COSTA, CANROBERT PEREIRA DA

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Nome: COSTA, Canrobert Pereira da
Nome Completo: COSTA, CANROBERT PEREIRA DA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
COSTA, CANROBERT PEREIRA DA

COSTA, Canrobert Pereira da

*militar; min. Guerra 1946-1951; comte. Zona Mil. Norte 1951-1952; ch. Depto. Téc. e Prod. Ex. 1952-1954; ch. EMFA 1954-1955.

 

Canrobert Pereira da Costa nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 18 de outubro de 1895, filho de Francisco Pereira da Costa Filho e de Júlia Amélia Coutinho da Costa.

Estudou no Colégio Militar do Rio de Janeiro entre 1908 e 1913. Em março do ano seguinte, ingressou na Escola Militar do Realengo, também na capital federal, passando à condição de aspirante-a-oficial da arma da artilharia em fevereiro de 1918. Promovido a segundo-tenente três meses depois e a primeiro-tenente em junho de 1919, serviu em corpos de tropa e foi instrutor da Escola Militar nos primeiros anos da sua carreira como oficial, recebendo a patente de capitão em novembro de 1921. Em janeiro do ano seguinte foi preso sob a acusação de ter cometido uma infração disciplinar. A ampla divulgação desse incidente pela imprensa contribuiu para aumentar a hostilidade existente entre uma parcela significativa do Exército e João Pandiá Calógeras, engenheiro civil que ocupava a pasta da Guerra. Em março de 1922, Canrobert ingressou no curso da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), no Rio, e, apesar da punição sofrida, não tomou parte da revolta deflagrada no dia 5 de julho desse ano em guarnições do Rio e de Mato Grosso, marco inaugural do ciclo de levantes tenentistas da década de 1920.

Tendo concluído o curso da EsAO em janeiro de 1923, Canrobert ingressou em março seguinte na Escola de Estado-Maior do Exército. Entre julho e setembro de 1924 exerceu as funções de adjunto do estado-maior do Destacamento Sul, que atuou na repressão ao movimento revolucionário desencadeado em São Paulo sob o comando do general Isidoro Dias Lopes. Nesse período, comandou um grupo de artilharia sediado em Paranaguá (PR). Em janeiro de 1926, terminou o curso da Escola de Estado-Maior, e durante os anos de 1928 e 1929 foi instrutor da EsAO.

Canrobert não participou da Revolução de 1930. Contudo, depois da deposição do presidente Washington Luís em 24 de outubro, a junta governativa provisória formada pelos chefes militares lotados no Distrito Federal lhe atribuiu a missão de informar ao presidente mineiro, Olegário Maciel, que era iminente a posse de Getúlio Vargas, chefe do movimento revolucionário vitorioso, na presidência da República.

Promovido a major em abril de 1932, comandou o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) do Rio de Janeiro e foi diretor de ensino da Escola de Artilharia, situada na mesma cidade. Durante a Revolução Constitucionalista, que se estendeu de julho a setembro de 1932, combateu os revolucionários paulistas servindo no quartel-general do Exército do Leste, em ação no vale do rio Paraíba.

Em julho de 1933, foi indicado para integrar a Comissão de Estudos da Indústria Militar Brasileira, chefiada pelo general José Fernandes Leite de Castro, cuja tarefa era adquirir armas na Europa. No exercício dessa função, visitou fábricas de material bélico na Suécia, Finlândia, Espanha e França até outubro de 1934, quando pediu desligamento da comissão e retornou ao Brasil. Em janeiro de 1935, assumiu o cargo de subdiretor de estudos da Escola de Estado-Maior do Exército. Em setembro seguinte atingiu a patente de tenente-coronel, sendo destacado três meses depois para comandar o Grupo-Escola da Vila Militar do Rio de Janeiro, onde permaneceu durante um ano.

Nomeado em 1937 chefe de gabinete do ministro da Guerra, general Eurico Dutra, Canrobert passou à condição de coronel no início de maio de 1938. Na madrugada do dia 11 desse mês, irrompeu no Rio o levante integralista contra o Estado Novo, que consistiu no assalto ao palácio Guanabara (residência oficial do chefe do governo), ao prédio do Ministério da Marinha e a residências de diversas autoridades. Segundo Hélio Silva, a única ação rebelde bem-sucedida nesse episódio foi o seqüestro de Canrobert, que teve sua casa invadida por um grupo de homens armados e foi levado de pijamas para o interior de um automóvel. Depois de circular pela cidade durante várias horas, foi abandonado numa estrada deserta no Alto da Boa Vista. No início da manhã, quando a situação já estava sob total controle do governo, apresentou-se ao general Dutra na sede do Ministério da Guerra, relatando-lhe o seqüestro. Em 9 de junho, transmitiu a chefia do gabinete ao coronel Álvaro Fiúza de Castro e, no mês seguinte, assumiu o comando do 9º Regimento de Artilharia Montada, sediado em Curitiba, onde permaneceu até janeiro de 1939.

Em março desse ano, passou a ocupar o cargo de chefe de gabinete do Estado-Maior do Exército (EME). Nos meses de junho e julho, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, integrou a comitiva que, a bordo do cruzador Nashville, acompanhou o chefe do EME, general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, na visita aos principais centros militares dos Estados Unidos. Estava em curso um importante esforço do governo norte-americano para aumentar a influência sobre o Brasil, cuja política externa viria a se definir mais tarde em favor dos países aliados. Em maio de 1940, Canrobert matriculou-se no curso de alto comando e no ano seguinte integrou a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos de Oficiais de Estado-Maior, criada em julho com o objetivo de organizar a defesa do Nordeste brasileiro contra eventuais ataques alemães devido à conjuntura criada pela Segunda Guerra Mundial.

Promovido a general-de-brigada em maio de 1942, Canrobert deixou a chefia de gabinete do EME no mês seguinte para comandar a 3ª Divisão de Cavalaria, sediada em Bajé (RS), onde estava quando passou a integrar, em 1943, a Comissão de Promoções do Exército. Exerceu o comando daquela divisão até viajar para os Estados Unidos em outubro de 1943 a fim de fazer o curso do comando de Fort Leavenworth e estagiar no Exército norte-americano. De volta ao Brasil em janeiro de 1944, assumiu o cargo de secretário-geral do Ministério da Guerra, tornando-se o segundo homem na hierarquia dessa instituição, logo abaixo do general Dutra. Nessa condição, respondeu interinamente pela pasta em algumas curtas ocasiões, inclusive entre 20 de setembro e 23 de outubro de 1944, período em que o ministro viajou para vistoriar os efetivos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em ação na Itália. Em 1945, deixou a Comissão de Promoções do Exército e passou a integrar a Comissão de Planejamento Econômico do Conselho de Segurança Nacional, sem prejuízo de suas funções no ministério.

No decorrer de 1945, acelerou-se o processo de desintegração do Estado Novo. No final de fevereiro, Vargas assinou a Lei Constitucional nº 9, que previa a realização de eleições presidenciais e parlamentares, cuja data foi fixada em maio para 2 de dezembro de 1945. Em agosto, Dutra se desincompatibilizou do cargo de ministro para disputar o pleito presidencial. Seu substituto,  o general Góis Monteiro, manteve Canrobert como secretário-geral do ministério. O crescimento do chamado “movimento queremista” — que pregava a convocação de uma constituinte com Vargas no poder — atemorizou a oposição quanto à possibilidade de uma manobra continuísta por parte do chefe do governo. Aproveitando o descontentamento causado pela nomeação de Benjamim Vargas, irmão de Getúlio Vargas, para a Chefatura de Polícia do Distrito Federal, Dutra e Góis Monteiro articularam o golpe de Estado que em 29 de outubro de 1945 derrubou o Estado Novo. Canrobert participou ativamente desse movimento, acompanhando Dutra em seus contatos com os comandos das importantes unidades militares sediadas no Rio.

Com o afastamento de Vargas, José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal, assumiu a presidência da República. Góis Monteiro continuou à frente do Ministério da Guerra até 19 de novembro, quando sofreu uma crise cardíaca. Na condição de substituto do ministro e “responsável pelo expediente do Ministério da Guerra”, Canrobert assinou em 29 de novembro, junto com o major-brigadeiro Armando Trompowski (ministro da Aeronáutica) e o vice-almirante Jorge Dodsworth Martins (ministro da Marinha), o manifesto à nação brasileira, no qual as forças armadas se comprometiam a respeitar o resultado do pleito de dezembro, garantindo a posse dos eleitos.

 

Ministro da Guerra e candidato à sucessão presidencial

Canrobert respondeu pelo ministério até 31 de janeiro de 1946, quando José Linhares passou o governo ao general Dutra, candidato eleito em dezembro de 1945 na legenda do Partido Social Democrático (PSD). Nessa data, Góis Monteiro foi reconduzido à pasta da Guerra e Canrobert voltou a desempenhar as funções de secretário-geral. Deixou esse cargo em agosto seguinte, sendo promovido nesse mesmo mês a general-de-divisão. Em meados de outubro, Góis Monteiro pediu exoneração. Homem de confiança de Dutra e seu auxiliar direto em várias oportunidades, Canrobert assumiu então o Ministério da Guerra em caráter efetivo.

Durante sua gestão, teve lugar no interior do Exército amplo debate sobre a orientação a ser dada pelo governo à exploração do petróleo no país. Iniciada em abril de 1947, essa discussão provocou uma nítida divisão nas forças armadas. A chamada ala nacionalista, liderada pelo general Júlio Caetano Horta Barbosa (presidente do Conselho Nacional do Petróleo durante o Estado Novo), preconizava a implantação do monopólio estatal na exploração desse produto. O outro setor defendia a participação de empresas privadas, nacionais e estrangeiras, nessa iniciativa. O principal porta-voz dessa corrente era o general Juarez Távora, alinhado politicamente com o governo Dutra e amigo pessoal de Canrobert que, apesar de não ter interferido diretamente nos debates, era favorável a essa posição.

Em julho de 1947, Canrobert se indispôs com o Poder Legislativo devido à forte reação ao projeto de lei de segurança nacional elaborado por oficiais que trabalhavam em seu gabinete e enviado nessa época à Câmara dos Deputados. O projeto foi considerado por muitos parlamentares mais rigoroso do que a legislação em vigor durante o Estado Novo. O deputado Carlos Marighella, do Partido Comunista Brasileiro então Partido Comunista do Brasil (PCB), cujo registro havia sido cassado dois meses antes, proferiu um discurso repudiando o projeto e criticando duramente o chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general Álcio Souto. Canrobert enviou uma carta à Câmara defendendo seu colega e exigindo satisfações. O incidente foi encerrado dias depois graças à intervenção do líder da bancada comunista, Maurício Grabois, que deu as explicações exigidas pelo ministro da Guerra.

No início de 1948, Canrobert se posicionou contra a proposta de intervenção federal em São Paulo, articulada desde fins do ano anterior por Luís Gonzaga Novelli Júnior, genro do presidente Dutra e vice-governador desse estado, que acusava o governador Ademar de Barros de desmandos administrativos e malversação de fundos públicos. Apesar de contar com a simpatia de Dutra, a campanha contra Ademar encontrou resistências no Congresso e na cúpula da administração federal. Em março de 1948, Adroaldo Mesquita, ministro da Justiça, deu parecer contrário à intervenção, e o posicionamento de Canrobert acabou com as pretensões do grupo de Novelli, pois sem o apoio do Exército aquela medida não poderia ser concretizada. Na ocasião, circularam rumores de que Canrobert e Ademar teriam feito um acordo: em troca da permanência no governo paulista, Ademar apoiaria o nome do ministro da Guerra nas eleições presidenciais de 1950 e adotaria medidas repressivas contra o PCB, cujos parlamentares tiveram os mandatos cassados em janeiro de 1948.

A sucessão do presidente Dutra começou a ser discutida a partir de meados de 1948. No início do ano seguinte, o general Canrobert aparecia como provável candidato, ao lado dos governadores Ademar de Barros, Mílton Campos (de Minas Gerais), Válter Jobim (do Rio Grande do Sul) e Otávio Mangabeira (da Bahia). O quadro observado no interior dos partidos estava conturbado pela disputa de um grande número de políticos que desejavam a indicação, tornando mais difícil a escolha do general. Outro obstáculo era representado pelo próprio presidente Dutra, que se afastara do seu ministro da Guerra desde o episódio da frustrada intervenção federal em São Paulo. Não obstante, na área militar a candidatura de Canrobert contava com certo respaldo. Seus principais articuladores eram os generais Ângelo Mendes de Morais (prefeito do Distrito Federal), Euclides Zenóbio da Costa (comandante da 1ª Região Militar), Aristóteles de Sousa Dantas (comandante da Vila Militar do Rio de Janeiro) e João Valdetaro de Amorim Melo (chefe do Gabinete Militar de Dutra). No final de março de 1949, Canrobert partiu para os Estados Unidos em visita oficial, sendo substituído até o início de maio pelo general Newton Cavalcanti, o mais antigo general-de-divisão em serviço.

Em 2 de janeiro de 1950, as forças armadas ofereceram um almoço a Dutra. Nessa ocasião, Canrobert declarou que “não fora convidado por qualquer partido político e só sairia candidato se a indicação viesse de uma coligação de partidos”. Essa afirmação se vinculava à proposta apresentada por Válter Jobim em junho de 1948 e que ainda circulava nos meios políticos. A chamada Fórmula Jobim sugeria a realização de uma convenção de todos os partidos registrados na Justiça Eleitoral para que escolhessem apenas um candidato às eleições de outubro. Segundo Hélio Silva, “havia, porém, um pequeno grupo, inspirado na tradição de que o ministro da Guerra é o herdeiro da presidência em um governo forte, que cogitava da formação de um partido, o Partido Operário Trabalhista, cuja sigla — POT — era pichada nos muros e nas estradas, para sustentar a candidatura do general Canrobert. Esse partido, contudo, não chegou a se concretizar”.

No início de março, a candidatura do ministro da Guerra ganhou impulso com a notícia de que Raul Fernandes, ministro das Relações Exteriores e membro da União Democrática Nacional (UDN), estaria disposto a apoiá-la, junto com dois destacados líderes udenistas, o deputado federal baiano Juraci Magalhães e o senador pela Paraíba José Américo de Almeida. A oposição de Dutra, porém, continuava. No dia 3 de março, o jornal carioca O Globo garantiu que “o pouco interesse do chefe do governo pela candidatura de Canrobert” estava relacionado com a preocupação de preservar a unidade do Exército, pois “as sondagens realizadas indicaram que essa candidatura não ia bem com essa unidade”. Entretanto, nesse período o POT promoveu em Niterói e em outras cidades do país o lançamento de Canrobert através de comícios-relâmpago. O prazo para a desincompatibilização dos pretendentes a candidatos a cargos públicos expirou contudo em 2 de abril, tornando inviável a candidatura do ministro da Guerra dentro das regras eleitorais estabelecidas.

Nesse período, transcorria a campanha para a sucessão à presidência do Clube Militar. Concorriam ao pleito, de um lado, os generais Newton Estillac Leal e Horta Barbosa, representantes da ala nacionalista do Exército, e de outro, Osvaldo Cordeiro de Farias e Emílio Ribas Júnior, ligados às posições de Juarez Távora. Canrobert apoiou essa última chapa que, entretanto, foi derrotada pelos nacionalistas na eleição de 17 de maio.

Nos meios políticos, prosseguiam as discussões dentro dos partidos para a escolha dos seus candidatos. A indicação de Getúlio Vargas pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ventilada desde o início de 1950, provocou uma reação dentro das forças armadas. Em junho, depois que os trabalhistas já se haviam praticamente definido a favor do ex-presidente, Canrobert pediu ao deputado federal fluminense Ernâni Amaral Peixoto, genro de Vargas, que o aconselhasse a retirar sua candidatura para não desagradar ao Exército. Amaral Peixoto se recusou a transmitir o recado.

Getúlio venceu as eleições presidenciais de 3 de outubro de 1950, derrotando o brigadeiro Eduardo Gomes (candidato da UDN), Cristiano Machado (do PSD) e João Mangabeira (do Partido Socialista Brasileiro — PSB). Em novembro, Canrobert foi promovido a general-de-exército. Em depoimento prestado a Hélio Silva, Luís Gallotti, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), declarou que Canrobert lhe disse em dezembro ter sido procurado “por um grupo que queria levantar a sua candidatura na hipótese de o tribunal não diplomar Getúlio Vargas por julgar necessária a maioria absoluta que ele não havia alcançado”. Gallotti respondeu que, se o tribunal exigisse nova eleição, o povo votaria maciçamente em Vargas. Posteriormente, o TSE repeliu por unanimidade a tese da maioria absoluta.

 

Na oposição a Vargas

Com o início do segundo governo constitucional de Vargas em 31 de janeiro de 1951, Canrobert foi substituído por Estillac Leal no Ministério da Guerra. O novo governo enfrentou desde logo uma das mais cerradas oposições da história da República, movida sobretudo pela UDN, por importantes setores das forças armadas e do empresariado, e pela maioria dos grandes jornais do país. Em abril, Canrobert recebeu o comando da Zona Militar Norte — atual IV Exército —, sediada em Recife. Ligado ao setor das forças armadas que fazia oposição ao governo de Vargas, integrou a Cruzada Democrática, movimento organizado em março de 1952 com o objetivo principal de tomar a direção do Clube Militar das mãos dos nacionalistas. Nas eleições de maio desse ano, apoiou os candidatos da Cruzada, generais Alcides Etchegoyen e Nélson de Melo, que derrotaram por ampla margem Estillac Leal e Horta Barbosa. Em setembro de 1952, Canrobert deixou a Zona Militar Norte e assumiu a chefia do Departamento Técnico de Produção do Exército (atual Departamento de Engenharia e Comunicações), sediado no Rio.

Nome de grande prestígio entre seus companheiros de farda, Canrobert foi escolhido pela Cruzada Democrática para concorrer à presidência do Clube Militar nas eleições de maio de 1954, tendo como companheiro de chapa o igualmente prestigiado Juarez Távora. Profundamente debilitada, a corrente nacionalista não participou do pleito. Canrobert e Juarez derrotaram a chapa encabeçada pelo general Lamartine Peixoto Pais Leme, apoiada pelo general Zenóbio da Costa, ministro da Guerra de Vargas desde fevereiro desse ano.

A ofensiva oposicionista contra o presidente da República ganhou novo impulso a partir do atentado perpretado em 5 de agosto de 1954 na rua Toneleros, no Rio, que resultou no assassinato do major-aviador Rubens Vaz e em ferimentos no jornalista Carlos Lacerda, ligado à UDN e verdadeiro alvo da ação. O comprometimento de membros da guarda pessoal de Getúlio nesse episódio desgastou ainda mais a imagem do presidente junto às forças armadas. O general Canrobert esteve presente na série de reuniões realizadas por militares durante a crise subseqüente. Em 12 de agosto, participou do encontro promovido por Zenóbio da Costa, no qual os chefes militares reafirmaram sua determinação de elucidar o crime e de respeitar a Constituição. No dia 14, presidiu uma reunião no Clube Militar, que contou com a presença de cerca de 1.500 oficiais do Exército, onde foi apresentada uma moção exigindo a renúncia de Vargas. Alegando que estava comprometido com outros generais, Canrobert pediu aos presentes para não se precipitarem, conseguindo obter, com o apoio de Juarez Távora, a aprovação de uma moção conciliatória. Na tarde de 20 de agosto, participou da reunião do Alto Comando das Forças Armadas, convocada para discutir a proposta do vice-presidente da República, João Café Filho, no sentido de as forças armadas pedirem a renúncia de Vargas e do próprio Café Filho, visando solucionar a crise política. No final da reunião, decidiu-se pela manutenção do presidente no poder, pelo respeito à Constituição e pela divulgação de uma nota explicativa.

Paralelamente, as investigações sobre o atentado prosseguiram incriminando elementos ligados ao presidente, cuja renúncia foi exigida no dia 22 pelos brigadeiros lotados no Rio. Na tarde do dia seguinte começou a circular sigilosamente um manifesto assinado por 30 generais — entre os quais Canrobert, Juarez Távora, Fiúza de Castro e Mendes de Morais —, apoiando a nota dos brigadeiros e advertindo sobre os prejuízos insanáveis que a crise causava na economia do país. Cada vez mais isolado, Getúlio Vargas se suicidou na manhã de 24 de agosto.

 

O governo Café Filho e as eleições presidenciais de 1955

Com a posse do vice-presidente Café Filho, os militares antigetulistas fortaleceram suas posições dentro das forças armadas, ocupando os cargos de maior importância. O brigadeiro Eduardo Gomes tornou-se ministro da Aeronáutica, Juarez Távora ganhou a chefia do Gabinete Militar da Presidência da República e Canrobert, dois dias depois do suicídio de Vargas, deixou o Departamento Técnico e de Produção, nomeado chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA). Nessa condição, foi um dos signatários de um manifesto, divulgado em meados de setembro de 1954, que afirmava o compromisso das forças armadas na defesa da ordem e da Constituição. Referindo-se aos acontecimentos de agosto, o documento frisava que a proposta de afastamento de Vargas havia sido a única forma de assegurar a união dos militares, evitar a possibilidade de derramamento de sangue e salvar as instituições democráticas.

A UDN e a ala conservadora das forças armadas, que formaram a linha de frente da oposição ao governo de Vargas, investiram em seguida contra a candidatura do governador mineiro Juscelino Kubitschek à presidência da República, lançada extra-oficialmente pela direção nacional do PSD em novembro de 1954. Kubitschek era considerado excessivamente comprometido com a situação dominante anterior ao 24 de agosto. Em janeiro de 1955, Canrobert, Juarez Távora, Eduardo Gomes e o ministro da Guerra, Henrique Lott, entre outros, assinaram e divulgaram um documento que atestava a oposição das forças armadas a essa candidatura e pregava a necessidade de se encontrar um candidato civil de união nacional que contasse com a aprovação da hierarquia militar. O manifesto alcançou enorme repercussão, mas não impediu a ratificação do nome de Juscelino pela convenção nacional do PSD reunida em fevereiro. A partir de então, os demais partidos iniciaram as negociações para a escolha dos seus candidatos.

Em abril surgiu um movimento dentro do Partido Republicano (PR) e outras pequenas agremiações a favor da candidatura de Canrobert. No entanto, seu nome foi vetado pelo presidente da UDN, Artur Santos, que ratificou o compromisso dos udenistas com Etelvino Lins, dissidente do PSD, retirando assim qualquer possibilidade de êxito eleitoral de Canrobert. Posteriormente, porém, a UDN passou a apoiar o general Juarez Távora, lançado pelo Partido Democrata Cristão e endossado pelo Partido Libertador e o PSB. O quadro de concorrentes à eleição presidencial de 3 de outubro de 1955 foi completado pelo lançamento de Ademar de Barros (do Partido Social Progressista) e de Plínio Salgado (do Partido de Representação Popular).

A crise político-militar se agravou no mês de agosto. No dia 5, por ocasião do primeiro aniversário da morte do major Rubens Vaz, Canrobert proferiu um longo discurso no Clube de Aeronáutica. Falando na condição de presidente do Clube Militar, pediu a união das forças armadas, exigiu punição para os assassinos de Vaz (que ainda não haviam sido julgados) e afirmou que o país vivia sob um regime de “falsidade democrática” e de “pseudolegalidade”. Numa velada crítica a Juarez Távora, lamentou que a fórmula da união nacional não tivesse frutificado. As palavras de Canrobert causaram grande impacto e alguns parlamentares chegaram a pedir sua prisão ao presidente Café Filho.

Esse foi o último episódio marcante da atuação política de Canrobert, que faleceu no Rio de Janeiro em 31 de outubro de 1955, pouco depois de retornar dos Estados Unidos, onde se submetera a tratamento médico. A essa altura, a apuração do pleito presidencial de 3 de outubro já havia sido encerrada, com uma expressiva vitória de Juscelino e seu companheiro de chapa, o petebista João Goulart, sobre os demais concorrentes. Seus adversários, entretanto, passaram a lutar pelo impedimento da posse dos eleitos, alegando que não haviam obtido a maioria absoluta dos votos. Os acontecimentos que cercaram o enterro de Canrobert se inseriram nesse contexto. Durante a cerimônia fúnebre, realizada no dia 1º de novembro no cemitério São João Batista, no Rio, discursaram diversas autoridades civis e militares, inclusive o coronel Jurandir Bizarria Mamede, elemento de destaque na oposição militar a Juscelino. Em seu discurso, Mamede elogiou Canrobert por sua atuação no movimento contra Vargas em agosto de 1954 e criticou abertamente os candidatos eleitos, afirmando que seria uma “indiscutível mentira democrática” se a “vitória da minoria” fosse consagrada através da posse. Julgando a fala do coronel um ato de indisciplina, o general Lott exigiu sua punição, não sendo atendido pelo presidente Café Filho, que pouco depois se afastou de suas funções por motivo de saúde. O chamado “caso Mamede” foi o estopim do Movimento do 11 de Novembro que, liderado por Lott, depôs o presidente em exercício Carlos Luz e provocou o impedimento de Café Filho, acusando-os de envolvimento numa conspiração que visava impedir a posse de Juscelino e Goulart, finalmente concretizada em janeiro seguinte.

Canrobert foi promovido a marechal post mortem por um decreto de 18 de novembro de 1959.

Foi casado com Anadina Tumba Pereira da Costa, com quem teve dois filhos.

Sérgio Lamarão

 

 

FONTES: ARQ. CLUBE 3 DE OUTUBRO; CAFÉ FILHO, J. Sindicato; CARNEIRO, G. História; COHN, G. Petróleo; CORRESP. ESTADO-MAIOR DAS FORÇAS ARMADAS; CORRESP. SECRET. GER. EXÉR.; ENTREV. GUEDES, P.; FED. ESC. ISOLADAS DO EST. RJ. Ministros; Grande encic. Delta; HIPÓLITO, L. Campanha; HIRSCHOWICZ, E. Contemporâneos; LAGO, L. Relação; MIN. GUERRA. Almanaque; MIN. GUERRA. Subsídios; SILVA, H. 1930, SILVA, H. 1938; SILVA, H. 1939; SILVA, H. 1945; SILVA, H. 1954; SOC. BRAS. EXPANSÃO COMERCIAL. Quem; SODRÉ, N. História militar; SODRÉ, N. Memórias.

 

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