ENEAS FERREIRA CARNEIRO

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Nome: CARNEIRO, Enéas
Nome Completo: ENEAS FERREIRA CARNEIRO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

CARNEIRO, Enéas

*cand. pres. Rep. 1989, 1994 e 1998; dep. fed. SP 2003-2007.

 

Enéas Ferreira Carneiro nasceu em Rio Branco no dia 5 de novembro de 1938, filho do barbeiro Eustáquio José Carneiro, ex-funcionário da antiga Companhia de Navegação Costeira, e de Mina Ferreira Carneiro.

De família pobre, morou em favela e iniciou seus estudos no Grupo Escolar 24 de Janeiro, na capital do Acre. Em 1947, transferiu-se para Belém, onde completou os primeiros estudos. Aos 19 anos, mudou-se com a mãe para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, para estudar na Escola de Sargentos do Exército e na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, atual UniRio, tendo sido aprovado em primeiro lugar em ambos os concursos. Obtendo mais tarde a patente de terceiro-sargento auxiliar de anestesia, passou a trabalhar no Hospital do Exército.

Como estudante, manteve-se afastado de qualquer atividade política, embora manifestasse alguma simpatia pelo marxismo e pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1964, quando ainda pertencia ao Exército, assistiu “apenas como espectador”, ao movimento político-militar de 31 de março que depôs o presidente João Goulart. Referindo-se a esse episódio anos depois, afirmaria que o movimento fora realizado “contra a desordem e a baderna” e “não (afetara) a vida do cidadão comum”. Apesar disso, avaliou negativamente os anos em que o país viveu sob o regime militar.

Formado em medicina em 1965 — ano em que deixou o Exército —, concluiria mais tarde o curso de ciências exatas (física e matemática) na Universidade do Estado da Guanabara, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Especializado em cardiologia, passou a ministrar um curso de eletrocardiografia a partir de 1975 no Rio e, a partir de 1983, em São Paulo. Em 1977, publicou O eletrocardiograma, obra que alcançou grande reputação nos meios acadêmicos e foi adotada por diversos cursos universitários do país. Paralelamente, abriu consultório médico no Rio de Janeiro. Em 1980, ingressou através de concurso público no Hospital do Câncer e no Hospital do Inamps, além de ter sido contratado como professor-auxiliar do Instituto de Biologia da UERJ. No ano seguinte, contudo, foi dispensado pela universidade, por não estar cumprindo a carga horária exigida pela instituição.

Em 1989, decidido a ingressar na vida política, criou o Partido de Reedificação da Ordem Nacional (Prona), que passou a presidir e em cuja legenda lançou sua candidatura à presidência da República, no pleito marcado para novembro daquele ano. Como o partido não possuía representação no Congresso Nacional, Enéas dispunha de apenas duas inserções diárias de 15 segundos no horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, iniciado no mês de setembro daquele ano. Apesar de praticamente anônimo no início da campanha e de contar com um tempo reduzido nos meios de comunicação, acabou por se destacar entre os candidatos apresentados pelas legendas menores. Seus discursos, sempre encerrados com a frase “Meu nome é Enéas” pronunciada em tom enfático, baseavam-se nos valores da ordem e da autoridade e veiculavam ataques violentos e generalizados contra os governantes e a classe política brasileira. Na imprensa, sua candidatura recebeu comentários irônicos e foi tratada como uma expressão política exótica e folclórica.

Durante a campanha, acusou seus concorrentes de serem semianalfabetos, prometeu decretar o congelamento de preços no primeiro dia de seu governo, regular o lucro dos empresários e promover um reajuste geral dos salários. Aos que o acusavam de ser um candidato de direita, respondeu que direita e esquerda eram conceitos “anacrônicos”. Realizado o pleito, obteve cerca de 360 mil votos (0,46% do total), ficando em décimo lugar entre os 21 concorrentes. Como nenhum dos candidatos obteve mais de 50% dos votos válidos, conforme determinava a legislação eleitoral, foi realizado um segundo turno, em que se enfrentaram o primeiro e o segundo colocados na primeira fase da disputa — respectivamente Fernando Collor de Melo, do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), e Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). Enéas negou-se a manifestar apoio a qualquer dos candidatos, declarando que anularia o seu voto no segundo turno e conclamando seus eleitores a fazerem o mesmo.

Também durante a campanha presidencial de 1989, insistiu na promessa de que não se aproveitaria da notoriedade então adquirida para concorrer a qualquer outro cargo no Legislativo ou no Executivo, ressaltando sempre que a presidência da República era o único posto político que lhe interessava. Assim, nas eleições para os governos e as assembleias legislativas estaduais e para o Congresso Nacional, realizadas em 1990, limitou-se a apoiar seus correligionários. Nessa ocasião, o Prona não conseguiu eleger um só parlamentar em todo o país. Nas eleições municipais de 1992, novamente limitou-se a pedir votos para os candidatos de seu partido, recusando-se a disputar qualquer cargo.

Voltou à disputa eleitoral somente em 1994, quando novamente se candidatou a presidente. Dessa vez, seu tempo na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão foi um pouco maior — em virtude da entrada de Regina Gordilho, deputada federal pelo Rio de Janeiro, no Prona, que pela primeira vez passou a contar com representação no Congresso Nacional. Como candidato a vice em sua chapa foi apresentado o nome do almirante Roberto Gama e Silva.

Manifestando-se contrário “aos ventos privatistas e globalizantes da sociedade moderna” e às concepções neoliberais de gestão econômica, enfatizou a necessidade de um Estado “técnico, forte e intervencionista”, capaz de promover uma “intervenção macroeconômica enérgica” e de implementar uma política de redistribuição de renda no país. Seu programa de governo destacava ainda a defesa do monopólio estatal sobre todas as riquezas minerais; a adoção de medidas de combate à especulação financeira; e o investimento da verba destinada ao pagamento da dívida interna em atividades produtivas. Como medidas de proteção às micro e pequenas empresas, defendia a implementação de uma reforma tributária e a intervenção do Banco Central no mercado para conter a alta dos juros. Sobre o Plano Real — plano econômico adotado pelo governo do presidente Itamar Franco para estabilizar a economia e conter a inflação, e que consistia no principal ponto de apoio da candidatura do ex-ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso —, afirmou tratar-se de um plano “eleitoreiro”, responsável por uma redução drástica do poder aquisitivo da população e pela elevação das taxas de juros, fazendo do Brasil “o campeão mundial da usura”.

Do ponto de vista político, repetiu as premissas de seu discurso veiculado na campanha anterior, calcado sobre os valores de ordem e autoridade. Afirmou que “a liberdade absoluta (levava) a um verdadeiro massacre dos mais fracos”, defendeu a legitimidade do uso de medidas provisórias pelo presidente da República, e declarou que a redemocratização do país havia resultado em perda de autoridade para o cargo de presidente da República.

Como as pesquisas eleitorais divulgadas indicavam que sua votação seria expressivamente maior da que recebera no pleito anterior, os principais órgãos de imprensa do país deixaram de encará-lo como um candidato “engraçado” e passaram a dispensar-lhe um tratamento hostil, apontando-o como o representante das forças políticas de extrema direita. No final de agosto, quando as pesquisas começaram a constatar a possibilidade de que terminasse a disputa à frente de importantes e tradicionais lideranças políticas do país, cresceram na imprensa os ataques diretos à sua candidatura. O jornalista da revista Veja Roberto Pompeu de Toledo, por exemplo, definiu-o como “uma flor da extrema-direita”, enquanto o jornalista Teodomiro Braga o chamou de fascista em debate realizado na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro. A classificação de fascista também lhe foi endereçada, no início de setembro, pelo apresentador de televisão Jô Soares. Ao mesmo tempo, eram publicados nos jornais elogios e declarações de apoio à sua candidatura por parte de dirigentes de organizações de extrema direita, como João Marques Flaquer, um dos fundadores do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

Nos últimos dias da campanha, vieram a público duas denúncias sobre sua conduta profissional: a primeira apontava-o como funcionário faltoso do Hospital do Câncer, onde por conta disso chegara a ser colocado em disponibilidade entre julho de 1990 e abril de 1992; a segunda acusava-o de não comparecer para trabalhar no Hospital do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) e de pagar a outro médico para trabalhar em seu lugar, enquanto acumulava tempo para aposentar-se.

A eleição presidencial de 1994 foi definida logo no primeiro turno, com a vitória de Fernando Henrique Cardoso, lançado por uma coligação liderada pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Enéas classificou-se na terceira posição, com 4.671.810 votos (7,4% do total), atrás de Luís Inácio Lula da Silva, candidato de uma frente de esquerda liderada pelo PT, mas à frente de outros seis concorrentes, entre os quais algumas lideranças com grande tradição na política brasileira, como os ex-governadores Orestes Quércia, Leonel Brizola e Esperidião Amin, lançados respectivamente pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Progressista Reformador (PPR). Na ocasião, apesar da expressiva votação obtida por seu candidato à presidência da República, o Prona não elegeu nenhum de seus candidatos à Câmara e ao Senado, voltando a ficar sem representação no Congresso Nacional. Dias após a realização do pleito presidencial, sob a pressão das denúncias relacionadas às suas faltas ao trabalho, Enéas pediu demissão do Hospital do Câncer e do Hospital do INAMPS, onde fora, inclusive, instalado um inquérito administrativo para apurar as acusações.

Em 1996, voltou a ocupar o tempo reservado a seu partido no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV para apoiar os candidatos da legenda ao pleito municipal realizado em outubro daquele ano. Em outubro de 1997, a direção do Prona em São Paulo foi acusada por um vereador do partido de estar vendendo vagas de candidatos a deputado estadual. Investigações posteriores realizadas pelo jornal Folha de S. Paulo revelaram também que os postulantes ao cargo estavam sendo obrigados a comprar setecentas cartilhas publicadas pela editora de Enéas, a Livraria Editora Enéas Ferreira Carneiro Ltda. Em reação às denúncias, o diretório nacional do Prona determinou a dissolução da executiva do partido em São Paulo. Em janeiro do ano seguinte, entretanto, o vereador que havia revelado o caso foi expulso da agremiação.

Ainda no início de 1998, superada a crise no partido, Enéas anunciou sua terceira candidatura presidencial. Em fevereiro, acatando recurso do candidato, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que 1/3 do tempo de campanha na TV fosse dividido igualmente entre todos os partidos. A medida beneficiou as pequenas agremiações como o Prona, que não tinham representação no Congresso Nacional e que, por conta disso, corriam o risco de ficar de fora da propaganda nos meios de comunicação.

Além do discurso que o caracterizara nas eleições anteriores, Enéas defendeu durante a campanha a reestatização das empresas privatizadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998). Sua proposta mais polêmica, no entanto, foi a de produção da bomba atômica pelo Brasil. Restringindo sua estratégia eleitoral praticamente aos programas de TV, não teve o mesmo desempenho da eleição anterior. Com cerca de 1,4 milhão de votos (2,14% do total), ficou em quarto lugar no pleito de outubro de 1998 vencido por Fernando Henrique Cardoso, que se reelegeu.

 A despeito de ter declarado em 1990 que não se candidataria a nenhum cargo eletivo a não ser à Presidência da República, em 2000 candidatou-se à prefeitura de São Paulo, mas não foi bem-sucedido. Obteve cerca de 3,5% dos votos válidos, enquanto Paulo Maluf, do Partido Progressista Brasileiro (PPB), e Marta Suplicy, do PT, passaram ao segundo turno,  vencido pela candidata petista.

Nas eleições legislativas de 2002, elegeu-se deputado federal por São Paulo com a maior votação da história para o cargo: 1,7 milhão de votos. Assumiu o mandato em fevereiro de 2003 e durante a legislatura participou, como membro titular, das comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento Desenvolvimento Rural; da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento Regional; de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, e ainda das comissões especiais para a Reforma da Previdência e Reforma Tributária. Foi suplente das comissões de Constituição e Justiça e de Cidadania, e de Constituição e Justiça e de Redação. Político conservador, era contrário à legalização do aborto e da união civil de pessoas do mesmo sexo.

No início de 2006 passou a enfrentar graves problemas de saúde. Primeiro foi acometido por uma pneumonia e depois passou a enfrentar uma leucemia aguda. O tratamento quimioterápico a que se submeteu para combater o câncer lhe fez perder a barba, uma de suas características fisionômicas mais marcantes, ao lado dos grandes óculos e da calvície acentuada. Desistiu de concorrer à presidência da República, como chegara a anunciar, mas saiu candidato à reeleição para a Câmara dos Deputados, acrescentado mais uma afirmativa ao seu conhecido bordão: “Com barba ou sem barba, meu nome é Enéas”. Foi reeleito em outubro de 2006 com 387 mil votos. 

Ainda nesse ano, o Prona e o Partido Liberal (PL) se fundiram, dando origem ao Partido da República (PR), o que permitiu ao primeiro a obtenção de representatividade mínima e, consequentemente, o acesso ao fundo partidário de financiamento de campanhas. A fusão foi motivada também pela possibilidade da chamada cláusula de barreira, que imporia restrições às legendas que não tivessem obtido pelo menos 5% dos votos nacionais para deputado federal.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 6 de maio de 2007 .

Teve três filhas, uma delas de seu primeiro casamento com Jamile Augusta Ferreira, e, a última, de sua união com a promotora Adriana Lorandi Ferreira Carneiro.

 

André Couto/Luís Otávio de Sousa/ Letícia Nunes de Moraes

 

FONTES: Estado de S. Paulo (18/11/89); Folha de S. Paulo (18/11/89; 11/6 e 28/8/94; 16/12/96; 28/10/97; 21/7, 12 e 21/10/98; 25/6/99; 5/4 e 10/7/06; 6/5/07); Globo (7/5/07); IstoÉ (31/8/94); Jornal do Brasil (21/10/89; 15,26/6, 10,24/7, 25/8, 18,29/9 e 22/10/94); NICOLAU, J. Multipartidarismo; Veja (15/11/89; 13/7, 31/8 e 12/10/94).

 

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