JOÃO AUGUSTO DE ARAUJO CASTRO

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Nome: CASTRO, Araújo 2
Nome Completo: JOÃO AUGUSTO DE ARAUJO CASTRO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

CASTRO, Araújo

* diplomata; min. Rel. Ext. 1963-1964; emb. Bras. ONU 1968-1971; emb. Bras. EUA 1971-1975.

 

João Augusto de Araújo Castro nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 27 de agosto de 1919, filho de Rai­mundo de Araújo Castro e de Carmem Viveiros de Castro.

De família maranhense, ainda na infância acompanhou os pais que voltaram a residir em São Luís, aí permanecendo até concluir o secundário. De regresso ao Rio de Janeiro, fez um curso de especialização em língua inglesa, terrninando-o em 1940.

Em agosto desse ano ingressou na carreira diplomática como cônsul de terceira classe e, no ano seguinte, bacharelou-se pela Faculda­de de Direito de Niterói. Em setembro de 1942 serviu na comissão brasileira junto à Missão Cooke, grupo de técnicos enviado pelo governo norte-americano ao Brasil. Ci­ceroneou também o cineasta norte-americano Orson Welles, cuja visita ao Brasil fazia parte dos esforços desenvolvidos pelo governo de Washington em função da.  Segunda Guerra Mundial, então em curso, visando um forta­lecimento de seus laços de amizade com a América Latina, numa ofensiva diplomática conhecida como "política da boa vizinhança".

Em maio de 1943 foi removido para o consulado brasileiro em San Juan, Porto Rico, lá exercendo a função de encarregado consular.  Foi enviado a Miami, nos EUA, em maio de 1944, e a Nova Iorque, em outubro desse ano.  Promovido a cônsul de segunda classe em dezembro de 1945, ascendeu, ain­da em Nova Iorque, a cônsul-adjunto em maio do ano seguinte.  No exercício dessa função, integrou, corno encarregado de ques­tões jurídicas, a delegação do Brasil à confe­rência durante a qual foi criada a Organiza­ção Mundial de Saúde (OMS), realizada em Nova Iorque em junho de 1946.

De volta ao Brasil, passou a atuar como auxiliar do chefe do Departamento de Admi­nistração do Itamarati em abril de 1948, sendo nomeado em setembro do ano seguinte se­cretário da delegação brasileira à IV Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque.  A partir de dezem­bro desse mesmo ano, serviu como auxiliar do então secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Hildebrando Acióli, voltando a Nova Iorque em setembro de 1950 para assessorar a delegação brasileira durante a Sessão da V Assembéia Geral da ONU.

Promovido a segundo-secretário da missão permanente do Brasil na ONU em fevereiro de 1951, participou no mês seguinte da IV Reunião de Consulta dos Ministros das Rela­ções Exteriores das Repúblicas Americanas, realizada em Washington, na qualidade de se­cretário da delegação brasileira, chefiada pelo chanceler João Neves da Fontoura.  O objeti­vo central dessa reunião era a conquista do apoio dos países latino-americanos - incluin­do o envio de tropas - à posição dos EUA na guerra da Coréia. Ainda na ONU, partici­pou das VI e VII sessões da Assembléia Ge­ral, realizadas, respectivamente, em Paris (no­vembro a dezembro de 1951) e em Nova Iorque (outubro a dezembro de 1952).

Promovido a primeiro-secretário em mar­ço de 1953, deixou Nova Iorque, transferin­do-se para a embaixada do Brasil em Roma em junho seguinte. Já nesse posto, atuou em novembro como delegado brasileiro à VII Sessão da Conferência Anual da Food and Agriculture Organization (FAO), realizada na capital italiana. Participou também das dele­gações brasileiras aos III, IV e V congressos da Paz e da Civilização Cristã, reunidos em Florença, na Itália, entre 1954 e 1956.  De volta ao Brasil em janeiro de 1957, tornou a assessorar o secretário-geral do Itamarati, in­tegrando a comitiva do chanceler José Carlos de Macedo Soares em visita ao Peru no mês de novembro.  Em dezembro seguinte foi promovido a conselheiro.

Ministro de segunda classe em junho de 1958,  Araújo Castro assumiu no mês seguin­te a chefia do Departamento Político e Cul­tural do Itamarati, participando da formula­ção da Operação Pan-Americana, programa multilateral para o desenvolvimento econômico da América Latina idealizado pelo poe­ta e empresário Augusto Frederico Schmidt e proposto pelo presidente Juscelino Kubits­chek ao governo norte-americano.  Na oca­sião, acompanhou as negociações realizadas durante a visita do secretário de Estado dos EUA, John Foster Dulles, ao Brasil.  Em se­tembro de 1958 foi designado delegado-su­plente à XIII Sessão da Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque.

Removido para Tóquio em abril de 1959, passou a exercer as funções de ministro-con­selheiro da embaixada do Brasil no Japão. Atuou como delegado brasileiro à XV Sessão das Partes Contratantes do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), realizada na capital japonesa entre outubro e dezem­bro desse mesmo ano e, na qualidade de ob­servador, participou também da Reunião dos Países Neutralistas, promovida no Cairo, Egi­to, em junho de 1961.  Em agosto desse ano integrou a comitiva do então vice-presidente João Goulart em missão especial a Moscou e ao Extremo Oriente, viagem essa interrompi­da em Pequim, na China, pela renúncia do presidente Jânio Quadros (25/8/1961), que levou Goulart a retornar ao Brasil para as­sumir o governo.  Apesar do impasse criado pelo veto inicial dos ministros militares - ­marechal Odílio Denis, da Guerra, almirante Sílvio Heck, da Marinha, e brigadeiro Gabriel Grün Moss, da Aeronáutica -, à posse de Goulart, esta foi afinal assegurada em 7 de setembro de 1961, graças à adoção pelo Congresso, cinco dias antes, da Emenda Constitucional nº.4, que introduziu no país o regime parlamentarista.

Ainda em setembro de 1961, Araújo Cas­tro desempenhou a função de subchefe da missão especial brasileira em visita às colônias britânicas de Hong-Kong e Cingapura.  Deixou em seguida o Japão e, já a partir de outubro, passou a atuar como secretário-ad­junto para Assuntos Internacionais do Itama­rati.  No exercício dessa função, integrou a delegação do Brasil à Reunião do Comitê de Desarmamento da ONU, realizada em Gene­bra, na Suíça, em março de 1962, e, promovido a ministro de primeira classe em junho, passou a chefiar aquela delegação no mês seguinte.  Em setembro foi delegado do Brasil à XVII Sessão da Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque e, ainda em 1962, integrou a Comissão de Planejamento Político do Ita­marati, em Brasília.  Em 12 de julho de 1963 foi nomeado secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores.

 

Ministro das Relações Exteriores

 

Em 26 de julho de 1963, rompendo com a tradição que excluía os diplomatas de car­reira do primeiro escalão do Itamarati, Araú­jo Castro foi nomeado ministro interino das Relações Exteriores do governo Goulart, car­go que assumiu efetivamente no dia 21 do mês seguinte em substituição a Evandro Lins e Silva.

À frente de uma comitiva especial, repre­sentou o Brasil na solenidade da posse do presidente argentino, Arturo Illia, em outu­bro de 1963.  Em novembro, chefiou a dele­gação do Brasil à XVIII Sessão da Assem­bléia Geral da ONU, em Nova Iorque, defen­dendo na oportunidade sua política dos "Três D" - Desenvolvimento, Desarmamen­to e Descolonização - e, ainda em 1963, passou a presidir o grupo de coordenação do comércio com os países da Europa Oriental (Coleste).

Segundo Muniz Bandeira, em 1964 Araú­jo Castro teria agido à revelia de Goulart atendendo a uma solicitação do então chefe do Estado-Maior do Exército, general Hum­berto Castelo Branco, no sentido de incenti­var a renovação do Acordo Militar Brasil-Es­tados Unidos sob a forma de um ajuste deta­lhado que previa a assistência norte-america­na em caso de "ameaça ou atos de agressão, ou quaisquer outros perigos à paz e à segurança", conforme compromissos previstos na Carta da Organização dos Estados America­nos (OEA) e no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR).  De acordo com o mesmo autor, esse reforço da assistên­cia militar norte-americana visava fornecer aos EUA uma base instrumental para legiti­mar uma intervenção armada no Brasil caso o presidente Goulart e seus correligionários viessem a tentar um golpe de inspiração es­querdista.  Tais entendimentos ter-se-iam afi­nal concretizado mediante troca de notas en­tre Araújo Castro e o encarregado de Negó­cios dos EUA no Brasil, John Gordon Mein, no dia 30 de janeiro de 1964.  Ainda nesse ano, o chanceler passou a presidir a Comis­são de Coordenação da Política Econômica Externa, tendo chefiado a delegação brasilei­ra à I Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (I UNCRAD), realizada em Genebra, na Suíça.

Como chanceler, Araújo Castro fazia questão de salientar o caráter profissional de sua função, evitando sempre qualquer parti­cipação na política interna do governo.  Fiel a essa posição, foi o único ministro de Es­tado ausente do comício em favor das refor­mas de base, realizado no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964 sob o comando do presidente Goulart em uma de suas últimas aparições como chefe do governo.  Dos minis­tros do regime deposto pelo movimento po­lítico-militar de março de 1964, foi o único em cujo ato de demissão estava claro que seu afastamento ocorria a seu próprio pedi­do. Apesar de sua desvinculação político-ideológica com o governo de Goulart, Araújo Castro passou a experimentar certo ostracis­mo na carreira diplomática a partir de abril desse mesmo ano.

 

Embaixador

 

Afastado da chancelaria, Araújo Castro serviu como embaixador do Brasil em Ate­nas, na Grécia, de agosto de 1964 a dezem­bro de 1966 e em Lima, no Peru, entre ja­neiro de 1967 e junho do ano seguinte.  A partir de 1968 experimentou uma nova fase de ascensão em sua carreira, sendo nomeado embaixador do Brasil na ONU, cujo Conse­lho de Segurança veio a presidir no ano se­guinte.  Ainda em 1969 chefiou as delegações do Brasil à VII Sessão do Conselho de Admi­nistração do Programa das Nações Unidas pa­ra o Desenvolvimento (PNUD) e à reunião da Convenção Internacional para a Elimina­ção do Racismo, ambas realizadas em Nova Iorque.  No ano seguinte participou do semi­nário promovido pelo Instituto das Nações Unidas para o Treinamento e a Pesquisa (UNITAR), em Toronto, no Canadá, e che­fiou delegações brasileiras a mais dois even­tos patrocinados pela ONU: a XLIX Sessão do Conselho Econômico e Social (Ecosoc), em Genebra, na Suíça, e a VI Sessão do Co­mitê Preparatório para a Segunda Década do Desenvolvimento, em Nova Iorque.

Já então reputado como um dos maiores nomes da diplomacia nacional, Araújo Castro deixou a ONU para assumir o posto de em­baixador do Brasil nos EUA em 5 de maio de 1971, integrando nesse ano a comitiva do presidente Emilio Garrastazu Médici por oca­sião de sua visita àquele país.  Em Washing­ton destacou-se na busca de alternativas para contornar as restrições impostas pelo Con­gresso dos EUA às importações de produtos brasileiros - sobretudo o café -, além de defender o reconhecimento do mar territo­rial de duzentas milhas.  Ao mesmo tempo, manteve contatos com parlamentares norte-­americanos visando recuperar a imagem do governo brasileiro dos desgastes sofridos com as denúncias de violências contra presos polí­ticos.

Respeitado por seu brilhantismo intelec­tual, Araújo Castro gozou de prestígio nos meios diplomáticos e acadêmicos norte-americanos, mantendo uma amizade de muitos anos com Henry Kissinger, professor em Har­vard e secretário de Estado durante os gover­nos de Richard Nixon e de Gerald Ford.  Em 1972, por ocasião da visita de uma turma de diplomados da Escola Superior de Guerra aos EUA, pronunciou na sede da embaixada em Washington uma conferência sobre "0 congelamento do poder mundial", na qual criticava a oligarquização do sistema interna­cional imposta pelos EUA e a União Soviéti­ca, definindo-a como um obstáculo aos inte­resses dos países em desenvolvimento.  No início de 1974, pouco antes da posse do pre­sidente Ernesto Geisel, teve seu nome insis­tentemente lembrado para ocupar a pasta das Relações Exteriores do novo governo.

Segundo a revista Veja, Araújo Castro tornou-se conhecido por sua presença de es­pírito e senso de humor, sendo considerado o principal artífice do estilo ao mesmo tem­po simples e eficiente que influenciava a nova geração de diplomatas brasileiros.  Assim ­concluía a revista -, seu exemplo foi decisivo para a formação de um novo tipo de mentalidade profissional, dotada de espírito crítico e mais interessada nos problemas da política internacional do que nos formalis­mos protocolares.

Faleceu no exercício de suas funções como embaixador em Washington, no dia 9 de dezembro de 1975.

Era casado com Míriam Sain-Brisson de Araújo Castro, com quem teve duas filhas e um filho, o também diplomata Luís Augusto de Araújo Castro.

Publicou vários artigos sobre temas filosó­ficos, literários e, sobretudo, diplomáticos.  Seus principais escritos e pronunciamentos foram reunidos pela Universidade de Brasília no volume Araújo Castro (1982).

 

 

FONTES: BANDEIRA, L. Governo; CON­SULT.  MAGALHÃES, B.; Encic.  Mirador; PESQ.  M. AMORIM; Globo (1O/12/75); Jornal do Brasil (1O/12/75); MIN.  REL. EXT.  Anuário; Veja (17/12/75); Who's who in Brazil.

 

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