FORTUNATO, GREGORIO

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Nome: FORTUNATO, Gregório
Nome Completo: FORTUNATO, GREGORIO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
FORTUNATO, GREGÓRIO

FORTUNATO, Gregório

*atent. Toneleros.

 

Gregório Fortunato nasceu em São Borja (RS) no mês de maio de 1900, filho de Damião Fortunato e de Ana de Bairro Fortunato.

Negro, de origem humilde e sem instrução, Gregório trabalhou durante muito tempo como peão nas fazendas de gado da região de São Borja. Aproximou-se da família Vargas em 1932, quando se destacou no combate à Revolução Constitucionalista de São Paulo, integrado ao 14º Corpo Auxiliar da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Essa unidade era comandada por Benjamim Vargas, irmão de Getúlio Vargas, chefe do Governo Provisório formado depois da vitória da Revolução de 1930. A atuação de Gregório na luta contra as forças paulistas lhe garantiu uma promoção ao posto de tenente da Brigada Militar gaúcha e deu início a uma ligação duradoura com Benjamim Vargas, conhecido como “Bejo”.

Segundo Afonso Henriques, Gregório foi um dos participantes de um saque armado contra a cidade argentina de Santo Tomé, realizado em setembro de 1933 sob o comando de Bejo, que resultou na morte de guardas argentinos. O incidente provocou séria tensão entre Brasil e Argentina, e o governo brasileiro teve de pagar uma elevada quantia às vítimas do ataque e a seus familiares, a título de indenização.

Em maio de 1938, após o fracassado golpe integralista contra Getúlio, Benjamim Vargas tomou a iniciativa de organizar uma guarda pessoal para proteger seu irmão, cuja falta de segurança ficara evidenciada pela facilidade com que os rebeldes haviam penetrado nos jardins do palácio Guanabara, residência oficial do chefe do governo. Preocupado em garantir a máxima fidelidade a Getúlio, Bejo recrutou em São Borja, entre antigos integrantes do 14º Corpo Auxiliar, praticamente todos os 20 primeiros membros da guarda, inclusive Gregório Fortunato. Segundo depoimento de Ernâni Amaral Peixoto ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc), Gregório “era o que tinha mais qualidades, mais liderança”, assumindo na prática a chefia da guarda que acompanhou Getúlio durante todo o período restante do Estado Novo. Em 1945, Gregório assumiu a chefia formal da equipe, sempre sob a supervisão de Bejo.

A guarda pessoal foi desativada depois da deposição de Getúlio pelo golpe militar de 29 de outubro de 1945. No dia 31 seguinte, o ex-presidente partiu para São Borja, acompanhado do capitão Serafim Vargas, seu sobrinho, de Ernesto Dornelles, seu primo, e de Gregório Fortunato.

Nos anos seguintes, Gregório trabalhou como funcionário da polícia gaúcha em Torres e outras cidades do estado, visitando esporadicamente Getúlio Vargas em seu retiro na fazenda de Itu, em São Borja. Os rumores, surgidos em 1949, de que Vargas concorreria às eleições presidenciais do ano seguinte na legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) provocaram a acorrida de políticos e correligionários do ex-presidente a Itu, inclusive Gregório, que abandonou suas atividades policiais e voltou a se aproximar do antigo chefe.

Getúlio venceu com uma margem significativa de votos o pleito de 3 de outubro de 1950, derrotando o brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN), e Cristiano Machado, do Partido Social Democrático (PSD). Pouco depois, coube a Gregório Fortunato a tarefa de reorganizar e chefiar a nova guarda pessoal do presidente, que tomaria posse em 31 de janeiro de 1951. Nesse intervalo, circulavam rumores de que Gregório havia exigido uma parte das verbas da polícia do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, para pagar os auxiliares da guarda pessoal, provocando a demissão do general Ciro de Resende, chefe de polícia, que discordou dessa medida.

Desde o início do seu segundo governo constitucional, Vargas enfrentou uma das mais cerradas oposições da história da República, movida sobretudo pela UDN, por importantes setores das forças armadas e do empresariado, e pela maioria dos grandes jornais do país. Gregório Fortunato foi um dos alvos mais visados pelos ataques oposicionistas, sendo apresentado à opinião pública como símbolo da corrupção que, supostamente, crescia no interior do governo federal. O chefe da guarda pessoal do presidente era acusado de se aproveitar da sua proximidade com o poder para aplicar uma política clientelística e de favoritismo, que incluía desde a obtenção de empregos públicos para seus apaniguados até a proteção de conhecidos banqueiros do “jogo do bicho” em troca de dinheiro. Em agosto de 1951, o diário carioca Tribuna da Imprensa, de propriedade do jornalista Carlos Lacerda, ligado à UDN e ferrenho adversário de Getúlio, lançou uma campanha contra Gregório, acusando-o de participação em um negócio escuso, que envolvia a compra de carros em Porto Alegre e sua posterior revenda no Rio.

As críticas ao governo e as acusações de corrupção administrativa se intensificaram em 1954, ano em que se realizariam eleições para o Congresso Nacional e o governo de 11 estados da Federação. Carlos Lacerda destacou-se à frente da ofensiva oposicionista, utilizando uma linguagem agressiva durante sua campanha para deputado pelo Distrito Federal. Na madrugada do dia 5 de agosto desse ano, Lacerda foi levemente ferido em um atentado ocorrido na rua Toneleros, no Rio, que resultou na morte do major-aviador Rubens Vaz, seu acompanhante na ocasião.

O atentado da Toneleros, como ficou conhecido, marcou o início da etapa decisiva do confronto entre o governo e a oposição. Logo no começo das investigações, Climério Euribes de Almeida, membro da guarda pessoal do presidente, foi envolvido no crime. No dia 9 de agosto, Vargas determinou a dissolução da guarda, o que não impediu o aumento da tensão político-militar. Pouco depois, pressionado pelo general Aguinaldo Caiado de Castro, chefe da Casa Militar da Presidência da República, Gregório confessou a Benjamim Vargas ter encarregado Climério de eliminar Lacerda.

Com o desenvolvimento do inquérito conduzido pela Aeronáutica, foram aparecendo novas provas contra elementos da segurança do presidente. No dia 13, soldados da Aeronáutica capturaram e levaram para a base aérea do Galeão, no Rio, Alcino João do Nascimento, responsabilizado pelos disparos que vitimaram o major Vaz e atingiram Lacerda. João Valente de Sousa, secretário da guarda, também foi detido e seu depoimento incriminou Gregório.

No dia 15 de agosto, Gregório Fortunato foi preso no palácio do Catete, sede do governo, acusado de mandante do atentado. Depois de submetido a exames cardiológicos no quartel-general do Corpo de Fuzileiros Navais, situado na ilha das Cobras, foi transferido para o Galeão, onde estavam sendo efetuados os interrogatórios. Na madrugada do dia 18, Climério também foi preso e levado para essa base. Na tarde seguinte, oficiais da Aeronáutica retiraram do palácio do Catete os arquivos de Gregório, que se constituíram numa peça importante da escalada oposicionista pela renúncia de Getúlio. O exame desse material revelou o envolvimento de Gregório numa série de transações financeiras ilícitas como a obtenção de um empréstimo de três milhões de cruzeiros antigos junto ao Banco do Brasil para a compra de uma fazenda de propriedade de Manuel Vargas, filho caçula do presidente.

Gregório passou 24 dias incomunicável na base do Galeão, tendo sido interrogado várias vezes. Os oficiais encarregados do inquérito usavam um estratagema para convencê-lo a falar, providenciando junto com Lacerda uma edição falsa da Tribuna da Imprensa, com a manchete: “Bejo Vargas foge para Montevidéu, abandonando os seus amigos na hora do perigo.” Um exemplar do jornal foi deixado em cima de uma mesa do corredor da base. Gregório o leu e começou então a incriminar diversas autoridades, como os deputados Danton Coelho e Lutero Vargas (filho do presidente), e Vítor Costa (diretor da Rádio Nacional). Afirmou também que o general Ângelo Mendes de Morais (ex-prefeito do Distrito Federal) e Euvaldo Lodi (deputado e presidente da Confederação Nacional da Indústria) lhe haviam dito que era preciso “acabar” com Lacerda, e acusou Bejo de mandante do crime. Ao mesmo tempo, sempre sustentou a inocência de Getúlio Vargas, que se suicidou no dia 24 de agosto, em pleno desenvolvimento das investigações. Os depoimentos de Gregório foram tomados em agosto e setembro e levaram os responsáveis pelo inquérito a convocar as pessoas citadas para depor.

Os implicados no atentado da Toneleros só foram julgados em outubro de 1956. Defendido pelos advogados Carlos de Araújo Lima e Romeiro Neto, Gregório foi condenado a 25 anos de reclusão. Sua pena foi comutada para 20 anos pelo presidente Juscelino Kubitschek e, depois, para 15 anos pelo presidente João Goulart. Em setembro de 1962, o conselho penitenciário recusou o pedido de liberdade condicional de Gregório que, em 23 de outubro seguinte, foi assassinado na penitenciária Lemos de Brito, no Rio, pelo detento Feliciano Damas Emiliano.

Gregório Fortunato foi casado com Juraci Lencina Fortunato, com quem teve um casal de filhos.

A seu respeito, o jornalista Davi Nasser escreveu o livro O anjo negro de Getúlio (2ª ed., 1966).

Sérgio Lamarão

 

 

FONTES: BALDESSARINI, H. Crônica; CARNEIRO, G. História; CONY, C. Quem; Correio da Manhã (24/10/62); COSTA, M. Cronologia; DULLES, J. Getúlio; Encic. Mirador; FRANCO, A. Escalada; HENRIQUES, A. Ascensão; Jornal do Brasil (24/10/62); LACERDA, C. Depoimento; MACHADO, F. Últimos; NASCIMENTO, A. Mataram; NASSER, D. Anjo.

 

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