Hélio Carvalho Garcia

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: GARCIA, Hélio
Nome Completo: Hélio Carvalho Garcia

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

GARCIA, Hélio

*dep. fed. MG 1967-1971 e 1979-1983; gov. MG 1984-1987 e 1991-1995.

 

Hélio Carvalho Garcia nasceu em Santo Antônio do Amparo (MG) no dia 16 de março de 1931, filho de Júlio Garcia, ex-prefeito de Perdões (MG), e de Carmelita Carvalho Garcia. Seu avô, Antônio Carlos Carvalho, foi fundador do Banco de Minas Gerais e um dos signatários do Manifesto dos mineiros, documento de 1943 no qual a elite liberal de Minas denunciava a ditadura do Estado Novo (1937-1945) e reivindicava a redemocratização do país.

Alfabetizado pela mãe, estudou no Instituto Gammon, em Lavras (MG), e no Colégio Santo Agostinho, em Belo Horizonte. Em 1957 bacharelou-se em direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Como advogado, trabalhou por um curto período na banca de um amigo na capital mineira. Também pecuarista e produtor rural, ingressou na União Democrática Nacional (UDN) e logo tornou-se membro da comissão executiva do partido em Minas. Durante dois anos, foi ainda secretário-geral da Federação da Agricultura de seu estado.

Em outubro de 1962 elegeu-se deputado à Assembleia Legislativa mineira na legenda da UDN, dando início à carreira política. Empossado em fevereiro de 1963, com pouco tempo de mandato já era líder do governo de Magalhães Pinto, posição que manteve até 1964, quando assumiu a Secretaria Estadual do Interior e Justiça. Com a edição em outubro de 1965 do Ato Institucional nº 2 (AI-2), que extinguiu os partidos políticos existentes, e com o estabelecimento do bipartidarismo, filiou-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena), criada para dar sustentação política ao regime militar instaurado no país em 1964.

 

Na Câmara dos Deputados

No pleito de novembro de 1966, vencendo a oposição de Magalhães Pinto, que o queria na Assembleia estadual, elegeu-se deputado federal. Após encerrar o mandato de deputado estadual, tomou posse na Câmara dos Deputados em fevereiro de 1967. Participou das comissões de Segurança Nacional e de Constituição e Justiça, encerrando o seu mandato em janeiro de 1971, quando se declarou “desiludido” com a política e com seu partido e decidiu afastar-se da vida pública.

Retornou em 1975, ao aceitar o convite do governador Aureliano Chaves para assumir a presidência da Caixa Econômica em Minas Gerais. Durante sua gestão, realizou ampla reforma administrativa, estendendo a atuação do banco para quase todo o estado. Além disso, centralizou em seu gabinete todas as operações de financiamento agrícola e habitacional, retirando a autonomia dos gerentes. Participou do Congresso Internacional de Habitação e Poupança em 1975, nos Estados Unidos, e fez contatos com instituições financeiras na Alemanha, Inglaterra e França em 1977.

Notícia publicada no Jornal do Brasil em abril de 1978 — ano em que deixou a Caixa — citava seu nome como um político que tinha boa receptividade entre a maioria dos deputados estaduais e desfrutava do apoio do senador Magalhães Pinto. Não tendo sido indicado candidato a governador de Minas, candidatou-se novamente à Câmara em novembro daquele ano. Eleito, assumiu o mandato em fevereiro de 1979. Com a extinção do bipartidarismo em novembro, foi um dos fundadores, ao lado de Magalhães Pinto e de Tancredo Neves, do Partido Popular (PP), agremiação de caráter liberal formada por antigos membros da UDN e do Partido Social Democrático (PSD). A despeito dos esforços do governador Francelino Pereira para evitar seu ingresso no PP, em abril de 1980 foi eleito presidente da comissão estadual provisória do partido, com o apoio das duas alas originárias das antigas legendas.

Em janeiro de 1981, apoiou um pacto entre os novos partidos de oposição, afirmando que eles deviam marchar unidos em Minas. Concordou com a tese de uma candidatura oposicionista única ao governo do estado no pleito de novembro de 1982, como forma de assegurar a vitória eleitoral. Admitia que o candidato não fosse do PP, contanto que surgisse do consenso das oposições. Na mesma ocasião, declarou que daria igualmente apoio a um pacto entre as oposições e o governo para solucionar os problemas fundamentais do país, desde que aquelas mantivessem “suas características contrárias ao regime”. Em maio foi eleito presidente do diretório regional do PP, em reunião realizada no plenário da Assembleia Legislativa, com a participação de 296 convencionais que aprovaram a proposta de uma chapa única. Como presidente do partido em Minas, foi o responsável por sua organização em praticamente todos os municípios do estado. Apesar disso, o PP não teve existência muito longa, sendo incorporado pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) em fevereiro de 1982. Embora tenha sido contrário ao fim da agremiação, acompanhou a decisão da maioria e também ingressou no PMDB.

Durante a legislatura 1979-1983, participou das comissões de Segurança Nacional, de Serviço Público e de Finanças, ocupando ainda a suplência das comissões de Relações Exteriores e de Fiscalização Financeira e Tomada de Contas. No pleito de novembro de 1982 elegeu-se vice-governador de Minas Gerais na chapa do PMDB encabeçada por Tancredo Neves, que obteve pequena margem de vantagem sobre o segundo colocado, Eliseu Resende, candidato do Partido Democrático Social (PDS), de apoio ao governo. Deixou a Câmara em janeiro de 1983, iniciando em março seguinte o novo mandato. Foi também nomeado por Tancredo prefeito de Belo Horizonte em substituição a Júlio Laender, acumulando o cargo com o de vice-governador a partir de abril de 1983.

 

De vice-governador a governador de Minas

Durante as negociações para a sucessão do general João Batista Figueiredo na presidência da República, foi um dos principais articuladores do Acordo de Minas, que garantiu a reprodução no estado das negociações que levaram à formação da Aliança Democrática, coligação do PMDB com a Frente Liberal (dissidência do PDS liderada por Aureliano Chaves) que lançou a candidatura de Tancredo à presidência em agosto de 1984. Dois dias depois de ser escolhido pela convenção do PMDB, Tancredo renunciou ao cargo de governador, cabendo a Hélio Garcia a tarefa de substituí-lo. Para tanto, afastou-se da prefeitura de Belo Horizonte, que, ainda em agosto, passou ao comando de Rui Lage.

No Colégio Eleitoral reunido em janeiro de 1985, Tancredo obteve expressiva vitória sobre o candidato do PDS, Paulo Maluf, conquistando, assim, a presidência da República. No entanto, dias antes de assumir o cargo, foi hospitalizado às pressas em Brasília, ficando impedido de comparecer à cerimônia de posse no dia 15 de março, em que foi substituído pelo vice José Sarney. Não resistiu às sucessivas intervenções cirúrgicas a que foi submetido, acabou falecendo em São Paulo em abril de 1985.

Com o fim do regime militar (1964-1985) e a confirmação de Sarney como novo presidente, iniciou-se no Congresso a revogação da legislação autoritária. Entre as principais medidas aprovadas, destacaram-se a extensão do voto aos analfabetos e a legalização do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Além disso, foram restabelecidas as eleições nas capitais dos estados, estâncias hidrominerais e demais áreas de segurança nacional, proibidas desde 1968. Regulamentadas pela Câmara em junho de 1985, as eleições foram marcadas para novembro seguinte.

Durante a campanha para a prefeitura de Belo Horizonte, a composição política que levara Tancredo à presidência não se repetiu. A Frente Liberal, já organizada no Partido da Frente Liberal (PFL), lançou a candidatura do deputado federal Maurício Campos. O PMDB, por sua vez, encontrava-se extremamente dividido, com vários candidatos disputando a indicação do partido. Permanecendo em silêncio, Hélio Garcia só se manifestou às vésperas da convenção, quando surpreendeu a todos ao lançar o nome do deputado estadual Sérgio Ferrara, que havia renunciado à disputa.

Apesar das resistências que sofreu com sua decisão, Hélio Garcia conseguiu a aprovação da candidatura de Ferrara e unificou o partido sob sua liderança. No comando da campanha peemedebista, licenciou-se do cargo de governador para percorrer o estado de Minas pedindo votos. Em 15 de novembro de 1985, o PMDB saiu vitorioso na maioria dos 14 municípios mineiros onde foram realizadas eleições. Em Belo Horizonte, Ferrara foi eleito por maioria absoluta.

No início de 1986, alguns líderes do PMDB tentaram lançar Hélio Garcia candidato ao governo de Minas nas eleições de novembro seguinte. Segundo argumentavam, estava habilitado a participar do pleito pelo fato de não ter sido eleito governador, mas apenas substituído o titular Tancredo Neves, que renunciara para candidatar-se à presidência da República. No entanto, contrariando as intenções dos peemedebistas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgou inconstitucional a iniciativa, concluindo que a Constituição vedava a reeleição para o mesmo cargo executivo.

Afastada a possibilidade da candidatura de Garcia e mais uma vez frustrada a reedição do Acordo de Minas — que garantira para Tancredo quase todos os votos da bancada mineira no Colégio Eleitoral —, cinco nomes se apresentaram para disputar a indicação do PMDB, entre eles o ex-prefeito de Contagem (MG) Newton Cardoso e o senador Itamar Franco. Frente à indefinição do quadro, Hélio Garcia defendeu a escolha de um candidato capaz de garantir a unidade do partido, cada vez mais fragmentado pelas lutas internas.

Em maio de 1986, temendo não encontrar espaço dentro do PMDB, Itamar Franco transferiu-se para o Partido Liberal (PL), colocando-se na oposição ao governo estadual. Com isso, atraiu para si o apoio de uma ampla frente partidária, reunida no Movimento Democrático Progressista. Dela faziam parte, entre outros, o PFL, o PCB e o Partido Democrático Trabalhista (PDT), além do próprio PL.

No fim de julho, dias antes da convenção do PMDB, Hélio Garcia apontou o presidente regional da agremiação, deputado federal Joaquim de Melo Freire, como seu candidato ao governo do estado. Sua escolha agravou ainda mais a crise vivida pelos peemedebistas, levando a ala esquerda do partido, liderada por Pimenta da Veiga, líder do governo Sarney na Câmara, a rejeitar o nome de Melo Freire, que acabou recusando a indicação. Em represália, Hélio Garcia entregou a coordenação da sucessão estadual à direção partidária e resolveu afastar-se do processo.

Com o apoio da executiva do partido, Pimenta da Veiga decidiu então lançar-se candidato contra Newton Cardoso. Contudo, isso não foi suficiente para derrotar o ex-prefeito de Contagem, que conseguiu impor seu nome à maioria dos delegados e saiu vitorioso da convenção de agosto. Recusando-se a aceitar o resultado, os partidários de Pimenta criaram uma dissidência e passaram a apoiar Itamar Franco.

Inicialmente, Hélio Garcia deu a impressão de que não iria participar de sua sucessão e manteve-se afastado de qualquer atividade eleitoral. Nesse período, chegou a pensar em apoiar Murilo Badaró, seu antigo colega de escola e candidato do PDS. Porém, no fim de agosto de 1986, assumiu publicamente a candidatura de Newton Cardoso, afirmando que o pleito de novembro seria uma eleição plebiscitária sobre sua gestão e que naquele momento estaria em jogo sua própria sobrevivência política.

Gozando de grande popularidade entre os eleitores mineiros — na época, as pesquisas de opinião pública indicavam que seu governo era aprovado por cerca de 85% da população —, retomou mais uma vez a tarefa de coordenar a campanha peemedebista, procurando conquistar o apoio do interior do estado, já que Cardoso encontrava forte resistência a seu nome na capital e em cidades de médio porte como Juiz de Fora. Em seus discursos, evitava os temas nacionais e as críticas ao governo Sarney, repetindo invariavelmente o slogan “uma Minas Gerais para os mineiros”. Além disso, reivindicou para si a herança política de Tancredo Neves, sempre procurando evidenciar sua intimidade com o ex-presidente. Ainda viva na memória do povo, a lembrança de Tancredo tornou-se em 1986 importante componente eleitoral, com os principais candidatos ao governo de Minas brigando por seu legado.

Ao longo da campanha, Hélio Garcia foi diversas vezes acusado de abuso de poder e de uso da máquina do Estado em favor dos candidatos do PMDB. Seu envolvimento direto com a candidatura de Newton Cardoso o afastou de antigos aliados, principalmente da ala esquerda do partido, que tinha severas críticas ao ex-prefeito de Contagem. Apesar das dificuldades, em 15 de novembro de 1986, Cardoso conseguiu inverter a situação favorável a Itamar e elegeu-se governador. Com isso, Hélio Garcia quebrou uma antiga tradição mineira: a de que o chefe do Executivo nunca faz o sucessor.

Ainda como governador, quis ser candidato à sucessão de Sarney, ressalvando, no entanto, que abriria mão de sua pretensão se o presidente nacional do PMDB, Ulisses Guimarães, também pleiteasse a indicação. Na mesma época, o deputado federal Israel Pinheiro (PMDB-MG) e também o governador recém-eleito Newton Cardoso tentaram lançar seu nome para a vice-presidência da República, vaga desde a posse de Sarney. Hélio Garcia, porém, disse que só encamparia a idéia caso fosse eleito diretamente para o cargo e não — conforme a proposta de Israel Pinheiro — por delegação do Congresso Constituinte eleito em novembro de 1986. Diante disso, a iniciativa acabou sendo abandonada.

Durante os debates que antecederam a abertura da Constituinte, e mesmo depois de sua instalação em fevereiro de 1987, defendeu a recriação da Aliança Democrática, para evitar a influência dos “radicalismos de esquerda e de direita” no texto da futura Carta. No seu entender, a Constituição a ser elaborada deveria ter uma tendência de centro, de caráter liberal, mas com “grande dose de consciência social”. No mesmo período, quando as principais polêmicas da Constituinte giravam em torno da definição do sistema de governo e do mandato de Sarney, foi um dos poucos a sustentar publicamente a tese do presidencialismo com mandato de quatro anos e com direito à reeleição.

Com a posse de Newton Cardoso em março de 1987, deixou o governo mineiro e retirou-se para suas fazendas no interior de Minas. Em dezembro, numa de suas poucas aparições no período, revelou que, em outubro de 1984, antes mesmo da convocação do Colégio Eleitoral, o ex-governador de Magalhães Pinto articulara, junto com alguns setores das forças armadas, um plano para impedir a posse de Tancredo Neves na presidência da República, caso fosse eleito. Embora a denúncia não tenha tido maiores repercussões na imprensa brasileira, foi confirmada pelo ministro-chefe do Gabinete Civil de Sarney, Ronaldo Costa Couto. Segundo a versão de Hélio Garcia, uma nota oficial que divulgara na época teria abortado a tentativa de golpe.

Em 1989, começou a se distanciar do PMDB. Dizendo-se esquecido pelo partido, não compareceu à convenção que indicou Ulisses Guimarães candidato às eleições presidenciais daquele ano. Alheio à sucessão de Sarney, afirmou, no entanto, ter sido procurado para compor como vice diversas coligações, da esquerda à direita do espectro partidário. Realizadas as eleições em novembro e dezembro de 1989, a vitória coube a Fernando Collor de Melo, do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), tendo como vice-presidente Itamar Franco.

 

Novamente no governo de Minas

No princípio de 1990, Hélio Garcia deixou o PMDB para fundar o Partido das Reformas Sociais (PRS), que em fevereiro obteve seu registro provisório no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nessa legenda candidatou-se a governador de Minas Gerais nas eleições daquele ano. Durante a campanha eleitoral, a agência de publicidade que assessorava Pimenta da Veiga, candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), recorreu a um expediente jocoso para tentar reverter o quadro favorável a Garcia: em alusão ao silêncio do ex-governador, fez distribuir aos eleitores mineiros um livro intitulado O pensamento vivo de Hélio Garcia, cujas páginas estavam em branco.

Em novembro, derrotando no segundo turno o candidato do PRN, Hélio Costa, Hélio Garcia foi eleito governador. Apoiado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e pelo PL, defendeu a necessidade de um amplo acordo nacional envolvendo trabalhadores, empresários e governo, de modo a pôr fim à crise econômica vivida pelo país. Semanas antes de ser reconduzido à chefia do Executivo mineiro, obteve importante vitória ao articular a eleição do correligionário Romeu Queirós para a presidência da Assembleia Legislativa.

Ao tomar posse em março de 1991 — mês em que o PRS o elegeu presidente de honra do partido —, surpreendeu a todos, pois sequer anunciou o secretariado que o auxiliaria e, dias depois, baixou a primeira medida de impacto: alegando não dispor de recursos, decretou uma moratória de 45 dias nos pagamentos do governo estadual. Logo aproximou-se, também, do governo federal, a fim de negociar a liberação de recursos para obras no estado. Juntamente com o governador de São Paulo, Luís Antônio Fleury Filho, articulou um entendimento com Fernando Collor, chegando a apoiar a formação de um bloco parlamentar no Congresso Nacional para dar sustentação ao presidente.

Apesar das negociações com os governadores, a popularidade de Collor diminuía consideravelmente em meados de 1991. Para tanto, concorriam o agravamento da crise econômica e uma série de denúncias contra vários integrantes de seu governo, envolvidos em diversos tipos de irregularidades. As denúncias acabaram por apontar a existência de um esquema de corrupção dentro da própria administração federal, o que deu origem à instalação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) no Congresso em junho de 1992. Em setembro seguinte, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura de um processo de impeachment do presidente por crime de responsabilidade, provocando seu afastamento do cargo. Substituído pelo vice Itamar Franco, Collor acabou renunciando ao mandato em dezembro, pouco antes da conclusão do julgamento pelo Senado. Acolhida a renúncia, Itamar Franco foi efetivado na presidência da República.

Em silêncio durante quase todo o processo, Hélio Garcia foi acusado de omissão por seus opositores, que não perdoaram o fato de o governador mineiro só ter aderido à tese do impeachment no fim de agosto de 1992. Suas poucas manifestações no período procuravam “desvincular a crise política da crise econômica” e preservar o ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira. Poucos dias depois da posse interina de Itamar, em 2 de outubro, declarou que o país tinha o “dever moral” de apoiar o novo presidente, seu antigo adversário em Minas, e voltou a defender a idéia de um pacto nacional para dar sustentação à fase de transição que se iniciava.

Desde fevereiro de 1992 Hélio Garcia ficara sem partido, já que o TSE indeferiu o pedido de registro definitivo do PRS e declarou-o extinto, porque só cumprira as exigências necessárias à sua legalização em Minas Gerais, Pernambuco e Distrito Federal. O governador negociou então, no início de 1993, a formação de um novo partido com o governador de Pernambuco, Joaquim Francisco, iniciativa que, no entanto, não foi levada adiante. Em abril, Mílton Reis, secretário estadual de Assuntos Metropolitanos e presidente do PTB em Minas, convidou-o a filiar-se ao partido, oferecendo-lhe a legenda para disputar a presidência da República em outubro de 1994. Dias após o convite, Garcia afirmou que não seria candidato ao palácio do Planalto, pois pretendia cumprir integralmente o mandato à frente do Executivo mineiro. Ante os debates suscitados pelo plebiscito que definiria forma e sistema de governo, aproveitou para manifestar a opção pelo presidencialismo.

Em agosto, Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, declarou que era preciso adotar urgentemente um novo pacto federativo capaz de redefinir as atribuições da União, dos estados e dos municípios, adequando-as segundo critérios mais equânimes. Hélio Garcia encampou a sugestão, “oportuna e importante”, e advertiu que a matéria deveria ser objeto de apreciação da revisão constitucional marcada para outubro seguinte.

Em artigo publicado em dezembro no jornal Folha de S. Paulo, Hélio Garcia defendeu a aprovação do Fundo Social de Emergência (FSE) — em tramitação na Câmara e que, uma vez instituído, permitiria ao Executivo federal uma margem de autonomia na aplicação de recursos —, descartando a possibilidade de o governo utilizá-lo segundo “finalidades políticas menores”.

Em janeiro de 1994 decidiu ingressar no PTB. Assinada a ficha de filiação, líderes petebistas cogitaram lançá-lo candidato a vice-presidente em chapa encabeçada pelo senador José Eduardo Andrade Vieira (PTB-PR). O líder do partido na Câmara, Rodrigues Palma (MT), entusiasta da composição, classificou-a como “imbatível”. Defensor de uma candidatura de centro para as eleições presidenciais de outubro, Garcia rejeitou, porém, a idéia de uma frente contra o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Luís Inácio Lula da Silva, que, no início daquele ano, despontava como o favorito nas principais pesquisas de opinião.

Em março de 1994 recusou convite para integrar como candidato a vice-presidente a chapa de Fernando Henrique Cardoso, candidato do PSDB. A revista Veja veiculou em abril uma matéria na qual afirmava que a origem da recusa estaria no desagrado com que líderes tucanos, entre os quais Tasso Jereissati, presidente do partido, e o próprio Fernando Henrique, reagiram à indicação de Hélio Garcia, estimulada vivamente pelo presidente Itamar Franco. Segundo fontes ouvidas pela revista, Fernando Henrique teria manifestado “constrangimento” ao receber de Itamar a sugestão de ter como companheiro de chapa o governador de Minas. Dias antes da publicação da reportagem de Veja, ao ser questionado pelo jornal O Globo sobre eventuais resistências dos tucanos, Garcia apressara-se em minimizá-las e, consultado sobre uma possível união com Fernando Henrique, acrescentara que estava disposto a “contribuir para o país”.

Também sondado por Leonel Brizola, candidato do PDT, o governador mineiro decidiu, todavia, declarar apoio público a Fernando Henrique, que, desincompatibilizado do cargo de ministro, firmou a aliança de seu partido com o PTB e o PFL, tendo Marco Maciel como vice.

O assédio a Hélio Garcia não se restringiu ao candidato pedetista. Luís Inácio Lula da Silva enviou-lhe dois emissários — os deputados federais mineiros Tilden Santiago e João Paulo Pires —, por intermédio dos quais lhe propôs uma ampla frente contra Hélio Costa, que fora derrotado no pleito estadual de 1990 e estava novamente interessado em disputar o palácio da Liberdade. Em troca, o PT reivindicava suporte à candidatura presidencial em Minas. O governador mineiro recebeu Santiago e Pires, disse-lhes que não se opunha a um encontro com Lula, bastava que o petista o marcasse, e, por fim, reiterou-lhes a adesão a Fernando Henrique.

Descartada a candidatura à vice-presidência, Hélio Garcia passou a considerar a possibilidade de concorrer ao Senado. Até então resoluto quanto ao futuro — não o animava a perspectiva de deixar o governo de Minas seis meses antes do pleito de outubro, exigência da legislação eleitoral —, admitiu disputar o mandato de senador. Em abril, pôs fim às dúvidas: decidiu permanecer à frente do governo de Minas.

Apesar de sua vantagem inicial, Lula acabou derrotado ainda no primeiro turno do pleito, tornando-se Fernando Henrique o novo presidente da República em outubro de 1994. Na mesma data, foram eleitos para disputar o segundo turno das eleições para o governo de Minas o candidato do Partido Progressista (PP), Hélio Costa, e o candidato do PSDB, Eduardo Azeredo, que contou com o apoio de Hélio Garcia. Tal como fizera na eleição de Newton Cardoso, Garcia participou pessoalmente da campanha, tendo inclusive se licenciado do cargo de governador por 20 dias para coordenar as articulações políticas de Azeredo. Apesar das denúncias de uso da máquina pública em benefício de seu candidato, mais uma vez conseguiu reverter uma situação desfavorável e fazer seu sucessor.

O anúncio, em dezembro, da equipe ministerial que assessoraria Fernando Henrique desagradou a Hélio Garcia. As pastas destinadas a mineiros — Paulo Paiva ocuparia o Ministério do Trabalho, Dorotéia Werneck seria a responsável pelo Ministério da Indústria e Comércio e a Israel Vargas caberia o Ministério da Ciência e Tecnologia — foram qualificadas pelo governador como “ministérios de papelão”, aos quais faltaria representatividade.

Após transmitir o cargo a Azeredo em 1º de janeiro de 1995, fixou residência em Santo Antônio do Amparo.

Durante o pleito municipal de outubro de 1996, reapareceu na cena política mineira. Demonstrando ambiguidade, ora declarava apoio a Amílcar Martins, candidato à prefeitura de Belo Horizonte pelo PSDB, que se coligara ao PTB, ora fazia comentários favoráveis ao candidato do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Célio de Castro, seu médico e amigo desde muitos anos. Ao final do primeiro turno, que pôs em confronto direto Martins e Castro, declarou ter votado em “Amílcar de Castro”, fundindo o nome dos dois postulantes. A vitória no segundo turno coube a Célio de Castro, que assumiu a prefeitura da capital mineira em janeiro de 1997.

Em fevereiro de 1997, Garcia insurgiu-se contra a pretensão do governador Eduardo Azeredo, a quem apoiara, de privatizar a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). “Vender parte da Cemig é como alugar uma casa a alguém e depois vendê-la para ele”, comparou. Em julho de 1998, decidiu candidatar-se a uma cadeira no Senado Federal na legenda do PTB mineiro. No entanto, antes do pleito, marcado para outubro, resolveu abandonar a disputa. Fiel ao estilo comedido, fizera apenas um comício no qual se apresentara rapidamente como candidato e, em seguida, retirara-se do palanque.

A partir de 2004, começou a apresentar problemas de saúde e recolheu-se à sua fazenda em Santo Antônio do Amparo.

Foi também diretor-presidente da Líder Engenharia — Construções Civis.

Casado com Margarida Silésio de Araújo Milton, teve três filhas.

 

Luís Otávio de Sousa/Rogério Alves de Barros atualização

 

FONTES: Almanaque Abril 1990; ANDRADE, F. Relação; CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Deputados brasileiros. Repertório (1967-1971 e 1979-1983); Estado de S. Paulo (15/1 e 2/12/86, 8/3/87, 26/8/93 e 10/2/97); FAUSTO, B. História do Brasil; Folha de S. Paulo (6, 10 e 11/4 e 15/5/86, 19/1/87, 2/5/89, 22/4 e 4/12/93, 22/12/94 e 15/7/98); Globo (23 e 29/1 e 4/5/81, 15/4/82, 29/7 e 31/7, 19/8 e 15/11/86, 26/12/87, 1/8/89, 30/3/90, 3 e 25/2/91, 31/3 e 1/4/94); Jornal do Brasil (24/4/78, 2/4/80, 13/5, 29/7, 3/8, 26/10 e 22/11/86, 16 e 20/3/91, 16/4/93, 5/1 e 27/11/94, 3/8 e 16/11/96); Minas on line. (Disponível em: http://www.mg.gov.br/portalmg/do/governador?op=estruturaConteudo&coConteudo=63420&coSeqEstrutura=379&coEstruturaPai=9; acessado em: 19/11/2009); Perfil (1980); Rev. Arq. Públ. Mineiro (12/76); Senhor (9/9/86); Veja (6/4/94); Who’s who in Brazil.

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados