Jorge Konder Bornhausen

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Nome: BORNHAUSEN, Jorge
Nome Completo: Jorge Konder Bornhausen

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

BORNHAUSEN, Jorge

*gov. SC 1979-1982; sen. SC 1983-1986; min. Educ. 1986-1987; const. 1987-1988; sen. SC 1987-1991; min. ch. Secretaria de Governo 1992; emb. Bras. Portugal 1996-1998; sen. SC 1999-2007

 

Jorge Konder Bornhausen nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 1º de outubro de 1937, filho de Irineu Bornhausen e de Maria Konder Bornhausen. A participação dos Konder na política catarinense remonta à década de 1920. Seu tio Adolfo Konder foi deputado federal de 1921 a 1926 e governador de Santa Catarina de 1926 a 1930, enquanto Vítor Konder foi ministro da Viação de 1926 a 1930. Afastados do poder pela Revolução de 1930, os Konder mantiveram-se em oposição ao governo Vargas, cultivando duradoura rivalidade com os Ramos, outra oligarquia estadual, então em ascensão, liderada por Nereu Ramos, governador e interventor em Santa Catarina entre 1935 e 1945. Com a redemocratização do país em 1945, enquanto os Ramos foram para o Partido Social Democrático (PSD), os Konder participaram da organização da União Democrática Nacional (UDN), cuja seção estadual Irineu, pai de Jorge Bornhausen, viria a presidir por mais de uma vez. Irineu Bornhausen foi ainda governador de Santa Catarina de 1951 e 1956 e senador de 1959 a 1967.

Jorge Bornhausen cursou o primário no Colégio Cristo Redentor e o secundário no Colégio Santo Inácio, ambos no Rio de Janeiro. Em 1956, ingressou na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio, onde, em 1960, graduou-se em direito. Em seguida, transferiu-se para Blumenau (SC), onde começou a advogar. Em 1966 mudou-se para Florianópolis, passando a trabalhar em empresas da família. Em 1966 e 1967 foi diretor da Pátria Companhia Brasileira de Seguros Gerais, da Nova Pátria Companhia Brasileira de Seguros Gerais e das Indústrias Gropp S.A., além de chefe do departamento jurídico do Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina.

O clã dos Konder Bornhausen apoiou, em março de 1964, o movimento político-militar que depôs o presidente João Goulart. Posteriormente, com a extinção dos partidos políticos e a instauração do bipartidarismo, integrou-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de apoio ao regime militar que congregou tanto udenistas quanto pessedistas catarinenses. Ao lado de seu pai, Jorge Bornhausen foi um dos responsáveis pela convivência dos dois agrupamentos rivais no novo partido situacionista.

Iniciou a carreira política em janeiro de 1967, ao ser eleito indiretamente, com 29 anos, vice-governador de Santa Catarina, no lugar de Francisco Roberto Dall’Igna, que fora eleito juntamente com Ivo Silveira (1966-1971) e em fins de 1966 fora cassado pelo Ato Institucional nº 2. Como na época só podiam assumir cargos executivos os maiores de 30 anos, sua posse foi assegurada pelo governador do estado, que aprovou emenda na Constituição estadual alterando o parágrafo relativo ao limite de idade para o Executivo. Ao deixar o cargo em 15 de março de 1971, voltou a trabalhar pela consolidação da Arena no estado. Em 1972 foi eleito vice-presidente do diretório regional do partido e, em 1973, tornou-se seu presidente. Sua atuação foi fundamental para frustrar a tentativa do então governador Colombo Sales (1971-1975) de fazer seu sucessor e desalojar do poder as tradicionais famílias catarinenses.

Em 1974, o presidente Emílio Médici indicou para o governo de Santa Catarina Antônio Carlos Konder Reis. Empossado o novo governo no ano seguinte, Jorge Bornhausen foi nomeado presidente do Banco do Estado de Santa Catarina. Ocupou o cargo até 1978, quando foi indicado para suceder a Konder Reis no governo do estado. A escolha de seu nome para representar a Arena nas eleições indiretas para o governo de Santa Catarina traduziu o reconhecimento do regime militar à sua fidelidade e contribuiu decisivamente para a consolidação de sua liderança na cena política catarinense. Segundo informações da imprensa na época, sua indicação teria sido articulada pelo ministro da Justiça, Petrônio Portela, e pelo chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, dois importantes artífices do processo de distensão política durante o governo do presidente Ernesto Geisel (1974-1979).

Jorge Bornhausen apoiou publicamente o nome do general João Batista Figueiredo para suceder a Geisel e defendeu a manutenção de eleições indiretas para presidente da República, sob o argumento de que, num país com as dimensões do Brasil, eleições presidenciais diretas geravam instabilidade. Eleito pela Assembleia Legislativa catarinense em setembro de 1978, tomou posse no governo do estado em 15 de março de 1979.

 

Governador de Santa Catarina

O governo de Bornhausen foi marcado pelos efeitos do segundo choque do petróleo sobre a economia brasileira e pela crescente dificuldade, daí decorrente, de obter recursos externos para financiar investimentos em obras de infraestrutura. Esse quadro comprometeu uma das prioridades de seu programa de governo, a construção de rodovias para escoar a produção agrícola catarinense. Em defesa dos interesses econômicos estaduais, foi um dos primeiros governadores a reivindicar uma reforma tributária que reduzisse a centralização de recursos nas mãos do governo federal e a pedir o fim das isenções do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM), como forma de fortalecer os orçamentos estaduais e municipais.

Em 1979, no debate sobre a concessão da anistia aos punidos pelo regime militar, Bornhausen foi um dos defensores de uma anistia restrita, que incluísse apenas aqueles que haviam sido punidos por suas posições políticas, deixando de fora os que haviam praticado atos de terrorismo, subversão e corrupção.

Em relação à reforma partidária, opôs-se à extinção dos dois partidos então existentes — a Arena e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) — por considerar que a primeira ainda cumpria satisfatoriamente sua função de dar sustentação ao governo. Sua posição, partilhada por outros líderes arenistas, acabou derrotada no Congresso, que, em 22 de novembro de 1979, aprovou a extinção do bipartidarismo. Em 1980, na reformulação partidária que se seguiu, Bornhausen filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS), legenda governista que acolheu a maioria dos antigos arenistas. Membro do diretório nacional do partido, foi um dos principais organizadores da nova legenda em Santa Catarina.

Em 14 de maio de 1982, desincompatibilizou-se do cargo de governador para se candidatar a uma vaga no Senado na legenda do PDS, passando a chefia do Executivo catarinense ao vice-governador Henrique Córdova. Paralelamente, dedicou-se à campanha de Esperidião Amin, seu candidato à sucessão estadual — a primeira pela via direta desde 1965. Seu apoio a Amin abriu uma disputa no PDS catarinense, por frustrar o projeto do ex-governador Konder Reis de encabeçar a chapa do partido para o governo do estado. Contando com o apoio da maioria dos diretórios municipais e dos parlamentares do partido, a chapa formada por Amin (governador), o deputado federal Vítor Fontana (vice-governador) e Bornhausen (senador) foi referendada pelo PDS catarinense.

Embora tenha procurado granjear o apoio de Konder Reis ao longo da campanha eleitoral, Bornhausen não conseguiu forjar a união do partido em torno da chapa aprovada na convenção partidária. A divisão do PDS no estado resultou numa vitória apertada sobre a oposição. Bornhausen foi eleito senador com uma diferença de pouco mais de mil votos sobre o candidato do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Pedro Ivo Campos, e Esperidião Amin elegeu-se governador derrotando o candidato peemedebista Jaison Barreto por apenas 12.650 votos de diferença.

 

Senador e presidente do PFL

Jorge Bornhausen chegou ao Senado em 1º de fevereiro de 1983. Foi um dos defensores da reforma da Constituição pelo Congresso ordinário, o que dispensaria a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, e uma das primeiras vozes a se manifestar a favor do parlamentarismo.

Quando, em 1984, começaram as discussões sobre a sucessão do presidente João Figueiredo, o PDS tinha quatro postulantes de peso — Aureliano Chaves, Marco Maciel, Mário Andreazza e Paulo Maluf. Bornhausen, então vice-presidente do partido, antevendo a possibilidade de derrota caso o PDS entrasse dividido na disputa, passou a defender entre seus correligionários a renúncia de todos os pré-candidatos como forma de garantir a unidade e a vitória do partido nas eleições indiretas de 1985. Contudo, a evolução dos acontecimentos não tardaria a frustrar seus esforços. Em 25 de abril de 1984, a derrota na Câmara dos Deputados da emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente da República em novembro daquele ano, confirmou que a eleição presidencial seria feita por via indireta, em janeiro de 1985. A escolha do nome de Maluf como candidato governista foi considerada inaceitável por boa parte do PDS, levando à formação da dissidência Frente Liberal. A união da Frente Liberal com o PMDB, que tinha como candidato Tancredo Neves, deu origem à Aliança Democrática, constituída em 7 de agosto de 1984. Na ocasião, o então presidente do PDS, José Sarney, deixou o partido e filiou-se ao PMDB para integrar a chapa da oposição como postulante à vice-presidência da República ao lado de Tancredo Neves. Jorge Bornhausen assumiu interinamente a presidência do PDS, mas em seguida aderiu à Frente Liberal, tornando-se seu principal articulador em Santa Catarina. Essa decisão determinou seu rompimento com o grupo liderado pelo governador Esperidião Amin.

Na eleição realizada pelo Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985, Bornhausen votou na chapa Tancredo Neves/José Sarney, que teve 480 votos, contra os 180 dados a Paulo Maluf e Flávio Marcílio. Ainda em janeiro, a Frente Liberal transformou-se no Partido da Frente Liberal (PFL), presidido por Marco Maciel, ao qual Bornhausen se filiou.

Entretanto, a doença que acometeu o presidente eleito às vésperas de sua posse conduziu interinamente ao palácio do Planalto, em 15 de março, o vice-presidente José Sarney. A morte de Tancredo Neves, em 21 de abril, confirmou Sarney no cargo. Um dos ministérios entregues ao PFL foi o da Educação, confiado a Marco Maciel. Com isso, Bornhausen assumiu a presidência do PFL. O PFL contava com 18 senadores e 107 deputados federais, e a representatividade da bancada pefelista foi o principal argumento utilizado por Bornhausen e demais líderes do partido para pleitear maior participação no Executivo. Pelos cálculos dos dirigentes do PFL na época, o partido deveria ocupar pelo menos sete ministérios. Na reforma ministerial realizada por Sarney em fevereiro de 1986 – mesmo mês em que foi lançado o plano de estabilização econômica que ficou conhecido como Plano Cruzado –, o PFL ampliou sua participação no governo, passando a controlar cinco ministérios, o que enfraqueceu o PMDB.

 

No Ministério da Educação e de volta ao Senado

Na mesma reforma ministerial, Bornhausen foi nomeado ministro da Educação no lugar de Marco Maciel, que foi então designado para a chefia do Gabinete Civil de Sarney. Para tomar posse no cargo, licenciou-se do Senado e passou a presidência do PFL ao senador alagoano Guilherme Palmeira. Empossado em 14 de fevereiro, foi o primeiro catarinense a ocupar um ministério desde que Nereu Ramos fora ministro da Justiça de Juscelino Kubitschek (1956-1961). À frente do MEC devolveu o prédio da praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, à União Nacional dos Estudantes (UNE), extinguiu as assessorias de segurança e informação ainda existentes nas universidades públicas, e implantou o programa Nova Universidade, voltado para o aperfeiçoamento do ensino de graduação público e privado.

Em setembro de 1987, instalou-se uma disputa por espaços no governo entre o PFL e o PMDB. Marco Maciel e Aureliano Chaves comunicaram ao presidente Sarney o fim da Aliança Democrática e afirmaram que aguardavam suas providências para evitar a saída do PFL da base de apoio do governo. Por seu lado, em reunião da cúpula do partido, Bornhausen defendeu o afastamento dos cinco ministros pefelistas do governo. Contudo, o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, liderou uma rebelião das bases do PFL que resultou na permanência do partido no governo. Em 6 de outubro, coerentemente com a proposta que defendera, Bornhausen deixou o MEC e no dia seguinte reassumiu seu mandato no Senado. Em novembro, a convenção do partido acabaria por confirmar a decisão de permanecer no governo, pelo menos até o fim do processo constituinte.

Na Constituinte, cujos trabalhos tinham começado em 1º de fevereiro de 1987, Bornhausen defendeu posições contra “a excessiva presença de um Estado paternalista no funcionamento da economia brasileira”, conforme dizia, propondo a retirada progressiva da participação estatal no setor produtivo e a diminuição da interferência governamental na condução da economia. Nas principais votações, votou contra o rompimento de relações diplomáticas do Brasil com países que adotavam uma política de discriminação racial, a limitação do direito de propriedade privada, o mandado de segurança coletiva, a estabilidade no emprego, a remuneração 50% superior para o trabalho extra, a jornada semanal de 40 horas, o aviso prévio proporcional ao tempo trabalhado quando da demissão de trabalhadores, a soberania popular, o direito de voto aos 16 anos, o presidencialismo, a nacionalização do subsolo, a estatização do sistema financeiro, a instituição de um limite de 12% ao ano para os juros reais, a proibição do comércio de sangue, o mandato de cinco anos para o presidente José Sarney, a limitação do pagamento dos encargos da dívida externa e a criação de um fundo de apoio à reforma agrária. Votou a favor da realização de um plebiscito sobre a pena de morte e da anistia às dívidas dos pequenos e micro empresários. Absteve-se na votação sobre a legalização do aborto.

Com a promulgação da nova Constituição, em 5 de outubro de 1988, voltou a participar dos trabalhos legislativos ordinários do Senado. Paralelamente, dedicou-se a articular com o PDS catarinense coligações para as eleições municipais de novembro. O sucesso dessas negociações, que levaram à sua reconciliação com Esperidião Amin, com quem estava rompido desde a campanha da Aliança Democrática, foi comprovado pela vitória de chapas formadas pelo PFL e o PDS em quase todos os municípios.

Na ocasião, as articulações dos partidos e líderes políticos para as eleições presidenciais de 1989 já dominavam o cenário nacional. O agravamento da crise econômica em 1988 o e as constantes denúncias de corrupção envolvendo autoridades do governo federal vinham impondo enorme desgaste a Sarney e faziam crescer as chances de vitória da oposição. Diante disso, Bornhausen assumiu negociações com líderes do PDS, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e do Partido Democrata Cristão (PDC) para formar uma coligação em torno de um candidato único que aglutinasse as forças conservadoras. Diante do insucesso da empreitada, voltou-se para a disputa no PFL, tendo sido um dos articuladores da pré-candidatura de Marco Maciel. Na convenção do partido, em maio, o candidato escolhido foi Aureliano Chaves. O partido, contudo, não marchou unido. Aureliano foi abandonado, e muitos pefelistas optaram por apoiar candidatos de outros partidos. Um deles foi Bornhausen, que aderiu à candidatura de Guilherme Afif Domingos, do Partido Liberal (PL).

No curso desse processo, a candidatura de Fernando Collor de Melo, ex-governador de Alagoas lançado pelo recém-criado Partido da Renovação Nacional (PRN), ganhou espaço na mídia e fortaleceu-se. O resultado do primeiro turno das eleições levou à disputa final os candidatos do PRN e o do Partido dos Trabalhadores (PT), Luís Inácio Lula da Silva. No segundo turno, o PFL, a exemplo de todos os demais setores que temiam uma vitória da esquerda, deu seu apoio a Fernando Collor contra Lula. Assim, no pleito de 15 de novembro, Collor foi eleito presidente, derrotando Lula por cerca de quatro milhões de votos. O novo governo, instalado em março de 1990, passou a contar com o apoio do PFL.

Tendo em vista as eleições para governadores e para 1/3 do Senado em fins de 1990, o PFL recompôs sua aliança com o PDS em Santa Catarina. Na chapa majoritária, a indicação para a vaga de governador coube ao PFL, que apresentou o nome de Vílson Kleinübing, e a de senador ficou com Esperidião Amin, do PDS. A coligação PFL-PDS foi vitoriosa, e uma das três cadeiras de Santa Catarina no Senado, que estava sendo ocupada por Bornhausen desde 1983, foi transferida para Amin.

Ainda em 1990, Bornhausen passou a integrar o Conselho da República, órgão superior de consulta do presidente da República, instituído pela Constituição de 1988. Ao concluir seu mandato em 31 de janeiro de 1991, deixou o Senado e foi contratado como vice-presidente do grupo empresarial Brasif. Deixou a empresa em janeiro de 1992, quando foi chamado pelo presidente Fernando Collor para participar de seu governo.

 

Na coordenação política do governo Collor

Inicialmente, Collor tentou manter seu governo relativamente afastado do jogo político-partidário e, através de medidas provisórias, garantir o cumprimento das principais metas de seu programa. Entretanto, no início de 1992 o recrudescimento da inflação, o crescimento do desemprego e as denúncias envolvendo membros do governo levaram-no a buscar a construção de uma base parlamentar que assegurasse apoio para a aprovação de seus projetos. Assim, em 23 de janeiro, fez um gesto de aproximação com o PFL, entregando-lhe dois ministérios e a recém-criada Secretaria de Governo, encarregada de coordenar a ação política da Presidência, que foi oferecida a Jorge Bornhausen. Essa secretaria, no entanto, só viria a ser efetivamente oficializada em abril. A demora na posse de Bornhausen teria sido consequência da forma como foi criada a secretaria, por projeto de lei – dependendo da aprovação do Congresso Nacional –, e não por medida provisória.

Repercutindo as pressões que o governo vinha sofrendo por conta das seguidas denúncias de corrupção, no dia 30 de março o ministério apresentou ao presidente um pedido de renúncia coletiva. Alguns nomes foram mantidos, mas Collor aproveitou a oportunidade para promover uma reforma ministerial que ajudasse a recompor a imagem do governo. Delegou a tarefa da execução da reforma a Bornhausen, que, de acordo com a revistaVeja de 8 de abril, tinha duas alternativas para a composição do ministério. A primeira, e principal, era ceder alguns postos ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) garantindo, assim, a participação desse partido na base de apoio do governo. Essa alternativa, contudo, foi mal-sucedida. Partiu-se então para a execução da segunda opção, formulada por Bornhausen junto com Luís Eduardo Magalhães, Ricardo Fiúza e Marco Maciel com a concordância de Collor, de um ministério com nomes do PDS, PTB e PL. No dia 2 de abril, juntamente com os outros ministros, Bornhausen foi empossado na Secretaria de Governo.  

No dia 11 de maio, Pedro Collor, irmão do presidente, denunciou a existência de vasto esquema de corrupção no interior do governo, que teria sido montado, com a conivência de Fernando Collor, por Paulo César Farias, o PC, ex-tesoureiro de sua campanha presidencial. Em 26, foi instalada no Congresso uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar tais denúncias. Na ocasião, Bornhausen afirmou: “as CPIs nunca deram em nada. Essa também não vai levar a lugar nenhum”. No entanto, durante o mês de junho, a CPI colheu depoimentos e recolheu material que mostrava ligações entre atividades ilegais de PC Farias e o governo federal. Nesse momento, a estratégia de Bornhausen foi tentar evitar que a CPI investigasse o presidente e garantir o recesso parlamentar. Como seus contatos com os parlamentares deixaram claro que a CPI trabalharia durante o recesso, o coordenador político do governo passou a concordar com o funcionamento da CPI e a negociar o seu fim.

Os depoimentos prosseguiram e, no dia 28 de junho, Francisco Eriberto, motorista de Ana Acióli, secretária do presidente, reafirmou declarações já feitas à revista IstoÉ dias antes, de que as empresas de PC pagavam as despesas familiares do presidente por meio de depósitos na conta de sua secretária. No dia 30 de junho, Collor fez um pronunciamento em cadeia de rádio e televisão de cuja elaboração Bornhausen não participou, tendo sido “somente avisado”. Com o avanço das investigações, Bornhausen procurou orientar a base de apoio do governo a levar a questão para o plano político, tentando mostrar que a oposição, notadamente o PT, estaria agindo com fins eleitorais.

Em julho, a cúpula do PFL passou a avaliar a possibilidade de o partido retirar seu apoio ao governo, caso Fernando Collor não conseguisse provar sua inocência em relação ao esquema PC. O presidente, acuado pelas denúncias e pelo acelerado processo de desagregação de sua base parlamentar, passou, por sua vez, a ignorar a orientação dos conselheiros políticos e a surpreender com atitudes intempestivas seus cada vez mais raros aliados.

Agosto marcou o início de uma série de manifestações populares pró-impeachment. No fim do mês, a votação do relatório final da CPI — que recebeu apenas cinco votos contrários entre os membros da comissão —, ao confirmar as ligações de Collor com PC, antecipou o desfecho da crise, pesando decisivamente para que líderes do PFL no Senado e na Câmara liberassem as bancadas do partido para a votação do impeachment. A aprovação do relatório contribuiu também para radicalizar a atuação da chamada “tropa de choque” — grupo de apoio incondicional a Collor, liderado pelos presidentes do Banco do Brasil, Lafaiete Coutinho, e da Caixa Econômica Federal, Álvaro Mendonça. Em 24 de agosto, o relatório final da CPI, a ser encaminhado à Câmara, recomendou a abertura de processo de impeachment do presidente. No dia seguinte, Bornhausen foi co-autor, juntamente com os ministros Célio Borja (Justiça) e Marcílio Marques Moreira (Economia), da “Carta à Nação”, manifesto assinado por todos os ministros e secretários, em que os signatários defendiam a “honradez de suas vidas” — sem, contudo, mencionar o presidente — e justificavam sua permanência no governo em nome do bem público e da governabilidade, até a votação do pedido de impeachment, assumindo o compromisso de então se demitirem coletivamente, independentemente do desfecho final da crise.

Nos últimos dias de agosto, em encontro com Collor, Bornhausen aconselhou-o a negociar sua renúncia, pondo, assim, fim à crise e poupando-se de um desgaste ainda maior. No dia 30, Collor fez um pronunciamento à nação em que se negou a incorporar as sugestões de Bornhausen ao discurso. Por outro lado, a atuação de Bornhausen na coordenação política do governo foi criticada pelo líder do PTB, Nélson Marchezelli, também membro da “tropa de choque”. Segundo ele, para quem tinha “caneta, Diário Oficial e Banco do Brasil, nãoconseguir fazer 168 votos é muita fraqueza”. O episódio precipitou o rompimento de Bornhausen, que, no dia 10 de setembro, apresentou sua demissão em caráter irrevogável ao presidente e foi substituído pelo ministro da Ação Social, Ricardo Fiúza, um dos expoentes da “tropa de choque” e também pefelista.

Dezenove dias depois, a abertura do processo do impeachment foi aprovada na Câmara dos Deputados por ampla maioria de votos. No dia 2 de outubro, Collor deixou a presidência, e o governo foi entregue interinamente ao vice-presidente Itamar Franco. Em 29 de dezembro, Collor renunciou ao mandato horas antes de o Senado condená-lo por crime de responsabilidade, proibindo-o ainda de exercer qualquer cargo público durante oito anos. No mesmo dia, Itamar Franco assumiu a presidência da República em caráter definitivo.

 

A aliança PSDB-PFL

Em setembro de 1993, a convenção nacional do PFL reconduziu Jorge Bornhausen à presidência do partido, com a missão de comandar uma campanha em favor da revisão constitucional. A convenção reconheceu ainda no governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, o candidato natural do PFL às eleições presidenciais de 1994, sem contudo descartar a participação do partido numa coligação de apoio a uma candidatura de centro que pudesse se contrapor à do petista Luís Inácio Lula da Silva. O PFL confiou a Bornhausen a responsabilidade pelas negociações com o Partido Progressista Reformador (PPR), legenda surgida da fusão do PDS com o Partido Democrata Cristão (PDC) e chefiada pelo ex-pedessista Paulo Maluf, e ainda com o Partido Progressista (PP), o PTB e o Partido Liberal (PL) — siglas que viriam a compor com o PFL um poderoso bloco parlamentar durante a revisão constitucional.

Essas negociações, que já vinham encontrando dificuldades devido à insistência do PPR em garantir a cabeça de chapa para Maluf e à recusa de Antônio Carlos Magalhães em aceitar o cargo de vice, foram definitivamente abandonadas por Bornhausen em abril de 1994, quando o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, lançou-se candidato à sucessão presidencial na legenda do PSDB.

Embalada pelo sucesso do Plano Real — o plano de estabilização econômica lançado em dezembro de 1993 —, a candidatura Fernando Henrique firmou rapidamente seu favoritismo. O PFL, detentor de um cacife eleitoral do qual os tucanos não podiam prescindir, condicionou seu apoio à sua participação na chapa majoritária. Caso contrário, lançaria Antônio Carlos Magalhães à disputa presidencial. Na condição de presidente nacional do partido, Bornhausen foi um dos principais responsáveis pela costura política que viabilizou a coligação PSDB-PFL, conseguindo superar resistências de setores do PSDB. Bornhausen chegou a ter seu nome cogitado para vice, mas a escolha do PSDB acabou recaindo sobre o líder do PFL no Senado, Marco Maciel.

Concretizada a aliança com o PSDB para a presidência, Bornhausen dedicou-se a articular a sucessão para o governo de Santa Catarina, onde tinha sido rompida a aliança entre o PFL e o PPR, chefiado no estado por Esperidião Amin. No começo de 1994, os dois partidos tinham firmado um acordo para lançar as candidaturas de Amin, do PPR, e Vílson Kleinübing, do PFL, para governador e senador, respectivamente. A chapa era considerada imbatível pelos chefes políticos dos dois partidos, mas, em fins de março, Amin lançou-se candidato à sucessão presidencial, apresentando, para substituí-lo na disputa estadual, o nome de sua mulher, Ângela Amin.

A decisão de Amin foi considerada pelos aliados uma ruptura do acordo e levou o PFL catarinense a lançar, com o apoio do governador em exercício Konder Reis, a candidatura de Jorge Bornhausen ao governo de Santa Catarina. Durante toda a campanha, Bornhausen permaneceu em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de votos. Tentou vincular sua candidatura ao Plano Real, que em meados do ano já havia conseguido reduzir a taxa de inflação a um patamar médio de 2% ao mês, mas não teve êxito. Apesar de seus esforços, as eleições de 3 de outubro confirmaram os prognósticos das pesquisas e o deixaram de fora da disputa final. No segundo turno, o PFL catarinense apoiou o candidato do PMDB, Paulo Afonso Vieira, contribuindo decisivamente para que a candidata do PPR, Ângela Amin, fosse derrotada pela estreita margem de 1,3% dos votos válidos.

Na disputa presidencial, Fernando Henrique Cardoso foi eleito já no primeiro turno, com 34 milhões de votos, o dobro dos recebidos pelo segundo colocado, Luís Inácio Lula da Silva, do PT. Em 1º de janeiro de 1995, Fernando Henrique foi empossado na presidência da República, ao lado de seu vice, o pefelista Marco Maciel.

A vitória de Fernando Henrique, contudo, não foi suficiente para assegurar unidade de ação à base governista, formada pelo PSDB, majoritário no Congresso, e por uma ampla combinação de partidos conservadores, a maior parte deles conhecida por suas práticas fisiológicas. A primeira fase do governo Fernando Henrique foi marcada pelo surgimento de conflitos entre seus aliados, que atingiram, muitas vezes, ministros e assessores diretos do próprio presidente.

Bornhausen foi peça-chave na superação de várias crises nesse período. Foi o primeiro a conversar com Antônio Carlos Magalhães quando o senador e principal cacique do PFL no Nordeste anunciou sua intenção de romper com o governo federal devido à intervenção do Banco Central no Banco Econômico. Da mesma forma, ajudou a consertar a situação criada por Tasso Jereissati, governador do Ceará, quando este classificou de “irresponsável” o presidente do Senado, José Sarney, expoente peemedebista no Nordeste.

A falta de coordenação da base parlamentar dificultava a aprovação de importantes projetos do Executivo, ameaçando a continuidade da revisão constitucional. No início de 1996, tendo em vista a complexidade da agenda da revisão para 1996 e 1997 — ela incluía as reformas tributária e da Previdência e, principalmente, a votação da emenda que permitia a reeleição para cargos executivos (prefeitos, governadores e presidente da República) —, Bornhausen tornou-se um importante interlocutor dos partidos aliados junto ao governo. Foi um dos principais articuladores da entrega de um ministério ao Partido Progressista Brasileiro (PPB), agremiação formada em agosto de 1995 pela fusão do PPR com o PP, em troca do apoio desse partido aos projetos do governo. Em maio de 1996, Francisco Dornelles, do PPB do Rio de Janeiro, foi nomeado ministro da Indústria e do Comércio.

Paralelamente, Bornhausen empenhou-se em ampliar os horizontes eleitorais do PFL, trabalhando para fortalecer o partido nas regiões Sul e Sudeste. Sua atuação foi também decisiva para que o PFL entrasse afinado nas votações no Congresso.

A convite de Fernando Henrique, Bornhausen deixou o país em junho de 1996 para assumir, em 27 de julho, a embaixada do Brasil em Portugal, no lugar do ex-presidente Itamar Franco. Sua decisão de aceitar o cargo, que implicava seu afastamento do comando do PFL, foi objeto de intenso debate na cúpula do partido, tendo sido combatida pelos principais cardeais pefelistas, como Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães, Guilherme Palmeira e Inocêncio de Oliveira. A solução veio com o compromisso de Bornhausen de retornar ao país no começo de 1997 para trabalhar pela aprovação da emenda da reeleição e reassumir a presidência do PFL, que ficaria provisoriamente confiada ao vice, o deputado pernambucano José Jorge.

No entanto, um mês após assumir a representação brasileira em Portugal, Bornhausen licenciou-se para cuidar das eleições municipais em Santa Catarina e tentar recuperar o espaço perdido pelo PFL desde 1994. Em meados de setembro, a duas semanas do primeiro turno das eleições, desembarcou em Florianópolis com o objetivo de levar o candidato do PFL à prefeitura, Vinícius Lemertz, ao segundo turno. Participavam da disputa Ângela Amin (PPB) e Afrânio Bopré (PT), que estavam em primeiro e segundo lugares nas pesquisas, respectivamente.

A despeito dos esforços de Bornhausen, Lemertz foi derrotado em 3 de outubro, e a disputa final foi entre os candidatos do PPB e do PT. Sob a liderança de Bornhausen, o PFL catarinense chegou a ensaiar o apoio ao candidato petista com a finalidade de enfraquecer a liderança de Amin no estado. Esse apoio só não se confirmou devido à interferência direta do palácio do Planalto. Interessado no apoio de Amin à emenda da reeleição, o presidente Fernando Henrique apelou a Bornhausen para que se mantivesse neutro e liberasse seus correligionários para votarem na candidata do PPB. Os interesses regionais do PFL foram então sacrificados em favor dos interesses nacionais do partido e, no pleito de 15 de novembro, Ângela Amin obteve 51% dos votos válidos, elegendo-se prefeita da capital catarinense.

A despeito da derrota de Bornhausen em Santa Catarina, o PFL saiu fortalecido das eleições municipais de 1996. Se em 1992 o partido havia conseguido eleger um único prefeito de capital, em Belém, quatro anos depois ganhava em várias capitais nordestinas, como Salvador, Recife e Aracaju, e ainda numa das mais importantes capitais brasileiras, o Rio de Janeiro. Em seguida, Bornhausen reassumiu seu posto na embaixada brasileira em Portugal, de onde manteve, mesmo à distância, seu papel de um dos principais articuladores do PFL. Por acreditar que o desempenho do partido nas urnas fortalecia a tese da reeleição junto à população, Bornhausen passou a defender a imediata tramitação da emenda, inicialmente prevista para março de 1997. No dia 25 de fevereiro, em meio a denúncias envolvendo acordos de bastidores e concessão de favores em troca de votos, a emenda da reeleição foi aprovada pela Câmara dos Deputados. Em 4 de junho seria definitivamente aprovada pelo Senado.

Bornhausen deixou a embaixada em 27 de março de 1998, sendo substituído por Sinésio Sampaio Góis Filho. De volta ao país tornou-se um dos principais articuladores da campanha para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Em junho de 1998, passou a integrar, ao lado dos presidentes do PSDB, do PMDB e do PPB, o Conselho Político Institucional, órgão da estrutura de comando da campanha de Fernando Henrique. No início de agosto de 1998, teve seu nome referendado pela convenção regional do PFL como candidato a senador pela coligação Mais Santa Catarina, que reuniu o PPB, o PFL e outros 12 partidos. Em outubro de 1998, conquistou novo mandato de senador por Santa Catarina, obtendo 47% dos votos válidos. Na mesma ocasião, Fernando Henrique foi reeleito.

 

Retorno ao Senado

De volta ao Senado em fevereiro de 1999, Bornhausen seguiu ocupando a presidência do PFL e atuando como um dos principais articuladores políticos do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso.

No início de seu novo mandato, manifestou-se sobre a grave crise econômica decorrente de pressões exercidas sobre as reservas internacionais do país, da política de “âncora cambial” e da crise russa iniciada no ano anterior, que culminou na forte desvalorização do real frente ao dólar após o abandono do controle do câmbio e no rápido crescimento da dívida interna. Como resposta à crise econômica, defendeu que o governo federal privatizasse o Banco do Brasil (BB), a Caixa Econômica Federal (CEF) e a Petrobras. No entanto, sua proposta não foi adiante. Ao longo dos anos seguintes, o senador criticaria o ritmo mais lento das privatizações no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e defenderia a aceleração do processo como caminho para a retomada do crescimento econômico do país.

Em junho de 1999, por ocasião da negociação em torno de uma reforma ministerial para reagrupar a base aliada, apresentou a Fernando Henrique Cardoso a proposta de redução do número de ministérios de 23 para 12, com o intuito de reduzir os gastos governamentais. O modelo sugerido era semelhante ao que fora adotado em 1990 por Fernando Collor. No entanto, a proposta não foi implantada. Manifestou também a opinião de que uma reforma tributária deveria ser a prioridade naquele período.

Em julho do mesmo ano, foi assinado um acordo entre o governador de Santa Catarina Esperidião Amin e o ministro da Fazenda Pedro Malan, obtido com a intervenção de Bornhausen. Por ele, a União se comprometeu a assumir uma dívida catarinense com o Instituto de Previdência do Estado de Santa Catarina (Ipesc) no valor de 514 milhões de reais.

Nas eleições municipais de 2000, a aliança entre o PFL de Bornhausen e o PPB de Amin foi mantida na capital catarinense. O senador apoiou a reeleição de Ângela Amin para a prefeitura de Florianópolis. Após as eleições, reconheceu que, nacionalmente, o grande vitorioso fora o PT, com as derrotas que impôs ao PFL ou a candidatos apoiados pelo partido nas principais capitais do país no segundo turno.

Ao longo do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, a base governista foi enfrentando crescentes dificuldades para se manter coesa. Enquanto isso, o PFL começou a cogitar lançar um candidato próprio à sucessão presidencial, que começou a ser debatida ainda em 1999. Especialmente a partir de 2000, Bornhausen passou a afirmar reiteradamente que o PFL teria candidato próprio nas eleições presidenciais de2002. A princípio, diversos nomes foram cogitados no partido. Por fim, o nome que acabou se impondo, com o apoio de Bornhausen, foi o da então governadora do Maranhão Roseana Sarney. Um dos coordenadores da pré-campanha da governadora, em fevereiro de 2002 Bornhausen licenciou-se do mandato de senador para se dedicar apenas à campanha. Sua decisão, a oito meses do pleito, teria tido a intenção de mostrar ao PSDB que estava convicto do sucesso da candidatura de Roseana. Naquele momento, José Serra despontava como o provável candidato do PSDB, e os tucanos esperavam que o PFL aceitasse repetir a aliança nacional que havia elegido Fernando Henrique Cardoso, na qual os pefelistas tinham ocupado posição secundária. Em resposta, Bornhausendeclarou que dessa vez a aliança só se repetiria com Roseana encabeçando a chapa da situação.

No entanto, no princípio de março, quando as pesquisas de intenção de voto já apontavam Roseana como segunda colocada na corrida presidencial, ocorreu uma operação da Polícia Federal (PF) que descobriu uma vultosa quantia não declarada na sede de uma empresa da qual a pré-candidata e seu marido eram sócios. A operação teve ampla divulgação na imprensa e abalou a imagem pública da candidata. Foram dadas diversas versões conflitantes para a origem do dinheiro, o que piorou a situação. Seguiu-se um movimento de revolta de Roseana e entre as bases pefelistas, que consideraram que a ação havia sido premeditada pelo governo federal e por Serra para prejudicar a candidata. Bornhausen manifestou sua suspeita a respeito disso, enquanto os acusados negaram categoricamente. Em decorrência desse episódio, e cedendo à pressão da pré-candidata, o PFL decidiu em março deixar o governo de Fernando Henrique Cardoso, entregando seus cargos federais. Por fim, devido ao impacto causado pela operação da PF, Roseana renunciou à pré-candidatura no mês de abril. As arestas entre o PSDB e o PFL deixadas pelo episódio não puderam ser sanadas, e os pefelistas optaram por se manter neutros nas eleições presidenciais daquele ano – o que na prática liberaria seus integrantes para apoiar diferentes candidatos.

De volta ao Senado em julho, Bornhausen declarou apoio a Ciro Gomes, candidato a presidente da República do Partido Popular Socialista (PPS). Para se dedicar à campanha do candidato, licenciou-se da presidência do PFL. No primeiro turno das eleições presidenciais de outubro Ciro Gomes ficou em quarto lugar. No segundo turno, entre Serra e Luís Inácio Lula da Silva, do PT, Bornhausen passou a defender o apoio a Serra como candidato “anti-Lula”. O PFL chegou a recomendar o voto no candidato do PSDB. Por fim, Lula foi eleito presidente da República.  

Em Santa Catarina, Bornhausen e o PFL apoiaram a candidatura à reeleição de Esperidião Amin para o governo do estado pela legenda do PPB. No entanto, Amin foi derrotado de virada e por pequena margem no segundo turno (menos de 21 mil votos) pelo candidato Luís Henrique da Silveira, do PMDB, que contou com o apoio de Lula. Paulo Bornhausen, filho de Jorge Bornhausen, também foi derrotado para o Senado.

Logo após as eleições, Bornhausen foi um dos que levaram o PFL a declarar oposição ao governo Lula, chegando a ameaçar com expulsão aqueles que quisessem aderir ao governo – o que levou à saída de diversos parlamentares do partido. Destacou-se como um dos principais líderes oposicionistas no Senado e enfatizou a ideologia (em suas palavras) “liberal social” do PFL.

Nas eleições municipais de 2004, a aliança entre Bornhausen e Esperidião Amin foi mais uma vez derrotada na disputa pela prefeitura da capital catarinense. O candidato do Partido Progressista (PP), Francisco de Assis Filho, apoiado pelos dois líderes, foi preterido no segundo turno por Dário Berger, candidato do PSDB.

 

Atuação no escândalo do “mensalão”

Durante o ano de 2005, membros do governo Lula e parlamentares de sua base de sustentação foram acusados de utilizar sobras de financiamento ilícito de campanhas eleitorais na compra de votos para obter a aprovação de projetos de seu interesse. Durante a chamada “crise do mensalão”, Bornhausen teve atuação de destaque, pelos ataques ao governo Lula e a políticos do PT e da base aliada envolvidos no escândalo. Foi um dos principais articuladores das investigações no Congresso, e dos esforços para a cassação de parlamentares petistas.

Em 26 de agosto, proferiu uma declaração polêmica num evento empresarial no Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), na cidade de São Paulo. Ao ser perguntado se estava “desencantado” com o momento pelo qual passava o país, respondeu: “Não estou triste nem desencantado, pelo contrário. Estou é encantado, porque vamos nos ver livres dessa raça durante pelo menos 30 anos”. A declaração despertou diversas reações entre políticos, intelectuais e a opinião pública. O então ministro das Relações Institucionais Jaques Wagner, do PT, declarou que Bornhausen é “uma coisa antiga e preconceituosa” e que “poderia processá-lo por racismo e fascismo”. Bornhausen declarou que havia apenas usado uma expressão coloquial e que seu comentário não tinha conteúdo racista.

Em entrevista à revista Veja publicada no início de 2006, Bornhausen voltou à polêmica em torno do emprego do termo “raça”. Afirmou que o termo “não teve nenhuma relação com etnia. Eu me referia aos corruptos ou corruptores que estavam no governo. Mas intelectuais e sindicalistas ideologicamente empedernidos quiseram transformar isso em um ato de racismo e estenderam seu significado como se fosse uma palavra contra a esquerda. O PDT e o PPS são de esquerda e de oposição. Os criadores do PSOL foram expulsos do PT. Nada têm a ver com os corruptos”. Afirmou ainda cultivar uma posição política de centro, considerando impossível serde direita num país não desenvolvido e com os níveis de desigualdade do Brasil. Sobre a suposta responsabilidade do presidente da República nos crimes denunciados no ano anterior, insistiu na estratégia de procurar culpá-lo e de defender a abertura de um processo de impeachment, declarando que “Lula adotou a política do ‘eu não sabia’, na qual ninguém acredita”. Na ocasião, previu que Lula não seria reeleito nas eleições daquele ano.

Nesse período, Bornhausen deixou público que havia decidido não mais disputar eleições. Apoiou nacionalmente a pré-candidatura de César Maia à presidência da República na legenda do PFL. No entanto, Maia acabou desistindo da disputa em março. Por fim, o PFL refez a aliança com o PSDB e mais uma vez apoiou um candidato desse partido para a presidência da República, Geraldo Alckmin.

A previsão de Bornhausen acerca do resultado da eleição presidencial de 2006 não se realizou. Lula foi reeleito presidente da República no segundo turno, contra Geraldo Alckmin. Por outro lado, o senador manteve sua decisão de não se candidatar a cargo eletivo. Em Santa Catarina, junto com o PFL catarinense, apoiou a reeleição de Luís Henrique da Silveira para o governo do estado na legenda do PMDB. Luís Henrique derrotou novamente Amin, candidato do PP, no segundo turno.

Em janeiro de 2007 Bornhausen concluiu seu mandato e deixou o Senado. Em março seguinte, o PFL decidiu mudar seu nome para Democratas (DEM). A proposta de mudança do nome do partido já havia sido cogitada em outras ocasiões, e foi então finalmente concretizada. A iniciativa, que teve Bornhausen como um de seus mentores, procurou sinalizar a renovação e o rejuvenescimento da legenda. Argumentou-se também que o nome que o partido carregava desde 1985 havia sido escolhido originalmente em caráter provisório. Bornhausen seguiu no DEM, mas, no processo de renovação, cedeu a presidência do partido a Rodrigo Maia, sendo empossado no cargo de presidente de honra da agremiação e na presidência da Fundação Liberdade e Cidadania, a ela ligada.

Nas eleições municipais de 2008, o DEM e Bornhausen lançaram César Sousa Júnior como candidato à prefeitura de Florianópolis. Com o candidato próprio ficando em terceiro lugar no primeiro turno, o DEM declarou apoio a Dário Berger, candidato à reeleição, agora no PMDB. Berger foi reeleito no segundo turno, derrotando Esperidião Amin, do PP.

Para a disputa presidencial nas eleições de 2010 foi mantida a aliança PSDB-DEM, com o apoio ainda do Partido Popular Socialista (PPS) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Bornhausen trabalhou pelos candidatos dessa aliança, o ex-governador paulista José Serra e o deputado federal Índio da Costa, do Rio de Janeiro, que acabaram derrotados pelos candidatos da aliança PT-PMDB, Dilma Rousseff e Michel Temer.

Em abril de 2011 foi acusado pelo deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) de manter articulações para destruir a sigla e construir o Partido Social Democrático (PSD), agremiação que estava sendo criada pelo então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, para ser a ponte com o governo do PT. Em maio seguinte desligou-se do DEM, do qual era presidente de honra. Justificou sua atitude argumentando que não havia mais sentido sua permanência no partido, pois o governador Raimundo Colombo, de Santa Catarina, seu chefe político, estava deixando o DEM, acompanhado pelo seu filho Paulo Bornhausen, para ingressar no PSD. Informou que não se filiaria a nenhum outro partido. Na oportunidade, em entrevista ao site do Poder Online, Bornhausen creditou o desgaste do DEM ao chamado “Mensalão do DEM”, que culminou com a cassação de José Roberto Arruda, então governador do Distrito Federal, flagrado quando recebia dinheiro, supostamente de propina, de Durval Barbosa, que integrava o seu secretariado.

Nesse mesmo ano, auxiliou Gilberto Kassab na criação do PSD. Sem mandato e sem filiação partidária, Bornhausen se tornaria, em 2013, um dos mais fortes aliados de Eduardo Campos, candidato do Partido Socialista Brasileiro (PSB) à Presidência da República em 2014. Há muitos anos Jorge Bornhausen havia traçado uma linha de separação dos campos políticos para não haver hipótese de tangenciar o PT, e com ela tem seguido sempre. O PSD passou a integrar a aliança com o PT, portanto, dele se afastou, politicamente, pois já não era filiado. Na verdade, desde que se desfiliou do DEM, Bornhausen não ingressou em nenhum outro partido. Mesmo sem filiação partidária e sem candidatura, estará sempre do lado oposto ao do PT na política e trabalha contra a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

No final de maio de 2013, ao ser perguntado se sua opção por Eduardo Campos seria uma guinada política na sua vida, Bornhausen respondeu se mostrando impressionado com a atuação do então governador de Pernambuco: "Não, não é nenhuma guinada. Ele é um administrador moderno, vem executando suas tarefas tendo sempre em vista o desenvolvimento, o crescimento do seu Estado, utiliza-se de todos os meios modernos de administração, fazendo com que a meritocracia seja um critério integrante do sistema na educação, na saúde, na segurança, admiro seu trabalho. Daí porque, pessoalmente, já fiz a minha opção de voto". Sobre o que vai acontecer com seu grupo, Bornhausen não arriscou prever, ainda. "Cabe ao deputado Paulo Bornhausen escolher o seu caminho. Ele já disse que também não acompanha a candidatura da Dilma. Quanto ao ingresso no PSB, ele recebeu um convite público do governador Eduardo Campos e está examinando, com outros companheiros, essa possibilidade". No dia 30 de agosto seguinte, o deputado federal licenciado, Paulo Bornhausen, seu filho, então secretário estadual de Desenvolvimento Econômico Sustentável no Governo Raimundo Colombo, deixou o PSD, filiou-se ao PSB e assumiu o comando do diretório catarinense do partido.

Em entrevista ao site da Central de Diários do Interior de Santa Catarina em março de 2014, ao ser perguntado sobre quem será o novo presidente da República e o novo governador do seu estado, Jorge Bornhausen mostrou sua convicção de que, no plano nacional, haverá segundo turno e, assim sendo, que for disputá-lo irá derrotar a presidente Dilma Rousseff. Justificou sua convicção com o argumento de que “a economia [está] caminhando de forma negativa, com as contas do governo cada vez mais atrapalhadas em função dos gastos excessivos e desnecessários”. No plano estadual, acredita na reeleição do governador Raimundo Colombo, por achar que “a composição de forças que ele estabeleceu tem densidade eleitoral, a sua administração vai bem. E ainda, por cima, embora respeitados, quer o senador Paulo Bauer (PSDB), quer o ex-deputado federal Claudio Vignatti (PT) não se somam num eventual segundo turno. Porque o PSDB não vota no PT e o PT não vota no PSDB. Portanto, acho que a tarefa da reeleição para o Raimundo está muito mais fácil do que para a presidente Dilma”.

Quanto às possíveis alianças no estado, Bornhausen demonstrou sua crença na possibilidade de que o DEM irá se unir ao PSDB e o PCdoB se aliar ao PT. Já o PDT poderá ir para a aliança com o PT ou apoiar o governador Raimundo Colombo. Perguntado sobre como avalia a candidatura de Aécio Neves à presidência da República, respondeu com o seguinte argumento: “O Aécio foi um bom governador em Minas Gerais e tem uma qualidade inegável: ele sabe delegar a quem tem competência. Tem junto dele, na parte econômica, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que para mim é o melhor economista brasileiro. E também tem aquele que o ajudou a governar Minas, o governador Antônio Anastasia, que eu também considero um excelente administrador e um homem de futuro político. Se ele (Aécio Neves) vier a ser o candidato que irá para o segundo turno, terá meu voto. Mas a minha opção é o Eduardo Campos, que eu acho mais sólido, mais completo, mais maduro. E ambos são jovens. O Eduardo Campos um pouco mais, nem chegou aos 50”, concluiu.

Por último foi-lhe perguntado se ainda havia direita e esquerda no Brasil, e Bornhausen respondeu que “Isso é coisa ultrapassada. Esquerda e direita eram o modo de sentar no Parlamento. Hoje existem conservadores e os que querem avançar. Conservadores são os que querem manter o estado atual, com baixo ritmo da economia, sem se preocupar em melhorar as condições administrativas, sem dar à Educação e à Saúde a prioridade devida. E aqueles que querem o crescimento, o desenvolvimento da Educação, a melhoria da Saúde, são os modernos. Eu defendo os modernos e não os conservadores”, finalizou.

Casou-se com Eudéa Barreto Bornhausen, com quem teve quatro filhos, entre os quais Paulo Roberto Bornhausen, deputado federal pelo PFL de Santa Catarina de 1995 a 1999, deputado estadual de 1999 a 2003 e, novamente, deputado federal a partir de 2007.

Sua biografia, escrita por Luís Gutemberg, foi publicada sob o título Quem é Jorge Bornhausen (2002).

 

 

Fabricio Pereira da Silva/Alan Carneiro

 

 

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