LADARIO PEREIRA TELLES

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Nome: TELES, Ladário
Nome Completo: LADARIO PEREIRA TELLES

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
TELES, LADÁRIO

TELES, Ladário

*militar; comte. III Ex. 1964.

 

Ladário Pereira Telles nasceu em Alegrete (RS) no dia 12 de setembro de 1900. Seu primo, Herculino Cascardo, oficial da Marinha, liderou o levante do encouraçado São Paulo em 1924 contra o presidente Artur Bernardes (1922-1926), foi interventor federal no Rio Grande do Norte de 1931 a 1932 e presidente da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1935.

Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre e sentou praça em fevereiro de 1919, ingressando na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Declarado aspirante-a-oficial da arma de cavalaria em janeiro de 1922, foi promovido a segundo-tenente em abril do mesmo ano e a primeiro-tenente em junho de 1923. Neste último ano fez uma viagem de estudos à França, retornando ao país para servir como instrutor da Escola de Cavalaria. Promovido a capitão em novembro de 1932, a major em agosto de 1940 e a tenente-coronel em dezembro de 1944, exerceu em 1946 o comando do 1º Regimento de Cavalaria. Em dezembro de 1950 atingiu o posto de coronel, passando a servir em 1952 na Diretoria Geral de Ensino do Exército, no Rio de Janeiro. Em 1955 assumiu o comando do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), também na capital federal, sendo promovido em agosto do ano seguinte a general-de-brigada.

Em agosto de 1961, por ocasião da renúncia do presidente Jânio Quadros, Ladário Teles, então comandante do Grupamento de Unidades-Escolas (GUEs) da Vila Militar do Rio de Janeiro, manifestou-se favorável à posse do vice-presidente João Goulart, cujo nome fora vetado pelos ministros Odílio Denis, da Guerra, Sílvio Heck, da Marinha, e Gabriel Grün Moss, da Aeronáutica. Juntamente com mais seis generais também favoráveis à posse de Goulart, entre os quais Osvino Ferreira Alves e Amauri Kruel, Teles pediu ao general João Segadas Viana que transmitisse ao ministro da Guerra a decisão do grupo de acatar a resolução do Congresso, fosse ela qual fosse. Por essa atitude foi afastado do comando do GUEs, voltando a exercer o cargo uma vez superada a crise político-militar em que mergulhara o país. Em 7 de setembro do mesmo ano, Goulart assumiu o governo após difíceis negociações políticas que, através da Emenda Constitucional nº 4, votada cinco dias antes no Congresso, levaram à instituição do regime parlamentarista no país, como forma de contornar o veto dos ministros militares e a ameaça de guerra civil, representada pela resistência de Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul (1959-1961), e do III Exército, que se colocava em seu favor.

Promovido a general-de-divisão em julho de 1962, foi nomeado comandante da 4ª Região Militar (4ª RM), sediada em Juiz de Fora (MG). Passou o comando dessa região militar ao general Olímpio Mourão Filho em agosto do ano seguinte, quando assumiu o comando da 1ª RM, com sede no Rio de Janeiro. Em março de 1964, em meio à radicalização da crise política no país, tentou assegurar o apoio militar ao governo, recomendando ao presidente Goulart uma série de medidas para deter a conspiração nos quadros do Exército. As articulações para a derrubada de Goulart intensificaram-se, entretanto, após a realização do comício popular pelas reformas de base, realizado no dia 13 de março no Rio de Janeiro, com a presença do próprio presidente da República. No dia 22 de março, Ladário Teles compareceu a um jantar oferecido pelo ministro da Justiça, Abelardo Jurema (1963-1964), do qual participaram diversos generais partidários do governo. Nesse jantar foram discutidos o momento político e o estado de saúde do ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, que deveria se submeter a uma intervenção cirúrgica. Ladário Teles recomendou a substituição de Dantas Ribeiro pelo então comandante da Vila Militar, general Oromar Osório, mas sua opinião não foi aceita por Goulart. Examinou-se também, na ocasião, o problema do comando do III Exército, sediado no Rio Grande do Sul, pois os presentes tinham dúvidas quanto à posição de seu comandante, o general Benjamim Rodrigues Galhardo, diante de uma eventual perturbação da ordem institucional. Surgiu então a possibilidade de substituí-lo, tendo Ladário Teles afirmado que aceitaria a designação de seu nome e que precisava manter a Brigada Militar do Rio Grande do Sul sob seu comando. Declarou-se ainda preocupado com a situação paulista, dizendo-se convicto de que o general Amauri Kruel, comandante do II Exército (1963-1966), apoiaria um movimento contra o governo federal.

No dia 24 de março de 1964 participou de nova reunião, à qual estiveram presentes o presidente da República e diversos generais. Na ocasião, foi lida a circular reservada do chefe do Estado-Maior do Exército (EME), general Humberto Castelo Branco (1964), do dia 20 desse mesmo mês, na qual este criticava abertamente o governo e os sindicatos, em particular o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), lançando também apelos aos anticomunistas. Diante dessa situação Goulart comunicou aos militares sua intenção de destituir Castelo Branco e substituí-lo pelo general Benjamim Galhardo. Ladário Teles seria nomeado comandante da 6ª Divisão de Infantaria (6ª DI), assumindo então, como o oficial mais antigo, o comando do III Exército. Com essa nomeação, o presidente afastava o general Adalberto Pereira dos Santos do comando da 6ª DI, uma vez que esse oficial não mais lhe merecia a confiança. Ladário Teles voltou então a manifestar suas preocupações com a situação reinante em São Paulo, onde o governador Ademar de Barros (1963-1966) fazia declarações públicas de caráter subversivo. Sugeriu a Goulart que determinasse ao chefe do Gabinete Militar, Argemiro de Assis Brasil (1963-1964), a tomada das medidas necessárias para que o dispositivo militar do I e do III exércitos pudesse eventualmente ser mobilizado contra São Paulo no caso de uma insurreição promovida pelo Executivo desse estado.

No dia 26 de março, Ladário Teles foi chamado de Friburgo (RJ) ao Rio de Janeiro devido à eclosão da Revolta dos Marinheiros, liderada pelo “cabo” — na verdade, marinheiro —, José Anselmo dos Santos. Os marinheiros sublevados recolheram-se no prédio do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio, onde protestaram contra as punições impostas pelo ministro da Marinha, almirante Sílvio Borges de Sousa Mota (1963-1964), aos dirigentes da associação da categoria e contra a proibição das comemorações do aniversário da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais. Ladário Teles telegrafou então ao presidente da República, que se encontrava em São Borja (RS), solicitando seu imediato retorno à capital federal. A rebelião terminou com a intervenção direta de Goulart, que mandou libertar os amotinados, decisão que levou à renúncia o ministro da Marinha. O comportamento tolerante do presidente acabou por precipitar o movimento político-militar contra o regime, deflagrado em 31 de março de 1964.

Nesse mesmo dia, Ladário Teles foi nomeado comandante do III Exército pelo presidente Goulart. De acordo com seu depoimento a Hélio Silva, publicado no livro 1964: golpe ou contragolpe, Ladário Teles passou o comando da 1ª RM ao general Almeida de Morais, ordenando a imediata prisão do general Castelo Branco, o que acabou não se efetivando. Na madrugada de 1º de abril chegou a Porto Alegre para assumir o comando do III Exército, lançando ordem do dia em defesa do mandato do presidente Goulart, do regime democrático, da legalidade constitucional e da realização das reformas de base. O governador do estado, Ildo Meneghetti (1963-1967), contudo, transferira a sede do governo para Passo Fundo (RS) temendo a ação dos partidários de Goulart. Entretanto, no interior do estado as principais guarnições já haviam aderido à rebelião.

Em seu depoimento, Ladário Teles afirmou que, em contato com o general Pereira dos Santos, insistiu para que este retornasse ao Rio de Janeiro a pedido do presidente da República. Alegando ter uma irmã gravemente enferma, Pereira dos Santos solicitou sua permanência em Porto Alegre, com o que concordou Ladário. Não obstante, segundo esse mesmo depoimento, ainda no dia 1º de abril Pereira dos Santos dirigiu-se a Cruz Alta (RS) ou a Passo Fundo para se reunir aos que já se haviam rebelado contra o governo federal. Ao tomar conhecimento da adesão das tropas paulistas e catarinenses ao golpe, Ladário Teles determinou a mobilização das forças fiéis ao governo. Na manhã do mesmo dia foi procurado pelo então deputado Leonel Brizola, que colocou à sua disposição as emissoras de rádio e de televisão gaúchas para iniciar a propaganda em favor da legalidade. Em contato com o presidente da Petrobras, marechal Osvino Ferreira Alves, Ladário Teles solicitou ainda a remessa de gasolina e óleo para as suas tropas. Diante da negativa do governador gaúcho ao pedido de requisição da Brigada Militar do estado, enviou novo oficio a Meneghetti, solicitando a cessão das tropas estaduais, ao mesmo tempo em que fazia irradiar uma proclamação à Brigada Militar. Na tarde desse mesmo dia, comunicou-se com o general Argemiro de Assis Brasil, afirmando que, apesar das defecções já ocorridas, dispunha ainda de meios para resistir. Logo em seguida comunicou o mesmo a Goulart, que o informou de sua ida, naquele dia ou no seguinte, para Porto Alegre. Ainda nessa tarde, Ladário Teles recebeu o comandante da Brigada Militar gaúcha convocado pela proclamação lançada anteriormente, tendo este afirmado que não poderia colocar-se ao lado do III Exército em virtude de seus compromissos com o governador do estado e que só o faria mediante decreto presidencial. Declarou ainda que, apesar disso, somente atacaria as forças do Exército caso fosse agredido.

Na madrugada de 2 de abril, após afirmar a outros militares que não tomaria conhecimento do anúncio da investidura do general Artur da Costa e Silva como novo ministro da Guerra, Ladário reuniu-se com alguns generais, o deputado Brizola e o presidente, que acabara de chegar a Porto Alegre, para discutirem a situação. Os militares presentes pronunciaram-se contra qualquer resistência, dada a disparidade de forças, no que foram contestados por Brizola e pelo próprio Ladário Teles, tendo este afirmado contar ainda com grande número de tropas fiéis e que a opinião pública nacional poderia ser mobilizada a seu favor. Diante da oposição de Goulart, contrária à resistência, resolveu então determinar as providências relativas à viagem do presidente para o exterior e encerrar suas funções como comandante do III Exército. Em 3 de abril deixou a capital gaúcha e viajou para o Rio de Janeiro a fim de se apresentar ao ministro Costa e Silva, sendo substituído no comando do III Exército pelo general Mário Pope de Figueiredo. Ainda em seu depoimento a Hélio Silva, Ladário Teles justificou sua fidelidade ao presidente da República, destacando seu apreço aos princípios democráticos. “Jamais poderia defender um governo comprometido com o comunismo”, disse o ex-comandante do III Exército, denunciando também a campanha de combate ao comunismo como obra de “pessoas e grupos ligados à espoliação do povo brasileiro pelos interesses estrangeiros”.

No dia 11 de abril de 1964, Ladário Teles foi transferido para a reserva com base no Ato Institucional nº 1 (AI-1). Editado pela junta militar que assumiu o poder após a deposição de Goulart, o AI-1 constituiu o primeiro elemento formalizador das transformações políticas introduzidas pelo movimento de 31 de março, permitindo punições extralegais de adversários do novo regime — cassações, demissões, expulsões —, e determinando a eleição indireta do presidente da República, além de transferir para o Executivo importantes atribuições do Legislativo. Foi reformado por decreto de setembro de 1964.

Em sua carreira militar foi ainda adido militar brasileiro no Paraguai, comandante da 3ª Divisão de Cavalaria, sediada em Bajé (RS), e diretor do Departamento de Produção do Exército. Possuía o curso da Escola de Cavalaria de Saumur, na França, tendo integrado a Comissão Especial para Assuntos do Petróleo, criada no final do governo Goulart.

Faleceu no Rio de Janeiro no dia 4 de dezembro de 1964. Sua morte provocou a reação de diversos inimigos do novo regime, que fizeram publicar no Correio da Manhã de 10 de dezembro do mesmo ano um convite para a missa de sétimo dia com a seguinte assinatura: “Famílias vítimas da atual situação reinante no país, solidarizando-se com a dor que acaba de sofrer a família do saudoso e digno cidadão general Ladário Teles.” Segundo seus familiares, dias antes de morrer teria ele recebido um telefonema informando-o da prisão de Leocádio de Almeida Antunes, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) de 1961 a 1963. Este mesmo telefonema notificou-o também de que sua prisão se efetuaria dali a poucas horas.

Era casado com Celina Nahra Teles, com quem teve um filho.

 

 

FONTES: Correio da Manhã (5/12/64); Correio do Povo (5/12/64); Diário de Notícias, Rio (28/7/62 e 5/12/64); Diário Oficial (11/4/64); Jornal (8/12/64); Jornal do Comércio, Rio (5, 6 e 10/12/64); SILVA, H. 1964; VITOR, M. Cinco.

 

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