DILSON DOMINGOS FUNARO

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: FUNARO, Dilson
Nome Completo: DILSON DOMINGOS FUNARO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
FUNARO, DÍLSON

FUNARO, Dílson

*pres. BNDES 1985; min. Faz. 1985-1987.

 

Dílson Domingos Funaro nasceu na cidade de São Paulo no dia 23 de outubro de 1933, filho do imigrante italiano Pascoal Funaro e de Helena Kraljevic Funaro. Sua irmã Dalva Funaro casou-se com o empresário Fernando Gasparian, mais tarde constituinte (1987-1988) e deputado federal por São Paulo entre 1987 e 1991.

Cursou engenharia na Universidade Mackenzie, interrompendo seus estudos por seis meses para viajar pela Europa. Atuou em grêmios estudantis e já no segundo ano da faculdade montou sua própria empresa de peças industriais. Formou-se em 1956 e dois anos depois tornou-se diretor do Departamento de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). No final da década de 1950 comprou quatro pequenas empresas e formou a Companhia Brasileira de Peças Industriais (Cobrapi), que em 1967 se fundiu com a Trol S.A. Indústria e Comércio, indústria de plásticos e brinquedos.

Em 1969 tornou-se presidente da Trol e assumiu a Secretaria de Planejamento do governo Abreu Sodré, passando a ocupar no ano seguinte a Secretaria de Fazenda do estado de São Paulo. Ainda em 1970 integrou a Delegação Brasileira à Reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), deixando a secretaria em março de 1971. Em seguida teve atuação destacada na FIESP, da qual passou a ser diretor em 1977, defendendo no ano seguinte a criação de um partido dos trabalhadores. Ainda em 1978, coordenou um grupo de trabalho criado pela FIESP, responsável pela elaboração de um documento sobre a viabilidade do projeto siderúrgico. O documento tentava provar que a usina de Tubarão estava destinada ao fracasso, exigindo uma revisão completa e sua reciclagem para atender às necessidades nacionais. Algumas das sugestões dos empresários foram aceitas pelo então ministro da Indústria e do Comércio Ângelo Calmon de Sá que, dessa forma, permitiu à indústria nacional aumentar a sua participação no fornecimento de equipamentos à usina.

Em 1979, já como presidente do Sindicato da Indústria de Material Plástico de São Paulo, atacou publicamente a maneira de conduzir a economia, numa época em que os empresários economizavam suas críticas.

Em entrevista à revista Veja mostrou-se contrário à correção monetária, que distorcia o sistema econômico, e aos subsídios em demasia, que implicavam o endividamento externo e interno, e defendeu ainda uma reforma financeira para possibilitar um programa energético e a abertura política para o desenvolvimento da iniciativa privada. Declarou também que “só uma nação onde as instituições democráticas funcionam normalmente pode praticar uma economia de guerra. É impossível convocar o povo para que lute pelo seu país se não lhe for dada a oportunidade de participar das decisões”. Em 1980 aliou-se a Teobaldo de Nigris na eleição para a presidência da FIESP, vencida por Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho. A convite do novo presidente passou a integrar o Conselho Superior de Economia da entidade. Logo depois, entretanto, demitiu-se juntamente com Antônio Ermínio de Morais por divergirem do modo como era conduzida a política econômica do então ministro do Planejamento, Delfim Neto, e Funaro revelou-se um dos críticos mais diretos da política econômico-financeira durante o governo Figueiredo.

Em 1983 engajou-se na campanha das Diretas Já que visava interromper a reprodução do regime autoritário e culminou com a votação no Congresso Nacional da emenda constitucional que restaurava as eleições diretas para a presidência da República. Quando o movimento ganhou as ruas estava bastante doente, mas mesmo sob rigoroso tratamento médico participou do primeiro comício em São Paulo no dia 25 de janeiro de 1984, ao qual apenas um outro empresário, Paulo Francini, compareceu. A emenda foi derrotada em 25 de abril daquele mesmo ano. Nesta época, já havia descoberto ter sido acometido por um tipo de câncer dos gânglios linfáticos.

Eleito pelo Colégio Eleitoral para a presidência da República em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves adoeceu nas vésperas de ser empossado no dia 15 de março. Assumiu o exercício do cargo seu vice, José Sarney, que com a morte de Tancredo em 21 de abril foi efetivado como presidente no dia 22. Tinha início assim o governo da chamada Nova República e da transição para o regime democrático.

Já recuperado de sua doença, Funaro passou a ser cotado para ministro, mas acabou sendo indicado para a presidência do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Tomou posse no dia 16 de março com a intenção de devolver ao órgão sua verdadeira função de incentivar o investimento privado no processo industrial e reduzir os problemas sociais do país, já que nos anos anteriores, com a crise econômica, o banco passara a salvar empresas privadas arruinadas e a financiar estatais. Logo que assumiu seu novo cargo, reivindicou que o governo destinasse ao BNDES maior parcela de recursos do Fundo de Investimento Social (Finsocial) a ser aplicada dentro da maior produtividade e eficiência possíveis. Permaneceu à frente do banco por apenas cinco meses, procurando marcar sua gestão pela modernização, com destaque aos investimentos em áreas como informática e biotecnologia. Ainda como presidente do BNDES, participava de reuniões periódicas promovidas pelo presidente Sarney com um reduzido grupo, o chamado “conselhinho” econômico do Planalto, nas quais despontava com suas idéias desenvolvimentalistas e anti-recessivas.

No Ministério da Fazenda

No dia 27 de agosto o ministro da Fazenda Francisco Dornelles, depois de enfrentar inúmeras divergências com a equipe ministerial indicada pelo falecido presidente Tancredo Neves, demitiu-se do cargo, sendo substituído por Dílson Funaro, que deixou então o BNDES. Mantendo boas relações com o presidente Sarney desde que participara da administração Abreu Sodré em São Paulo e também com o ministro do Planejamento João Sayad, de quem recebeu todo o apoio, chegou fortalecido ao ministério, decidido a baixar os juros e a derrotar a inflação sem perder de vista o crescimento da economia.

Incumbido de promover uma reviravolta na estratégia do governo em sua frente econômica, três dias após assumir o cargo de ministro anunciou o mais alto índice, até então, de inflação mensal da história do país: 14%. Alegou que agosto de 1985 era um mês atípico, sobretudo pela liberação dos preços que haviam ficado congelados por três meses. Logo em seguida encaminhou a renegociação da dívida externa com a determinação de rechaçar as medidas de austeridade recomendadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Conseguiu em outubro um bom entendimento ao propor na assembléia anual do FMI e do Banco Mundial em Seul, capital da Coréia do Sul, uma supervisão mais branda. Assim, sem adotar uma posição de confronto, defendeu a visão que o governo Sarney tinha da soberania nacional.

Depois de trabalhar por novas formas de relacionamento com organismos de crédito internacional, voltou do Oriente para coordenar o pacto político entre o governo, empresários e trabalhadores, para obter uma trégua nas reivindicações salariais que ameaçavam a política de combate à inflação. No governo da Nova República que tinha como base parlamentar a Aliança Democrática, coalizão entre o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e o Partido da Frente Liberal (PFL), encarregou-se de também negociar no Congresso Nacional a aprovação de um pacote sobre o aumento de impostos destinado a neutralizar o déficit público. Aprovado em fins de novembro, o pacote que incluía medidas administrativas e sociais pretendia, segundo o próprio ministro, tornar o sistema tributário justo, taxando com mais rigor apenas a camada privilegiada da população, cujos salários já se confundiam com renda, e diminuindo substancialmente a retenção do imposto de renda na fonte dos assalariados que ganhavam até 30 salários mínimos. Transformou-se assim, em pouco tempo, no mais sólido colaborador do presidente e coordenador incontestável da economia.

No final de 1985, enquanto anunciava que pretendia promover um amplo entendimento econômico entre os diversos setores da sociedade, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) reivindicava trimestralidade, reforma agrária sob o controle dos trabalhadores, criação do seguro-desemprego, redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, estabilidade no emprego, congelamento dos preços dos alimentos de primeira necessidade e um salário mínimo que cobrisse o previsto no decreto que o criou. A CUT reclamava ainda da política sindical da Nova República pois, se durante as greves o governo não intervinha mais nos sindicatos, deixava nas mãos dos empresários o recurso das demissões por justa causa.

Em janeiro de 1986, Funaro anunciou que o Brasil obtivera em 1985 o terceiro maior superávit comercial do mundo, com o saldo positivo de 12,4 bilhões de dólares, atrás somente de Japão e Alemanha.

Ainda em janeiro, juntamente com Fernão Bracher, presidente do Banco Central, Funaro firmou um acordo com os bancos credores pela prorrogação por um ano dos créditos de curto prazo, livrando-se de um acordo formal com o FMI. Rolando dessa maneira a dívida, adiava por um ano a discussão com os banqueiros. Voltando de Nova Iorque, onde além de negociar a dívida foi também se consultar com especialistas em cancerologia, pôs seu cargo à disposição por achar que seu problema de saúde poderia criar incômodos e constrangimentos ao governo. O presidente Sarney não aceitou seu pedido de renúncia.

Janeiro de 1986 registrou novo índice recorde de inflação mensal, de 16,2%. Um novo pacote de medidas econômicas foi então anunciado, contendo o congelamento por um mês dos preços do açúcar, arroz, feijão e carne; a constituição de uma conta única do Tesouro Nacional no Banco do Brasil, o disciplinamento nos saques do Banco do Brasil na conta de movimento; a criação nas bolsas de mercadorias de leilões especiais para venda de milho diretamente aos criadores de frango, evitando-se os intermediários; o aumento de 12% para 25% dos fundos de garantia da caderneta de poupança e a transferência desses fundos do Banco Nacional da Habitação (BNH) para a gestão do Banco Central e ainda um esforço no sentido de dificultar a liberação de recursos federais aos estados e municípios. No mês seguinte, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou uma série de providências para inibir a demanda por bens de consumo, com cortes no crédito ao consumidor e restrições aos empréstimos bancários a pessoas físicas. Funaro argumentou que dessa forma buscava-se a defesa do consumidor e o poder de barganha das lojas frente à indústria, já que o crescimento verificado da demanda não correspondido pela oferta de produtos estava contribuindo para acelerar a inflação. As reações entre os empresários a respeito do pacote que reduziu o crédito foram variadas. O ex-ministro Mário Henrique Simonsen considerou as medidas uma resposta adequada ao aquecimento da demanda, mas insuficientes para reduzir a inflação em nível significativo.

No dia 28 de fevereiro foi divulgado mais um pacote, denominado pelas autoridades econômicas de Plano de Estabilização Econômica e que se popularizou como Plano Cruzado por instituir uma reforma monetária que transformou o cruzeiro, decrescido de três zeros, em cruzado. O pacote decretava o fim da correção monetária que corrigia o capital mensalmente e os salários a cada seis ou três meses. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) substituiu a correção monetária, passando a medir a inflação aplicada exclusivamente para remunerar as cadernetas de poupança, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep) e as aplicações financeiras com prazos superiores a um ano. Desapareceram também os reajustes automáticos e diários no câmbio, tendo o dólar seu valor fixado em 13,84 cruzados. Os novos salários em cruzados ganharam um abono geral de 8%, o salário mínimo foi elevado para oitocentos cruzados e os aluguéis e prestações do BNH congelados por um ano. O congelamento de preços e salários levou imediatamente uma multidão de pessoas às ruas para fiscalizar os supermercados e lojas, dando uma rara prova de confiança no governo. A popularidade do ministro chegava aos 80% entre os empresários.

Menos de um mês após o anúncio da reforma econômica, mudavam as regras a propósito dos salários. Por pressão do ministro do Trabalho Almir Pazzianotto, eles voltavam a ser indexados, sendo reajustados automaticamente na data-base de cada categoria com o equivalente a 60% da inflação, ficando os demais 40% para serem discutidos entre os sindicatos e as empresas. As lideranças sindicais continuaram descontentes com a nova política salarial. O economista Válter Barelli, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE), argumentou que o salário só era recomposto em pouco mais da metade de sua corrosão.

Logo as primeiras ameaças ao abastecimento surgiram. Variados produtos começaram a sumir do mercado como efeito automático do congelamento de preços. Para os comerciantes, muitos dos problemas eram resultados da precariedade das tabelas de preços elaboradas pela Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab), que os técnicos do governo admitiram terem sido feitas com pressa e em alguns casos de forma improvisada.

Em relação ao setor financeiro, a expectativa era alinhar as taxas de juros internos aos padrões existentes nos países de economia estabilizada, para que houvesse retomada dos investimentos a partir das taxas de juros compatíveis com a capacidade gerencial dos empresários. Funaro julgava satisfatório alcançar taxas de juros equivalentes a 12% e 13% ao ano. Em abril, durante a reunião do Comitê Interino do FMI, lembrou que a cada sete anos o Brasil pagava em juros o equivalente ao total de sua dívida externa e conclamou os países industrializados a reduzirem as taxas de juros reais (descontando-se a inflação nas nações credoras) e não apenas as nominais. Acusou ainda os países desenvolvidos de formarem um ostensivo cartel de credores.

Em julho, o Plano Cruzado dava seus primeiros sinais de exaustão. As greves eclodiam por todo o país, os pecuaristas boicotavam o congelamento dos preços fazendo com que a carne sumisse dos açougues e restaurantes, políticos exigiam recursos dos cofres públicos para poderem apresentar obras às vésperas das eleições para a Constituinte, empresários agrediam a reforma econômica cobrando o ágio, ou a diferença a mais contabilizada informalmente sobre o preço tabelado, e por fim generalizava-se a crise no abastecimento. Para minimizar todas essas dificuldades, novas medidas foram anunciadas: a criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento, com o objetivo de fornecer apoio à iniciativa privada, e a instituição do empréstimo compulsório sobre o preço da gasolina, do álcool e dos veículos novos para absorção temporária de excesso do poder aquisitivo. Em setembro, era tal a crise no abastecimento da carne que foi preciso ameaçar com o confisco do gado e com o corte de crédito para que os criadores cumprissem o preço de venda estipulado da arroba do boi gordo. No mês seguinte, entretanto, dois mil bois foram desapropriados de pecuaristas que afrontavam a política econômica ao negar a oferta de animais para o abate.

Em outubro, nos Estados Unidos, Funaro deu continuidade à renegociação da dívida, esforçando-se para conseguir que o Brasil não tivesse que concluir um acordo stand-by ou um programa de monitoramento ampliado com o FMI. Num verdadeiro confronto com o Clube de Paris (organização que reúne os bancos governamentais dos países desenvolvidos), o ministro enfatizou que o país não precisava se submeter ao FMI porque não estava atravessando crise alguma de balanço de pagamentos e já havia realizado ajustamentos internos e externos seguindo a orientação austera do FMI. De volta ao Brasil, declarou que as negociações estavam muito próximas de um acordo e os banqueiros, propensos a aceitar negociar com bases no artigo quarto do estatuto do Fundo, que previa a avaliação anual da economia de qualquer país sócio sem interferência em sua política econômica.

Em novembro, deu apoio ao candidato da Aliança Popular Democrática, Moreira Franco, que se elegeu governador do Rio de Janeiro. Aliás, sob o impacto positivo do Plano Cruzado o PMDB conseguiu excelentes resultados nas eleições para governadores e para a Constituinte. Dessa forma, definidos os novos quadros políticos do país, outros reajustes na economia foram editados. O pacote anunciado por Funaro aumentava impostos, tarifas, preços de produtos e ainda mudava o índice da inflação, relacionando-o apenas ao consumo das famílias com até cinco salários mínimos de renda mensal, arrecadando de imediato para o Tesouro mais de 175 bilhões de cruzados. Em protesto, cinco mil pessoas convocadas pelas centrais sindicais CUT e Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) fizeram o maior protesto já visto em Brasília, com saques e depredações. Devido à insatisfação popular, o ministro da Fazenda mais uma vez pediu exoneração do cargo, de novo sem sucesso. No início de dezembro, Funaro foi ao Senado e explicou as medidas do Plano Cruzado II. Não empolgou o plenário e manteve um debate com o senador Roberto Campos (PDS-MT), que criticou a desorganização da economia, mais especificamente a crise cambial, a insegurança dos investidores e poupadores internos e externos em relação à alteração dos índices de inflação e ao congelamento artificial de preços, a expansão da base monetária e a falta de decisão do governo em desestatizar a economia.

Ao participar de um seminário sobre o endividamento externo e comércio promovido pelo congresso dos Estados Unidos, classificou de insustentável o desvio de 24% da poupança brasileira para o pagamento de juros e taxas a credores, como ocorrera em 1985. Ainda em dezembro, fechou um acordo com o Clube de Paris considerado um avanço importante no processo de renegociação da dívida externa e de regularização das relações financeiras internacionais. O acordo incluía a reabertura dos financiamentos oficiais às importações de máquinas e equipamentos e o reescalonamento dos pagamentos de 1985 e 1986 e parte dos vencimentos de 1987.

Em fevereiro de 1987, discursando na posse do novo presidente do Banco Central, Francisco Gros, admitiu o fim do Plano Cruzado, ao se referir a ele como “um programa que durou vários meses”. Reconheceu que a inflação de fevereiro, assim como a de janeiro, de 16%, seria alta em conseqüência do realinhamento de preços que teve como objetivo tornar proporcionais preços e salários. Ainda naquele mês, o Brasil suspendeu o pagamento dos juros de sua dívida externa por prazo indeterminado, vencendo assim sua proposta de moratória, que justificou como a única saída possível e como conseqüência de um ato de profissionalismo.

Desaprovado na condução da economia por sua centralização, falta de conhecimentos específicos e atropelo na hora de decidir pelo ministro do Planejamento, João Sayad, não se fortaleceu quando Sayad se desligou do governo em março por não se afinar mais com a equipe econômica desde o Plano Cruzado II. Na ocasião, a posição de Funaro no Planalto já era frágil pelos resultados de sua política econômica. Banqueiros, empresários e políticos pediam ao presidente Sarney sua substituição no comando do Ministério da Fazenda. Um mês depois de decretada a moratória, a queixa maior era por ele não ter anunciado um programa de estabilização doméstica ou uma estratégia mais clara para lidar com os credores externos.

Em abril, frente à bancada do PMDB no Congresso, assumiu a responsabilidade pelo fracasso do Plano Cruzado e numerou quatro obstáculos: o congelamento prolongado de preços, o aquecimento da demanda, a subida dos preços e salários e os gastos públicos inadequados. Reconheceu que o Cruzado II foi adotado tardiamente e que o resultado de tudo foi a perplexidade e a insegurança que tomaram conta da sociedade. Ainda diante da bancada do PMDB, anunciou novas medidas de curto prazo para baixar os juros no mercado interno, que ao mesmo tempo destinavam-se a injetar dinheiro em atividades produtivas e a aumentar a liquidez do mercado financeiro. As principais medidas eram um programa de socorro financeiro a estados e municípios, construção de moradias, abertura de crédito para pequenas e médias empresas de material de construção e a destinação de recursos para a comercialização agrícola.

Ao voltar dos Estados Unidos, onde passara uma semana mantendo contatos financeiros, declarou-se otimista e garantiu que o Banco Mundial (BIRD) estava disposto a liberar metade do que o Brasil precisava para refinanciar sua dívida. Enfatizou como um grande avanço o reconhecimento pelo FMI de que seu discurso em defesa do crescimento econômico utilizado em 1986 estava na direção certa.

No dia 24 de abril, Funaro entregou seu pedido de demissão. Os índices inflacionários cresciam novamente chegando a 15% ao mês, como resultado do descongelamento dos preços. A economia tinha voltado ao estado de indexação generalizada, ocasionando a chamada inflação inercial, contra a qual o governo lançara o plano de estabilização no início de 1986.

Funaro declarou na ocasião que não pretendia voltar à iniciativa privada, mas aceitaria convites para debater os problemas nacionais em qualquer parte do país e denunciou a impunidade como uma das principais causas para o fracasso do Plano Cruzado. Dias depois de sua saída do ministério, circulou no Diário Oficial a exposição de motivos do projeto de construção da Ferrovia Norte-Sul. O documento contava com a assinatura do ministro, embora ele afirmasse que considerava questionável a prioridade do projeto, que ligava Brasília a Açailândia, no Maranhão.

Longe do governo Sarney, tornou-se um virtual candidato à presidência da República preservando posições firmes, coerentes com o programa do PMDB e em sintonia com as correntes nacionalistas. Em junho, assumiu a vice-presidência do Conselho de Política Econômica e Social da Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmando a necessidade da correção dos salários para evitar a recessão. Na oportunidade criticou o Plano Novo Cruzado, lançado por seu sucessor na pasta da Fazenda, Luís Carlos Bresser Pereira, e discordou da forma como o governo conduzia as discussões sobre a dívida externa, considerando que o Brasil retrocedia tomando como parâmetro suas conquistas no foro internacional.

Finalmente, assumiu de público a condição de candidato à presidência dizendo que aceitaria disputar as eleições se fosse apontado como solução de um processo, tal como acontecera com Tancredo Neves, para ter a possibilidade de fazer grandes mudanças. Passou então a defender a duração de quatro anos para o mandato do presidente Sarney e o presidencialismo como sistema de governo, temas que ainda seriam votados na Constituinte. Em “campanha cívica” pelo país e ampliando seus contatos com as bases do PMDB, sustentava no final de 1987 que três pontos básicos faziam parte de seu programa de governo: a questão da dívida externa, porque sem uma solução para ela o Brasil não teria possibilidade de desenvolvimento; a sustentação do desenvolvimento e a distribuição de renda.

Em abril de 1988, prestou depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Corrupção por ter assinado o Decreto nº 94.233, de 15 de abril de 1987, que reajustava todos os contratos firmados com a administração pública desde 1º de janeiro, beneficiando empresas de construção civil. Alegou em sua defesa que assinara o decreto inadvertidamente, num momento em que procurava colocar em ordem os papéis para deixar o cargo de ministro. Disse ainda que não havia concordado com outro decreto anterior e de igual teor devido a sua inconstitucionalidade e inconveniência, justificando que na ocasião estava mais preocupado com a questão da dívida externa, pois havia uma comissão paralela à sua negociando o problema, dirigida pelo embaixador Marcílio Marques Moreira.

Deixou o PMDB e filiou-se ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em julho, acompanhado do senador Mário Covas, presidente nacional da nova agremiação. Seu nome era então apontado para disputar a prefeitura de São Paulo, embora pela pesquisa do Ibope tivesse mais popularidade que o candidato à presidência Leonel Brizola.

Faleceu em São Paulo no dia 12 de abril de 1989.

Era casado com Ana Maria Suplicy Funaro, irmã de Eduardo Matarazzo Suplicy, deputado federal por São Paulo entre 1983 e 1987, vereador à Câmara Municipal de São Paulo entre 1989 e 1991 e senador por São Paulo a partir de 1991. Teve seis filhos. Deixou gravada em fitas de vídeo a primeira versão de um livro em que conta os bastidores da negociação da dívida externa e momentos que passou ao decretar a moratória em fevereiro de 1987.

Mônica da Silva Meneses

FONTES: Estado de S. Paulo (13/8, 6 e 18/9/85, 28 e 29/1, 15/2, 25/3, 24/8, 18/10, 14, 25 e 27/11 e 18/12/86, 22 e 28/3/87 e 12/4/88); Folha de S. Paulo (18 e 28/8, 19 e 30/9, 5 e 9/10, 28/11, 3 e 14/12/85, 9 e 11/1, 14 e 21/2, 6/3, 9/4, 28/5, 28/8, 27 e 29/9, 5 e 18/10; 11, 25, 27 e 28/11/86, 12 e 26/1, 21/3, 4/4 e 26/8/87, 9, 10 e 12/7/88, 14/4/89); Globo (13/3, 28/8, 1/9 e 17/12/85, 15, 18/1, 17/2, 10/4, 24/8, 15 e 27/9, 10, 12 e 14/10, 9, 14 e 25/11, 4 e 16/12/86, 21/2, 3 e 28/4/87, 30/3/88 e 13, 14/4/89); Jornal do Brasil (25/7, 27/8, 8/10, 10/11 e 14/12/85, 26/1, 29/3, 10/4, 22/6, 27/7, 19/9, 5/10 e 9/12/86, 6/1, 12/2, 26 e 31/3, 13/4 e 3/5/87 e 18/9/89); Veja (8/8/79, 15/1, 19/3 e 7/5/86, 25/3, 1/4, 6/5 e 17/6/87 e 16/3/88).

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados