FOURNIER, SEVERO

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: FOURNIER, Severo
Nome Completo: FOURNIER, SEVERO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
FOURNIER, SEVERO

FOURNIER, Severo

*militar; rev. 1932; rev. 1938.

 

Severo Fournier nasceu no dia 17 de janeiro de 1908, filho do capitão Luís Mariano de Barros Fournier.

Sentou praça em abril de 1926 como aluno da Escola Militar. Optando pela arma de cavalaria, saiu aspirante em janeiro de 1930, sendo promovido a segundo-tenente em julho seguinte e a primeiro-tenente em agosto de 1931. Nessa patente, aderiu, em 1932, à Revolução Constitucionalista de São Paulo, tornando-se ajudante-de-ordens do coronel Euclides de Figueiredo, comandante do destacamento revolucionário que atuou no vale do Paraíba. Com a derrota da revolução em outubro desse ano, Fournier foi expulso do Exército, retornando às suas fileiras com a anistia decretada em maio de 1934 por Getúlio Vargas, chefe do Governo Provisório. Pouco depois, obteve licença para tratamento de saúde e não retornou mais à ativa, passando à condição de agregado.

Depois da implantação do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, e a conseqüente extinção de todos os partidos políticos, a Ação Integralista Brasileira (AIB) — organização de cunho fascista fundada em 1932 por Plínio Salgado — adotou uma política de confronto com Vargas, começando a preparar um golpe de Estado, apoiado também por outras correntes de oposição. Apesar de não pertencer aos quadros da AIB, Fournier aderiu a esse projeto, no qual reencontrou seu antigo comandante, Euclides de Figueiredo.

A primeira tentativa de levante ocorreu no dia 11 de março de 1938, sendo abortada pela ação policial contra o grupo de milicianos que se encaminhava para ocupar a Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, a fim de transmitir a ordem para o início da revolta. Apesar das inúmeras prisões então efetuadas — inclusive a do coronel Euclides de Figueiredo — a conspiração não foi debelada. Depois de permanecer algum tempo escondido, Severo Fournier voltou a se articular com o movimento, agora chefiado pelo general João Cândido Pereira de Castro Júnior. Além desse oficial, entre os militares conspiravam também o coronel Aírton Playsant, o major Rodolfo Bittencourt e o comandante da Vila Militar, general Newton Cavalcanti, que retirou seu apoio às vésperas da deflagração da segunda tentativa. Segundo avaliação dos seus promotores, a revolta contaria com o apoio do Batalhão de Guardas, do 1º Grupamento Motorizado, do 13º Regimento de Infantaria e da Polícia Militar (com exceção do seu 2º Batalhão de Infantaria), além de elementos isolados de outras unidades. Na Marinha, forte reduto integralista, os revoltosos também esperavam encontrar adesões significativas.

Severo Fournier foi escolhido pelo líder integralista Belmiro Valverde — coordenador da revolta no Rio — para preparar militarmente os quadros da AIB com vistas à sua atuação no levante, iniciando rapidamente o cumprimento dessa tarefa. Segundo os planos formulados no quartel-general dos revoltosos, situado na estrada da Gávea, o movimento envolveria dois mil integralistas e seiscentos homens comandados por Fournier, e seria deflagrado simultaneamente em São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e estado do Rio de Janeiro, além do Distrito Federal, realizando, no primeiro momento, mais de 70 operações coordenadas. Na capital do país, as ações mais importantes seriam a tomada do palácio Guanabara, residência oficial de Vargas, a prisão de ministros e outras autoridades, a ocupação do prédio da Polícia Civil e o controle sobre todas as comunicações da cidade.

Além de participar da organização geral do plano, coube a Fournier a importante missão de comandar o assalto ao palácio Guanabara e aprisionar o chefe do governo. Embora não compartilhasse do otimismo dos líderes integralistas e discordasse da sua pressa em deflagrar o movimento, Fournier acatou a opinião majoritária entre os conspiradores, que marcava a eclosão do levante para o dia 11 de maio de 1938. Nessa data, a captura de Vargas seria facilitada porque o tenente Júlio Barbosa do Nascimento, comprometido com a revolta, comandava a guarda do palácio, composta por fuzileiros navais.

Os integralistas confiavam na tomada do poder em todo o país nas primeiras 24 horas. Entretanto, segundo o diário de Fournier, publicado em 1947, “no dia do movimento, o que quer dizer em cima da hora, começaram a aparecer as primeiras dificuldades”. Dos 150 homens previstos para o ataque ao palácio Guanabara, apenas 30 se apresentaram. Mesmo assim, a uma hora do dia 11 dirigiram-se para o local em dois caminhões improvisados, já que o transporte também não chegara. Nessas condições o ataque se limitou aos jardins do palácio, onde foi travado um combate de algumas horas entre os revoltosos e um grupo de familiares e funcionários mais próximos a Vargas.

Os atacantes se dispersaram — deixando para trás sete mortos — com a chegada de um pequeno contingente do forte do Leme comandado pelo ministro da Guerra, general Eurico Dutra. Nenhum dos defensores do palácio saiu ferido. Junto com o tenente Manuel Pereira Lima, Fournier conseguiu escapar ao cerco e, com a ajuda de amigos, passou para a clandestinidade.

Sua narrativa posterior sobre o levante integralista descreve os erros cometidos e as omissões inesperadas. “Basta, para fazer-se uma idéia da enormidade do desastre, citar que das 70 e tantas missões de que se compunha o plano... apenas puderam tomar certo caráter de execução as seguintes: assalto ao Guanabara, tomada do Ministério da Marinha, prisão de um coronel (Canrobert Pereira da Costa) e essas, assim mesmo, com ressalvas.” Considerou-se também traído pelo tenente Júlio Barbosa do Nascimento, que não cumprira a palavra empenhada em relação à neutralização da resistência no palácio.

Com sua companheira presa na Casa de Detenção, onde foi torturada, e sua fotografia estampada em todos os jornais acompanhada do oferecimento de um prêmio a seus eventuais delatores, Fournier, ajudado por Rubens dos Santos e pelos capitães Flodoardo Gonçalves Maia e Manuel de Freitas Vale Aranha (irmão de Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores), conseguiu chegar até a embaixada da Itália oculto na mala de um carro, asilando-se no dia 25 de junho de 1938.

Pressionado pelas autoridades brasileiras, o embaixador Vincenzo Lojacomo consultou seu governo, que propôs a entrega de Fournier em troca da liberação de alta quantia, de propriedade do governo italiano, que estava congelada no Brasil. A proposta foi aceita e, embora o embaixador ainda hesitasse em entregar seu asilado, o coronel Areias e o tenente-coronel Ângelo Mendes de Morais foram oferecer a Fournier a opção de ser preso pelo Exército ou pela Polícia Civil, e pedir que deixasse uma carta declarando que abandonava voluntariamente a embaixada. Nessa ocasião o pai do asilado, capitão reformado Luís Mariano de Barros Fournier, conseguiu convencê-lo a se entregar, na esperança de que seu filho tivesse um tratamento melhor.

Optando pela prisão militar, no dia 7 de julho de 1938 Severo Fournier escreveu uma carta agradecendo a hospitalidade recebida e deixou a embaixada, sendo conduzido para o forte Duque de Caxias. Embora o episódio se tenha encerrado conforme os desejos de ambos os governos, ele provocou, pouco depois, a substituição do embaixador italiano no Brasil e o pedido de demissão — negado por Vargas — do ministro das Relações Exteriores, Osvaldo Aranha, cujo irmão estava envolvido no transporte clandestino de Fournier para a embaixada.

No dia 8 de julho, por ordem do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, Fournier foi transferido para a fortaleza de Laje, onde se encontrou com o coronel Euclides de Figueiredo e com o tenente Júlio Barbosa do Nascimento de quem desejou vingar-se. Segundo consta no seu diário, foi severamente torturado e acabou por contrair uma tuberculose pulmonar nas prisões. O historiador Hélio Silva, entretanto, apresenta a versão de que Fournier já havia contraído a doença antes de ser preso, mas, de qualquer forma, as condições de encarceramento depauperaram seriamente sua saúde. Em carta dirigida a seu pai, denunciou ter sido obrigado a interromper seu tratamento no hospital da Polícia Militar “para ser atirado à sordidez de um cubículo sem água, sem instalações sanitárias e sem condições de higiene”, fazendo graves acusações ao chefe de Polícia do Distrito Federal, Filinto Müller, e pedindo que o pai intercedesse junto ao general Dutra, fiador da sua integridade física perante a embaixada italiana, numa tentativa de obter sua transferência. “Em primeiro lugar”, dizia, “devemos providenciar para não se interromperem as aplicações de pneumotórax, e isto penso ser difícil.”

Severo Fournier, depois de passar pelo hospital da Polícia Militar, permaneceu oito meses na Casa de Correção, sem cuidados médicos. Foi libertado depois da concessão da anistia política por Getúlio Vargas em 19 de abril de 1945, vindo a falecer no ano seguinte em virtude da tuberculose contraída ou agravada na prisão.

Sobre ele Davi Nasser publicou A revolução dos covardes: diário secreto de Severo Fournier; reportagens políticas e ordens de censura do ditador (1947, 2ª ed., 1966), no qual, conforme indica o título, foram reproduzidos os escritos de Fournier.

Amélia Coutinho

 

 

FONTES: CARNEIRO, G. História; FIGUEIREDO, E. Contribuição; MIN. GUERRA. Almanaque (1921, 1932 e 1936); NASSER, D. Revolução; SILVA, H. 1935; SILVA, H. 1938; TAVARES, J. Radicalização.

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados