JOAO PAULO MOREIRA BURNIER

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Nome: BURNIER, João Paulo
Nome Completo: JOAO PAULO MOREIRA BURNIER

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
BURNIER, JOÃO PAULO

BURNIER, João Paulo

*militar; rev. Aragarças 1959; comte. III ZA 1970-1971.

 

 João Paulo Moreira Burnier nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 18 de outubro de 1919, filho de Otávio Penido Burnier e de Margarida Moreira Penido Burnier.

Sentou praça em abril de 1939, ingressando na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Em janeiro de 1941, com a criação do Ministério da Aeronáutica e da Força Aérea Brasileira (FAB), transferiu-se para a Escola de Cadetes da Aeronáutica, no Campo dos Afonsos, pela qual saiu aspirante-aviador em setembro de 1942. Promovido a segundo-tenente em maio de 1943, passou sucessivamente a primeiro-tenente em novembro de 1944 e a capitão-aviador em maio de 1946. Em outubro de 1950 foi promovido a major-aviador e em janeiro de 1957 a tenente-coronel-aviador.

Contrário ao governo do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), chefiou a Revolta de Aragarças, rebelião militar iniciada em 2 de dezembro de 1959 e que consistiu na ocupação, por cerca de 24 horas, da localidade de Aragarças, em Goiás. Segundo seus promotores, o levante foi motivado pela desistência de Jânio Quadros, candidato oposicionista à presidência da República, de concorrer às eleições de outubro de 1960, e pelos rumores de que o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, planejava desencadear uma sublevação de esquerda. A revolta, que foi facilmente controlada por forças fiéis ao governo, durou apenas 36 horas. Na madrugada de 4 de dezembro, informados de que o governo enviara pára-quedistas para Aragarças, os rebeldes fugiram do local de avião. Burnier seguiu para Roboré, na Bolívia, e, no dia 17 de dezembro, já exilado em La Paz, afirmou que a revolta de Aragarças alcançara seus objetivos, uma vez que Jânio Quadros voltara atrás, concordando em concorrer às eleições presidenciais.

Em abril de 1960, o Congresso Nacional votou contra o pedido de anistia aos revoltosos encaminhado pela União Democrática Nacional (UDN). De sua parte, os rebeldes, do exílio, declararam não estar interessados em nenhum projeto de anistia. Assim, Burnier só retornou ao Brasil no primeiro semestre de 1961, no governo de Jânio Quadros. Já promovido a coronel, esteve em 1963 no Panamá, onde fez cursos ligados à instalação de um serviço secreto na FAB. Partidário do movimento político-militar que depôs o presidente João Goulart em 31 de março de 1964, declarou, em entrevista ao Jornal do Brasil (23/10/1976), ter colocado na época várias cargas de dinamite no palácio Guanabara, sede do governo carioca, visando evitar que o prédio caísse em poder dos comunistas. Na mesma entrevista, afirmou que depois da queda de Goulart, o Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA) teve sua atuação ampliada e permaneceu sob seu comando.

 

O caso Para-Sar

Depois de receber a patente de brigadeiro-do-ar, no governo do marechal Artur da Costa e Silva, foi designado, em 1968, para servir na chefia da seção de informações do gabinete do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Márcio de Sousa e Melo, de quem se tornou em seguida chefe de gabinete. Nesse cargo, durante o primeiro semestre de 1968, foi envolvido no chamado “caso Para-Sar”. Segundo depoimento do capitão-aviador reformado Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, Burnier foi o idealizador das “missões especiais”, que teriam por objetivo eliminar sumariamente as pessoas que atiravam objetos contra a polícia do alto dos edifícios do centro do Rio de Janeiro durante as manifestações estudantis iniciadas com a morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, em março de 1968. Essas missões seriam efetuadas com a participação da 1º Esquadrilha Aeroterrestre de Salvamento, mais conhecida como Para-Sar (“para” de pára-quedista e “sar” de search and rescue, busca e salvamento), destacamento especializado em missões de resgate a acidentados.

Contrário ao envolvimento do Para-Sar naquele tipo de missão, o capitão Sérgio foi chamado por Burnier no dia 12 de junho de 1968. Durante o encontro, o brigadeiro teria afirmado que a missão mais importante das forças armadas naquele momento era resolver o “problema comunista” e que o Para-Sar era peça fundamental em seus planos. Teria declarado também que os serviços de informações das três armas e o Serviço Nacional de Informações (SNI) previam o surgimento no país de um clima semelhante ao da França em maio daquele ano, propiciando, portanto, condições para a eliminação dos comunistas. Dentro desse quadro, Burnier teria planejado uma escalada de violência, a ser realizada pelo Para-Sar, incluindo a explosão do gasômetro do Rio de Janeiro, em frente ao terminal rodoviário Novo Rio, na hora do rush, vários atentados a bomba, e por fim, o seqüestro de 40 políticos, militares e líderes estudantis, entre eles o ex-governador Carlos Lacerda, o general Olímpio Mourão Filho e o brigadeiro cassado Francisco Teixeira, que seriam colocados a bordo de um DC-3 e atirados ao mar.

Dois dias depois Burnier convocou nova reunião em seu gabinete, dessa vez com os 40 integrantes do Para-Sar, enquanto soldados da Polícia da Aeronáutica, armados com metralhadoras, cercavam o prédio. Dessa reunião surgiram duas versões, uma do capitão Sérgio — apresentada no dia 19 de julho ao brigadeiro ltamar Rocha, diretor de Rotas Aéreas e designado pelo Estado-Maior da Aeronáutica para instaurar uma sindicância sobre os acontecimentos — e outra do próprio Burnier, que negou ter ordenado a participação do Para-Sar em ações de repressão. Dando prosseguimento às investigações, o brigadeiro Rocha ouviu depoimentos de oficiais, sargentos e cabos do Para-Sar. No relato, 26 sustentaram a posição do capitão Sérgio e apenas seis endossaram a versão de Burnier. No dia 27 de setembro, pouco depois de ter entregue o resultado dessa segunda investigação, o brigadeiro Rocha foi exonerado do cargo e condenado a dois dias de prisão domiciliar. Quanto ao capitão Sérgio, seria reformado um ano depois, com base no Ato Institucional nº 5, editado em dezembro de 1968.

Em abril de 1970, já no governo do general Emílio Garrastazu Médici, Burnier assumiu o comando da III Zona Aérea (ZA), sediada no Rio de Janeiro, em substituição ao brigadeiro João Tavares Bordeaux Rego. Em novembro de 1971, diante das repercussões da morte do estudante Stuart Angel Jones, ocorrida, segundo Hélio Silva, em decorrência de torturas nas dependências do CISA, na Base Aérea do Galeão — área sob jurisdição da III ZA —, Sousa e Melo pediu demissão, sendo substituído pelo brigadeiro Joelmir de Araripe Macedo. No início de dezembro o novo ministro afastou um grupo de oficiais ligados a Sousa e Melo, entre os quais Burnier, que passou para a reserva remunerada. Seu substituto à frente da III ZA foi o brigadeiro Faber Cintra.

Depois de recorrer, sem sucesso, no Supremo Tribunal Federal, contra o ato do presidente Médici, que assinara o decreto transferindo-o para a reserva, Burnier ingressou na iniciativa privada, fundando em 1974, ao lado de outros militares, a Xtal do Brasil, empresa voltada para a industrialização e para a comercialização do cristal de quartzo. Em outubro de 1976 seu nome voltou aos jornais, acusando os comunistas de terem explodido uma bomba nas dependências da Xtal. Atribuía o ataque à presença de oficiais da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, participantes ativos do movimento político-militar de 31 de março de 1964, na direção da empresa, e considerava o atentado uma provocação ao governo do general Ernesto Geisel.

Em setembro de 1980 o ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Matos, indeferiu o pedido feito por Burnier de constituição de um conselho de justificação destinado a apurar seu envolvimento no caso Para-Sar. Segundo o ministro, sua decisão se prendeu à necessidade de manter a unidade da FAB e não permitir qualquer atitude de revanchismo.

Ao longo de sua carreira militar, Burnier fez os cursos de tática aérea, de estado-maior da Aeronáutica e da Escola Superior de Guerra.

Em 1995, Burnier tentou impedir que o livro O calvário de Sônia Angel, de autoria do tenente-coronel reformado do Exército João Luís de Morais, pai de Sônia e sogro de Stuart Angel, fosse colocado à venda. A obra falava da morte de Stuart e também do caso Para-Sar. Posteriormente, em 1999, um jantar em homenagem a Burnier no Clube Militar do Rio de Janeiro virou um evento de contestação ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 13 de junho de 2000.

Era casado com Nilza de Alencar Sabóia Burnier, com quem teve seis filhos.

 

FONTES: CARNEIRO, G. História; Folha de S. Paulo (21/6/00); Globo (27/9/80); Jornal do Brasil (22/10/76, 20/2, 14 e 23/3/78, 8/5/79, 18/6/00); MIN. AER. Almanaque; Veja (22/2/78).

 

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