CLEMENTE MARIANI BITTENCOURT

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Nome: MARIANI, Clemente
Nome Completo: CLEMENTE MARIANI BITTENCOURT

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
MARIANI, CLEMENTE

MARIANI, Clemente

*const. 1934; dep. fed. BA 1935-1937; const. 1946; dep. fed. BA 1946; min. Educ. 1946-1950; dep. fed. BA 1950-1951; pres. Bco. Bras. 1954-1955; min. Faz. 1961.

 

Clemente Mariani Bittencourt nasceu em Salvador no dia 28 de setembro de 1900, filho do desembargador Pedro Ribeiro de Araújo Bittencourt e de Ana Clemente Mariani Bittencourt. Seu bisavô materno, Clemente Bonifácio de Abreu, era irmão de Francisco Bonifácio de Abreu, barão de Vila da Barra, e sua bisavó materna, Ana Joaquina Mariani Wanderley, era irmã do barão de Cotegipe.

Fez seus primeiros estudos com a avó paterna, Ana Ribeiro de Góis Bittencourt, por quem foi criado no engenho Api, no município de Catu (BA). Após a morte de seu avô retornou a Salvador, onde freqüentou o Ginásio Nossa Senhora da Vitória, dos irmãos maristas, no qual concluiu o curso primário, entre 1909 e 1910, e iniciou o secundário. Em 1913 transferiu-se para o Ginásio Ipiranga, também na capital baiana, concluindo aquele curso no ano seguinte.

Ingressou na Faculdade de Direito da Bahia em 1916. Em 1919 foi colaborador da Revista de Assistência Judiciária Acadêmica, passando a dirigi-la no ano seguinte. Bacharelou-se em dezembro de 1920 e foi o orador da turma, que teve como paraninfo o professor João Marques dos Reis, em cujo escritório iniciou em 1921 sua carreira de advogado.

Ainda em 1921, paralelamente à advocacia, começou a atuar como jornalista, tendo sido redator e mais tarde redator-chefe do Diário da Bahia. Empenhou-se nas campanhas do jornal em apoio à Reação Republicana, chapa oposicionista formada para concorrer às eleições presidenciais de março de 1922 e que tinha como candidatos à presidência e à vice-presidência da República, respectivamente, Nilo Peçanha e o político baiano José Joaquim Seabra. A campanha da Reação Republicana conseguiu unanimidade na Bahia, contando inclusive com a adesão dos ruístas, políticos ligados a Rui Barbosa e tradicionais opositores de Seabra. No entanto, o candidato situacionista, Artur Bernardes, venceu o pleito.

Simpatizante das idéias de Rui Barbosa — que exerceu grande influência sobre os estudantes da Faculdade de Direito da Bahia em sua época —, Mariani foi o redator dos artigos de fundo do Diário da Bahia por ocasião de sua morte, em 1923. Apoiou também a candidatura de Francisco Marques de Góis Calmon, que governaria a Bahia entre 1924 e 1928.

Ainda em 1924 foi eleito deputado estadual pelo distrito de São Francisco, tradicional zona de influência de sua família materna. No ano seguinte, contudo, abandonou o mandato, assumindo a cadeira de direito comercial na Faculdade de Direito da Bahia, para a qual fora admitido através de concurso. Dedicando-se à advocacia, ao magistério e ao jornalismo, em 1927 deixou o Diário da Bahia e tornou-se colaborador da Revista da Ordem dos Advogados da Bahia, atividade que exerceria até 1930.

Novamente eleito deputado estadual pelo distrito de São Francisco em 1928, foi empossado no ano seguinte. Durante o governo de Vital Soares, participou da reforma da Constituição da Bahia, apresentando numerosas emendas, na sua maioria aceitas. Vital Soares foi candidato à vice-presidência na chapa de Júlio Prestes, eleita em março de 1930 e não empossada em virtude da Revolução de 1930.

Com a vitória do movimento, que conduziu Getúlio Vargas ao poder, e a conseqüente dissolução de todos os órgãos legislativos do país, Mariani voltou ao magistério e à advocacia. Foi ainda orador oficial do Instituto da Ordem dos Advogados da Bahia durante os anos de 1931 e 1932, ocasião em que condenou os atos do governo Vargas, ao qual se opunha. Também na solenidade de formatura dos bacharéis da Faculdade de Direito em 1931, proferiu um discurso denunciando a influência corruptora exercida pelos governos tiranos sobre o caráter nacional, publicado com destaque pela imprensa baiana da época.

Com vistas às eleições para a Assembléia Nacional Constituinte em maio de 1933, participou da formação do Partido Social Democrático (PSD) da Bahia — fundado em janeiro daquele ano por iniciativa do interventor Juraci Magalhães —, do qual foi o primeiro-secretário e em cuja legenda se elegeu à Constituinte, obtendo a segunda maior votação no estado. Assumindo seu mandato em novembro seguinte, apresentou um projeto determinando que a distribuição das bancadas no plenário fosse feita de acordo com suas tendências ideológicas. Embora rejeitado por pequena margem de votos, o projeto viria a servir de base para um dispositivo regimental na Constituinte de 1946. Mariani atuou no plenário e nas comissões como uma espécie de vice-líder — já que a função ainda não existia regimentalmente — do líder da maioria, o baiano Antônio de Medeiros Neto, e do relator geral, Raul Fernandes. Por designação de Medeiros Neto, representou a bancada baiana na comissão que coordenou as emendas constitucionais, à qual apresentou os substitutivos referentes à estruturação dos poderes governamentais que, com pequenas alterações, vieram a constituir o texto principal da Constituição de 1934.

Com a promulgação da nova Carta (16/7/1934) e a eleição do presidente da República no dia seguinte, teve o mandato prorrogado até maio de 1935. Eleito novamente em outubro de 1934 na legenda do PSD da Bahia, assumiu a liderança da bancada baiana na Câmara, em substituição a Medeiros Neto, que se elegera senador. Integrou também a Comissão de Finanças e deu apoio ao governo de Juraci Magalhães em sua posição de combate ao comunismo e ao integralismo. Representando o governo de seu estado, participou em maio de 1937 das negociações para a sucessão presidencial, sendo incumbido de apresentar a candidatura do ex-ministro da Viação de Vargas (1930-1934), José Américo de Almeida, pelos partidos majoritários.

Descrente dos rumos que tomava o processo político, viajou em seguida para a Europa, sendo substituído na Câmara por Artur Neiva. Regressou ao Brasil às vésperas do golpe de 10 de novembro de 1937, que instituiu o Estado Novo (1937-1945), não chegando a reassumir a liderança da bancada baiana. Implantado o novo regime, declarou publicamente não aceitar seus postulados, solidarizando-se com Juraci Magalhães, que se opusera ao golpe e deixara o governo da Bahia. Durante o Estado Novo afastou-se da política, retornando às atividades de professor e advogado, dessa vez como chefe do escritório de João Marques dos Reis, que, tendo chefiado o Ministério da Viação de 1934 a 1937, fora nomeado presidente do Banco do Brasil. Acabou, contudo, abandonando a advocacia e o magistério para se dedicar exclusivamente aos interesses comerciais como presidente da Cirb — empresa que fundara no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, durante o período de seu mandato na Câmara — e da Companhia Usina Cinco Rios, adquirida em 1938 com o apoio financeiro da Magalhães Comércio e Indústria, sua constituinte e subsidiária da Shell. Eleito nesse período diretor da Associação Comercial da Bahia, foi o autor da mensagem da entidade no Congresso das Classes Produtoras, realizado em Teresópolis (RJ) em 1942, em que propôs o aproveitamento da cachoeira de Paulo Afonso para suprir a falta de energia do Nordeste.

Em 1942 tornou-se diretor do Banco Comercial da Bahia e do Banco da Bahia, cuja presidência assumiu dois anos depois, reestruturando-o e dinamizando sobretudo o setor de câmbio.

No início de 1945, estando já em curso o processo de reconstitucionalização do país, com a previsão de eleições presidenciais e de convocação de nova Constituinte, foi amplamente divulgado que Mariani seria nomeado interventor federal na Bahia, em substituição ao general Renato Pinto Aleixo, a fim de organizar as forças políticas locais. De fato, o convite lhe fora feito através do ministro Agamenon Magalhães e de Marques dos Reis, quando ainda estava na presidência do Banco do Brasil. Mariani porém recusou, afirmando que se mantinha cético em relação aos propósitos governamentais de redemocratização do país. Do mesmo modo, recusou os convites do Partido Social Democrático (PSD) e da União Democrática Nacional (UDN) para integrar as respectivas chapas concorrentes à Assembléia Nacional Constituinte.

Com a deposição de Vargas em 29 de outubro de 1945, assumiu o governo José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que encaminhou o processo de redemocratização, coordenando as eleições para a presidência e para a Constituinte, marcadas para dezembro. Mariani decidiu então candidatar-se e optou pela legenda udenista, na qual se encontravam seus antigos companheiros da Constituinte de 1934, da Câmara e da congregação da Faculdade de Direito. Realizado o pleito, elegeu-se constituinte e o general Eurico Gaspar Dutra, candidato do PSD, ganhou a disputa para a presidência da República. Empossado em fevereiro de 1946, obteve na Assembléia aprovação para a proposta de sua autoria, designando 1% da renda tributária da União para atender ao plano de recuperação sanitária e econômica do vale do São Francisco. No campo político, foi também aprovada uma proposta de sua autoria proibindo o funcionamento de partidos seguidores de doutrinas consideradas antidemocráticas, que, incluída como artigo constitucional, serviria de base jurídica para o posterior cancelamento do registro do Partido Comunista Brasileiro — então Partido Comunista do Brasil (PCB) — em maio de 1947. Com a promulgação da nova Carta (18/9/1946), passou a exercer o mandato ordinário, integrando a Comissão de Constituição e Justiça. Afastou-se da Câmara em dezembro de 1946 para assumir a pasta da Educação e Saúde Pública do governo Dutra, em substituição a Ernesto de Sousa Campos.

 

Ministro da Educação e Saúde (1946-1950)

Logo que assumiu o ministério, Mariani convocou renomados educadores, como Manuel Lourenço Filho e Fernando de Azevedo, para elaborarem o projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Remetido à Câmara no início de 1947, esse projeto permaneceria contudo arquivado por mais de dez anos. Reformulou também os currículos escolares, deles retirando os conteúdos nitidamente ideológicos introduzidos durante o Estado Novo. Ao lado disso, fechou temporariamente a União Nacional dos Estudantes (UNE), que promovera o Congresso da Paz, segundo Mariani, de “inspiração comunista”.

Procurando reduzir as deficiências educacionais, implantou a Campanha Nacional de Educação para a alfabetização de adolescentes e adultos. Lançou também a campanha de construção de escolas rurais — de acordo com os dados oficiais foram construídas nesse período mais de seis mil escolas — e de escolas normais rurais, além de ter inaugurado também escolas industriais e técnicas.

Na área do ensino superior, deu início ao processo de federalização das universidades e elaborou o projeto para a construção do campus da Universidade do Brasil, na ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, onde chegou a construir o Instituto de Puericultura e a iniciar as obras do Hospital das Clínicas, da Escola de Engenharia e da Escola de Arquitetura.

No setor cultural, estreitou o intercâmbio com a França, promovendo concertos e conferências no Brasil com a participação de intelectuais franceses como Georges Duhamel, André Maurois e Albert Camus, além de curso de aperfeiçoamento de piano com Madalena Tagliaferro. Promoveu também as comemorações do centenário de nascimento de Goethe, do quarto centenário do de Cervantes e dos centenários de nascimento de Castro Alves, de Joaquim Nabuco e de Rui Barbosa, transferindo os despojos deste último para a Bahia.

No setor da saúde lançou campanhas de proteção à maternidade e à infância, construindo postos de puericultura e maternidades, e desenvolvendo campanhas de combate à malária e à tuberculose. Ampliou também a rede de hospitais psiquiátricos e dos leprosários, construiu hospitais rurais, sobretudo no Nordeste, e criou um fundo hospitalar para auxiliar a manutenção dos hospitais de caridade.

Além dos encargos ministeriais, participou das articulações políticas para a escolha dos candidatos à sucessão de Dutra, durante o ano eleitoral de 1950. Preocupado com a intransigência do PSD e da UDN nas negociações para a adoção de um candidato comum — o que provocaria a divisão das forças, facilitando assim a eleição de Vargas, candidato do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) —, propôs a Dutra a candidatura do deputado pessedista Carlos Luz — líder da maioria e mineiro —, que contaria com o apoio dos dois partidos. A sugestão foi aceita pelo chefe do PSD em Minas, Benedito Valadares, mas vetada pela UDN daquele estado, liderada por Mílton Campos. Finalmente, foram lançadas as candidaturas de Cristiano Machado, pelo PSD, e do brigadeiro Eduardo Gomes, pela UDN.

De volta ao Brasil depois de ter participado da Conferência da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), realizada em Florença, na Itália, em maio de 1950 Mariani renunciou ao ministério para se candidatar ao Senado pela Bahia, lançado por uma coligação formada pela UDN, o Partido Democrata Cristão (PDC), o Partido Trabalhista Nacional (PTN), o Partido Republicano (PR) e o Partido Social Trabalhista (PST). Reassumindo seu mandato na Câmara dos Deputados em julho, foi substituído na pasta da Educação e Saúde por seu conterrâneo, Pedro Calmon. Realizado o pleito em outubro, Vargas saiu vitorioso para a presidência e Mariani foi derrotado nas eleições para o Senado por Landulfo Alves, lançado pelo PSD, pelo PTB e pelo Partido de Representação Popular (PRP). Concluiu seu mandato em janeiro de 1951 e deixou a Câmara dos Deputados.

Afastado dos cargos políticos, reassumiu ainda em 1951 a presidência do Banco da Bahia, nela desenvolvendo durante cerca de quatro anos uma atuação que extrapolaria a área bancária. Travando debate com os diretores da empresa estatal Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), opôs-se à tentativa da companhia Reynolds, norte-americana, de se apropriar da energia de Paulo Afonso para implantar uma fábrica de lingotes de alumínio destinados à exportação. Com o apoio de Marcos de Sousa Dantas, presidente do Banco do Brasil, e de José Maria Alkmin, diretor da Carteira de Redesconto do banco, obteve do ministro da Fazenda, Osvaldo Aranha, a criação do redesconto especial para financiamento das exportações de cacau, a exemplo do que já ocorria com o café.

 

Presidente do Banco do Brasil (1954-1955)

Com o suicídio de Vargas em 24 de agosto de 1954 e a posse imediata do vice-presidente João Café Filho no poder, foi convidado pelo novo ministro da Fazenda, Eugênio Gudin, para assumir a presidência do Banco do Brasil, substituindo Sousa Dantas. Aceito o convite, tomou posse no novo cargo em setembro, passando a presidência do Banco da Bahia a Fernando Góis.

Coerente com as idéias que vinha defendendo, logo sugeriu que se promovesse a reforma cambial, equiparando o valor do dólar de exportação ao de importação. Acatou, porém, a determinação de Gudin, de só realizar a reforma depois de contida a inflação. Procurou não criar uma linha de defesa para os preços do cacau, convidando para diretor da Carteira de Comércio Exterior (Cacex) Tosta Filho, considerado o melhor conhecedor dos problemas do produto na Bahia. Restabeleceu também a situação de liquidez do Banco do Brasil, resgatando os seus débitos com os credores estrangeiros e controlando a política de crédito interno. Negociou com o vespertino carioca Última Hora a dívida do jornal para com o banco.

Ao final de sua gestão, encaminhou a apuração de responsabilidades no episódio do desvio de volumosa quantia em francos, ocorrido durante a administração anterior, tendo os resultados do inquérito incriminado funcionários categorizados da Carteira de Câmbio e diretores de um banco estrangeiro, que foram então punidos.

Tomando conhecimento de que Café Filho negociava com Jânio Quadros, governador de São Paulo, os cargos que ele, Gudin e Rodrigo Otávio Jordão Ramos, ministro da Viação, ocupavam, em troca do apoio político de Jânio a Juarez Távora — afinal lançado candidato por uma coligação liderada pela UDN nas eleições presidenciais marcadas para outubro de 1955 —, solicitou a Gudin que encaminhasse de imediato ao presidente seu pedido de demissão. Acompanhado por Gudin, também demissionário, deixou a presidência do Banco do Brasil em abril de 1955, sendo substituído por Alicides da Costa Vidigal.

Realizado o pleito, Juarez Távora foi derrotado por Juscelino Kubitschek, candidato da coligação entre o PSD e o PTB. Durante o novo governo Mariani não exerceu nenhum cargo político, dedicando-se apenas às atividades empresariais.

 

Ministro da Fazenda (1961)

A campanha eleitoral de 1960 acabou aproximando-o de Jânio Quadros, candidato da UDN à presidência da República. A orientação financeira anunciada por Jânio em seus discursos de campanha ajustava-se às teses de reforma cambial e de austeridade preconizadas por Mariani, que passou então a apoiar sua candidatura. A pedido de Artur Bernardes Filho, presidente nacional do PR, Mariani fez uso da influência que exercia sobre Manuel Novais, presidente da seção baiana daquele partido, para obter seu apoio a Jânio. Chegou inclusive a ter seu nome cogitado para concorrer pela UDN ao cargo de vice-presidente, por sugestão do próprio Jânio, num momento em que a agremiação encontrava dificuldade para definir um candidato. A escolha final recaiu, porém, no mineiro Mílton Campos. Jânio elegeu-se presidente em outubro, e a vice-presidência coube, porém, a João Goulart, vice-presidente no governo Kubitschek e candidato da coligação formada pelo PTB e pelo PSD. Poucos dias antes de assumir o governo, em janeiro de 1961, Jânio convidou Mariani para encabeçar a pasta da Fazenda.

Adepto da corrente monetarista, Mariani, que tomou posse no ministério em fevereiro, definiu como as principais metas de sua gestão a correção do desequilíbrio orçamentário e do déficit do balanço de pagamentos, o que implicava a redução das despesas governamentais, a restrição do crédito e o estímulo às exportações. Outro item importante de seu programa foi a reforma cambial, nomeando o economista Otávio Gouveia de Bulhões para o cargo de diretor executivo da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc) e encarregando-o de formular um projeto relativo à reforma. Seu objetivo era extinguir o sistema dos câmbios múltiplos e os subsídios cambiais relativos a certos produtos de importação. Com algumas correções feitas por Mariani, como a manutenção da taxa diferencial para os câmbios do café e do cacau, o projeto foi aprovado por Jânio e homologado pelo conselho executivo da Sumoc, sendo transformado na Instrução nº 204 da Sumoc, expedida em março de 1961. Dias depois a Sumoc anunciou uma desvalorização da moeda, que passou de 90 para duzentos cruzeiros antigos em relação ao dólar. As medidas de combate à inflação se aproximavam dos princípios preconizados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), de contenção de consumo, restrição de crédito e redução do aumento salarial. Embora visando à reabilitação do conceito do país junto aos credores estrangeiros, internamente as medidas não eram bem aceitas, tanto por grande parte dos setores empresariais, como pelos setores populares, que tinham que arcar com o ônus do aumento do custo de vida.

A realização, no Rio de Janeiro, de uma reunião para a constituição do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) propiciou o encontro de Mariani com Douglas Dilon, secretário do Tesouro norte-americano, do qual resultou uma série de acordos para a renegociação das dívidas brasileiras e a concessão de novos créditos.

O primeiro desses acordos resultou de negociações, que se desenrolaram entre maio e junho de 1961. Na ocasião foi assinado um empréstimo do FMI ao Brasil, com a recomendação para que fosse adotada a total liberação do câmbio. Efetivamente, no início do mês de julho foi expedida nesse sentido a Instrução nº 208 da Sumoc. Ao mesmo tempo, foi anunciado o aumento do preço do pão e da gasolina, devido à suspensão dos subsídios. Com o sinal verde concedido pelo FMI, foram facilitadas as negociações para a reformulação dos prazos dos empréstimos norte-americanos e para a obtenção de novos créditos, seguindo-se ainda acordos semelhantes com os credores europeus e com o Japão.

Em nível interno, encaminhavam-se as negociações no âmbito do próprio governo em torno dos projetos de lei antitruste e de limitação da remessa de lucros para o exterior, enviados à Câmara respectivamente em março e julho. As sugestões de Mariani e de Oscar Pedroso Horta, ministro da Justiça, saíram vitoriosas, propondo restrições para o capital estrangeiro bem mais leves do que as preconizadas por João Agripino, ministro das Minas e Energia.

O rígido programa antiinflacionário, aliado à elevação do custo de vida provocada pela reforma cambial, tornava a política econômica seguida por Mariani extremamente impopular. E quando, no início de agosto, o próprio Jânio Quadros criticou-o abertamente, Mariani, contrariado, enviou uma carta de demissão ao presidente. Já demissionário, acedeu, contudo, à solicitação de Jânio para permanecer no cargo até a realização da Conferência de Punta del Este, prevista para a primeira quinzena de agosto e patrocinada pelo Conselho Interamericano Econômico e Social (CIES). Chefiou a delegação brasileira ao conclave, do qual resultou a Carta de Punta del Este — documento assinado por todas as nações presentes, exceto Cuba, e no qual os Estados Unidos se comprometiam a prestar ajuda econômica à América Latina por um período de dez anos, a fim de promover o desenvolvimento econômico e social do continente, lançando assim as bases da Aliança para o Progresso.

Já de volta ao Brasil e antes que se concretizasse sua demissão do ministério, em 25 de agosto Jânio renunciou. Mariani manteve-se no cargo durante o governo interino de Pascoal Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, que assumiu o governo devido à ausência do vice-presidente João Goulart, que se encontrava em missão no exterior. Em decorrência da crise gerada com o veto das forças armadas à posse de Goulart, a situação se prolongou até 7 de setembro, quando, já em vigor o regime parlamentarista — solução conciliatória introduzida pela Emenda Constitucional nº 4 para o impasse institucional que se estabelecera — Goulart foi empossado e Mariani deixou a pasta da Fazenda, sendo substituído por Válter Moreira Sales.

Retornou então às atividades empresariais, não ocupando qualquer cargo político durante o governo João Goulart. Apesar de suas estreitas ligações com figuras da UDN vinculadas às articulações antigovernamentais, manteve-se afastado do cenário político no período que antecedeu ao movimento político-militar de março de 1964, que depôs Goulart. Entretanto, como empresário e banqueiro, não deixou de acompanhar as mudanças na política econômica implementadas pelo governo do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967).

 

As atividades empresariais

Por ocasião dos estudos para a elaboração da reforma bancária, no início do governo do marechal Artur da Costa e Silva (1967-1969), Mariani chegou a participar dos trabalhos de ajustamento da nova lei, sendo o autor da tese que resultou na Resolução nº 63, do Banco Central, datada de 21 de agosto de 1967, e que se constituiu em importante instrumento de utilização de recursos estrangeiros para o financiamento de empresas nacionais.

Com a posterior aprovação da Lei de Reforma Bancária e a criação de novas entidades autônomas para o exercício das atividades financeiras, Mariani promoveu a criação de um banco de investimento e de uma companhia financeira, ligados ao Banco da Bahia. Uma das primeiras iniciativas do Banco da Bahia de Investimentos foi organizar o projeto de uma indústria petroquímica, integrada sobre a base do aproveitamento da nafta da refinaria de Mataripe (BA), em 1971. Esse projeto, submetido à apreciação dos órgãos federais, veio a constituir o embrião do pólo petroquímico de Camaçari (BA). Com o aumento de escala sofrido a partir de sua adoção pelo governo federal, o projeto passou a contar com a participação da Petroquisa, subsidiária da Petrobras, que atuaria como coordenadora das participações de outros grupos nacionais e de empresas estrangeiras. Ao Banco da Bahia de Investimentos foi assegurada a participação em três indústrias de segunda geração do pólo: na Pronor, em associação com a Dinamite Nobel e a Petroquisa; na Nitrocarbono, com a participação do grupo Rocha Miranda, da DST, da Holanda, e da Petroquisa; e na Isocianatos do Brasil, com a participação da empresa norte-americana Dupont de Nemours e da Petroquisa.

Em julho de 1973, durante o primeiro governo baiano de Antônio Carlos Magalhães — político filiado ao partido governista, a Aliança Renovadora Nacional (Arena) —, Mariani negociou com o Banco Brasileiro de Descontos (Bradesco) o controle acionário do Banco da Bahia, resguardando a autonomia do Banco da Bahia de Investimentos e de suas subsidiárias, bem como da Companhia de Seguros da Bahia e das empresas de pólo petroquímico. A venda ao Bradesco desagradou ao governador da Bahia, que preferia ver o banco assumido por outro grupo baiano, desencadeando-se uma polêmica, noticiada durante alguns dias na imprensa, tendo grande repercussão em nível estadual e nacional.

A partir de 1978 Mariani foi passando sucessivamente a presidência executiva das empresas do grupo a seus filhos Carlos Mariani e Eduardo Mariani, conservando apenas a presidência dos conselhos de administração.

Faleceu em Salvador no dia 13 de agosto de 1981.

Foi casado com Clara Pereira Mariani Bittencourt, com quem teve oito filhos.

O arquivo de Clemente Mariani encontra-se depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da Fundação Getulio Vargas.

 

 

FONTES: ASSEMB. NAC. CONST. 1934. Anais; Boletim Min. Trab. (5/36); CAFÉ FILHO, J. Sindicato; CÂM. DEP. Anais (1960 e 1961-1); CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Relação dos dep.; CÂM. DEP. Relação nominal; Câm. Dep. seus componentes; CARNEIRO, G. História; CONSULT. MAGALHÃES, B.; COSTA, M. Cronologia; COUTINHO, A. Brasil; Diário de Notícias, Rio (26/5/37); Diário do Congresso Nacional; DULLES, J. Getúlio; Encic. Mirador; ENTREV. BIOG.; FED. ESC. ISOLADAS DO EST. RJ. Ministros; Folha de S. Paulo (14/8/81); FONTENLA, V. História; Globo (14/8/81); GODINHO, V. Constituintes; Grande encic. Delta; HIRSCHOWICZ, E. Contemporâneos; Jornal da Tarde (22/9/76); Jornal do Brasil (31/3/73 e 14/8/81); LEITE, A. Páginas; LOURENÇO, M. Jânio; MELO, A. Cartilha; MIN. FAZ. Ministros; MIN. MAR. Almanaque; MONTEIRO, F. Banco; MOURÃO, M. Dutra; MUSEU DO BANCO DO BRASIL; QUADROS, J. História; SILVA, G. Constituinte; SILVA, H. História; SKIDMORE, T. Brasil; TÁVORA, J. Vida; VÍTOR, M. Cinco; WAHRLICH, B. Classificação; YOUNG, J. Brasil.

 

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