FERNANDO CARLOS BOTELHO BRACHER

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Nome: BRACHER, Fernão
Nome Completo: FERNANDO CARLOS BOTELHO BRACHER

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
BRACHER, Fernão

BRACHER, Fernão

*pres. Banco Central 1985-1987.

 

Fernando Carlos Botelho Bracher nasceu em São Paulo em 3 de abril de 1935, filho de Eduardo Bracher e de Zilda Botelho Bracher.

Em 1957 formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e de 1958 a 1960 freqüentou cursos de especialização nas universidades de Heidelberg e de Freiburg, na Alemanha.

De volta ao Brasil, começou a advogar no Escritório Pinheiro Neto. Em 1961, deixou esse escritório para tornar-se diretor do Banco da Bahia S. A. Em 1974, ao ter início a gestão de Mário Henrique Simonsen no Ministério da Fazenda, assumiu o cargo de diretor da área externa do Banco Central. Entre 1974 e 1976, foi membro do Grupo dos 20 no Fundo Monetário Internacional (FMI), encarregado da elaboração de uma proposta de reforma monetária internacional. Sua ida para o Banco Central ocorreu num momento em que a economia enfrentava a crise do chamado “milagre brasileiro”, e o governo Ernesto Geisel implementava o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que se assentava na maciça entrada de capitais estrangeiros e redefiniria a estrutura produtiva do país. No plano político, iniciava-se o processo de distensão que culminaria com a devolução do poder aos civis em 1985, encerrando um ciclo de 21 anos de regime militar.

Em 1979 deixou o Banco Central e retornou à iniciativa privada,  tornando-se vice-presidente executivo da Atlântica Companhia Nacional de Seguros. Dois anos depois, assumiu a vice-presidência executiva do Banco Brasileiro de Descontos S.A. (Bradesco) e tornou-se diretor das demais empresas do grupo. Em 1982,  passou a integrar o Conselho de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e se tornou vice-presidente da Associação Nacional de Bancos de Investimentos (Anbid). No ano seguinte, deixou a vice-presidência da seguradora.

Em agosto de 1985, já no governo José Sarney (1985-1990), a convite do ministro da Fazenda, Dílson Funaro, seu amigo, assumiu a presidência do Banco Central, sucedendo a Antônio Carlos Lemgruber. Na posse, defendeu a união dos setores econômicos, tanto governamentais quanto privados, para possibilitar a implementação de uma política adequada ao projeto de crescimento da economia. Descartou o tabelamento das taxas de juros e afirmou a disposição de conter a expansão monetária e a diminuição do déficit público. Propugnou a concretização de uma política econômica que conciliasse combate à inflação, crescimento econômico e pagamento da dívida externa. Declarou a necessidade de aumento da poupança interna, revertendo a tendência declinante. Em novembro, determinou a liquidação de três bancos – Comind, Auxiliar e Maisonnave – que, em graves dificuldades, sobreviviam à custa de linhas de crédito governamentais.

Sua atuação no contexto de reestruturação da dívida externa não deixou de ser influenciada pela ambigüidade que a Nova República revelaria em outras questões. Em dezembro de 1985, foi a Nova Iorque negociar com o Comitê de Assessoramento da Dívida Brasileira – formado por representantes dos bancos credores privados – o reescalonamento dos serviços da dívida, através de um acordo de renovação das linhas internacionais de crédito a curto prazo e depósitos interbancários. Ficou também acordada a redução das taxas de risco e a unificação das taxas de juros cobradas ao Brasil em torno da taxa interbancária do euromercado, inferior às taxas de juros preferenciais do mercado americano que haviam sido usadas em alguns cálculos anteriores. As negociações foram feitas sem a submissão da política econômica à fiscalização do FMI. Em janeiro de 1986, viajou a Londres para reafirmar o acordo conseguido com bancos ingleses.

Em março de 1986, denunciou a existência de um plano montado para desacreditar o sistema financeiro e o Plano de Estabilização Econômica – mais conhecido como Plano Cruzado – apresentado por Funaro no mês anterior. Em setembro, depois de receber uma denúncia de evasão ilegal de divisas para o exterior, determinou a investigação dos registros de entrada de capital e a verificação da situação dos investimentos que contassem com esse tipo de recurso. Em outubro, após participar da assembléia do FMI/Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington, reiterou a disposição do governo de não mais aceitar qualquer espécie de monitoramento para a sua economia por parte do FMI, mas afastou a possibilidade de o Brasil pedir moratória da dívida externa. Em dezembro de 1986, foi acusado de crime de responsabilidade civil pelo presidente da Associação Nacional dos Acionistas Minoritários do Banco do Brasil por ter determinado que esse banco subsidiasse financiamentos para o crédito rural.

Em janeiro de 1987, apresentou reservadamente a Funaro um pedido de demissão, argumentando haver divergências entre as suas opiniões e algumas medidas tomadas pela equipe econômica (solicitara providências do governo para elevar as taxas de juros e desaquecer a demanda, mas não foi atendido). Em outro momento, defendeu a adoção do empréstimo compulsório, mas sua proposta foi recusada. Seu pedido de demissão foi recusado pelo ministro e, ainda em janeiro, esteve novamente em Nova Iorque para tentar obter o apoio do governo dos Estados Unidos nas negociações com o Clube de Paris, que reúne os governos credores do Brasil. 

Durante sua ausência, foi duramente criticado por quadros do partido governista, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), capitaneados pelos economistas João Manuel Cardoso de Melo e Maria da Conceição Tavares, que o responsabilizavam pela alta dos juros devido à sua defesa da medida como opção para estimular a poupança, inibir o consumo e garantir um processo de realinhamento global dos preços. Ao retornar ao Brasil, reiterou o pedido de demissão, finalmente aceito em 11 de fevereiro de 1987. Foi substituído por Francisco Gros. A notícia da demissão, veiculada por jornais americanos e europeus, gerou alguma apreensão quanto ao destino das negociações.

Com a assunção de Bresser Pereira ao cargo de ministro da Fazenda em abril de 1987,  no lugar de Funaro, tornou-se assessor especial do Ministério da Fazenda e principal negociador com os credores externos, num momento em que as reservas cambiais tendiam ao esgotamento e após a decretação da moratória em fevereiro. Em outubro de 1987, viajou a Paris e a Nova Iorque para participar das negociações da dívida e afirmou a disponibilidade do Brasil para fazer um acordo com o FMI. Entretanto, sustentou a rejeição de que o dinheiro emprestado por esse fundo e pelo Banco Mundial servisse para o pagamento de serviços da dívida aos bancos credores privados, defendendo que esses recursos deveriam ser usados para investir na geração de riquezas. O acordo obtido visava a permitir que o Brasil retomasse os financiamentos, voltando a fazer parte do sistema financeiro internacional em bases sustentadas. Em dezembro, acusou a existência de um cartel organizado pelos credores privados estrangeiros para a negociação da dívida das nações em desenvolvimento. Afirmou ser esse o maior obstáculo para avanços rápidos na solução do problema da dívida externa. Ainda em dezembro, com a saída de Bresser Pereira e a entrada de Maílson da Nóbrega ao Ministério da Fazenda, deixou o cargo de assessor.

Defensor da manutenção de juros altos como forma de conseguir uma contenção monetária, discordou da aprovação do tabelamento da taxa de juros durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, em maio de 1988. Considerou a decisão um erro doloso por limitar a flexibilidade da oferta monetária na economia.

Ainda em maio, com Antônio Beltran Martinez – com quem trabalhara na diretoria do Bradesco – deu início às operações do CA-BB Banco de Investimentos S .A. Essa instituição foi criada em associação com o austríaco Creditanstalt Bankverein e contou com o capital inicial de 20 milhões de dólares. O novo banco acabou se transformando numa sucursal da instituição austríaca, mudando o nome para BBA Creditanstalt, montado com a compra da carta patente do Banco Bahia e tendo a presidência ocupada por Bracher. Em março de 1995, às vésperas de uma desvalorização da moeda frente ao dólar americano, recebeu a visita de Pérsio Arida, então presidente do Banco Central e seu amigo. Esse episódio lhe custou suspeitas de ter recebido informações privilegiadas sobre alterações na política cambial, denúncia feita pelo senador por Sergipe José Eduardo Dutra, do Partido dos Trabalhadores  (PT). Em 1996, o BBA comprou a Mappin Financeira, ampliando a atuação na área de crédito direto ao consumidor. Logo em seguida, adquiriu o BCN, que ocupava, então, a sexta posição entre os bancos privados nacionais, operação realizada com recursos externos sem a ajuda do Proer.

Em 1997, comentando a política monetária e cambial do governo, afirmava que as fontes com as quais o país financiava seu déficit nas transações correntes poderiam não se sustentar no médio prazo, caso se esgotassem os recursos oriundos das privatizações. Segundo Bracher, existiam pontos de risco que se relacionavam tanto à ação do governo, que captava recursos com a emissão de títulos de oito anos e que poderiam ser resgatados em três, como com o fato de que os principais compradores desses títulos não eram mais bancos, e sim fundos privados de investimento.

Casou-se com Sônia Maria Sawaya Botelho Bracher, com quem teve cinco filhos.

Gustavo Lopes

 

FONTES: Carta Capital (26/11/97); CURRIC. BIOG.; Estado de São Paulo (28 e 29/8/85; 17 e 28/1, 4/5/86; 11 e 12/2, 7/11/87; 6/1/88; 23/3 e 25/6/95; 21/8/97); Folha de São Paulo (29/8, 21 e 24/11/85; 16, 17 e 23/1, 08/10 e 29/11/1986; 5/1, 11/2, 8/4 e 8/11/1987; 27/5/88; 5/12/95; 27/7/96); Globo (29/8 e 11/12/85; 20/1, 17/2, 7/3, 3/9, 16/10 e 22/12/86; 15 e 24/1, 11 e 13/2, 8/10, 15/11, 21/12/87; 27 e 28/5/88; 12/12/96); Jornal do Brasil (28 e 29/8, 5 e 27/9/85; 7/11/86; 28/1, 11 e 15/2, 8/10, 9 e 15/11, 20 e 21/12/87; 12 e 28/5/88; 25/4/89; 12/12/96); Veja (22/1 e 25/6/86; 19/8/87);

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