Cláudio Abramo

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Nome: ABRAMO, Cláudio
Nome Completo: Cláudio Abramo

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

ABRAMO, Cláudio

*jornalista.

 

Cláudio Abramo nasceu na cidade de São Paulo no dia 6 de abril de 1923, filho mais novo de Vicente Abramo e de Iole Scarmagnan.

As posições políticas de sua família, que incluía anarquistas e trotskistas, tornaram-na alvo da repressão política do Estado Novo e levaram-na até mesmo a se dispersar, para só voltar a se reunir no fim da ditadura Vargas, em meados da década de 1940. Esse clima tumultuado prejudicou Abramo, que não freqüentou a escola com regularidade: cursou apenas o grupo escolar e fez um curso secundário bastante precário, que abandonou sem terminar. Prestou depois exame de madureza e obteve o diploma ginasial. Segundo ele próprio, sua formação se deveu a uma casa culta, à leitura dos clássicos e à amizade com Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Oswald de Andrade, Lívio Xavier e Mário Pedrosa, entre outros.

Após pequenos empregos como office-boy, teve sua primeira experiência profissional no jornalismo quando, apresentado por Orígenes Lessa, amigo de seu irmão Fúlvio, na época exilado na Bolívia, trabalhou por cerca de um ano na agência de publicidade Arco, em São Paulo. Empregou-se depois na agência de notícias Interamericana, cuja sucursal de São Paulo era dirigida por Arnaldo Pedroso d’Horta e cujo material provinha dos Estados Unidos e da Inglaterra. Seu trabalho nessa agência coincidiu com o período da Segunda Guerra Mundial, quando as reportagens recolhidas no exterior serviam também para a propaganda aliada. Foi incumbido da tradução e redação de matérias, além de trabalhar em um programa de rádio que a agência vendia. Mais tarde foi trabalhar na Press Parga, uma das primeiras tentativas de agência noticiosa brasileira. Exerceu tempos depois as mesmas atividades na agência Meridional, pertencente ao grupo dos Diários Associados, mas foi demitido por fazer greve. Acerca desse episódio, conta em sua autobiografia que os trabalhadores haviam combinado “a greve e, na hora h, o pessoal fez um acordo com a direção, mas não me avisaram; acabei fazendo greve sozinho”. Por um curto período trabalhou também no Diário de São Paulo. Dirigiu a Folha Socialista, jornal do Partido Socialista Brasileiro, e foi diretor-responsável do jornal Português Democrático, da resistência antifascista portuguesa.

Aos 22 anos, em 1945, foi contratado como datilógrafo da seção nacional do Jornal de São Paulo, fundado por Francisco Sousa Neto, o Chico Polícia, e dirigido por Hermínio Sacchetta. Algum tempo depois passou para a seção internacional do jornal como redator. A ascensão a repórter aconteceu quando, ao entrevistar Heráclito Sobral Pinto, que era advogado de Luís Carlos Prestes, obteve a informação de que este, ao deixar a prisão, apoiaria Getúlio Vargas. A matéria virou manchete do jornal e resultou na sua promoção. Acerca da experiência no Jornal de São Paulo, declarou que este, na época, ia muito mal: “O fato é que todo mundo foi saindo e eu fiquei, sozinho. Foi quando me formei jornalista.” Foi nesse período que desenvolveu o hábito de escrever com pseudônimos; durante anos usaria os de John Poison e Carlos Hard.

Tendo no desenho uma paixão, e sendo autodidata, em 1947 participou da exposição “19 Pintores”, realizada na Galeria Prestes Maia, em São Paulo. Em 1948, com a falência do Jornal de São Paulo, foi convidado por Sérgio Milliet, secretário de O Estado de S. Paulo, e Paulo Duarte, editor-chefe, para trabalhar sem contrato no jornal. Tal experiência, em suas palavras, foi “uma distinção, era tirar a sorte grande”. Sua primeira matéria foi uma encomenda de Júlio de Mesquita Filho sobre o Instituto Oceanográfico de São Paulo, que recebia na época forte oposição do governo. A reportagem o fez viajar pelo litoral do país.

No Estadão, Abramo trabalhou na seção de economia, com Frederico Heller, e foi redator da editoria internacional, cujo chefe era Giannino Carta, pai do jornalista Mino Carta. Nessa seção, realizou uma série de reportagens, no período de 1948 a 1950, acerca dos processos de expurgo político na Hungria, na Tchecoslováquia e na Polônia. Paralelamente, dirigiu também a sucursal da Tribuna da Imprensa em São Paulo.

Entre 1950 e 1951, com uma bolsa de estudos do governo brasileiro e um salário de O Estado de S. Paulo, fez um curso de jornalismo na Escola de Estudos Superiores em Paris. De volta ao Brasil retornou a O Estado de S. Paulo e, convidado por Júlio de Mesquita Filho, assumiu aos 28 anos a secretaria do jornal. Juntamente com Luís Vieira de Carvalho Mesquita, Rui Mesquita, Juca Mesquita e Júlio de Mesquita Neto, participou das reformas do jornal, que incluíram alterações gráficas, transferência de sede e adoção de práticas modernas de controle de publicidade. Mais tarde, já como secretário do jornal, e depois como secretário-geral, promoveu uma mudança nos critérios de recrutamento e treinamento de pessoal que permitiu a captação de universitários tanto das áreas de ciências humanas (filosofia, ciências sociais) quanto das áreas tecnológicas (matemática, física) para trabalhar como “focas” — estudantes não remunerados — na redação. Nessa leva de novos repórteres foram admitidos Sábato Magaldi e Vladmir Herzog, entre outros.

Entre outras alterações introduzidas no jornal, criou a “Última Página”, voltada para os aspectos nacionais, já que a primeira, dirigida por Júlio de Mesquita Filho, dava destaque às notícias internacionais. Em seus mais de dez anos de Estadão, afirma ter trabalhado “brutalmente, com uma fecundidade e uma produtividade muito grandes. Só pensava no jornal. Deixei de fazer política, de fazer tudo, para fazer só o jornal”.

O processo de desgaste de Abramo com o jornal começou em 1961, em virtude do envolvimento de seu irmão Fúlvio, que dirigia a Rádio Eldorado, pertencente à família Mesquita, em uma greve de jornalistas. No ano seguinte, a radicalização política que se instalou na redação agravou sua situação. Deixou o jornal em 26 de julho de 1963 e tornou-se assessor de Carvalho Pinto, ministro da Fazenda de João Goulart por um curto período, de junho a dezembro daquele ano.

Convidado a reformar o jornal A Nação, de Mário Wallace Simonsen, dono da Panair do Brasil, que havia comprado o jornal A Hora e o tinha rebatizado, tornou-se seu superintendente por pouco tempo. As dificuldades econômicas fizeram-no fechar o jornal em 25 de janeiro de 1964. Após o movimento político-militar deflagrado em 31 de março, passou quase o ano todo desempregado, sofrendo discriminações políticas. Indicado por Fernando Gasparian, foi trabalhar em uma agência de publicidade.

Em fins de 1965, a convite de Otávio Frias de Oliveira, proprietário da Folha de S. Paulo, foi trabalhar na empresa Transaco, de Frias, que fazia corretagem de ações e análises diárias para o jornal. Mais tarde, Frias o colocou dentro do jornal como chefe de produção. Em 1967 assumiu a secretaria geral da Folha, que no período de 1969 a 1972 viveria uma fase de censura imposta pelo regime militar. Em 1972, foi nomeado diretor de redação do jornal, mas pouco depois foi afastado e substituído por Rui Lopes, da sucursal de Brasília.

Longe dos jornais por cerca de dois anos, aproveitou para viajar e para escrever, a convite de Luís Carta, fascículos sobre história geral que nunca foram publicados. Em 1974 foi convidado, juntamente com Carlos Chagas, Alberto Dines e João Calmon, para um seminário na universidade norte-americana de Stanford. Retornou ao país um ano depois, e em janeiro de 1975 foi preso com sua segunda esposa, Radha, pelo DOI-CODI, acusado de subversão. Em meados desse mesmo ano, retornou à Folha e criou a “Página Três”, com a colaboração de intelectuais e jornalistas como Paulo Francis, Newton Rodrigues e Alberto Dines, dando início a uma reformulação ainda discreta do jornal. Essas alterações só começariam a se tornar mais nítidas em 1976, quando retornou à direção efetiva da redação juntamente com Otávio Frias de Oliveira e Otávio Frias Filho.

Em 1977 foi afastado da direção da redação por imposição do ministro do Exército, general Sílvio Frota, em um episódio que envolveu o jornalista da Folha Lourenço Diaféria, autor de uma crônica que ofendia a memória do duque de Caxias. Segundo Abramo, Diaféria “agiu como um provocador, ou um manipulador. Por conta da publicação da crônica, colocou em risco um projeto muito maior”. No dia seguinte à prisão de Diaféria, o general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar do presidente Ernesto Geisel, ligou para o jornal, e Frias pediu que Abramo se demitisse. Dessa vez quem o substituiu foi Bóris Casoy.

Em 1978 lançou, como editor, o tablóide Leia Livros, com o apoio de Caio Graco Prado, da Editora Brasiliense, destinado a publicar resenhas de livros, ensaios e entrevistas. Em 1979 foi nomeado membro do conselho editorial da Folha, mas demitiu-se logo depois, durante a greve dos jornalistas daquele ano. Passou a trabalhar como co-editor do recém-lançado Jornal da República, de Mino Carta, que teve vida curta.

Em 1980 retornou à Folha, convidado novamente por Otávio Frias Filho e Bóris Casoy para ser correspondente do jornal em Londres. Três anos depois, com a mesma função, transferiu-se para Paris. Interessado em participar do processo de abertura política que o país vivia, retornou ao Brasil em 1984 e passou a escrever a coluna “São Paulo”, na página dois da Folha. Seu espaço no jornal, uma coluna de 48 linhas, foi por muitos apontado como uma marginalização imposta pelo periódico ao jornalista.

Em 1985, na condição de “professor com notório saber”, deu um curso, em nível de pós-graduação, no Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

Recebeu medalha do governo italiano pelo trabalho clandestino na resistência italiana durante a guerra, e medalha do governo da República Democrática Popular da Polônia em reconhecimento ao apoio dado à luta antinazista dos poloneses. Em 1986, recebeu a medalha do Mérito do Trabalho.

Casou-se em primeiras núpcias com Hilde Weber, com quem teve um filho, Cláudio. De seu segundo casamento, com Radha Abramo, teve duas filhas, Bárbara e Berenice.

Morreu, aos 64 anos, no dia 14 de agosto de 1987, na cidade de São Paulo.

Beatriz Kushnir

 

FONTES: ABRAMO, C. Regra; ENTREV. ALBERTO DINES; ENTREV. OTÁVIO FRIAS FILHO; MOTA, C. G. & CAPELATO, M. H. História da Folha.

 

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