HELDER PESSOA CAMARA

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Nome: CÂMARA, Hélder
Nome Completo: HELDER PESSOA CAMARA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
CÂMARA, HÉLDER

CÂMARA, Hélder

*religioso; mov. integralista; arceb. Olinda e Recife 1964-1985.

 

Hélder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza no dia 7 de fevereiro de 1909, filho de João Câmara Filho e de Adelaide Pessoa Câmara.

Entrou para o seminário arquidiocesano de sua cidade natal em 1923 e mais tarde fez os exames preparatórios de filosofia e teologia. Ordenou-se padre em agosto de 1931 em Fortaleza.

Ainda em 1931, organizou a Juventude Operária Cristã, que se ligou à Legião Cearense do Trabalho (LCT), criada pelo tenente Severino Sombra. A LCT, inspirada no salazarismo português, pretendia ser uma organização de associações populares e profissionais destinada à defesa dos trabalhadores, tendo por metas a economia distributiva e o regime corporativo. No ano seguinte, com a prisão e exílio de Severino Sombra, que aderira à Revolução Constitucionalista de 1932, assumiu, juntamente com Jeová Mota, a chefia da organização. Ainda naquele ano a LCT, que chegou a ter grande número de adeptos em Fortaleza e no interior do Ceará, uniu-se à Ação Integralista Brasileira (AIB), agremiação difusora dos ideais do integralismo. Este movimento político de extrema-direita, inspirado no fascismo que ganhava vulto na Europa, pregava uma rígida organização da sociedade com base nos princípios de disciplina e hierarquia. Apresentava-se, ainda, como vanguarda nacionalista na luta contra o comunismo, o capitalismo internacional e a liberal-democracia, e tinha como principal ideólogo Plínio Salgado. O movimento encontrava tolerância junto à Igreja Católica, uma vez que se apresentava como solução possível para enfrentar a luta de classes e a expansão do comunismo.

A pedido de Plínio Salgado e com autorização de seu superior, o arcebispo de Fortaleza, dom Manuel da Silva Pimentel, o padre Hélder assumiu a chefia do setor de educação da AIB no Ceará. Nessa época, ao participar no Rio de Janeiro do Congresso Católico de Educação, classificou como de conteúdo comunista um manifesto lançado pela Associação Brasileira de Educação (ABE), da qual faziam parte Anísio Teixeira e Manuel Lourenço Filho. Durante sua permanência no Rio, pronunciou conferências sobre os valores espirituais do integralismo no Colégio Santo Inácio, arregimentando alunos para o movimento.

Quando o Brasil se preparava para eleger a Assembléia Constituinte de 1933, a Liga Eleitoral Católica (LEC), fundada em 1932 pelo cardeal dom Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro, conclamou os eleitores a votarem em candidatos de quaisquer partidos, com a condição de que eles se propusessem a defender no Congresso a Constituição proclamada em nome de Deus, o ensino da religião nas escolas, a assistência religiosa nas forças armadas e a combater o divórcio. Apenas no Ceará a LEC se transformou em partido político. O padre Hélder, a pedido do arcebispo de Fortaleza, percorreu o estado fazendo campanha eleitoral, com o slogan: “Um voto para a LEC é um voto para Nosso Senhor Jesus Cristo.” A LEC do Ceará saiu amplamente vitoriosa no pleito de maio de 1933, elegendo seus seis candidatos. Nas eleições de outubro de 1934, a LEC elegeu o maior número de deputados federais e estaduais do Ceará. Além disso, seu candidato ao governo estadual, Francisco de Meneses Pimentel, foi eleito pela Assembléia Legislativa cearense.

Iniciado o novo governo, o padre Hélder foi convidado para assumir o cargo de diretor do Departamento de Educação do Ceará, em 1935. Em conseqüência de desentendimentos com Meneses Pimentel, contudo, pediu demissão no ano seguinte. Francisco Campos — que naquele ano de 1936 assumira a Secretaria de Educação do Distrito Federal — convidou-o para o cargo de assistente-técnico de Educação do Distrito Federal. Com a permissão do seu superior, dom Hélder mudou-se, então, para o Rio de Janeiro.

 

No Rio de Janeiro (1936-1964)

Subordinado a partir de 1936 ao cardeal dom Sebastião Leme, o padre Hélder foi solicitado a se afastar de qualquer atividade política e, conseqüentemente, do integralismo. Acolheu o pedido de seu superior e foi designado diretor-técnico do ensino de religião da arquidiocese, com a missão de implantar o ensino religioso nas escolas públicas do Rio de Janeiro.

Em princípios de 1937 Everardo Backheuser, diretor do Instituto de Pesquisas Educacionais do Distrito Federal, nomeou-o chefe da seção de Medidas e Programas. Com a proximidade das eleições de janeiro de 1938 para a presidência da República, Getúlio Vargas, apoiado pelo ministro da Guerra, Eurico Dutra, e pelo chefe do Estado-Maior do Exército, general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, fechou em 10 de novembro de 1937 as duas casas do Congresso e outorgou nova Constituição, de caráter mais centralista e autoritário, sob pretexto de conter a ameaça comunista, instalando dessa forma o Estado Novo (1937-1945). Através de contatos com Francisco Campos e depois com o próprio Vargas, Plínio Salgado tomou conhecimento e apoiou as diversas etapas do golpe de 1937. Em seguida, procurou o padre Hélder e pediu-lhe que, com a devida autorização do cardeal, fizesse parte do conselho supremo da AIB, composto de 12 membros. Consultado, o cardeal Leme autorizou-o a aceitar, com a condição de que fosse uma espécie de assistente eclesiástico. Plínio Salgado concordou com a condição, mas, a cada discurso do padre Hélder, os jornais integralistas o anunciavam como membro do conselho supremo da AIB.

Em conseqüência disso, o padre Hélder afastou-se do partido que, a exemplo das demais agremiações políticas, em 3 de dezembro daquele mesmo ano de 1937, foi fechado por ordem de Vargas. Anos mais tarde, dom Hélder classificaria a sua passagem pelo integralismo como “um erro de juventude” e explicaria que “o aspecto social não era o forte de meus mestres (no seminário). Tanto assim que a nossa visão era a de que o mundo se dividiria entre direita e esquerda, entre capitalismo e comunismo. E nos sopravam, discretamente, que dos males, o menor. Pouco a pouco foi fácil ver que não era verdadeiro este embate”.

Nos anos seguintes, dom Hélder dedicou-se à educação. Participou e foi aprovado num concurso aberto por Gustavo Capanema, ministro da Educação e Cultura, para técnico de educação, uma vez que exercia o cargo sem ser diplomado. Depois do Estado Novo, recebeu em 1946, durante a presidência do general Eurico Dutra, a autorização do cardeal dom Jaime de Barros Câmara, arcebispo do Rio desde 1943, para demitir-se do Ministério da Educação. Dom Jaime quis, naquele mesmo ano, fazê-lo seu bispo-auxiliar, mas o processo para elevá-lo a bispo foi dificultado pela nunciatura apostólica, que preveniu o Vaticano contra a inconveniência de tal medida. Segundo informou a nunciatura, haveria protestos pelo fato de o cardeal ter como auxiliar um bispo integralista. O papa realmente negou a nomeação, que só seria concedida seis anos depois.

Em 1947 o padre Hélder organizou o secretariado nacional da Ação Católica Brasileira (ACB). Este movimento, difundido mundialmente a partir da autorização dada em 1934 pelo papa Pio XI, tinha por objetivo integrar leigos e a Igreja e fora implantado no Brasil em 1935 pelo cardeal Leme.

Nomeado primeiro assistente-geral da ACB, cargo que ocuparia até 1962, a partir de 1949 o padre Hélder dirigiu a Revista Catequética, colaborando também com as revistas Ação Católica, Assistente Eclesiástico e Revista Eclesiástica Brasileira.

Como conselheiro privado do núncio dom Carlo Chiarlo e, mais tarde, a partir de 1954, de seu sucessor, dom Armando Lombardi, dom Hélder trabalhou pela criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A idéia surgiu em conseqüência dos problemas gerados pelas próprias condições do país, com as dioceses se multiplicando e cada bispo envolvido por numerosos problemas. Era necessária, no entendimento de dom Hélder, a criação de um órgão que estivesse a serviço do povo, através da Igreja ou de seus bispos. Na qualidade de assistente-geral da ACB, dom Hélder foi encarregado pelo núncio dom Carlo Chiarlo de estudar e comentar as 18 teses selecionadas para o Congresso de Leigos, realizado no Vaticano em 1950, ao qual compareceu. Ao final do seu parecer acrescentou a seguinte frase: “Isto será impraticável sem a criação da Conferência dos Bispos do Brasil.” Durante sua permanência em Roma, manteve encontros com o responsável pela criação de organismos desse tipo, o secretário de Estado do Vaticano, monsenhor Giovanni Montini, que seria eleito papa em 1963 com o nome de Paulo VI.

Em princípios de 1952 chegou do Vaticano a permissão para a criação da CNBB. Em março do mesmo ano, o padre Hélder foi eleito bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, tendo sido sagrado em abril e imediatamente empossado. Finalmente, ao ser criada a CNBB em outubro de 1952, foi eleito secretário-geral da organização, enquanto dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, cardeal-arcebispo de São Paulo, foi seu presidente. Ao se iniciarem em 1954 os preparativos para o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, que teria lugar no Rio de Janeiro no ano seguinte, dom Hélder foi designado organizador do evento. A Igreja e o governo na ocasião mantinham uma estreita colaboração e o presidente Getúlio Vargas designou oficialmente o embaixador João Coelho Lisboa como homem de ligação entre a administração e a arquidiocese, para auxiliar esta última em tudo o que se relacionasse com o congresso.

Durante a crise que precedeu o suicídio do presidente Vargas, em agosto de 1954, o cardeal dom Jaime Câmara procurou manter uma posição neutra. Dom Hélder, juntamente com o cardeal, visitou Getúlio Vargas no palácio do Catete dias antes de sua morte. Dentro da mesma linha de neutralidade e apoio ao governo constituído, adotada pela Igreja na época, dom Hélder foi um dos primeiros a visitar João Café Filho como presidente da República, logo que este foi empossado. Falando em seu nome e no do cardeal, lamentou o suicídio de Vargas e referiu-se ao “espírito de colaboração que os animava ante a árdua tarefa da presidência na manutenção da ordem e na preservação do regime”.

Em abril de 1955 foi promovido a arcebispo-coadjutor do Rio de Janeiro. Foi secretário-geral do Congresso Eucarístico Internacional, realizado em julho, e teve participação efetiva na I Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada também no Rio entre 25 de julho e 7 de agosto de 1955, durante a qual foi decidida a criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam). Ainda em 1955 passou a integrar o Conselho Nacional de Educação, que se tornou mais tarde o Conselho Federal de Educação, órgão ligado ao Ministério de Educação e Cultura, responsável, em última instância, pelas questões relativas ao ensino no país.

Em 1956, criou a organização civil Cruzada de São Sebastião, que se propunha a “urbanizar, humanizar e cristianizar” as favelas da cidade do Rio de janeiro, contando, para isso, com o auxílio de campanhas públicas de arrecadação e de doações de negociantes, cooperativas e entidades governamentais. Em menos de um ano construiu os primeiros conjuntos habitacionais da cidade, o que lhe custou críticas de setores da sociedade, já que esses imóveis se localizavam na Zona Sul do Rio de Janeiro, em bairros valorizados, como o conjunto construído no Leblon. Em janeiro de 1956, dom Hélder organizou o I Congresso Geral das Favelas Cariocas, no Teatro João Caetano.

Em 1958 foi delegado do Brasil à I Reunião do Celam, realizada em Bogotá, Colômbia, onde foram discutidos problemas da Igreja na América Latina. Em 1959 fundou o Banco da Providência, que se propunha a atuar no que foi chamado de “faixa da miséria”, recolhendo e distribuindo para pessoas necessitadas alimentos, remédios, roupas e dinheiro, além de dar-lhes orientação para trabalho, moradia e educação. Para o seu funcionamento foi necessário desenvolver iniciativas que proporcionassem recursos financeiros. No mesmo ano, o setor encarregado de roupas e calçados promoveu um bazar que, na época, rendeu uma pequena fortuna. Desse bazar surgiu a idéia de se promover anualmente a Feira da Providência, que angariaria fundos para o banco e contaria com o apoio da arquidiocese.

Em 1960, dom Hélder foi eleito segundo-vice-presidente do Celam. Em janeiro de 1962, por sua iniciativa e através da Cruzada, foi inaugurado o Centro de Abastecimento São Sebastião, na avenida Brasil, no Rio. No mesmo ano integrou a Comissão para Disciplina do Clero, preparatória do Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII. Após exaustivos trabalhos de organização e seleção de temas a serem debatidos, o concílio foi aberto no dia 11 de outubro de 1962 e teria a duração de três anos. Até então a convocação dos bispos, cardeais e teólogos para uma reunião conciliar tinha por finalidade definir artigos de fé como dogmas e da moral adotada e prescrita. João XXIII, entretanto, pregava uma reformulação na forma de apresentar a fé cristã ao mundo moderno, onde a ciência e a crítica tivessem acesso. A preocupação era sempre colocar o homem no centro das discussões e a religião católica em face das exigências do mundo, enquadrando cada povo na sua realidade política, social e econômica. A visão de João XXIII, e mais tarde do seu sucessor Paulo VI, foi de preservar a cultura cristã no essencial e apreciar os aspectos relativos à mutabilidade do progresso humano.

Essa reestruturação da Igreja levou tanto os religiosos quanto os leigos a uma reconsideração de seus valores e campo de atuação. A Igreja deixou clara sua opção pelos pobres e uma intenção de trabalhar com eles e não apenas para eles. Dom Hélder, consciente desta opção e compartilhando da nova visão da Igreja, percebeu seu distanciamento das idéias conservadoras do seu superior, o cardeal dom Jaime Câmara. Os dois divergiam frontalmente em questões importantes, sobretudo as de temática social. Pediu, então, e obteve, seu afastamento do Rio de Janeiro. Em princípios de março de 1964, chegou a ordem de transferência.

No decorrer daquele mês agravou-se a crise política no país. Poucos dias depois do comício da Central, realizado em 13 de março de 1964, em favor das reformas de base e presidido pelo presidente João Goulart, numa de suas últimas aparições como chefe do governo, o cardeal-arcebispo de São Paulo, Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, na qualidade de presidente da CNBB, e dom Hélder, na de secretário-geral, avistaram-se com o presidente no palácio Laranjeiras. Os dois religiosos procuraram “prevenir o presidente contra uma atitude precipitada e lhe mostraram a falta de um plano sério de reformas das estruturas, a falta de um plano para o estabelecimento de um verdadeiro socialismo humano”, além do perigo de uma reação da extrema-direita. A cobertura dada pela imprensa ao encontro sugeriu que a CNBB apoiava as reformas propostas pelo governo.

Com a vitória do movimento político-militar que derrubou Goulart em 31 de março, houve uma alteração significativa na orientação até então vigente na CNBB. Dom Carmelo Mota foi transferido da Arquidiocese de São Paulo para a de Aparecida do Norte, ao passo que dom Hélder foi afastado da secretaria-geral da entidade. Em abril, foi feito arcebispo de Olinda e Recife pelo papa Paulo VI, devido à morte de dom Carlos Coelho, até então titular daquela arquidiocese. Recebeu o pálio arquiepiscopal diretamente das mãos do papa, durante a III Sessão do Concílio, que ainda estava em andamento.

 

Em Olinda e Recife

Os desentendimentos do arcebispo de Olinda e Recife com as autoridades militares começaram logo depois de sua chegada a Pernambuco, quando dom Hélder foi acusado de proteger padres suspeitos de subversão, entre os quais dom José Lamartine e os padres Almeri e Sena. Ainda em 1964 dom Hélder deixou a secretaria-geral da CNBB, sendo substituído por dom José Gonçalves da Costa, e assumiu a secretaria da Ação Social daquela entidade. Em maio de 1965 promoveu, em Recife, um seminário regional do Nordeste, que discutiu propostas de desenvolvimento da região e a formação de sacerdotes. Sua exposição na abertura do seminário abordou longamente a questão do desenvolvimento do Nordeste e do papel da Igreja na sua promoção. Suas palavras não foram bem recebidas pelo governo e pelo próprio presidente, marechal Humberto Castelo Branco.

Em 31 de março de 1966 dom Hélder recusou-se a celebrar uma missa em comemoração ao segundo aniversário do movimento de 1964. No final de julho, em informação secreta para difusão a todos os comandos a ele subordinados, o general Itiberê Gouveia do Amaral, comandante da 10ª Região Militar (10ª RM), sediada em Fortaleza, lhe fez violentas acusações. O Jornal do Brasil publicou as acusações na íntegra, no dia 14 de agosto de 1966. O general responsabilizava dom Hélder pela “desagregação do rebanho católico em conseqüência de suas atitudes” e o acusava de ser esquerdista, ligado à Ação Popular (AP), organização política criada em junho de 1962 por jovens católicos, com o objetivo de promover a transformação radical da estrutura brasileira “em sua passagem do capitalismo para o socialismo”. O documento concluía afirmando que os comunistas consideravam a Igreja Católica desorganizada em Pernambuco e em condições maduras para um trabalho de infiltração.

Tais informações teriam sido conseqüência de um documento, datado de 14 de julho de 1966, da Regional Nordeste II, com sede em Recife, assinado pelos bispos daquela divisão da CNBB. O documento era uma declaração dirigida à Ação Católica Operária, à Ação Católica Rural e à Juventude Agrária Católica, tratando de um manifesto dessas organizações que denunciava injustiças contra trabalhadores da região. No dia da publicação da informação secreta, o presidente Humberto Castelo Branco, que se encontrava em Pernambuco, avistou-se com dom Hélder para discutir o incidente. O encontro foi, nas palavras do arcebispo, cordial, deixando a impressão de que o presidente “realmente desejava pôr termo à série de equívocos que haviam surgido entre os militares e os bispos do Nordeste”.

No dia seguinte, o discurso do presidente fez alusões à declaração dos bispos que pareceram a dom Hélder “injustas e indisfarçáveis”, fato que o levou a escrever uma carta a Castelo Branco, lembrando que a Operação Esperança, então desenvolvida pela Igreja no Nordeste, vinha oferecendo “colaboração a órgãos como a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e a Cooperativa de Habitação Popular (Cohab)”. E fazia menção a “intrigas que encontraram nas palavras de Vossa Excelência excelente ponto de partida”. Na ocasião, vários setores da Igreja se mostraram solidários a dom Hélder. O arcebispo de Goiânia denunciou como subversivos os oficiais que o criticavam. Dom José Nílton Batista Pereira, arcebispo de Brasília, declarou existir uma “mentalidade sectária empenhada em desacreditar a hierarquia, o clero e os católicos”. Ainda no dia 24 de agosto foi divulgado, no Rio de Janeiro, um manifesto assinado por 17 eclesiásticos e centenas de leigos, solidarizando-se com dom Hélder e os prelados do Nordeste. Em Nova Friburgo (RJ), o bispo Dom Clemente Isnard declarou que a independência dos bispos, “se violada, deixará de ser um assunto interno brasileiro para se tornar um atentado à liberdade religiosa garantida pela Carta da ONU”. Em setembro de 1966, em encontro com jornalistas estrangeiros no Rio, dom Hélder declarou que o incidente do Nordeste fora “um conflito de idéias e não de homens”.

Em agosto de 1967, já no governo do marechal Artur da Costa e Silva, dom Hélder proclamou perante a Assembléia Legislativa de Pernambuco “a necessidade de uma América Latina livre, não apenas no plano político, mas também no plano econômico”, afirmando sua convicção que “só a ação social da Igreja poderá fazer fracassar a revolução violenta no Nordeste”. Em 30 de novembro, a comissão central da CNBB publicou um manifesto que, ao mesmo tempo em que condenava a subversão, solidarizava-se com “nossos irmãos bispos, padres e leigos, no momento em que são vítimas da incompreensão e da injustiça no cumprimento de um trabalho apostólico autêntico”.

Em 1968 o conflito entre Igreja e governo se acentuou ainda mais. Em janeiro, o bispo de Santo André, uma das cidades da zona industrial de São Paulo, declarou publicamente: “Uma revolução armada pode ser lícita quando reina a opressão e quando vigoram salários de fome.” No mês seguinte, dom Hélder fez eco a esta afirmação ao condenar a existência de um regime que se assemelhava ao feudalismo do Nordeste, afirmando ao mesmo tempo sua “convicção na marcha inelutável do socialismo”, ao qual a Igreja pode oferecer “a mística da fraternidade universal, incomparavelmente superior à mística estreita do materialismo histórico”. Em julho, a IX Assembléia da CNBB terminou com um apelo às reformas, à não-violência e a um retorno às liberdades individuais. No mês de setembro, dom Hélder foi delegado oficial do episcopado brasileiro à II Assembléia-Geral do Celam, realizada em Medellin, na Colômbia. Na reunião, em que adquiriu incomparável destaque por suas enérgicas posições em favor dos pobres, tomou posição em favor do desenvolvimento econômico e da promoção humana nos países pobres do Terceiro Mundo. Em novembro do mesmo ano, lançou, no estado de Alagoas, o movimento Ação, Justiça e Paz, que pregava a luta contra as estruturas arcaicas da região e do país, sobretudo as estruturas agrária e educacional. O governo, a despeito dos protestos, iniciou uma série de medidas repressivas contra o clero, movendo através da imprensa intensa campanha destinada a apresentar os prelados progressistas como elementos mais preocupados em desenvolver atividades políticas do que propriamente religiosas.

Ainda em 1968 dom Hélder deixou a secretaria da Ação Social da CNBB e assumiu a presidência da Regional Nordeste II. Na ocasião, passou também a integrar a comissão representativa da CNBB. Leigos e religiosos com quem trabalhou nesse período sofreram as mais diversas pressões. Essas pressões ganharam força com o clima de insegurança instalado a partir da edição do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968. Em maio de 1969, o padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Juventude no Recife e assessor do arcebispo, foi seqüestrado, torturado e assassinado em Recife, sendo o crime atribuído a extremistas de direita.

Ainda em 1969 dom Hélder recebeu três prêmios: o Memorial Juan XXIII, na Espanha; o Martin Luther King, nos Estados Unidos; e o Internacional Viareggio da Paz, na Itália.

Em maio de 1970, no palácio dos Esportes, em Paris, dom Hélder fez uma conferência para mais de dez mil pessoas, relatando a situação em que se encontrava o Brasil e denunciando casos de tortura de presos políticos, todos comprovados pela Comissão Internacional de Juristas. Ele afirmou depois: “O que fiz foi defender a justiça. Se combato as injustiças quando são cometidas em qualquer parte do mundo, por que haveria de me calar quando essas injustiças e arbitrariedades se passam dentro do meu país?” De volta ao Brasil, dom Hélder enfrentou uma forte campanha através da imprensa. Recebeu vários ataques, entre eles os do sociólogo Gilberto Freire, que o acusou de aliado do comunismo internacional; os do deputado gaúcho Clóvis Stenzel, da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido que apoiava o regime militar; e os do governador de São Paulo, Roberto Abreu Sodré. Em outubro, membros do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo proibiram que fosse ao ar parte de um vídeo gravado pelo vice-governador de São Paulo, Hilário Torloni, então candidato da Arena ao Senado, em que ele fazia a defesa de dom Hélder das acusações de Sodré. Em seguida, o arcebispo foi proibido de discursar no país, assim como de falar no rádio e na televisão. A imprensa, controlada pelo governo, foi proibida de mencionar seu nome, situação que se manteve nos anos seguintes.

Mas dom Hélder recebeu um grande número de convites para falar no exterior, iniciando uma série de viagens principalmente por países da Europa e da América do Norte. Os temas mais tratados em suas conferências eram os problemas sociais e econômicos do Terceiro Mundo, a atuação das empresas multinacionais e a repressão movida pelos governos totalitários. Nas suas palestras, sempre assumiu posição em favor dos países subdesenvolvidos e responsabilizou o capitalismo pela situação de miséria em que esses países viviam. Dom Hélder nunca visitou um país do bloco comunista, porque, segundo ele, “não teria ali a liberdade de falar o que quero”. Também nunca participou, em país nenhum, de manifestações promovidas por partidos políticos. Segundo afirmou, partiu para o exterior porque se convenceu de que “hoje, de tal maneira os problemas humanos têm uma escala mundial que não adiantaria querer a mudança das estruturas injustas que esmagam quase três quartos da humanidade trabalhando apenas no Brasil”. Suas viagens foram realizadas com a autorização do papa Paulo VI e de acordo com um programa por ambos estabelecido. Foi fixado em cinco o número de viagens por ano, e sempre que recebia um convite, dom Hélder só o aceitava depois de consultar o bispo responsável pelo lugar a ser visitado.

Em 1974, foi delegado do episcopado brasileiro ao III Sínodo dos Bispos, realizado em Roma. No mesmo ano foi indicado para receber o Prêmio Nobel da Paz, concedido anualmente pelo Parlamento da Noruega. Ficou acertado, por todos os jurados, que o prêmio lhe seria conferido. No entanto, dois dos cinco membros do júri terminaram por se demitir, declarando publicamente que os três outros haviam sucumbido a “pressões inconfessáveis”, traindo os compromissos prévios em torno do nome de dom Hélder Câmara. Em reação, organizações de jovens noruegueses levantaram, com donativos populares, uma importância superior ao dobro daquela conferida pelo prêmio, dando a dom Hélder o Prêmio Popular da Paz. O mesmo fizeram os jovens de Frankfurt, na então Alemanha Federal. Anos mais tarde, em 1997, o livro Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia, de Nélson Piletti e Válter Praxedes, revelaria as manobras do governo Médici para sabotar a candidatura de dom Hélder à premiação. Por intermédio da representação diplomática brasileira em Oslo, na época chefiada pelo embaixador Jaime de Sousa Gomes, e com a colaboração do empresário norueguês Tore Munch, que tinha negócios no Brasil, foi desencadeada uma campanha difamatória na imprensa norueguesa contra o religioso brasileiro e foram feitas pressões sobre os integrantes do Comitê Nobel.

Em fevereiro de 1977, dom Hélder participou da reunião da CNBB realizada em Itaici (SP), quando foi publicado o documento Exigência cristã de uma ordem política. Em dezembro, depois de sete anos de silêncio no Brasil, pronunciou um discurso na Faculdade de Direito de Recife, sobre o tema “Direitos humanos no mundo atual”.

Em 1978, em entrevista à revista Veja, defendeu a implantação de um sistema político capaz de dar fim às estruturas injustas. Segundo ele, nenhum dos diferentes capitalismos deixa de colocar o lucro acima do homem, o que leva a esmagamentos horríveis. Continuando, afirmava: “O grave é que ao pensarmos em socialismo humano, que salve efetivamente a pessoa humana e não esmague a liberdade a pretexto de assegurar a igualdade, a pior contrapropaganda vem da Rússia e da China.” Acrescentou ainda que, “ao lado do inaceitável socialismo materialista, há lugar para socialismos que, de modo algum, se prendem ao materialismo dialético e ao ateísmo militante”. Concluindo, afirmou que “a Igreja vai admitir que o cristão tente um socialismo que, sem a ilusão de realizar paraísos na terra, evite um mundo de oprimidos e opressores”.

No ano seguinte dom Hélder participou da III Assembléia do Celam em Puebla, no México. Quando da viagem de João Paulo II ao Brasil, em 1980, recebeu do papa um longo elogio pelo seu trabalho junto aos pobres de Recife. Em sua diocese, que contava com cerca de três milhões de católicos espalhados nos oito municípios que compunham a zona metropolitana de Recife, criou dez paróquias, organizou o Conselho Presbiterial e o Conselho Pastoral.

Em abril de 1983, dom Hélder recebeu o prêmio Niwano da Paz, por seu trabalho em favor dos pobres e por sua vida dedicada à valorização da dignidade humana, à libertação da opressão e da pobreza e à promoção da cooperação religiosa com outros países. Concedido pela Fundação Niwano, uma das principais organizações budistas do Japão, ele foi escolhido dentre 48 personalidades religiosas de todo o mundo, das igrejas Católica, Protestante e Budista.

Neste mesmo ano, em julho, estando prevista sua aposentadoria para fevereiro de 1984, viajou a Roma levando uma lista com os nomes de três bispos para que o papa João Paulo II escolhesse, dentre os indicados, o seu substituto. Nesta ocasião, sugeriu para a sua despedida da arquidiocese a apresentação no Brasil da Sinfonia dos dois mundos, uma peça de teatro de sua autoria, na qual estaria sintetizada toda a sua filosofia pastoral.

Em agosto, em declaração sobre a abertura política no Brasil, ressaltou que embora os exilados estivessem voltando e o Parlamento atuasse “com uma clara presença da oposição”, mantinha-se em vigor a Lei de Segurança Nacional. Criticando o presidente da República, general João Batista Figueiredo, por ter utilizado o Conselho de Segurança Nacional para o lançamento de seu terceiro pacote econômico, cobrou o compromisso do presidente, também lembrado pela CNBB, de discutir os pacotes com o povo, declarando que este manifestaria sua preferência pela “moratória à amarração ao Fundo Monetário Internacional (FMI)”. Defendeu o redimensionamento da economia por intermédio do rompimento com o FMI, que considerava um órgão “defensor da hegemonia dos países industrializados, sobretudo do sistema bancário”.

Ainda no ano de 1983, em dezembro, Maurice Béjart, um dos nomes mais expressivos da dança contemporânea, estreou em Bruxelas o balé Missa para o tempo futuro, baseado em texto de dom Hélder sobre a massificação do homem.

No ano seguinte, com a criação da Fundação das Obras de Frei Francisco, dom Hélder passou a se dedicar à entidade, que tinha como objetivo ajudar os pobres.

O início de 1984 foi marcado por uma campanha em favor da aprovação pelo Congresso da emenda Dante de Oliveira, que previa a imediata realização de eleições diretas para a Presidência da República. A proposta, porém, foi derrotada na Câmara dos Deputados em abril, tendo início, em seguida, os entendimentos que culminaram, em janeiro do ano seguinte, na eleição no Colégio Eleitoral, da chapa oposicionista formada por Tancredo Neves e José Sarney, candidatos respectivamente a presidente e a vice-presidente da República. Em 15 de março de 1985, a posse de Sarney, determinada pela doença do presidente eleito, marcou a consolidação do processo de transição democrática no país, com o retorno de um civil à presidência da República. Na ocasião, dom Hélder lembrou a importância da consciência da necessidade da reforma agrária como forma de evitar a violência e, mais tarde, considerou a realização da Assembléia Constituinte “uma felicidade pois nos livrará de decretos, leis e atos institucionais”.

Em 22 de abril, Sarney seria confirmado na presidência, em virtude da morte, na véspera, de Tancredo Neves.

Por ocasião das comemorações do bicentenário da Declaração dos Direitos Humanos, em maio de 1985, dom Hélder participou da conferência internacional organizada pelo presidente francês François Mitterrand. Optando pela sessão do colóquio que tratava das obrigações do Estado para com os direitos humanos, dom Hélder criticou o primado da segurança nacional que, no caso brasileiro, havia justificado a prática de torturas e os seqüestros políticos.

No dia 15 de julho de 1985, dom Hélder aposentou-se do cargo de arcebispo de Olinda e Recife, sendo substituído pelo bispo de Paracatu (MG), dom José Cardoso Sobrinho, da ala conservadora da Igreja. Naquela ocasião, elogiou o Plano Nacional de Reforma Agrária do governo Sarney, fazendo uma ressalva de que este não seria suficiente: “Como um bom começo, vale, depois a gente vai completando.” Após a aposentadoria, permaneceu como arcebispo emérito de Olinda e Recife.

Durante a sua gestão na arquidiocese, foi responsável pela organização do Banco da Previdência de Pernambuco.

Mesmo aposentado, continuou atuante. Assim, em encontro promovido pelas Comunidades Universitárias de Base, em agosto de 1985, que reuniu jovens ligados a paróquias de São Paulo e militantes da Pastoral Universitária, dom Hélder advertiu os participantes sobre os perigos da corrida armamentista, sobre a dívida externa brasileira e sobre as injustiças sociais, e manifestou a esperança que depositava na juventude brasileira.

Em maio de 1986, ao ser condecorado com a Ordem do Rio Branco, no Itamarati, pelo chefe do Gabinete Militar, general Rubens Bayma Denis, dom Hélder comentou: “Eu não mudei. Mas se isto está acontecendo é sinal de que alguma coisa mudou.” Dois meses depois, iniciou no município de Palmares (PE) uma pregação sobre a Assembléia Constituinte, que se estendeu por todo o país até as vésperas das eleições de 15 de novembro. Aconselhou o povo “a fiscalizar a Constituinte, antes, durante e depois que ela for eleita”.

Em dezembro do mesmo ano, foi homenageado pela Prefeitura de Roma com o Prêmio Roma-Brasília, Cidade da Paz. Na ocasião, dom Hélder fez votos de que o continente latino-americano, no ano 2000, fosse um conjunto de países livres e fraternos, sem qualquer imperialismo, externo ou interno.

Em fevereiro de 1988, recusou-se a assinar um documento da Comissão Pró-Diretas da Ordem dos Advogados do Brasil de Pernambuco (OAB-PE), que exigia a realização de eleições presidenciais, ainda naquele ano, argumentando que o fundamental seria “o equacionamento dos problemas do país já”, condição sem a qual o sucessor de Sarney “não resistiria nem seis meses”.

Em agosto seguinte, faltando menos de um ano para a prescrição do crime cometido em maio de 1969, que resultou na morte de seu assessor, padre Antônio Henrique, dom Hélder pediu o arquivamento definitivo do processo, declarando não mais acreditar em punições.

Durante a campanha eleitoral, em outubro, dom Hélder apareceu no horário eleitoral gratuito dos dois candidatos à prefeitura de Recife — Marcos Cunha, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), e Joaquim Francisco Cavalcanti, do Partido da Frente Liberal (PFL) — não pedindo votos para qualquer deles, mas apenas solicitando que a população votasse no dia 15 de novembro. No mês seguinte, anunciou que percorreria o país, mais uma vez, para combater a apatia e o pessimismo expresso na idéia de voto nulo. Ainda em novembro, condenou o filme A última tentação de Cristo, de Martin Scorsese, por enfocar de maneira desrespeitosa a figura de Jesus Cristo.

Ao completar 80 anos, em fevereiro de 1989, dom Hélder recebeu uma mensagem de congratulações do papa e foram realizadas missas em sua homenagem em Olinda e no Rio de Janeiro. Em entrevista coletiva concedida na ocasião, negou que houvesse uma divisão entre conservadores e progressistas na CNBB, elogiou a atuação do papa, defendeu novamente a reforma agrária e condenou o que classificou de estrelismo dos dirigentes políticos. Rebateu, ainda, as acusações de que a Igreja estaria se desviando da ação pastoral ao dar prioridade a ações políticas, e afirmou: “A política não é só um direito, mas um dever. A Igreja deve exercitar a política como forma de externar nossa preocupação com melhores condições humanas.”

Autor de mais de 17 livros, alguns traduzidos em mais de dez idiomas, doutor honoris causa por mais de 30 universidades brasileiras, em agosto de 1989 seu nome foi sugerido como candidato à vaga do escritor José Cândido Carvalho na Academia Brasileira de Letras (ABL). No mesmo mês, participou junto com o papa João Paulo II de um congresso na Espanha que teve como tema a exploração do Cone Sul da América Latina.

Ainda em agosto, deflagrou-se uma crise entre a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife e o seu substituto, o arcebispo dom José Cardoso. Este último teria se recusado a receber os posseiros do Engenho Pitanga — que defendiam a manutenção no engenho do padre escocês Tiago Torlby, afastado por sua vinculação com a Comissão Pastoral da Terra, considerada ilegal por dom José — e chamado a polícia para retirar os camponeses da arquidiocese. A Comissão de Justiça e Paz, ao repudiar a atitude do arcebispo através da imprensa, foi proibida de se manifestar. Dom Hélder, ressalvando que não gostaria de se indispor com o arcebispo, observou que ninguém calaria a Comissão de Justiça e Paz.

Dois meses mais tarde foram fechados, por ordem do Vaticano, dois seminários que tinham sido criados por dom Hélder, considerados progressistas, no Nordeste. Defendendo os seminários, dom Hélder definiu-os como “instituições sérias, honestas e boas”. Na mesma época, retirou sua candidatura à ABL.

Após a posse de Fernando Collor de Melo na presidência da República, em março de 1990, dom Hélder pediu a “união do povo para retomar o caminho da prosperidade”, declarou-se confiante nas medidas econômicas propostas pelo novo governo e defendeu a promoção da reforma agrária “sem ódio e sem violência”. No ano seguinte, numa entrevista no programa Roda viva, da TV Cultura, dom Hélder Câmara afirmou que o Brasil deveria ter como meta a erradicação da miséria e da pobreza absoluta, até o ano 2000.

Em outubro de 1995, foi assinado um convênio entre a Fundação Roberto Marinho e a Fundação das Obras do Frei Francisco, para patrocinar o trabalho de organização do acervo de dom Hélder. Em março do ano seguinte, dom Hélder recebeu mais um prêmio, dessa vez da Organização das Nações Unidas (ONU), por sua atuação em prol dos pobres em Recife.

Dom Hélder faleceu em Recife em 27 de agosto de 1999. Compareceram ao seu enterro, realizado em Olinda, cerca de três mil pessoas, entre as quais religiosos, políticos e representantes de grupos ligados à defesa dos direitos humanos.

Autor de vasta obra, dom Hélder escreveu Revolução dentro da paz (1968, traduzido para holandês, alemão, inglês, coreano, francês e italiano), Terzo Mondo defraudato (1968, traduzido para francês e inglês), Spirale de violence (1970), Pour arriver à temps (1970, traduzido para espanhol, italiano, alemão, holandês, sueco, inglês e grego), Le désert est fertile (1971, traduzido para espanhol, italiano, holandês, alemão, inglês, coreano e português), Prier pour les riches (1972, traduzido para alemão), Cristianismo, socialismo, capitalismo (1973), Um olhar sobre a cidade (1976), Les conversions d’un evêque (1977, traduzido para italiano, alemão e inglês), Mil razões para viver (1978, traduzido para francês), Renouveau dans l’esprit et services de l’homme (1979, traduzido para italiano, inglês e português), e Nossa Senhora no meu caminho (1981). Teve, no período de 1966 a 1981, 66 apostilas publicadas no Brasil e 148 no exterior.

Dom Hélder tornou-se uma figura mundialmente conhecida e sobre ele e seu trabalho, foram publicadas as seguintes obras, além do livro já citado: Dom Hélder, la violence d’un pacifique, de José Broucker (1969), Une journée avec dom Hélder, de José Broucker (1970), Hélder Câmara — Brasil; um Vietnam católico?, de José Caynela (1970), Hélder Câmara in Nederland, de Fritz Warten-Weiler (1970), La voix du monde sans voix, de Gladys Weigner e Bernhard Hoosbaugger (1971), Hélder Câmara l’arcevescovo rosso, de José Gonzales (1971), Dom Hélder, o bispo da esperança, de Marcos de Castro (1978), L’echevêque des favelles, de Robert Lafond, Os caminhos de Dom Hélder (1983), de Marcos Cirano, Dom Hélder, pastor e profeta (1984), do Instituto de Teologia do Recife, e Uma vida para os pobres — a espiritualidade de dom Hélder Câmara, de Nelmo Roque Ten Kathen.

Verônica Veloso atualização

 

FONTES: ALBUQUERQUE, J. Cearenses no Rio e em SP; CACHAPUZ, P. Cronologia; CAFÉ FILHO, J. Sindicato; CONFERÊNCIA NAC. BISPOS DO BRASIL; CORTÉS, C. Homens; Estado de S. Paulo (26/8, 28/10/88, 11/2, 3/89); Encic. Mirador; FIECHTER, G. Regime; Folha de S. Paulo (13/11/83, 26/8/85, 10/5/87, 29/10/88, 22/1, 3, 4/2, 31/8, 20/10/89, 18/3/96, 20/7/97, 28/8/99); GARDEL, L. Armoiries; GIRÃO, R. Ceará; Globo (8/4, 31/5, 31/7/83, 15/7/85, 28/5, 20/7/86, 29/11/87, 9/3, 17, 26/8, 29/10, 26/12/88, 10, 15/2/89, 25/3/90, 3/8, 21/10/95); Grande encic. Delta; Grande encic. portuguesa; IstoÉ (8/2/84); Jornal do Brasil (21/8, 20/11/83, 2/3/84, 17/2, 11/4/85, 7/11/86, 7/2, 5, 9/11/88, 10, 13/2, 3, 10, 17/8, 7/10/89); LEVINE, R. Vargas; MAGALHÃES, I. Segundo; Rev. Inst. Hist. Geog. Bras.; SILVA, H. 1935; SILVA, H. 1938; TAVARES, J. Radicalização; Veja (13/9/89, 30/4/97, 28/8, 29/8/99); VIANA FILHO, L. Governo.

 

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