HERCULES CORREIA

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Nome: CORREIA, Hércules
Nome Completo: HERCULES CORREIA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
CORREIA, HÉRCULES

CORREIA, Hércules

*mov. comunista; dir. CGT 1962-1964.

 

Hércules Correia dos Reis nasceu em Cachoeiro de Itapemirim (ES) no dia 16 de dezembro de 1929, filho de Jorge Correia dos Reis e de Maria Rosa dos Reis. Seu pai era operário da indústria de construção civil e sua mãe, tecelã. Filiada à Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1935, ela participou da revolta comunista deflagrada em novembro daquele ano contra o governo de Getúlio Vargas e, acusada do homicídio de dois fazendeiros, permaneceu foragida durante dois anos, sendo posteriormente absolvida. Seu tio, Pedro Correia dos Reis, foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil e dirigente do Partido Comunista Brasileiro ― então Partido Comunista do Brasil (PCB) ― em Cachoeiro de Itapemirim.

Concluiu o curso primário em 1940 no Grupo-Escola Graça Guardia, em sua cidade natal. Premido pela pobreza de sua numerosa família, composta de mais de dez irmãos, viajou, em fins de 1942, para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde trabalhou inicialmente como engraxate. Depois, empregou-se numa pensão e num restaurante popular situado no Mangue, zona de prostituição da cidade.

Em outubro de 1943 tornou-se varredor da fábrica de tecidos Vitória Régia, no bairro de São Cristóvão, onde teve seu primeiro contato na capital federal com o movimento operário e o PCB, que, apesar de duramente perseguido pela polícia política do Estado Novo, havia realizado dois meses antes sua II Conferência Nacional (conhecida como Conferência da Mantiqueira). Depois de ajudar uma greve dos trabalhadores da Vitória Régia deflagrada no mês seguinte à sua admissão, assumiu informalmente as funções de cobrador do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Fiação e Tecelagem do então Distrito Federal e, convidado por operários comunistas, ingressou no PCB em janeiro de 1944. No final desse ano passou a trabalhar como tecelão, continuando como cobrador do sindicato. Em fins de 1945 ― com o PCB na legalidade e o processo de democratização assegurado com a derrubada do Estado Novo (29/10/1945) ― foi eleito para a comissão de salários do sindicato e tornou-se secretário político da célula comunista (organização de base do PCB) de sua fábrica. Em meados de 1946, assumiu as funções de secretário sindical do comitê distrital comunista do bairro de São Cristóvão. A existência legal do PCB só durou até maio de 1947, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cancelou o registro do partido.

Permaneceu trabalhando na Vitória Régia até 1951, ano em que integrou o comando de uma greve que paralisou a fábrica durante 52 dias. Demitido por causa do movimento e impossibilitado de continuar sua atividade partidária clandestina em São Cristóvão, foi deslocado para atuar entre os rodoviários, trabalhando, até meados de 1953, como cobrador da linha Estrada de Ferro-Leblon. Nesse período frequentou os Cursos Stálin, promovidos pelo PCB visando à formação de seus militantes, e em seguida viajou para Moscou a fim de cursar a escola de quadros do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

 

Atuação parlamentar e sindical

De volta ao Brasil em 1955, assumiu as funções de secretário sindical do comitê metropolitano (comitê municipal do Distrito Federal) do PCB, sendo designado em seguida para representar o partido na comissão coordenadora da campanha de Juscelino Kubitschek para as eleições presidenciais de 3 de outubro daquele ano. Continuou como funcionário do partido até o início de 1957, quando voltou a trabalhar como tecelão, dessa vez na fábrica São Luís Durão, também situada em São Cristóvão, onde permaneceu até ser eleito secretário do Sindicato dos Têxteis e seu representante na federação nacional da categoria, em 1959. Pouco depois, foi lançado candidato à Assembleia Constituinte do estado da Guanabara, cuja criação estava prevista para 21 de abril de 1960, quando a capital federal seria transferida para Brasília.

Ainda em 1959 foi preso, o que provocou uma greve de protesto na fábrica em que trabalhara. Libertado, participou do V Congresso do PCB, realizado na clandestinidade em fins de agosto de 1960, sendo eleito nessa ocasião suplente do comitê central. Concorrendo na legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), obteve, em 3 de outubro seguinte, quase dez mil votos, garantindo uma cadeira na Constituinte do estado da Guanabara, onde integrou a Comissão Constitucional e foi relator do capítulo sobre economia da Constituição promulgada em 27 de março de 1961.

Eleito, em 1962, delegado da Federação Nacional dos Têxteis no conselho de representantes da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e integrante do Conselho Permanente das Organizações Sindicais (CPOS) do estado da Guanabara, tornou-se um dos 11 membros da direção executiva do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), organização intersindical de âmbito nacional, não reconhecida pelo Ministério do Trabalho, criada em agosto de 1962 no Rio de Janeiro.

Em 7 de outubro, obteve a terceira maior votação entre os candidatos lançados pelo PTB para a Assembleia Legislativa do estado da Guanabara, da qual se tornou primeiro-secretário. Em virtude de suas atividades ligadas no CGT, seu nome alcançou projeção nacional, sendo eleito, em 1963, presidente da CPOS e do Sindicato dos Têxteis da Guanabara. Nessa época, o movimento sindical era um dos principais pontos de apoio da crescente mobilização pelas chamadas reformas de base e através dele o CGT acumulou forte poder de pressão sobre as decisões políticas do governo, fato duramente criticado pelos setores conservadores, civis e militares. As tensões oriundas desse conflito agravaram-se nos primeiros meses de 1964, sendo decisivas para que as pressões das forças armadas sobre Goulart evoluíssem no sentido de uma conspiração que resultou na sua derrubada em 31 de março.

Passagem para a clandestinidade

Muito procurado pela polícia política, Hércules Correia chegou a ser dado como morto, mas escapou à onda de prisões que se seguiu ao movimento político-militar. No dia 10 de abril teve seu mandato parlamentar cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos com base no Ato Institucional nº 1, editado na véspera pela junta militar que assumira o poder.

Depois de permanecer escondido durante três meses, deslocou-se para Porto Alegre, integrando-se à comissão de reorganização do comitê municipal do PCB. No início de 1965, eleito secretário político desse organismo, incorporou-se ao comitê estadual gaúcho, onde atuou até janeiro do ano seguinte. Localizado pelo Exército, fugiu para São Paulo, passando outro período de três meses inativo, até se tornar membro de uma comissão de reorganização do comitê distrital do bairro de Ipiranga, na capital. Eleito secretário de organização desse organismo, ainda em 1966 ingressou no comitê municipal de São Paulo, onde permaneceu até a conferência estadual do partido, realizada em maio de 1967 como parte do processo de preparação do VI Congresso do PCB.

Nessa conferência, foram vitoriosas, por ampla maioria, as propostas defendidas por Carlos Marighella, membro da comissão executiva do PCB, que já havia tornado públicas suas divergências com a linha política e a direção do partido. Eleito secretário político do comitê estadual paulista, Marighella levou adiante o processo de luta interna que culminou com sua expulsão do PCB e a formação, pelo comitê central, de uma comissão interventora no comitê estadual de São Paulo, integrada, entre outros, por Hércules Correia. No VI Congresso, realizado em 1967, Hércules foi eleito membro efetivo do comitê central e primeiro suplente da comissão executiva, cargos que acumulou com sua participação na seção sindical nacional do partido e no secretariado do comitê estadual paulista. Em 1971, em razão do acirramento das medidas de repressão por parte do governo, o comitê central decidiu que parte dos seus integrantes, inclusive o secretário-geral Luís Carlos Prestes, deveria sair do país, estabelecendo um sistema de rodízio que visava a manter membros da direção do partido fora do alcance da polícia. Com a viagem de Prestes, Hércules Correia deixou as funções que exercia para integrar a comissão executiva, órgão máximo do partido, sendo deslocado para dirigir o trabalho estudantil do PCB em todo o país.

No dia 22 de março de 1974, junto com mais quatro membros do comitê central, quase foi capturado pela polícia na capital paulista. Por medida de segurança, foi então decidido que deveria sair do país. Depois de permanecer escondido até o final de junho, viajou para Moscou, onde frequentou um curso sobre O Capital, de Karl Marx, na escola de formação de quadros do PCUS. Dessa forma, escapou à grande onda de repressão que, em 1974 e 1975, levou à prisão cerca de mil militantes do PCB, entre os quais quatro membros da comissão executiva, e desarticulou a maioria dos comitês estaduais. Impossibilitado de continuar atuando no Brasil, o comitê central se reinstalou no exterior sob a direção de Prestes, contando com seus integrantes que lá se encontravam desde o início da década e os que conseguiram escapar para o exílio.

Na primeira reunião do organismo realizada no exterior, em janeiro de 1976, Hércules Correia defendeu, sem êxito, o envio de alguns dirigentes para o Brasil com o objetivo de retirar do país comunistas perseguidos e definir uma direção central para o partido. Nessa ocasião, não foi reeleito para a comissão executiva, permanecendo inativo em Moscou até dezembro de 1978, quando se mudou para Lisboa. Em janeiro do ano seguinte, voltou à condição de primeiro suplente da comissão executiva, desempenhando funções de coordenação do trabalho sindical. Em maio, reintegrou-se ao organismo máximo do partido no lugar de Prestes, sistematicamente ausente de todas as reuniões desde que entrara em conflito com a maioria do comitê central.

Beneficiado pela anistia decretada em 28 de agosto de 1979 pelo presidente João Batista Figueiredo, Hércules Correia retornou ao Brasil cerca de um mês depois, junto com os dirigentes comunistas Gregório Bezerra, Luís Tenório de Lima e Lindolfo Silva. Em fevereiro de 1980, concedeu entrevista ― da qual participaram também Giocondo Dias e Salomão Malina, membros da comissão executiva ― em que combatia as posições de Prestes, consideradas “esquerdistas”. A polêmica se agravou e ganhou ampla repercussão a partir da divulgação, em março, da Carta aos comunistas escrita pelo secretário-geral, contendo duras críticas à direção do partido e conclamando as bases a derrubá-la. A comissão executiva respondeu a esse documento no dia 9 de abril.

Em 17 e 18 de maio, o comitê central, reunido pela primeira vez no Brasil desde 1973, aprovou nova resposta a Prestes, elaborada principalmente por Hércules Correia, e deliberou importantes remanejamentos na direção do partido. Giocondo Dias foi eleito para a secretaria geral ocupada por Prestes desde 1943, enquanto Luís Tenório de Lima e Givaldo Pereira de Siqueira substituíram Armênio Guedes e Hércules Correia na comissão executiva. Pouco depois, Hércules afirmou que essa solução expressava “uma tentativa de conciliação da maioria do comitê central com os prestistas e o próprio Prestes”, e exigiu que a comissão executiva respondesse às acusações de antissovietismo e oportunismo dirigidas pelo antigo secretário-geral contra ele e Armênio, o que não foi feito.

No final de julho de 1980, declarou à imprensa que a abertura política patrocinada pelo governo era uma realidade, combatendo a idéia ― “crescente no meio das esquerdas, inclusive do PCB” ― de que o projeto oficial não passava de uma farsa. Pouco depois, a comissão executiva do PCB lançou nota afirmando admitir a hipótese de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte com o general João Batista Figueiredo no poder.

Nas eleições de novembro de 1982, candidatou-se sem sucesso à Câmara dos Deputados, na legenda do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), agremiação que abrigava a maioria dos militantes do PCB, ainda ilegal. Com o fim do regime militar em março de 1985 e o retorno do país à normalidade democrática, os comunistas iniciaram uma campanha pela legalização do partido, concretizada ainda naquele ano. Hércules Correia exerceu a presidência do diretório regional do PCB no Rio de Janeiro até janeiro de 1986, quando se transferiu para o PMDB. Em novembro seguinte, candidatou-se a uma vaga no Senado pelo Rio de Janeiro, na legenda peemedebista, mas não conseguiu se eleger.

Em 1987, no início do governo de Wellington Moreira Franco, também do PMDB, assumiu a vice-presidência da Companhia de Transportes Coletivos do Estado do Rio de Janeiro (CTC-RJ), cargo que exerceu até meados de 1989. Nessa ocasião, passou a ocupar a presidência da empresa, aí permanecendo até o término do governo Moreira, em março de 1991. Nesse ano foi eleito presidente do diretório regional do PMDB no Rio de Janeiro e ingressou na Datamec Sistemas e Processamento de Dados S.A., empresa controlada pela Caixa Econômica Federal (CEF). Em março de 1997, deixou o PMDB para se filiar ao Partido Popular Socialista (PPS), agremiação oriunda do PCB.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 16 de outubro de 2008.

Foi casado com Nisidéia Jorge dos Reis, com quem teve dois filhos. Casou-se em segundas núpcias com Flora Strozenberg Correia dos Reis.

Escreveu A classe operária e seu partido, O ABC de 1980 (ambos publicados em 1980), Crise do socialismo (1981) e Memórias de um stalinista (1995).

Marcelo Costa

 

FONTES: ARQ. DEP. PESQ. JORNAL DO BRASIL; CORREIA, H. Classe; INF. BIOG.; Jornal do Brasil (29/7, 30/9 e 24/10/79; 3/2, 1, 9, 22/4, 21/5 e 22/7/80; 3/4/97); MACEDO, R. Efemérides; MORRE; NÉRI, S. 16;

 

 

 

 

 

 

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