resolveria o problema.

Ao mesmo tempo que procurava se posicionar criticamente em relação ao governo, Ciro Gomes buscou fortalecer sua aproximação com o PT e com outros setores da oposição. Durante encontro com Lula em abril de 1999, propôs a formação de um movimento suprapartidário que reunisse as diversas correntes oposicionistas em torno de um programa comum para a disputa das eleições presidenciais de 2002. Desse movimento, sairia uma candidatura única de centro-esquerda a ser escolhida em eleições primárias por todos os filiados.

A proposta seria, entretanto, recusada pela direção do PT sob o argumento de que Ciro Gomes não representava uma alternativa real ao projeto do PSDB. Segundo alguns petistas, tal recusa se baseava na posição assumida por Ciro, contra as manifestações da oposição – simbolizadas no sloganFora FHC” – que pediam a renúncia ou o impeachment de Fernando Henrique em razão do agravamento da crise econômica e do surgimento de denúncias de corrupção envolvendo o governo. Ciro qualificou as propostas comogolpistas”, sustentando que a busca de uma saída para a crise não comportava o desrespeito às instituições democráticas e ao resultado das eleições. Em mais de uma ocasião, manifestou-se também contrariamente à criação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) no Congresso Nacional para investigar atos do Executivo. Isso, entretanto, não o impediria de acusar o presidente de “omissoem relação às denúncias. Em julho de 2002, por exemplo, afirmaria: “Fernando Henrique não rouba, mas deixa roubar”, declaração que teve grande repercussão na imprensa e provocou acirrada troca de acusações entre Ciro e o palácio do Planalto.

Quando Ciro Gomes disputou a presidência da República, em 1998, o PPS contava com 506 vereadores, 32 prefeitos, um senador, três deputados federais e apenas 28 deputados estaduais. Em sua opinião, a falta de estrutura do partido em estados importantes como São Paulo teria sido uma das principais causas de sua derrota. A partir desse diagnóstico, assumiu como sua principal tarefa nos anos seguintes a construção de uma base política mais sólida e orgânica.

Segundo afirmou ao jornal Folha de S. Paulo, sua intenção era tornar o PPS um partido de massas a partir de sua organização nos municípios e, com isso, conquistar a hegemonia no campo da esquerda brasileira. O partido adotou então uma política agressiva de filiações que teve como resultado um aumento expressivo do número de filiados e de partidários com mandatos eletivos. As adesões incluíram desde socialistas e ex-tucanos até antigos partidários de Orestes Quércia e de Paulo Maluf. A estratégia deu certo: em junho de 2000, o PPS registrava cerca de dois mil vereadores, duzentos prefeitos, três senadores, 13 deputados federais e mais de 40 deputados estaduais.

Um importante teste para o partido foram as eleições municipais de outubro de 2000. Ciro esteve à frente das principais articulações feitas pela legenda durante a campanha. Além de apoiar as candidaturas do partido em vários municípios cearenses, assumiu pessoalmente a coordenação da campanha de sua ex-mulher Patrícia Gomes (PPS) para a prefeitura de Fortaleza – Ciro e Patrícia haviam se separado em 1999 e, pouco tempo depois, o ex-governador assumiu relacionamento com a atriz Patrícia Pilar.

 Além de Fortaleza, o PPS lançou candidatos próprios em mais seis capitais. No Rio de Janeiro, integrou uma coligação em apoio à candidatura de César Maia, do PTB. Em São Paulo, porém, a sigla se dividiu entre os partidários da pré-candidatura de Mangabeira Unger – apoiado por Ciro – e os favoráveis a uma aliança com a candidata Luísa Erundina, do PSB. A tese da candidatura própria sofreu forte oposição da direção estadual do partido, levando Unger a desistir da postulação. Derrotado, o filósofo anunciou seu voto na candidata do PT, Marta Suplicy; Ciro também se negou a apoiar Erundina.

O primeiro turno das eleições, em 1º de outubro, revelou o crescimento das oposições em todo o país, principalmente do PT. O PPS também avançou: de 33 prefeitos eleitos em 1996, saltou para 164; de 490 vereadores, passou a mais de 2.500. Proporcionalmente, foi a sigla que mais cresceu. Em Fortaleza, no entanto, o partido sofreu sua pior derrota. Patrícia Gomes, que também teve o apoio do governador Tasso Jereissati, liderou as pesquisas de intenção de voto durante boa parte da campanha, mas foi ultrapassada na reta final e acabou em quarto lugar. No segundo turno, em 29 de outubro, o prefeito Juraci Magalhães (PMDB), em disputa com Inácio Arruda (PCdoB), foi reeleito. No Rio, César Maia, com o apoio de Ciro Gomes, foi eleito após derrotar no segundo turno o candidato à reeleição, Luís Paulo Conde (PFL). Em São Paulo, Marta Suplicy (PT) foi a mais votada no segundo turno em disputa com Paulo Maluf (PPB).

 

Nova candidatura à presidência

Passadas as eleições municipais, o nome de Ciro Gomes estava consolidado como um dos pré-candidatos ao pleito presidencial de 2002. Apesar disso, Ciro ainda defendia a unidade das oposições no primeiro turno para enfrentar o candidato governista, chegando mesmo a declarar que estava disposto a retirar o seu nome para formar uma ampla coalizão de centro-esquerda.

Com esse objetivo, aproximou-se do presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, que vinha sugerindo a formação de uma chapa com Ciro e o governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Pela proposta de Brizola, a definição do candidato da aliançaque incluiria também o PT – seria feita no curso da campanha, cabendo àquele que reunisse as melhores condições para a disputa. A tese da candidatura única esbarrou, no entanto, na oposição dos petistas, cujo provável candidato, Luís Inácio Lula da Silva, liderava com folga as pesquisas eleitorais. Para Ciro, a candidatura isolada de Lula representava uma "ruptura voluntarista à esquerda" e estava fadada ao fracasso.

Não obstante o crescimento verificado na eleição de 2000, o PPS era ainda um partido com pouca representatividade no cenário nacional. Diante das negativas do PT e da indefinição de Itamar – que viria a apoiar Lula –, Ciro passou a buscar apoio de outras forças a fim de criar uma base de sustentação para seu projeto político.

Um primeiro passo nesse sentido foi dado, em maio de 2001, com a formalização do apoio do PTB à sua candidatura. Ainda nesse mês, num gesto interpretado como o início de uma possível aproximação com o PFL, caracterizou comolinchamento” as críticas endereçadas ao senador baiano Antônio Carlos Magalhães – seu antigo desafeto político –, após este ter sido acusado de mandar violar o painel eletrônico de votação do Senado durante sessão que aprovou a cassação do mandato do senador Luís Estevão (PMDB-DF), em 2000, época em que Magalhães ocupava a presidência da Casa. Na ocasião, Ciro afirmou que a falta do senador não foratão grave” e que havia umclima de histeria no país” a serviço do governo e “de setores da mídia” interessados emdistrair a opinião pública” dos fatos que realmente importavam à nação. Antigo aliado de Fernando Henrique Cardoso, Antônio Carlos Magalhães havia-se rebelado contra o apoio do governo à candidatura de seu adversário Jader Barbalho (PMDB-PA) na eleição para a presidência do Senado em fevereiro de 2001. Acusado de quebra de decoro parlamentar pela violação do painel, renunciaria ainda em maio ao mandato de senador.

Anunciada em fevereiro de 2002, a coligação entre PPS, PDT e PTB, batizada de Frente Trabalhista, sedimentou a candidatura de Ciro. Na época, os principais candidatos à sucessão de Fernando Henrique estavam praticamente definidos. Além do candidato do PPS, lançaram-se na disputa: Lula, pelo PT; Anthony Garotinho, pelo PSB; e José Serra, pelo PSDB. A novidade era a governadora do Maranhão Roseana Sarney (1995-2002), cuja pré-candidatura havia sido lançada pelo PFL com a intenção de disputar a indicação no campo governista. Até então, Roseana era a candidata da base do governo com maior chance de vitória, chegando a rivalizar com Lula nas pesquisas. A partir de março, entretanto, o apoio à sua candidatura cairia vertiginosamente. Uma ação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal numa empresa de sua propriedade e de seu marido, Jorge Murad, revelou uma suposta participação do casal em irregularidades na extinta Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). A divulgação do caso sepultou as pretensões da candidata. Em abril, Roseana anunciou sua desistência da corrida presidencial, responsabilizando o governo e o candidato José Serra pelas ações em sua empresa. A operação provocou o rompimento do PFL com Fernando Henrique e pôs fim à aliança do partido com os tucanos.

Durante o episódio, Ciro manifestou-se abertamente a favor de Roseana e afirmou que a operação tivera um caráter nitidamente político para favorecer José Serra. Suas declarações abriram definitivamente o caminho para um acordo com o PFL. Uma coligação formal não chegaria a se concretizar, mas Ciro recebeu o apoio de lideranças pefelistas expressivas, como o ex-senador Antônio Carlos Magalhães e o presidente do partido, Jorge Bornhausen. Roseana Sarney, no entanto, decidiu-se pelo voto em Lula, uma vez que seu principal adversário no Maranhão, Jackson Lago (PDT), era apoiado pela Frente Trabalhista. Ciro também conseguiu atrair o apoio do partido em vários estados, dividindo com Serra a preferência entre os pefelistas.

O apoio de setores do PFL à candidatura de Ciro foi duramente combatido pelo presidente do PPS, Roberto Freire, e pelas correntes mais à esquerda do partido oriundas do PCB. Segundo Freire, a participação dos liberais comprometia o caráterprogressista” da Frente Trabalhista e impunha à candidatura de Ciro um perfilconservadorincompatível com os compromissos de um candidato de centro-esquerda. Ciro defendeu-se afirmando que, “em política”, acordos contraditórios eram "humanos e normais" e que precisava viabilizar seu nome na corrida sucessória. Ainda em abril de 2002, o comando da Frente Trabalhista esvaziou as declarações de Freire e decidiu que somente Ciro Gomes teria autorização para se pronunciar sobre as negociações com o PFL.

Em junho, Ciro Gomes teve seu nome oficialmente confirmado como candidato à presidência da República pela Frente Trabalhista. Como vice, foi escolhido o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva (PTB), conhecido como Paulinho da Força. O programa de governo da Frente, cuja elaboração foi coordenada por Mangabeira Unger, assumiu o compromisso com a manutenção da estabilidade da moeda, com o "realismo fiscal" e com a abertura "criteriosa" da economia. Como medida fundamental para a “retomada do crescimento econômico”, previa a elevação da taxa de poupança interna do país por meio de uma reforma tributária que desonerasse o setor produtivo e da instituição de um regime de capitalização na Previdência Social. O sucesso dessas reformas permitiria, segundo Ciro, a elevação do salário mínimo para mil reais em um período de oito anos. A parte mais polêmica do plano era a proposta para a dívida interna, que tinha como base a concessão de juros mais elevados para os credores que concordassem com o alongamento dos prazos de pagamento.

No campo da reforma política, o programa defendia a instituição de uma "cláusula de barreira" para a representação parlamentar dos partidos, o financiamento público das campanhas eleitorais, a fidelidade partidária e, a longo prazo, a adoção do parlamentarismo. Outra sugestão polêmica era a utilização de "plebiscitos e referendos" para solucionar impasses entre o Executivo e o Legislativo. O programa também previa o fim do vestibular e do serviço militar obrigatório, a estatização da indústria de armamentos e o aumento das restrições ao comércio de armas.

Ainda em junho, os institutos eleitorais passaram a indicar um vigoroso crescimento do candidato da Frente Trabalhista. Em dois meses, Ciro praticamente dobrou seus índices de intenção de voto, passando de cerca de 15% em fins daquele mês para quase 30% no final de agosto, isolando-se em segundo lugar na disputa e ameaçando a liderança de Lula. Nesse período, os ataques à sua candidatura tornaram-se mais frequentes. As críticas mais incisivas partiram principalmente de José Serra, que explorou o fato de sua candidatura ser sustentada por antigos aliados de Fernando Collor de Melo. A associação de seu nome a Collor foi reforçada pela decisão do PPS alagoano de apoiarcontra a vontade de Ciro – a candidatura do ex-presidente ao governo de Alagoas. Serra também acusou Ciro de, como ministro da Fazenda, ter defendido a sobrevalorização do câmbio e a abertura indiscriminada da economia.

Em resposta, Ciro acusou Serra de ter “sabotado” o Plano Real e de ser o candidato do "grande capital" e "das negociatas". Sobre Lula, que em grau mais moderado também reverberava as críticas do tucano, Ciro disse que lhe faltava experiência e um projeto para dirigir o país. Além das críticas de seus adversários na corrida sucessória, Ciro Gomes teve de enfrentar uma série de denúncias veiculadas na imprensa no mês de julho envolvendo alguns de seus principais aliados. A mais importante foi dirigida ao coordenador-geral de sua campanha, deputado José Carlos Martinez (PTB-PR), acusado de manter relações financeiras com a família do ex-tesoureiro da campanha presidencial de Collor, Paulo César Farias. A divulgação do caso provocou a saída de Martinez da campanha no início de agosto, passando a coordenação a ser exercida pelo próprio Ciro. As acusações também atingiram Paulo Pereira da Silva, denunciado por irregularidades supostamente cometidas em sua gestão como presidente da Força Sindical. Ao defender Paulinho, Ciro responsabilizou o governo e a campanha de José Serra pelas denúncias, classificando comofascistas” os “métodos” de seus opositores.

O crescimento da candidatura de Ciro coincidiu com um período de exacerbação da crise econômica, provocada pela alta do dólar, a queda da bolsa de valores e a elevação do “risco-país”, índice criado pelas agências financeiras internacionais para orientar, quanto ao nível de segurança, os investimentos estrangeiros.

O “nervosismo no mercado financeiro” foi interpretado por alguns analistas como sintoma de um possível segundo turno entre Lula e o candidato do PPS. O fato foi explorado politicamente por José Serra, que adotou a estratégia de vincular a vitória da oposição ao risco de agravamento da situação econômica. Ciro reagiu às insinuações dizendo que Fernando Henrique Cardoso seria lembrado como “o homem que quebrou o Brasil”. Ao mesmo tempo, acusou Lula de ter “traído a confiança” dos eleitores com a Carta ao Povo Brasileiro, manifesto divulgado em junho de 2002 no qual o candidato petista, com o objetivo de acalmar os investidores, assumira o compromisso de respeitar os “contratos e obrigações do paísem caso de vitória.

No início de agosto, Fernando Henrique reconheceu que a economia brasileira havia chegado a um "ponto crítico" e anunciou a negociação de um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) – o terceiro de sua gestão. O acordo como o FMI foi firmado no dia 7 daquele mês e envolveu a concessão de um empréstimo de 30 bilhões de dólares para que o país pudesse saldar seus compromissos com a dívida pública internaque àquela altura, pressionada pela elevação do dólar, correspondia a mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. A negociação elevou a meta de ajuste fiscal de 3,5% do PIB, prevista no acordo anterior (de setembro de 2001), para 3,75%. Embora admitindo que o governo não tinha alternativa, Ciro qualificou o ajuste como umdesastre” e, ao contrário dos outros candidatos, recusou-se a assumir antecipadamente o cumprimento do acordo caso fosse eleito.

Após o início do programa eleitoral gratuito no rádio e na TV, as pesquisas de opinião passaram a registrar uma queda acentuada nas intenções de voto em Ciro Gomes e a subida de José Serra. No início de setembro, a diferença entre os dois candidatos, que nas últimas semanas de agosto era de 14 pontos percentuais a favor de Ciro, reduziu-se a apenas um ponto. Os levantamentos seguintes confirmaram essa tendência. Nas últimas semanas de setembro Ciro era ultrapassado por Garotinho e registrava apenas 12% dos votos válidos, segundo o Instituto Datafolha.

Para alguns de seus assessores, a queda de Ciro nas pesquisas devia-se, em parte, ao temperamento do candidato e ao tom agressivo de suas declarações contra o governo. Ao longo da campanha, Ciro protagonizou várias polêmicas com eleitores, banqueiros e jornalistas. Numa ocasião, durante um jantar com empresários em São Paulo, ao ser indagado sobre o que poderia fazer paraacalmar” os investidores, respondeu que estava se “lixando para o mercado”. Declarações desse tipo foram exaustivamente exploradas pela propaganda de Serra, que procurou vincular ao candidato a imagem de "desequilibrado" para o exercício da presidência.

Com poucas chances de vitória, alguns aliados passaram a defender que Ciro renunciasse a sua candidatura em apoio a Lula, a fim de evitar a realização de um segundo turno entre o petista e o candidato tucano. Ciro, no entanto, resistiu às pressões. Realizado o primeiro turno no dia 6 de outubro, a vitória coube a Lula, que obteve 46,44% dos votos válidos. Serra ficou em segundo lugar, com 23,19%; Garotinho em terceiro, com 17,86%; e Ciro em quarto, com 11,97%. Nessa eleição, o PPS elegeu Patrícia Gomes para o Senado e 15 deputados federais, além de dois governadores: Blairo Maggi, no Mato Grosso, e Eduardo Braga, no Amazonas.

Confirmada a realização de um segundo entre Lula e Serra, Ciro anunciou apoioirrestrito e entusiástico” à candidatura do petista. A seguir, engajou-se na campanha de Lúcio Alcântara (PSDB) ao governo do Ceará. O PPS decidira não lançar candidato ao Executivo cearense em virtude da resolução aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que proibiu os partidos coligados na eleição para presidente de formar alianças nos estados com legendas adversárias no pleito nacional. Com a “verticalização”, nome como ficou conhecida a nova regra, o PPS ficou impedido de formalizar união com o PSDB, seu tradicional aliado no estado. A saída foi, então, uma aliança informal pela qual os socialistas se comprometeram a não lançar candidato ao governo, em troca do apoio dos tucanos à candidatura de Patrícia Gomes ao Senado. Embora sua vitória fosse esperada já no primeiro turno, Lúcio Alcântara fora surpreendido na reta final pelo crescimento do candidato do PT, José Airton Cirilo. No segundo turno, em 27 de outubro, com o apoio de Ciro e Jereissati, foi eleito governador após uma disputa bastante acirrada com o petista. 

No segundo turno do pleito presidencial, Lula foi eleito com quase 53 milhões de votos, cerca de 61% dos votos válidos. Depois das eleições Ciro foi convidado por Jereissati a voltar para o PSDB, mas recusou. Cada vez mais próximo de Lula, seu caminho natural seria a participação no novo governo

 

Ministro da Integração Nacional

Lula assumiu a presidência da República no dia 1° de janeiro de 2003, e na mesma data Ciro Gomes foi empossado como ministro da Integração Nacional em substituição ao engenheiro Luciano Barbosa.

Ainda no início de sua gestão, Ciro foi designado por Lula para coordenar os projetos de revitalização da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Idealizadas pelo economista Celso Furtado em fins da década 1950, as agências haviam sido extintas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso após terem sido alvo de denúncias de fraude e corrupção envolvendo projetos sob sua responsabilidade.

Uma das promessas de campanha de Lula, a recriação dos órgãos foi utilizada pelo governo como exemplo de retomada do papel estratégico do Estado. Na proposta elaborada pelo ministério, a Sudam e a Sudene passariam a ser geridas por conselhos deliberativos formados por representantes da sociedade civil e dos governos estaduais, por trabalhadores e empresários, além de ministros de Estado e membros indicados pelas agências de crédito. Segundo Ciro, essa foi a forma encontrada parablindar” as instituições contra a corrupção. Pelo novo modelo, a obtenção dos incentivos fiscais estaria condicionada à participação dos trabalhadores nos lucros das empresas e à sustentabilidade ambiental dos projetos. Além disso, os riscos dos empreendimentos passariam a ser assumidos pelos operadores financeiros privados, que ficavam obrigados a ressarcir o Estado em caso de fraudes.

Em meados de 2003, ao anunciar a conclusão do projeto de lei que recriava as agências, Ciro advertiu que o funcionamento das duas instituições ainda dependia da aprovação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), que integrava a proposta de reforma tributária enviada pelo governo ao Congresso. Na versão original do projeto, previa-se que o fundo, constituído por recursos oriundos do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados, fosse administrado pelo governo federal por meio da Sudam e da Sudene, a quem caberia fazer o repasse aos estados.

A criação do FNDR nos moldes pretendidos pelo governo provocou a reação dos governadores, que, por meio de suas bancadas no Congresso, condicionaram a discussão da reforma à partilha da administração do fundo com os estados. A negociação do acordo garantiu ao governo a aprovação de pontos importantes da reforma tributária ainda em 2003, entre eles a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Ciro classificou o acordo do Executivo com os governadores como um "equívoco de projeções históricas". Para ele, os recursos do fundo deveriam ser utilizados em projetos estratégicos na área de infraestrutura e mantidos sob coordenação federal, evitando, com isso, que as verbas fossem direcionadas para outros fins de acordo com as conveniências locais.

Depois de quase quatro anos de tramitação, o projeto de recriação da Sudam e da Sudene seria finalmente aprovado pelo Congresso em janeiro de 2007. Na mesma ocasião, foram extintas a Agência de Desenvolvimento do Nordeste e a Agência de Desenvolvimento da Amazônia, que haviam sido criadas em 2001 em substituição às duas autarquias.

Além da revitalização da Sudam e da Sudene, Ciro coordenou uma das iniciativas mais polêmicas da gestão Lula: o projeto de transposição das águas do rio São Francisco. Com custo estimado em cerca 4,5 bilhões de reais (apenas em sua primeira etapa), o empreendimento foi considerado a obra de maior impacto do novo governo. Em linhas gerais, o projeto previa a construção de dois grandes canais de concreto, totalizando cerca de 700 quilômetros de extensão, através dos quais seria desviada parte das águas do São Francisco para irrigar regiões do semiárido nordestino afetadas pela seca. A princípio seriam captados cerca de 26m³ de água por segundo, considerando uma vazão média de 2.800 m³/s, dividida em dois grandes eixos de transposição (norte e leste). Segundo o governo, a obra beneficiaria 12 milhões de pessoas distribuídas em quatro estados: Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.

Desde o seu anúncio, o projeto causou grande controvérsia e provocou acalorados debates na imprensa, mobilizando os diversos setores da sociedade envolvidos na questão. A principal objeção à obra dizia respeito à destinação do uso da água a ser desviada. Seus críticos afirmavam que o governo pretendia utilizar a água não para consumo humano e animal, mas também em projetos de irrigação que beneficiariam prioritariamente a agroindústria e os grandes proprietérios de terra. O empreendimento foi também questionado por seu alto custo econômico e pelo fato de supostamente atender apenas a uma pequena parcela da população afetada pela seca. Outra preocupação era com o impacto ambiental que a obra poderia causar ao ecossistema da região e ao próprio rio.

As críticas partiram principalmente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), órgão composto por representantes do poder público, dos usuários dos recursos hídricos e também por entidades da sociedade civil. Criado em junho de 2001, durante o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, o CBHSF assumiu como parte de suas atribuições a participação na elaboração do plano de utilização da bacia e na definição de obras prioritárias na região. Também faziam oposição ao projeto os chamados “estados doadores”, de onde a água seria desviada para abastecer os quatro estados acima mencionados.

Em defesa do governo, Ciro alegou que o rio não seria propriamente desviado, mas sim integrado às bacias hidrográficas do Nordeste setentrional. Além disso, explicou que seria utilizada apenas uma pequena parte da água excedente que era despejada no mar. Em relação aos “estados doadores”, sustentou que as regiões beneficiadas não possuíam rios perenes, o que justificaria o transporte de água até esses locais. Sobre a viabilidade econômica do empreendimento, reconheceu que, num primeiro momento, seu financicamento seria a fundo perdido, mas que depois o projeto seria autossustentável.

Em outubro de 2004, o Comitê da Bacia do São Francisco aprovou uma resolução proibindo a utilização das águas do rio em atividades produtivas localizadas fora dos limites geográficos da baciaEm resposta, o Ministério da Integração Nacional alegou que o comitê havia extrapolado suas atribuições e que a decisão sobre o tema cabia à Agência Nacional de Águas (ANA).

Posteriormente, a ANA deliberou que a decisão por ações que transcendessem o âmbito da bacia era de responsabilidade do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), órgão de competência máxima do Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos brasileiros. A decisão da ANA, favorável ao governo, foi reforçada em janeiro de 2005 com a aprovação do projeto pelo CNRH.  As resoluções da ANA e do CNRH, assim como as ações de entidades contrárias ao projeto, dariam origem a uma longa disputa judicial, obrigando o Executivo a alterar sucessivamente o cronograma oficial das obras.

Em fins de setembro de 2005, o governo foi surpreendido pelo anúncio de que o bispo de Barra (BA), dom Luís Flávio Cappio, havia iniciado uma greve de fome em protesto contra as obras no São Francisco. Segundo Cappio, o projeto era "uma obra endereçada às grandes empreiteiras, ao agronegócio e às elites locais” e não correspondia “às necessidades do povo do semiárido". O bispo defendia ainda que o dinheiro gasto com o empreendimento fosse direcionado para pequenos projetos de convivência com a seca na região. A greve durou dez dias e foi encerrada após o governo ter-se comprometido em reabrir o diálogo sobre o empreendimento. Durante as negociações, Ciro chegou a se oferecer para intermediar um acordo, mas a iniciativa foi rechaçada pelo clérigo. Coube então ao ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, levar a proposta de Lula até o bispo.

Em novembro, Ciro debateu a transposição do São Francisco na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na ocasião, afirmou que a obra havia sido amplamente discutida com a sociedade, mas que, apesar disso, permanecia uma “brutal desinformação sobre o projeto”. Segundo ele, as críticas do bispo careciam de fundamentação. Negando que a obra serviria para beneficiar empreiteiros, garantiu que a água utilizada na transposição seria destinada exclusivamente para o consumo humano – o que indicava uma alteração no projeto original.

Objeto de intensos debates até o fim do primeiro governo Lula, a transposição do São Francisco só seria efetivamente iniciada no seu segundo mandato, mais precisamente em junho de 2007, quando Ciro Gomes havia deixado o ministério.

Contrariando as expectativas geradas quando de sua nomeação para comandar o Ministério da Integração Nacional, Ciro comportou-se de forma discreta à frente da pasta e, segundo palavras do próprio Lula, foi um de seus auxiliares maisleais”. Fora o episódio envolvendo as discussões sobre o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regionalquando chegou a ameaçar deixar o cargo –, procurou evitar declarações polêmicas em público e guardou suas objeções para as discussões internas no governo. Além disso, em várias ocasiões defendeu as ações do Executivo das críticasvindas até mesmo de alguns aliados – ao caráter conservador da política econômica adotada pelo ministro da Fazenda, Antônio Paloci. Nesse sentido, reconheceu o acerto das medidas de austeridade fiscal adotadas no início do governo para enfrentar a crise herdada da administração anterior.

Essa postura o colocou mais uma vez em rota de colisão com a direção do PPS, uma vez que o partido, embora fizesse parte da coalizão governista, vinha desde o início da gestão de Lula criticando a condução da política econômica e a falta de um projeto estratégico para o país. O distanciamento entre Ciro e o PPS ficaria evidente durante a campanha para a prefeitura de São Paulo nas eleições de outubro de 2004, quando o partido decidiu apoiar a candidatura vitoriosa de José Serra (PSDB), contrariando a intenção de Ciro de formalizar uma coligação com a candidata do PT, Marta Suplicy.

Em Fortaleza, ao contrário, o pleito foi marcado pelo fim da aliança entre os dois partidos, quando, pela primeira vez, Tasso Jereissati e Ciro Gomes apoiaram candidatos diferentes em uma disputa no Ceará. Ciro declarou voto em Inácio Arruda (PCdoB), enquanto Jereissati manifestou apoio ao candidato do PSDB, Antônio Cambraia. Realizada em dois turnos, a eleição foi, no entanto, vencida por Luiziane Lins (PT), em confronto com Moroni Torgan (PFL). 

Aproximando-se cada vez mais da oposição, o PPS anunciou em dezembro o rompimento com o governo Lula e determinou que todos os seus integrantes com cargos no Executivo deveriam deixar suas funções. Por não ter acatado a decisão do diretório nacional do partido, Ciro foi desligado oficialmente da agremiação em fevereiro de 2005. Em junho, anunciou sua filiação ao PSB.

Nesse mesmo mês, teve seu nome citado pelo deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) numa entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, na qual o parlamentar denunciou o pagamento de uma “mesadapelo governo a integrantes da base aliada no Congresso em troca da aprovação de matérias de interesse do Executivo. Segundo Jefferson, o caso havia sido relatado por ele a vários líderes governistas, incluindo Ciro Gomes. Indagado sobre a veracidade das afirmações de Jefferson, Ciro admitiu o fato, mas argumentou que não tornou público o caso porque o deputado não lhe havia apresentado provas.

O caso também atingiu um dos auxiliares mais próximos de Ciro, o então secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional, Márcio Lacerda, que teve seu nome incluído numa lista de supostos beneficiários do esquema montado pelo publicitário Marcos Valério, apontado por Jefferson como o operador financeiro do “mensalão”. Exonerado de suas funções após a revelação do escândalo, Lacerda foi, no entanto, defendido por Ciro, que afirmou acreditar em sua inocência.

Ciro Gomes deixou o Ministério da Integração Nacional em março de 2006, sendo substituído no cargo por Pedro Brito, que havia assumido a Secretaria-Executiva da pasta no lugar de Lacerda. A partir de então, seu nome passou a ser cogitado para integrar como vice a chapa que lançaria a candidatura de Lula à reeleição em outubro. A iniciativa, entretanto, sofreu resistências por parte do PT e também não agradou à direção do PSB, que desejava ver Ciro concorrendo à Câmara dos Deputados para ajudar o partido a aumentar sua representação no Congresso.

No pleito de outubro de 2006, Ciro candidatou-se a deputado federal na legenda do PSB. Deputado proporcionalmente mais votado do país, foi eleito com 667.830 votos. No Ceará, seu irmão Cid Gomes, também do PSB, foi eleito governador do estado ainda no primeiro turno. Nas eleições presidenciais, Lula foi reeleito para mais um mandato após derrotar no segundo turno o tucano Geraldo Alckmin.

 

Deputado federal do PSB

Empossado como deputado em fevereiro de 2007, Ciro participou com destaque no início da legislatura das articulações para a eleição do presidente da Câmara. A escolha gerou acirrada disputa entre os partidos integrantes da frente de coalizão formada para dar sustentação ao novo governo Lula. Ideologicamente heterogêneo e integrado por 11 legendas, o bloco não conseguiu chegar a uma candidatura de consenso, como queria Lula. Ciro apoiou, então, a candidatura do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). O PT, com o apoio do PMDB, lançou o nome de Arlindo Chinaglia (PT-SP). Um terceiro nome na disputa seria o do tucano Gustavo Fruet (PSDB-PR), apoiado pela oposição. O páreo foi vencido por Chinaglia no segundo turno, após disputa com Rebelo.

Para se contrapor à hegemonia do PT na base governista, Ciro Gomes defendeu a formação de um outro bloco composto por PSB, PDT e PCdoB. Conhecido como “bloquinho”, o grupo teve em Ciro e Aldo Rebelo dois de seus principais líderes.

Durante a campanha para as eleições municipais de outubro de 2008, Ciro foi um dos articuladores, juntamente com governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), e com o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), da aliança entre o PSB, o PT e o PSDB em apoio à candidatura de Márcio Lacerda (PSB) à prefeitura da capitalCom o aval de Lula, o acordo representou uma tentativa de aproximação com Aécio, visando à disputa presidencial de 2010. Considerado favorito, Lacerda foi surpreendido na reta final do primeiro turno pelo crescimento da candidatura de Leonardo Quintão (PMDB). A pequena diferença de votos entre os dois candidatos levou a disputa para o segundo turno, no qual Lacerda saiu vitorioso com 59,12% dos votos válidos.

Nas eleições para a prefeitura de Fortaleza, Ciro apoiou, juntamente com Tasso Jereissati, a candidatura da senadora Patrícia Sabóia (PDT). Patrícia, que passara a adotar o nome de solteira, obteve o terceiro lugar no pleito, ficando atrás de Moroni Torgan, do Partido Trabalhista Cristão, e da prefeita Luiziane Lins (PT), que foi reeleita no primeiro turno com 50,16% dos votos.

Com uma atuação parlamentar bastante discreta, Ciro Gomes foi um dos deputados mais ausentes da legislatura e não chegou a apresentar projetos de lei. Integrou, como membro titular, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara e as comissões especiais sobre crise econômico-financeira e sobre atividades de exploração e produção do pré-sal, além de ter atuado como membro do Grupo de Trabalho de Consolidação das Leis Brasileiras.  Em seus pronunciamentos procurou defender as propostas de interesse do Executivo, tendo-se destacado na defesa da prorrogação da CPMF, do Programa de Aceleração do Crescimento e da transposição do rio São Francisco.

Para as eleições de 2010, chegou a ser cogitado como candidato ao Governo de São Paulo, mas, à época, defendeu que seu partido lançasse candidatura própria à Presidência da República, a qual pretendia pleitear. O PSB, então sob a liderança de Eduardo Campos e Roberto Amaral, estipulou como meta o crescimento da legenda nos estados, e a pré-candidatura de Gomes acabou preterida, tendo optado o partido por apoiar o tento da então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, do PT, à sucessão presidencial. Apesar de ter respeitado a decisão do partido, Gomes, no entanto, não participou da campanha de Dilma, exceto pelo segundo turno e, tampouco disputou cargo eletivo naquele ano.

Na ocasião, comentou que daria um tempo nas atividades políticas e, neste período chegou inclusive a atuar como comentarista de futebol na rádio Verdes Mares AM, de Fortaleza, conhecida entre os ouvintes como “Verdinha”. Retomou àquelas atividades, no entanto, em Setembro de 2013, quando aceitou o convite de seu irmão, Cid Gomes, então Governador do Ceará, e assumiu cargo de secretário de saúde daquele estado.

Passou a adotar posição crítica aos rumos do PSB e de seu líder nacional, o governador pernambucano Eduardo Campos, em fase de rompimento com o governo federal e em meio a especulações sobre lançamento de candidatura à Presidência da República no ano seguinte. A respeito de Campos, declarou que ele “controla a burocracia [do partido] como uma capitania hereditária que ele herdou do avô [Miguel Arrais] (...) e vai afundar o PSB nisso”. Defendeu o apoio da legenda à reeleição de Dilma Rousseff e, descontente com os rumos do partido, desfiliou-se e passou a integrar o recém-fundado Partido Republicano da Ordem Social (PROS), do qual tornou-se um dos líderes.

Na transição do Governo do Estado do Ceará, deixou a secretaria em Janeiro de 2015, tendo declarado que o estado teria se aproximado de ter a melhor saúde pública do país. Ingressou no quadro de diretores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), responsável pela coordenação das obras de conclusão da ferrovia Transnordestina, que, percorrendo 1725 quilômetros, ligaria os portos de Pecém, no Ceará, e Suape, em Pernambuco, ao cerrado do Piauí. Em Agosto do mesmo ano, junto de seu irmão Cid, migrou do PROS e ingressou no Partido Democrático Trabalhista, pelo qual pleitearia candidatura ao Executivo Nacional no pleito subsequente.

De seu casamento com Patrícia Sabóia teve três filhos. Posteriormente foi casado, por 10 anos, com a atriz Patrícia Pillar, de quem separou-se em 2011. Em maio de 2015 órgãos de imprensa noticiaram que a designer Zara Castro, namorada de Ciro Gomes desde 2013, estaria grávida do quarto filho do político.

Publicou o depoimento No país dos conflitos (com a participação de Miriam Leitão, Suely Caldas, Marcelo Pontes, Geneton Moraes Neto e Ancelmo Góis, 1994), O próximo passo: uma alternativa prática ao neoliberalismo (com Roberto Mangabeira Unger, 1996) e Um desafio chamado Brasil (2002).

 

Luís Octavio de Souza/Luciana Pinheiro

 


FONTES: Carta Capital (4/94); Estado de S. Paulo (20/8, 14 e 16/12/92, 5 a 8/9, 21/10 e 14 e 19/11/94, 18, 19 e 28/9 e 9/11/95, 15/6, 30/7, 23/8 e 29/9/98); Folha de S. Paulo (23/7, 2 e 20/8 e 14/12/93, 7/2, 5, 6, 7, 9 e 17/9, 22/10 e 4/12/94, 23/6 e 28/9/95, 30/7 e 2/8/96, 21 e 24/1, 14 e 19/4, 26 e 28/6, 1, 29 e 31/8, 21, 22 e 27/9, 17/10 e 1/11/99, 3/4, 16/5, 21, 23, 25 e 29/6, 11, 17, 26, 27 e 30/7, 20/9, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 30/10/00, 21/3, 2/4, 24 e 27/5, 17/6, 18/7, 9, 10, 21 e 29/8, 23 e 26/9, 1 e 23/11 e 19/12/01, 13/1, 22 e 28/2, 5, 13 e 20/3, 4, 6, 7, 10, 12, 14, 17 e 19/4, 4 e 10/5, 1, 6, 7, 19, 21, 26 e 29/6, 9, 10, 13, 14 e 16, 17, 20, 21, 23, 24, 25, 27, 28 e 29/7, 1, 2, 3, 9, 10, 15, 16, 18, 20, 28 e 29/8, 1, 9, 19, 22, 23, 27, 28 e 29/9, 1, 3, 6, 7, 8, 9, 10, 25 e 28/10/02, 3, 5 e 11/1, 4/3, 27/5, 28/6, 24 e 29/7, 21 e 22/8, 9 e 19/9/03, 21/4, 15 e 27/6, 2/7, 1/ e 2/9, 6 e 31/10 e 12/12/04, 2/2, 30/4, 5/5, 2, 7 e 29/6, 19/7, 2, 3, 4, e 27/8, 20/9, 4, 5, 6, 7, 8, 11, 14, 16 e 25/10/05, 31/3, 1/4, 14/5, 21 e 22/6, 2 e 3/10 e 2/12/06, 24/1, 2 e 3/2, 22/9 e 18/12/07, 15/2, 2 e 27/3, 27/4, 25/6, 5, 6 e 7/10/08, 21/6, 17, 18 e 19/8, 2, 7, 21 e 25/9, 2, 6 e 21/10/09); Globo (23/7/92, 5/3/93, 25/3, 5 e 6/9, 22/10, 3, 9 e 20/11 e 15/12/94, 12/8/97, 3, 4, 5, 6 e 7/10/00, 1, 3, 6 e 7/10/02, 6 e 31/10/04, 3/10 e 2/12/06, 5, 6 e 7/10/08); INF. BIOG.; Jornal do Brasil (22/8 e 6/10/92, 7 e 23/3 e 3/12/93, 19/2, 1/3, 16/4, 5, 6, 8 e 14/9, 19/11 e 12/12/94, 2 e 14/1, 23/2 e 13/6/96); Veja (3/10/90, 28/8/91, 12/2/92, 30/5 e 21/11/01, 10/7, 21 e 28/8, 18/9, 9 e 30/10/02).

Portal da Câmara dos Deputados. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/>. Acesso em 29/08/2015; Portal G1 de Notícias. Disponível em: <http://www.g1.globo.com/noticias/>. Acesso em 29/08/2015; Portal do jornal O Estado de São Paulo. Disponível em: http://www.politica.estadao.com.br/>. Acesso em 29/08/2015; Portal do jornal O Globo. Disponível em: http://www.oglobo.globo.com.br/. Acesso em 29/08/2015; Portal do Partido Socialista Brasileiro. Disponível em: <http://www.psb40.org.br/>. Acesso em 29/08/2015; Portal do Partido Republicano da Ordem Social. Disponível em: <http://www.pros.org.br/>. Acesso em 29/08/2015; Portal da revista Veja. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/tag/ciro-gomes/>. Acesso em 29/08/2015; Portal da Tribuna do Ceará. Disponível em: http://tribunadoceara.uol.com.br/>. Acesso em 29/08/2015; Portal do Tribunal Superior Eleitoral. Disponível em: <http://www.tse.jus.br/>. Acesso em 29/08/2015.

 

 


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