ERNANI GALVEIAS

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Nome: GALVEIAS, Ernâni
Nome Completo: ERNANI GALVEIAS

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
GALVÊAS, ERNÂNI

GALVÊAS, Ernâni

*pres. Bco. Central 1968-1974 e 1979-1980; min. Faz. 1980-1985.

 

Ernâni Galveias nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (ES) em 1º de outubro de 1922, filho de José Cardoso Galvêas e de Maria de Oliveira Galveias.

Concluiu seus estudos secundários em 1940 e em maio de 1942 iniciou sua vida profissional, ingressando no Banco do Brasil. Três anos depois diplomou-se em contabilidade e em 1953 assumiu o cargo de chefe adjunto do departamento econômico da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc). No ano seguinte, iniciou o curso de economia no Centro de Estudos Monetários Latino-Americanos, no México, diplomando-se em 1956. De julho a setembro de 1958 estudou no Economic Institute, em Wisconsin, nos Estados Unidos, transferindo-se em seguida para a Universidade de Yale, no mesmo país, pela qual graduou-se mestre em economia.

A partir de então, desempenhou vários cargos e missões públicas junto a organismos econômicos brasileiros e internacionais, desenvolvendo ainda atividades no magistério. Em 1960, participou, como assessor técnico, da reunião dos técnicos governamentais para exame do problema de pagamentos na Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC), realizada em Montevidéu. Ainda nesse ano, lecionou política monetária no curso de pós-graduação em análise econômica do Conselho Nacional de Economia, no qual, a partir de 1961, ministrou por três anos a cadeira de política e comércio internacional.

Em março de 1961, no início do governo Jânio Quadros, deixou o cargo que ocupava na Sumoc para exercer a função de assistente econômico do Ministério da Fazenda. Nesse mesmo ano, foi assessor técnico da delegação brasileira à reunião do Conselho Interamericano Econômico e Social (CIES), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA). Durante esse encontro foi criada a Aliança para o Progresso, com a finalidade de implementar programas — patrocinados pelo governo dos Estados Unidos — de assistência social e financeira aos países latino-americanos.

Ainda em 1961, assumiu o cargo de secretário executivo da Comissão Especial sobre Produtos Agrícolas, que ocupou até o ano seguinte. Em 1962, foi contratado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para preparar, com outros três técnicos latino-americanos, um estudo especial sobre o financiamento das exportações de bens de capital. Tornou-se também membro do conselho deliberativo da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e do conselho deliberativo da Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab), representando o Ministério da Fazenda.

Em setembro de 1963, deixou suas funções como assistente econômico do Ministério da Fazenda para assumir a direção financeira da Comissão de Marinha Mercante, que ocupou até junho de 1965, já no período posterior à deposição do presidente João Goulart pelo movimento político-militar de março de 1964. Reassumindo de imediato o cargo de assistente econômico do Ministério da Fazenda, na gestão do ministro Otávio Gouveia de Bulhões e durante o governo Castelo Branco, ocupou-o até julho de 1966, quando foi nomeado diretor da Carteira de Comércio Exterior (Cacex) do Banco do Brasil,

Em fevereiro de 1968, já no governo Costa e Silva, foi nomeado pelo ministro da Fazenda, Delfim Neto, presidente do Banco Central, substituindo Rui Aguiar Leme. Deixou então a direção da Cacex e, nas novas funções, participou da implementação dos mecanismos de financiamento às exportações através dos diversos organismos responsáveis pela política econômica, como a própria Cacex. Presidiu o Banco Central até março de 1974, quando se encerrou o governo Garrastazu Médici, e foi substituído por Paulo Pereira Lira.

Posteriormente, por aproximadamente quatro anos, dedicou-se mais intensamente à área privada. Ainda em 1974, assumiu a vice-presidência da Aracruz Celulose, projeto no Espírito Santo reunindo capital nacional — privado e estatal — e estrangeiro. Em agosto do ano seguinte foi eleito membro do conselho consultivo da Intercontinental Empreendimentos — Engenharia, Indústria e Comércio, do Grupo Financeiro Intercontinental.

Em 1979, no início do governo João Figueiredo, voltou a ocupar cargos públicos. Em maio, assumiu a presidência do conselho diretor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e, em agosto, retornou à presidência do Banco Central, em substituição a Carlos Brandão, que se incompatibilizara com o ministro da Fazenda, Carlos Rischbieter, em torno das idéias de reforma do sistema financeiro e, principalmente, do open market. Nessa mesma ocasião, o ministro-chefe da Secretaria de Planejamento, Mário Henrique Simonsen, demitiu-se, sendo substituído por Delfim Neto, que ocupava a pasta da Agricultura.

A posse de Ernâni Galveias no Banco Central ocorreu num momento em que se registrava uma expansão de 51,5% nos meios de pagamento. Logo que assumiu, referiu-se à meta de 30% de expansão para os meios de pagamento naquele ano, reafirmando-a como objetivo do governo, mas chamando a atenção para o cuidado de implementá-la sem o risco da recessão. Em setembro de 1979, anunciou o objetivo de eliminar a compra de papéis no open market com cheques administrativos, visando a reduzir os volumes transacionados no mercado. Convenceu o ministro da Fazenda, Carlos Rischbieter, a implementar, em dezembro, uma maxidesvalorização de 30% do câmbio.

Deixou a presidência do Banco Central cinco meses depois, quando foi nomeado ministro da Fazenda e substituído no Banco Central por Carlos Geraldo Langoni. Galveias assumiu a pasta da Fazenda em janeiro de 1980, em substituição a Carlos Rischbieter, que pedira demissão devido a divergências com a orientação que vinha sendo imprimida pelo ministro do Planejamento, Delfim Neto. Na medida em que sua afinidade com Delfim Neto era notória, o fato de ter sido escolhido o novo ministro significou uma tentativa do governo de recompor o equilíbrio ministerial, tendo como eixo a pasta do Planejamento. No discurso de posse, Galveias definiu sua área de competência: “a administração do balanço de pagamentos e do orçamento monetário”, numa atuação “intimamente entrosada com a Secretaria de Planejamento e os demais ministérios da área econômica”.

Em fevereiro de 1980, filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS), de orientação governista, criado após a reforma partidária de 29 de novembro de 1979, que revogou o bipartidarismo. Na ocasião, filiaram-se também o presidente do Banco do Brasil, Osvaldo Colin, o presidente da Caixa Econômica Federal, Gil Macieira, e o presidente do Banco Central, Carlos Langoni. Em março de 1980, acompanhou o ministro Delfim Neto aos Estados Unidos, numa viagem de contato com os meios financeiros. De volta ao Brasil, referiu-se publicamente à oportunidade daquela viagem, afirmando que a apresentação de uma “visão correta” das perspectivas da balança comercial e do balanço de pagamentos do país para aquele ano abrira a possibilidade de novos empréstimos por parte dos banqueiros americanos, até então inseguros com os números projetados pelos relatórios anteriores.

Apesar de ter assumido a pasta da Fazenda em perfeita harmonia com os demais ministérios e com os princípios da política econômica que o governo Figueiredo visava implementar, teve uma atuação controvertida, devido a atitudes tomadas ainda no primeiro ano de sua gestão. Em março de 1980, autorizou Langoni a vender no mercado grandes quantidades de ações de empresas estatais e a negociação de 150 milhões de ações da Companhia Vale do Rio Doce em quatro dias provocou um escândalo que chegou a ameaçar sua posição de ministro. Nessa ocasião, foi alvo de fortes críticas por parte da oposição no Congresso e teve que comparecer àquela casa para prestar esclarecimentos. Justificou a adoção da medida pela necessidade de suprir um problema da caixa do Tesouro, que precisava repassar recursos para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) a fim de atender ao Programa Nacional do Álcool (Proálcool), que se encontrava com defasagem de recursos.

Em outubro, um outro fato repercutiu negativamente junto à opinião pública. Voltando de Nova Iorque, onde estivera em missão oficial, fez com que a rota do avião comercial em que viajava, e cujo destino era o Rio de Janeiro, fosse desviada para o pouso extra em Brasília, uma vez que ele deveria acompanhar o presidente João Figueiredo numa viagem ao Chile e não havia tempo para conexões aéreas.

Ao lado desses acontecimentos, avolumavam-se as queixas dos banqueiros internacionais diante da inoperância das medidas adotadas para restringir a inflação, que em 1981 iria beirar os 100%. Em agosto de 1981, após a demissão do general Golberi do Couto e Silva da chefia da Casa Civil da Presidência da República, Galveias foi inquirido pela imprensa sobre a possibilidade de mudança da política econômica. Na ocasião, reafirmou as linhas básicas daquela política, que assim definiu: redução dos gastos públicos, contenção dos projetos de investimento das empresas estatais, controle da expansão monetária, expansão das exportações e da atividade agrícola. Quanto à grave crise que vinha afetando o setor industrial, o ministro considerou-a muito mais decorrência da própria inflação — “que desorganiza o sistema produtivo” — do que da política econômica governamental. Discordou das manifestações de empresários, que se mostravam favoráveis a um reaquecimento da economia nacional como forma de aliviar as dificuldades das empresas e as tensões sociais decorrentes do crescente desemprego, indicando o caminho das exportações como “a saída procurada para compensar certas reduções de investimentos nos setores público e privado”.

Em setembro de 1982, o México declarou a moratória das obrigações de sua dívida externa e os bancos credores responderam com o corte das linhas interbancárias e de comércio dos países devedores, agravando a vulnerabilidade desses. Esse episódio ficou conhecido como “setembro negro”. Nessa ocasião, liderou, com Delfim e Langoni, a equipe brasileira que promoveu, através de sucessivas reuniões no Brasil e no exterior, a renegociação da dívida externa do país, que já ultrapassava os 80 bilhões de dólares. O governo decidiu também recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para a obtenção de recursos considerados necessários à recuperação financeira. Medidas de contenção econômica de diversas ordens começaram então a ser implantadas em atenção às exigências do FMI.

Em fevereiro de 1983 promoveu outra desvalorização cambial de 30% visando à recuperação do saldo na balança comercial e do equilíbrio no balanço de pagamentos. Em maio, admitiu a dificuldade para cumprir as metas trimestrais assumidas com o FMI e o risco no atraso do saque de uma parcela do empréstimo feito pela instituição. Ainda em maio, viajou a Nova Iorque e foi agraciado com o título de “Homem do Ano” pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Em julho de 1984, demonstrou entusiasmo com o cumprimento, nos dois primeiros trimestres, dos cinco principais programas acertados com o FMI. Tais programas estavam relacionados, na área externa, aos níveis de reserva e do endividamento e, na área interna, ao crédito líquido interno e ao déficit nominal e operacional do Tesouro. No entanto, admitiu a persistência inflacionária, descartando o uso de medidas drásticas para a sua redução ainda durante o governo João Figueiredo. Com a assunção de José Sarney à presidência da República, em março de 1985, deixou o Ministério da Fazenda, sendo substituído por Francisco Dornelles.

Avaliando a política econômica da Nova República, criticou o plano de combate à inflação — o Plano Cruzado —, argumentando que o congelamento de preços implicaria o aumento do consumo, a escassez do abastecimento, ágios e filas e não seria uma medida sustentável a longo prazo, apenas mascarando a inflação e reduzindo a produção. Discordou frontalmente da opção da equipe econômica do governo de interromper os entendimentos com os credores da dívida externa, estabelecidos durante a sua gestão no Ministério da Fazenda, e declarar moratória. Em julho de 1987, argumentando que melhorias sociais estão necessariamente condicionadas ao progresso e ao desenvolvimento econômico, manifestou o seu desacordo com algumas propostas apresentadas na Assembléia Nacional Constituinte, especialmente as que propugnavam uma ampliação da ação do Estado na economia e a ampliação dos direitos dos trabalhadores “às expensas da liberdade de decisão empresarial”. Para Galveias, essas propostas representariam uma tendência ao sufocamento do sistema capitalista e a disposição de impor pela força as regras de um regime social comunista. Em janeiro de 1988, defendeu, como a saída para a diminuição do déficit público e da inflação, o aumento da arrecadação líquida do governo, com a redução de subsídios e outras transferências de recursos.

Consultor econômico da Confederação Nacional de Comércio (CNC) a partir de 1991, cinco anos depois integrou um órgão consultivo do governo do Espírito Santo, criado pelo governador Vítor Buaiz (Partido dos Trabalhadores) para apresentar projetos estratégicos para o estado.

Dedicou-se também ao magistério, tendo lecionado comércio internacional, na Faculdade de Ciências Econômicas da Guanabara, e moeda e crédito, na Faculdade de Economia e Finanças do Rio de Janeiro. Foi acionista minoritário da Cobesa, empresa de consultoria e investimentos.

Em 2008, tornou-se membro do conselho administrativo da Aracruz Celulose.

Casou-se com Léia dos Santos Galveias, com quem teve dois filhos.

Além de diversos trabalhos em revistas de economia, publicou Brasil: fronteiras do desenvolvimento (1974), Brasil, economia aberta ou fechada? (1978), Aprendiz de Empresário (1983) e As duas faces do cruzado (1987).

Gustavo Lopes

atualização

 

FONTES: CORRESP. BANCO CENTRAL; CORRESP. CONF. NAC. COMÉRCIO; Estado de S. Paulo (18/1/80, 16/8/81, 26 e 27/1, 12/5/83, 19/7/84, 28/6/85,18/11/86, 16/1/88, 3/8/89, 29/6/91); Folha de S. Paulo (14/2/80, 19/6, 3/7, 13/9, 13/12/87, 12/1, 11 e 19/3, 23/4, 22/6, 27/12/88; 13/6, 8/7/89, 2/7/92; 15/1/94, 16/8/95, 4/6/96); GALVEIAS, E. Integração; Globo (11/8/81; 20/5/83, 27/7/84; 9/5 e 21/8/87, 3/5/91; 5/10/92); Grande encic. Delta; Jornal do Brasil (18/7/76; 9/5 e 11/12/77, 15/5, 15, 16 e 18/8 e 9/9/79, 2, 15 e 20/3 e 11/10/80, 9/9/84, 27/5/85); KLEIN, L. Cronologia; Who’s who in Brazil.

 

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