Jair Antônio Meneguelli

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Nome: MENEGUELLI, Jair
Nome Completo: Jair Antônio Meneguelli

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

MENEGUELLI, Jair

* pres. CUT 1983-1994; dep. fed. SP 1995-2003.

 

Jair Antônio Meneguelli nasceu em São Caetano do Sul (SP) no dia 16 de julho de 1947, filho de Vitório Meneguelli e de Iolanda Jaketto Meneguelli.

Frequentou o curso ginasial no Colégio Barão do Rio Branco, em São Bernardo do Campo (SP), entre 1958 e 1960. Em 1963 fez o curso de ferramenteiro da Escola Roberto Simonsen, do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), na capital do estado, e empregou-se na Willys Overland do Brasil, empresa que seria incorporada pela Ford do Brasil em 1971. Em 1977 filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema — a princípio com o objetivo de conseguir desconto nas mensalidades do curso de madureza ginasial então oferecido pela entidade — e a partir de então iniciou sua participação na vida sindical.

 

A fundação da CUT

O final dos anos 1970 foi marcado por importante avanço na organização dos trabalhadores da região conhecida como o ABC paulista — que englobava os municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano e Diadema. A partir da deflagração de uma greve em 1978 na fábrica de ônibus e caminhões Scania, em São Bernardo, surgiu um movimento crescente de greves e paralisações, ligadas à campanha por reajustes salariais. Meneguelli tomou parte nesse movimento, em que se consolidou a liderança de Luís Inácio Lula da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Em fevereiro de 1980, sindicalistas do ABC e de outras regiões do país, junto com intelectuais e integrantes de grupos de esquerda e dos movimentos eclesiais de base, adversários do regime militar instaurado no país em abril de 1964, viriam a lançar em São Paulo o Manifesto de Fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).

Também em 1980, o governo federal decretou a intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, destituindo a diretoria presidida por Lula. Nas eleições realizadas após o término da intervenção, em 1981, Meneguelli foi escolhido presidente da entidade, em consequência do impedimento legal dos antigos membros da diretoria. Em agosto desse ano, participou da I Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, realizada em Praia Grande (SP), que foi o marco do reaparecimento do movimento sindical na cena política brasileira.

Durante a campanha salarial do Sindicato dos Metalúrgicos no ano de 1983, Meneguelli foi acusado de ter ofendido o presidente da República, general João Batista Figueiredo, em assembleia realizada em março, quando fez severas críticas ao Decreto nº 2.012, que reduzira os índices de reajuste salarial. Aberto inquérito pela Polícia Federal com base na Lei de Segurança Nacional, foi indiciado em junho seguinte. Em agosto, participou do I Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, em São Bernardo do Campo, em que foi fundada a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Eleito coordenador da executiva nacional da central, com mandato de um ano, passou a acumular esse cargo com o de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema e com o de membro do diretório e da executiva nacional do PT, função que exerceria entre 1984 e 1988.

Reunindo em sua fundação cerca de quinhentas entidades sindicais, a CUT viveu um considerável processo de expansão nos anos seguintes, dirigindo a partir de então as principais campanhas do movimento sindical no país. Em agosto de 1984, durante o primeiro congresso nacional da entidade, realizado em São Bernardo do Campo, Meneguelli foi eleito presidente da CUT. Ainda nesse ano, tornou-se diretor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cargo que exerceria até o ano seguinte.

A transição democrática iniciada no governo Figueiredo tomou impulso, no início de 1984, com o desenvolvimento da campanha em favor da aprovação da emenda Dante de Oliveira, que previa a realização de eleições diretas para a presidência da República em novembro seguinte. Como, em 25 de abril de 1984, a emenda não obteve na Câmara o número de votos necessários à sua aprovação — faltaram 22 para que o projeto pudesse ser encaminhado à apreciação pelo Senado —, o processo sucessório foi decidido por via indireta. Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral elegeu Tancredo Neves, candidato oposicionista da Aliança Democrática, união do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) com a dissidência do Partido Democrático Social (PDS) abrigada na Frente Liberal. Contudo, por motivo de doença, Tancredo Neves não chegou a ser empossado na presidência, vindo a falecer em 21 de abril. Seu substituto foi o vice José Sarney, que já exercia interinamente o cargo desde 15 de março.

 

A CUT no governo Sarney

O ano de 1985 foi marcado, também, pelo agravamento da crise econômica, com o aumento da inflação. Verificou-se, a partir dos meses de abril e maio, um importante surto de greves iniciado pelos metalúrgicos do estado de São Paulo, e houve também paralisações em outros estados, como as greves de professores e metroviários no Rio de Janeiro. O movimento dos metalúrgicos em São Paulo foi liderado pela CUT e contou com a adesão dos sindicatos mais ativos do ABC, da região do vale do Paraíba e de Campinas, além do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, filiado à Coordenação Geral das Classes Trabalhadoras (Conclat), principal concorrente da entidade dirigida por Meneguelli na condução do movimento sindical no país. Paralisaram o trabalho cerca de 83% dos 290 mil metalúrgicos de São Paulo, que apresentavam como principais reivindicações a concessão de reajustes trimestrais de salários — a política salarial em vigor determinava reajustes apenas a cada seis meses — e o estabelecimento da jornada de trabalho de 40 horas semanais.

Em face da situação de crise do país, em outubro o presidente Sarney manifestou a intenção de promover a discussão do “entendimento nacional” — expressão escolhida pelo Palácio do Planalto para substituir o termo “pacto social” —, envolvendo empresários, trabalhadores, Igreja e intelectuais, de modo a viabilizar a adoção de medidas econômicas e sociais. Com a proposta, Sarney pretendia refrear a campanha movida pela CUT e pela Conclat, pautada na reivindicação da trimestralidade dos reajustes e na reposição de 20% dos salários, e ainda obter algumas concessões por parte dos empresários, como o reajuste moderado dos preços de seus produtos. Na ocasião, embora tenha se manifestado disposto a participar do debate, Meneguelli apontou a impossibilidade de maiores sacrifícios ou concessões por parte dos trabalhadores, considerando que apenas a elevação do poder aquisitivo poderia conter os surtos de greves em todo o país, que incluíam, agora, entre outras, mobilizações de metalúrgicos e motoristas de ônibus no Rio de Janeiro.

Em fevereiro de 1986, quando a inflação atingiu o patamar de 16,2% ao mês, Meneguelli proclamou a disposição de se encontrar com o ministro do Trabalho Almir Pazzianotto, mas os entendimentos foram interrompidos no mês seguinte com o anúncio da reforma econômica conhecida como Plano Cruzado. O pacote, elaborado sob a direção do ministro da Fazenda Dílson Funaro, consistia no congelamento de preços e salários e na reforma monetária, com a substituição da moeda em vigor, o cruzeiro, pelo cruzado. As medidas pretendiam eliminar a correção monetária e a indexação da economia. Em relação à política salarial, determinava-se a fixação dos salários no seu valor médio real nos seis últimos meses antes da decretação do plano, e o fim dos reajustes automáticos semestrais, com previsão de apenas um reajuste por ano, nos dissídios de cada categoria profissional.

Meneguelli, de imediato, foi contra as medidas, considerando que o pacote determinava profundo arrocho salarial, no que divergiu da direção da Conclat, que a princípio manifestou apoio ao governo — também em março de 1986, a Conclat deixou de ser uma coordenação para tornar-se uma central sindical, a Central Geral dos Trabalhadores (CGT). A partir de abril, a CUT e a CGT lideraram nova onda de greves, que incluiu mobilizações de professores e ferroviários do Estado do Rio, metroviários de São Paulo e bancários em nível nacional, entre outras categorias. Em maio seguinte, o presidente da CUT reconheceria um retrocesso do movimento, sobretudo na área privada, em face do apoio dos trabalhadores ao congelamento dos preços promovido pelo governo.

Nos meses de junho e julho, as paralisações tiveram por objetivo derrubar a contenção salarial pretendida pelo governo, que constituía um dos principais alicerces do Plano Cruzado. A estratégia determinada por Meneguelli previa paralisações por empresa, com o objetivo de obter melhores condições de negociação, e assim ocorreram as greves na Siemens, em São Paulo, na Brastemp, em São Bernardo, e na Belgo Mineira, em Minas Gerais. Meneguelli também combateu a proposta de Almir Pazzianotto de acabar com o imposto sindical, que considerou inoportuna, por achar que não se podia promover medida de tal alcance “de uma hora para outra”. No início de agosto, durante o II Congresso da CUT (II Concut), realizado no Rio de Janeiro, Meneguelli foi reeleito presidente da central.

O movimento grevista culminou com a deflagração da primeira greve efetivamente nacional da história do sindicalismo brasileiro, em setembro de 1986, quando os bancários paralisaram 30 mil agências em todo o país. O movimento — conduzido pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo e por entidades dos grandes centros, filiados à CUT, e também pela Federação Paulista de Bancários, da CGT — teve como resultado a obtenção de ganhos reais de cerca de 30% nos salários da categoria.

No mês seguinte, Meneguelli e mais seis sindicalistas da região do ABC foram acusados pela Ford do Brasil de ter incitado a danificação de 122 veículos na linha de montagem da empresa, em São Bernardo. As lideranças se eximiram de qualquer responsabilidade. Segundo a defesa apresentada, os danos teriam ocorrido porque os trabalhadores, diante do afastamento sumário da comissão de fábrica pela Ford, teriam resolvido, por iniciativa própria, “deixar de colaborar” com o aumento de produtividade e com os níveis de qualidade exigidos por suas chefias.

Em 12 de dezembro de 1986 foi realizada a primeira greve geral organizada em conjunto pela CUT e pela CGT em protesto contra as medidas de correção do Plano Cruzado decretadas logo após as eleições de novembro, que implicaram o reajuste geral dos preços. Aderiram à paralisação cerca de 1/3 dos trabalhadores do país e, segundo Meneguelli, a greve atingiu seu objetivo ao provocar o debate sobre o pacote.

Ainda em dezembro, Meneguelli reiterou a disposição da CUT de negociar com o governo. Após entendimentos com dirigentes da CGT, da União Sindical Independente (USI) e de nove confederações nacionais de trabalhadores, anunciou que as diferentes entidades pretendiam estabelecer uma pauta de discussão para a viabilização do entendimento nacional, que incluiria o pagamento da dívida externa — considerada “questão central do país no momento” —, a reforma agrária, a liberdade e a autonomia sindical, o direito de greve, a redução da jornada de trabalho, o salário mínimo real e o estabelecimento de um indexador para reajuste de salários e do capital. Reivindicava-se, também, o arquivamento de quase 40 processos abertos contra sindicalistas de todo o país em decorrência da greve geral, e a revogação das medidas econômicas editadas pelo governo.

Em 1º de fevereiro de 1987 foi instalada a Assembleia Nacional Constituinte. Em abril, após ter participado de encontro de Sarney com líderes do movimento sindical, Meneguelli manifestou seu descrédito em relação à transição democrática conduzida pelo presidente, cobrando do governo respostas mais concretas para as reivindicações dos trabalhadores e reiterando que o entendimento deveria pressupor o atendimento das reivindicações e não uma “troca”, pois os trabalhadores não tinham mais nada a ceder. Na pauta apresentada pela CUT, incluía-se a aprovação da Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que previa a liberdade de organização sindical, não mais sob a tutela do Estado. Meneguelli defendeu, na mesma ocasião, o mandato de quatro anos para Sarney e a convocação imediata de eleições diretas para a presidência da República. Em julho seguinte, o governo ameaçou aplicar a Lei de Segurança Nacional contra Meneguelli e outros dirigentes da CUT, por ofensas contra o presidente da República enunciadas em comício realizado na praça da Sé, em São Paulo.

Naquele mês, Meneguelli deixou a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, tendo sido substituído no cargo por Vicente Paulo da Silva, conhecido como Vicentinho. Passou então a se dedicar apenas à direção da CUT e à sua participação na executiva nacional do PT.

Ainda em julho, o ministro da Fazenda Dílson Funaro foi substituído na pasta por Luís Carlos Bresser-Pereira, que logo depois promoveu novo congelamento de preços e salários, no conjunto de medidas que ficou conhecido como Plano Bresser. A adoção das medidas determinou nova onda de protestos por parte do presidente da CUT, que considerou o plano recessivo diante dos cortes propostos nos investimentos das empresas estatais, e combateu o reajuste dos preços embutido no pacote. Os protestos culminaram na convocação de nova greve geral, organizada pela CUT e pela CGT, realizada em 20 de agosto seguinte, e que assumiu então caráter essencialmente político, pela insistência na necessidade da realização de eleições diretas imediatas para a presidência da República, e pelas propostas visando à mudança da estrutura do país. A greve geral contou com adesão menor do que o movimento de dezembro do ano anterior, o que levou a uma autocrítica por parte de Meneguelli e de Joaquim Andrade dos Santos, presidente da CGT, que reconheceram os erros cometidos na deflagração do movimento.

Em setembro, realizou-se na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Brasília, encontro do presidente nacional do PT, Luís Inácio Lula da Silva, de Jair Meneguelli e lideranças do movimento sindical com o senador Albano Franco, do PMDB de Sergipe, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), sobre a proposta de estabilidade no emprego, que seria em seguida discutida pela Constituinte. A reunião, como as iniciativas de entendimento anteriores, não teve resultados objetivos, já que não se conseguiu consenso sobre as principais reivindicações dos trabalhadores, que incluíam ainda a recomposição das perdas salariais e a redução da jornada de trabalho.

Ao final de 1987, setores do movimento sindical avaliaram negativamente a atuação de Meneguelli na direção da CUT, apontando para um possível esvaziamento da liderança exercida pelo sindicalista, em face de atitudes que, mesmo com negociações salariais, teriam caminhado para uma radicalização que não havia proporcionado resultados positivos. Posteriormente, em resposta às críticas enunciadas, o próprio sindicalista apontaria as dificuldades vividas pela CUT para promover articulações num país de dimensões continentais, lembrando que nem sempre se criavam condições para fazer um plebiscito ou convocar uma plenária, em nível estadual ou nacional, quando existia a necessidade de rapidez na avaliação de alguma proposta. Ainda nesse ano, participou da Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres, realizada na Austrália.

No início de 1988, diante da proximidade da votação da proposta de estabilidade no emprego pela Constituinte, Meneguelli conclamou entidades civis e democráticas do país para a realização de trabalho conjunto de preservação das garantias do trabalhador. Com esse objetivo, participou de reuniões com lideranças da CGT, da OAB, da Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), da USI e de diversos sindicatos, para estabelecer estratégias que impedissem a prevalência dos interesses dos empresários no novo texto constitucional. Em fevereiro, fez duras críticas ao acordo feito na Constituinte sobre a estabilidade no emprego, classificando o texto aprovado como “um inferno”, por ter estabelecido a proteção apenas dos trabalhadores com carteira assinada, considerando ainda que as propostas aprovadas de indenização por demissão revelavam manobras para encobrir a derrubada do princípio de garantia no emprego. Na mesma ocasião, promoveu na CUT a impressão de cartazes com fotos e nomes dos constituintes que haviam votado contra os interesses dos trabalhadores, denunciando “os traidores da classe trabalhadora”.

O episódio dos cartazes, bem como as manifestações comandadas por Meneguelli durante as seções da Constituinte provocaram forte reação por parte de lideranças do PDS, como o senador Jarbas Passarinho e o deputado Amaral Neto, e do Partido da Frente Liberal (PFL), como o deputado José Lourenço, que exigiram que se sustasse a entrega da Comenda da Ordem do Congresso Nacional ao líder sindical. A homenagem havia sido determinada no ano anterior, e a entrega das medalhas estava prevista para março, mas o impasse foi solucionado com a ausência do próprio Meneguelli, que não enviou representantes à cerimônia.

Em abril de 1988, lamentou o pequeno avanço dos trabalhadores na Constituinte, por não ter conseguido estabelecer a garantia de emprego e a liberdade de organização sindical, embora reconhecesse como conquistas a redução da jornada de trabalho para 44 horas semanais, a licença de 120 dias e o direito de sindicalização do funcionalismo público.

Em julho, manifestou-se disposto a debater propostas de política econômica para a elaboração de um plano comum de combate à inflação com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), Mário Amato. Cobrou na ocasião a concessão de reajustes salariais e, seguindo o exemplo do mecanismo adotado em países mais industrializados, propôs a instituição do contrato coletivo de trabalho.

Em novembro de 1988, foi reeleito presidente da CUT pela terceira vez, durante o III Concut, realizado em Belo Horizonte. Também nesse ano, participou do Congresso Mundial de Metalurgia, que reuniu em Moscou dirigentes sindicais.

Em janeiro de 1989, com o objetivo de impedir que se confirmasse a tendência à hiperinflação, o ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega apresentou novo conjunto de reformas administrativas e econômicas, que teria vigência temporária de 45 dias, conhecido como Plano Verão. Foi decretada nova reforma monetária, com a instituição do cruzado novo e o congelamento de salários e preços, o terceiro desde o início do governo Sarney. O Plano Verão causou desde o início perplexidade no meio sindical, dadas as perdas salariais decorrentes das medidas, que, segundo o Dieese, somente em janeiro atingiriam 45%. Meneguelli dispôs-se na ocasião a participar dos entendimentos com vistas à definição de uma política salarial e chegou a se encontrar com os ministros Maílson da Nóbrega, e Dorotéia Werneck, do Trabalho, mais uma vez sem obter resultados positivos.

A evidência do arrocho salarial embutido no Plano Verão levou à convocação, pela CUT e pela CGT, de nova greve geral, realizada nos dias 14 e 15 de março. Diferentemente das iniciativas anteriores, a mobilização contou com o apoio de diversas autoridades, incluindo o secretário-geral da CNBB, bispo Antônio Celso de Queirós, que divulgou nota de apoio à paralisação. A greve geral de 1989 contou também com adesão bem mais significativa, tendo ficado praticamente paralisadas as cidades do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Vitória e Recife, além de ter havido paralisações em dezenas de cidades de médio porte. Considerada a maior mobilização do movimento sindical brasileiro até então realizada, conseguiu obter do governo o reconhecimento da necessidade de abrir negociações com empresários e trabalhadores, e a proposta de fixar a reposição das perdas entre 5% e 8%, ainda que os sindicatos apontassem índices entre 41,3% e 49,9%. Uma das mais representativas entidades patronais do país, a FIESP, anunciou ainda em março a disposição de pagar em torno de 10% de reposição aos trabalhadores.

Em maio seguinte, enquanto ocorriam diversas paralisações em todo o país, incluindo as de funcionários do Banco do Brasil, do Banco Central e da Caixa Econômica Federal, dos metroviários do Rio de Janeiro, entre outras, o governo Sarney baixou a Medida Provisória nº 50, que regulamentou a realização de greves e dispôs sobre as paralisações nos chamados serviços essenciais. Do conjunto de medidas, Meneguelli contestou sobretudo a intermediação do governo, pelos Tribunais do Trabalho, no julgamento das greves, e a exigência de quorum para a realização das assembleias nas quais tais movimentos fossem decididos, que, conforme declarou, não seria cumprida.

Nas eleições de novembro/dezembro de 1989, Meneguelli participou ativamente da campanha de Lula, candidato da Frente Brasil Popular à presidência da República. Às vésperas da realização do segundo turno, entre Lula e o candidato do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), Fernando Collor de Melo, declarou que, num eventual governo Lula, as greves tenderiam a diminuir, “porque pela primeira vez haveria um canal direto de negociação entre governo e trabalhador”. Contudo, Lula foi derrotado no segundo turno.

 

A CUT nos governos Collor e Itamar

Em março de 1990, quando Fernando Collor foi empossado na presidência da República, o índice de inflação havia superado 80% ao mês, acumulando, em cinco anos, taxa superior a 1.000.000%. No dia seguinte ao da posse, 16 de março, feriado bancário, o governo anunciou seu Plano de Estabilização Econômica, que ficou conhecido como Plano Collor, composto de várias medidas, entre elas o bloqueio dos saldos em conta corrente e cadernetas de popança que excedessem 50 mil cruzeiros; o congelamento de preços e salários; a extinção de empresas estatais, com a demissão dos respectivos funcionários não protegidos pelas regras da estabilidade; a redução da presença do Estado na economia, por meio da privatização de empresas estatais, e a abertura econômica para o exterior, com a redução progressiva das alíquotas de importação. Tais medidas significariam a implementação do ideário neoliberal no país. Em reunião com a ministra da Economia, Zélia Cardoso de Melo, Meneguelli reivindicou a estabilidade no emprego e a reposição das perdas salariais provocadas pelo Plano Collor (confisco da inflação de março, calculada em 84,32%, e não repassada aos salários).

Além de não conseguir reverter o processo inflacionário, a política econômica do governo provocou efeitos recessivos, levando as empresas, por falta de crédito e queda nas vendas, a demitir empregados, reduzir jornadas de trabalho e salários. A CUT liderou algumas greves, principalmente no setor metalúrgico, reivindicando aumento salarial, e, no caso dos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a interrupção do plano de privatização da estatal.

Em setembro de 1990, Meneguelli encontrou-se com o presidente Collor para apresentar os 13 pontos que compunham a pauta de reivindicações da CUT, entre os quais destacavam-se dois: a formulação de uma política que contemplasse a reposição de perdas salariais anteriores ao Plano Collor e a não privatização de empresas estatais. A decisão de comparecer à audiência com Collor refletiu a vitória de Meneguelli, membro da corrente interna de perfil moderado Articulação Sindical, sobre as correntes mais radicais da CUT.

No mês seguinte, a CUT decidiu participar do entendimento nacional proposto pelo governo. Na ocasião, Meneguelli rejeitou as críticas do PT, argumentando que “a CUT não devia satisfações ao partido”. Mesmo internamente, essa decisão provocou severas críticas de setores mais à esquerda, como a Convergência Socialista, que viu nela “uma capitulação ao governo e uma traição ao trabalhador”. Contudo, a participação da CUT só durou dois meses, em virtude do não atendimento de algumas reivindicações, como a reposição das perdas salariais e a recontratação de funcionários de estatais demitidos. Em janeiro de 1991, Meneguelli admitiu que a participação no entendimento nacional fora um erro, porque a mobilização tinha sido esquecida. Na ocasião, declarou também que se estivesse na situação de desempregado assaltaria para ter o que comer. Para ele, a demissão em massa, provocada pela recessão, levava o desempregado ao desespero.

A escalada inflacionária provocou a decretação, no dia 31 de janeiro de 1991, do Plano Collor II. No dia seguinte, novo feriado bancário, foram adotadas várias medidas, destacando-se a elevação da taxa de juros e novo congelamento de preços e salários. Às vésperas de seu primeiro ano (março de 1991), o governo Collor estava longe de ter alcançado suas metas principais, anunciadas com o Plano Brasil Novo: a inflação acumulada em março ultrapassava 400%, a taxa de desemprego era da ordem de 5,23%, o Produto Interno Bruto (PIB) apresentara redução inédita de 4,6% no ano anterior e a renda per capita regredira a níveis registrados em 1979. Essa situação provocou a reação da CUT, que convocou greve geral em maio seguinte. A greve, contudo, não alcançou seus objetivos, tendo mobilizado pequena parcela de trabalhadores em todo o país.

Em setembro de 1991, durante o IV Concut, realizado em São Paulo, Meneguelli foi reeleito pela quarta vez consecutiva presidente da CUT. Esse congresso foi marcado por intensas disputas entre as correntes internas, que chegaram ao ponto do confronto físico entre alguns militantes. Meneguelli conseguiu vencer a disputa pela presidência por estreita margem de votos: foram 786 votos para a chapa 1 contra 721 para a chapa 2, que unificou a oposição à Articulação Sindical.

Em 1992, a CUT passou a integrar o Movimento pela Ética na Política, criado por várias entidades da sociedade civil diante das denúncias de corrupção contra o presidente Fernando Collor de Melo e o ex-tesoureiro de sua campanha eleitoral, Paulo César Farias. O movimento passou a dar sustentação social à comissão parlamentar de inquérito (CPI) instalada na Câmara para apurar tais acusações. Em 29 de setembro, dia marcado para a votação da licença para a abertura do processo de impeachment de Collor na Câmara dos Deputados, Meneguelli propôs a decretação de greve geral caso a licença fosse negada, o que não ocorreu. Afastado da presidência logo após a votação na Câmara, Collor renunciou ao mandato em 29 de dezembro de 1992, pouco antes da conclusão do processo pelo Senado, sendo efetivado na presidência da República o vice Itamar Franco, que já exercia o cargo interinamente desde o dia 2 de outubro.

Em novembro de 1992, Meneguelli foi desafiado pelo candidato do PDS à prefeitura de São Paulo, Paulo Maluf, a abrir as contas da CUT. Aceitou a quebra do sigilo bancário dos dirigentes da central, mas em troca da abertura das contas pessoais de Maluf e de suas empresas Eucatex e Lumaver. A contrapartida acabou não sendo aceita pelo candidato paulista.

Em agosto de 1993, Maluf acusou a CUT de desviar recursos para o PT, financiando campanhas eleitorais. Em novembro seguinte, o senador Esperidião Amin, do Partido Progressista Reformador (PPR) de Santa Catarina, requereu a abertura de CPI para investigar o relacionamento da CUT com o PT. Na ocasião, Meneguelli reagiu asperamente e, embora estivesse disposto a autorizar a quebra do sigilo bancário da CUT, declarou que havia interesses políticos em prolongar a investigação até perto das eleições presidenciais de outubro de 1994, com o objetivo de prejudicar a candidatura de Lula — o requerimento de Amin previa prazo de 180 dias de investigação após a instalação da CPI. Contudo, a comissão acabou não sendo instalada.

Em dezembro de 1993 Meneguelli assumiu uma vaga no conselho curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) destinada aos representantes dos trabalhadores.

No início de 1994, último ano do governo Itamar, começou a ser implementado o Plano Real, programa de estabilização da economia que foi posto em prática de forma gradativa. Anunciado em 28 de fevereiro de 1994 pelo ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, seu principal mentor, o plano consistiu, inicialmente, na introdução da Unidade Referencial de Valor (URV) como padrão de transição dos preços para a nova moeda, o real, que passaria a vigorar em 1º de julho seguinte, em substituição ao cruzeiro real.

A CUT reagiu contra o plano econômico, alegando que ele embutia perdas salariais e servia apenas como estratégia de campanha do candidato à presidência da República Fernando Henrique Cardoso. Meneguelli negou, contudo, que a CUT planejava “um festival de greves” contra o plano, objetivando beneficiar a candidatura de Lula. Afirmou que “há greves porque o plano econômico não preserva os salários da inflação”.

Meneguelli permaneceu na presidência da CUT até maio de 1994, quando, no V Concut, foi eleito seu sucessor o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Vicentinho, também da corrente Articulação Sindical. Dias antes do congresso, Meneguelli participou de sua última atividade internacional como presidente da CUT, representando a entidade no congresso da Central Sindical da África do Sul.

Na Câmara dos Deputados

 Deixando a CUT, Meneguelli iniciou campanha para a Câmara dos Deputados no pleito de outubro seguinte. Eleito com votos provenientes em sua grande maioria do município de São Caetano e da região da Grande São Paulo, foi empossado em fevereiro de 1995 e indicado membro titular da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público e vice-líder do PT.

Nas votações das emendas constitucionais propostas pelo governo Fernando Henrique Cardoso em 1995, fiel à orientação partidária, votou contra a quebra do monopólio das embarcações nacionais na navegação de cabotagem, a mudança no conceito de empresa nacional (apenas no primeiro turno, pois faltou à votação em segundo turno), a quebra do monopólio estatal das telecomunicações, a quebra do monopólio da Petrobras na exploração do petróleo, a prorrogação do Fundo Social de Emergência (FSE), rebatizado de Fundo de Estabilização Fiscal (FEF), que permitia que o governo gastasse 20% da arrecadação de impostos sem que essas verbas ficassem obrigatoriamente vinculadas aos setores de saúde e educação, e realizou obstrução na votação da quebra do monopólio dos estados na distribuição de gás canalizado.

Em fevereiro de 1996, durante as discussões sobre a reforma da Previdência, que envolveram o governo e as centrais sindicais, discordou de alguns pontos incluídos nas negociações realizadas pelo presidente da CUT, Vicentinho, tais como o fim da aposentadoria por tempo de serviço e da estabilidade dos servidores públicos. Em junho seguinte, votou a favor da criação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), que substituiu o Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF), imposto de 0,2% sobre transações bancárias criado como fonte complementar de recursos para a saúde. Em novembro, diante das críticas da imprensa às aposentadorias de anistiados políticos, consideradas “privilégios”, defendeu a manutenção do benefício, alegando que os 1.600 reais que lhe eram pagos desde 1995, por ter sido impedido de receber salário quando presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo em 1981, eram justos “para quem sofreu o que sofremos”. Em janeiro/fevereiro de 1997, votou contra a emenda da reeleição para presidente da República, governadores e prefeitos e em novembro seguinte pronunciou-se contrário à quebra da estabilidade do servidor público, item da reforma administrativa.

No pleito de outubro de 1998 foi reeleito, e novembro votou contra o teto de 1.200 reais para aposentadorias no setor público e o estabelecimento de idade mínima e tempo de contribuição no setor privado, itens que definiram a reforma da Previdência. Em seu segundo mandato, iniciado em fevereiro de 1999, deu continuidade ao trabalho realizado na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público. Foi também membro titular da comissão especial que analisou o Projeto de Lei n. 3.846/2000, elaborado pelo Executivo, relativo à ordenação da aviação civil e à criação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Na eleição de 2000 candidatou-se a prefeito de São Caetano do Sul, mas perdeu no primeiro turno para o candidato Luís Olinto Tortorello, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Representou a Câmara dos Deputados nas reuniões da Conferência Internacional do Trabalho realizadas em 2001 e 2002 em Genebra, na Suíça.

Em 2002 candidatou-se mais uma vez a deputado federal por São Paulo, mas não foi eleito. Deixou a Câmara dos Deputados ao final da legislatura, em janeiro de 2003, mesmo mês em que teve início o primeiro governo Lula. Em seguida foi nomeado pelo presidente Lula presidente do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi) e coordenador geral do Fórum Nacional do Sistema “S”, que integra Sesi, Senai, Sesc, Senac, Sest, Senat, Senar, Sescoop e Sebrae. Assumiu o cargo com a missão de promover a aproximação dos empresários com o governo federal para a elaboração e execução de políticas públicas. Ainda em 2003 celebrou convênio com o Ministério da Educação que resultou em um programa de alfabetização para os trabalhadores realizado pelo Sesi.

Em março de 2006 comunicou a decisão da presidência da República de abrir a administração das entidades integrantes do Sistema “S” à participação de representantes dos trabalhadores. Até então, os conselhos dessas entidades contavam somente com a participação de representantes de empresários e do governo. Em sua gestão o Conselho Nacional do Sesi também desenvolveu, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o Programa Cozinha Brasil – Alimentação Inteligente, que buscou, por meio de um processo educativo permanente, mudar o comportamento da população no tocante a hábitos alimentares e propiciar o aproveitamento integral dos alimentos. Outra iniciativa de sua gestão foi o projeto de formação profissional ViraVida, em parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, destinado a enfrentar a exploração sexual de jovens e adolescentes a partir de ações educativas destinadas a promover a elevação da auto-estima e da escolaridade dos participantes.

Casou-se com Edna Maria Godói Meneguelli, com quem teve três filhas.

 

Maria Letícia Correia/Marcelo Costa

 

FONTES: CÂM. DEP. Deputados brasileiros. Repertório (1995-1999); Estado de S. Paulo (24/6 e 15/7/83, 9/2 e 23/10/86, 21/5 e 2/8/87, 14/1 e 18/3/88, 18/4, 6/6 e 31/10/90, 29/9/92, 19/12/93, 28/11/97); Folha de S. Paulo (25/10, 8 e 18/12/86, 15/7, 18/9 e 12/12/87, 24/2/88, 24/8/89, 20/6 e 4/10/90, 11 e 21/1, 23/5 e 9/9/91, 24/9/92, 19/11/93, 16 e 19/5/94, 27/11/96, 6/11/98); Globo (17/7/87, 18/3/88, 22/1/89, 21/3, 20/6, 28/7 e 7/8/90, 9/9/91, 29/1/97, 10/10/98); INF. BIOG.; Jornal do Brasil (3 e 30/6/83, 14 e 21/12/86, 17/9/87, 21 e 24/7/88, 14/5 e 12/12/89, 25/7 e 17/9/90, 9/9/91, 11/11/92, 21/12/93, 12 e 13/5/94, 1/2/96); Olho no Congresso/Folha de S. Paulo (31/1/95, 14/1/96, 29/9/98); RODRIGUES, L. CUT; Senhor (14/4/87); Veja (17 e 24/4, 15/5 e 9/10/85, 15/2, 5 e 12/3, 9/4, 7/5, 23/7 e 18/9/86, 18 e 25/1, 15 e 22/3 e 10/5/89, 2/9/92); Site da Câmara dos Deputados <www.camara.gov.br>, acesso em 16/11/2009; Site do Conselho Nacional do Sesi <www.conselhonacionaldosesi.org.br>, acesso em 17/11/2009; Folha de S. Paulo, 3/9/2000, 17/5/2002, 29/8/2003 e 17/3/2006. Disponível em <www.folha.com.br>, acesso em 17/11/2009; Veja, 11/10/2000. Disponível em <http://veja.abril.com.br/acervodigital/>, acesso 17/11/2009.

 

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