LERNER, JAIME

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Nome: LERNER, Jaime
Nome Completo: LERNER, JAIME

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
LERNER, Jaime

LERNER, Jaime

*pref. Curitiba 1989-1993; gov. PR 1995-2003.

 

Jaime Lerner nasceu em Curitiba no dia 17 de dezembro de 1937, filho de Félix Lerner e de Elza Lerner, imigrantes judeus de origem polonesa.

Frequentou o Colégio Estadual de Curitiba e formou-se em engenharia civil em 1961, na atual Universidade Federal do Paraná (Ufpr). No ano seguinte, fez curso de especialização em Paris e em 1964 formou-se em arquitetura e planejamento urbano pela Ufpr. Trabalhou como arquiteto e planejador urbano na Assessoria de Pesquisa e de Planejamento Urbano, equipe encarregada de auxiliar na elaboração do novo Plano Diretor de Curitiba durante a gestão do prefeito Ivo Arzua (1962-1965). Posteriormente, essa assessoria transformou-se no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), do qual Lerner foi um dos fundadores. O IPPUC, criado em dezembro de 1965, desempenhou importante papel no planejamento urbano de Curitiba e se tornou internacionalmente conhecido pelos projetos voltados para o urbanismo e para a melhoria da qualidade de vida dos centros urbanos.

Na segunda metade dos anos 1960, Jaime Lerner foi presidente do IPPUC e professor de planejamento urbano no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná, chefiando o grupo de técnicos encarregado de elaborar e aprofundar as diretrizes estratégicas do plano urbanístico da cidade. Nesse período, exerceu a presidência do Instituto dos Arquitetos do Paraná, ganhou o concurso para a construção do Centro Turístico de San Sebastian (Espanha) em 1968. Integrou ainda a equipe que representou o Brasil na Bienal de Jovens Arquitetos em Paris, França, em 1969, e prestou assessoria para projetos de planejamento urbano em várias cidades do Brasil e no exterior.

Prefeito de Curitiba

A partir de suas atividades como arquiteto e planejador urbano, projetou-se politicamente e foi nomeado prefeito de Curitiba pelo então governador Haroldo Leon Peres, da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do regime militar instaurado no país em abril de 1964. Lerner assumiu o cargo em março de 1971. Mesmo após o afastamento de Haroldo Peres por corrupção, em novembro do mesmo ano, permaneceu na prefeitura nas gestões dos governadores Parigot de Sousa (1972-1973) e Emílio Gomes (1973-1975). Durante sua administração, juntamente com a equipe que trouxe do IPPUC, idealizou e materializou as estratégias de intervenção no espaço urbano previstas no Plano Diretor da cidade, tais como a revitalização dos espaços públicos tradicionais e da área central, a ênfase no transporte coletivo em detrimento dos automóveis com a criação de ônibus expressos em corredores exclusivos (as chamadas vias expressas), os calçadões para pedestres no centro e o aumento das áreas verdes de lazer. Em 1973 criou a Cidade Industrial de Curitiba (CIC), que nos anos seguintes desempenhou papel decisivo na atração de investimentos de indústrias nacionais e estrangeiras para o município e na mudança do perfil econômico do estado.

Em 1974 o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) elegeu a administração de Jaime Lerner a melhor do Brasil, qualificando-a como um modelo a ser seguido. Ainda nesse ano, o Ministério do Interior, ao qual estavam subordinados os principais órgãos federais relacionados à política urbana, encomendou ao Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) um estudo do caso de Curitiba para verificar como sua proposta urbanística pôde ser implementada com sucesso, considerando-se a elevada taxa de fracasso dos planos urbanísticos em outros municípios. Lerner exerceu o mandato até março de 1975, quando foi sucedido na prefeitura pelo engenheiro Saul Raiz (1975-1979), também ligado ao grupo político do ex-governador Ney Braga.

Ao término de sua gestão, não se candidatou a cargos públicos e passou a exercer atividades de consultoria na área de planejamento urbano em várias cidades. Tornou-se também consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) para assuntos de urbanismo. Foi indicado pelo então governador do Rio de Janeiro, Floriano Peixoto Faria Lima (1975-1979), para ser o primeiro presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (Fundrem), órgão coordenador do planejamento urbano do estado. Sua nomeação resultou de uma sugestão feita pelo governo federal, impressionado com o sucesso da administração de Lerner na Prefeitura de Curitiba. Nesse período, foi professor visitante de urbanismo no curso de pós-graduação da Universidade de Berkeley, Califórnia.

Sondado por líderes do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) para aderir ao movimento de oposição ao regime militar, recusou um convite para filiar-se ao partido, feito pelo presidente do diretório regional no Paraná, Euclides Scalco.

Em março de 1979, assumiu seu segundo mandato como prefeito de Curitiba a convite do governador Ney Braga pelo Partido Democrático Social (PDS), sucedendo a Saul Raiz. Deu então continuidade ao modelo de gestão municipal elaborado pelos técnicos do IPPUC em sua primeira administração e preservado por Raiz.

Em novembro de 1982, participou ativamente na campanha eleitoral dos candidatos pedessistas ao governo do Paraná, Saul Raiz, e ao Senado, Ney Braga. Ambos acabaram derrotados respectivamente por José Richa e Álvaro Dias, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Lerner exerceu o mandato até março de 1983 quando passou o cargo para seu sucessor, Maurício Fruet, nomeado pelo governador José Richa.

Após sua saída da prefeitura, filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) a convite do então governador do estado do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, e exerceu ainda as atividades de coordenador estadual de transporte e assessor para questões metropolitanas da cidade. Nessa ocasião, apresentou ao governo do estado um plano de reorganização dos transportes urbanos da cidade do Rio de Janeiro que não chegou, entretanto, a ser implementado.

Nas eleições municipais de 15 de novembro de 1985, as primeiras realizadas nas capitais dos estados após o Ato Institucional nº 2 baixado pelo governo Castelo Branco em outubro de 1965, Lerner concorreu à prefeitura de Curitiba na legenda do PDT, mas foi derrotado por uma pequena margem de votos pelo candidato do PMDB, o então deputado estadual Roberto Requião. A participação do governador José Richa na campanha foi decisiva para a vitória de Requião sobre Jaime Lerner, que liderava as pesquisas de opinião pública até pouco antes da realização do pleito. Em novembro do ano seguinte, sofreu nova derrota eleitoral ao candidatar-se a vice-governador do Paraná na chapa do ex-deputado Alencar Furtado, que concorreu ao governo estadual na legenda da Frente Popular de Oposições, formada pelo Partido Municipalista Brasileiro (PMB), pelo Partido da Frente Liberal (PFL) e pelo PDT.

Em 15 de novembro de 1988, Lerner foi eleito pela primeira vez pelo voto direto para a Prefeitura de Curitiba, por uma coligação oposicionista formada por PDT, PFL e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), derrotando o candidato do PMDB, Maurício Fruet, apoiado pelo governador Álvaro Dias. Lerner, que transferira seu título de eleitor para o Rio de Janeiro, só voltara a cadastrar o documento em Curitiba em julho de 1988, quando faltavam quatro meses para as eleições. Pela legislação em vigor na época, o prazo mínimo de domicílio eleitoral para qualquer candidato seria de um ano. Lerner recorreu ao Tribunal Regional Eleitoral, que lhe deu parecer contrário. No dia 29 de outubro, porém, o caso foi julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a sentença foi favorável, já que pela Constituição promulgada no dia 5 daquele mês, o prazo mínimo de domicílio eleitoral seria de apenas quatro meses. Com a sentença do TSE, Lerner entrou na disputa eleitoral a apenas duas semanas do pleito e venceu por ampla margem de votos. Assumiu o cargo em 1º de janeiro de 1989.

Em seu terceiro mandato, além de obras como a da rua 24 horas, a Ópera do Arame e o sistema de ônibus de linha direta, conhecidos como “ligeirinhos”, implementou o programa Curitiba Capital Ecológica, incluindo pré-seleção e reciclagem de resíduos sólidos urbanos. Criou o projeto Lixo que não é lixo, troca de sacos de lixo por vale-transporte e alimentos e o projeto Câmbio Verde, aumento da área verde por habitante e a criação do Jardim Botânico, onde também foi instalado o Museu de História Natural. Criou ainda a Universidade Livre do Meio Ambiente e o Projeto PIÁ (Programa de Integração da Infância e da Adolescência), destinado a retirar meninos de rua das áreas centrais da cidade.

Em setembro de 1990, durante o Congresso Mundial de Autoridades Locais para um Futuro Sustentável, Curitiba recebeu o prêmio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), um dos principais prêmios internacionais na área de meio ambiente, por seu projeto de reciclagem de lixo. De volta a Curitiba, em reconhecimento à participação da comunidade, Jaime Lerner enviou cópia da premiação a todas as associações de moradores de bairros. Em 1992 a prefeitura de Curitiba foi premiada pelo Instituto Nacional de Conservação de Energia de Washington (EUA) pela implantação do sistema de ônibus expressos na cidade, cuja concepção prioriza o transporte coletivo sobre o individual e permite um consumo de combustível 25% menor do que o transporte de massa em cidades do mesmo porte.

Nesse período Lerner foi sondado por líderes de diversos partidos para candidatar-se à prefeitura de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, em virtude dos altos índices de aprovação obtidos por sua gestão em pesquisas de opinião pública. Nas eleições municipais de 3 de outubro de 1992, elegeu seu candidato logo no primeiro turno, o engenheiro Rafael Greca de Macedo, da equipe do IPPUC. Passou então a ser visto como uma possível alternativa à candidatura de Leonel Brizola nas eleições presidenciais de outubro 1994.

Posteriormente, a derrota de Brizola fortaleceria, dentro do PDT, a posição dos adeptos ao lançamento da candidatura de Jaime Lerner à presidência da República. Ele exerceu o mandato até 1° de janeiro de 1993 e retomou as atividades em seu escritório de arquitetura e urbanismo.

Governador do Paraná

 

Em 3 de outubro de 1994, elegeu-se governador do Paraná apoiado pela coligação formada pelo PDT, PFL, PTB, PSDB e PV, com 2.070.970 votos. Derrotou Álvaro Dias, do Partido Progressista (PP), ainda no primeiro turno e pôs fim a 12 anos de hegemonia política do PMDB no estado. Tomou posse em 1º de janeiro seguinte. Em sua gestão implantou, entre outros, os programas Vila Rural, destinado ao assentamento de trabalhadores rurais volantes, e o Anel Viário de Integração, uma parceria com a iniciativa privada visando à modernização das rodovias estaduais e interligando os principais pólos produtivos do estado. No plano da estratégia de desenvolvimento econômico, com a inserção do Paraná como porta de entrada obrigatória para o Mercosul, foi ainda responsável pela atração de numerosos investimentos externos ao estado, tais como a instalação das montadoras Renault, Audi-Volkswagen, Chrysler Corporation, e das fábricas de motores BMW e Detroit Diesel Corporation, num investimento total de aproximadamente três bilhões de dólares.

Nas eleições para a Prefeitura de Curitiba em outubro de 1996, teve papel decisivo na vitória de seu ex-secretário de Planejamento e sócio em empreendimentos particulares, o engenheiro e ex-presidente do IPPUC Cássio Taniguchi. Em janeiro de 1997, Lerner assumiu a presidência do Conselho de Desenvolvimento e Integração do Sul (Codesul), formado pelos estados de Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nesse período começou a afastar-se politicamente do principal líder de seu partido, Leonel Brizola, aproximando-se do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao manifestar-se favorável às reformas constitucionais em tramitação no Congresso Nacional e à emenda que permitia a reeleição dos chefes do Executivo nas esferas federal, estadual e municipal.

Em setembro de 1997, após ter tido sua entrada no PSDB vetada pelo ex-governador Álvaro Dias e pelo diretório estadual do partido, filiou-se ao Partido da Frente Liberal (PFL) e levou para a legenda cerca de cem prefeitos e vários deputados e secretários estaduais, além de integrantes de sua equipe de governo ligados ao IPPUC. Nesse ano, enfrentou forte oposição dos senadores paranaenses Roberto Requião (PMDB) e Osmar Dias (PSDB), que bloquearam no Senado a liberação de empréstimos para o Paraná, sob a alegação de que os protocolos assinados com as montadoras estrangeiras a serem instaladas no estado eram ilegais, já que os termos do acordo não foram oficializados.

Em outubro de 1998, reelegeu-se no primeiro turno com 2.031.290 votos (52,21% dos votos válidos), apoiado por uma coligação integrada por PFL, PTB, Partido Progressista Brasileiro (PPB), Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido Popular Socialista (PPS) e Partido Liberal (PL), além de agremiações de menor expressão e derrotou o candidato do PMDB, senador Roberto Requião.

 

Segundo mandato no governo do Paraná

Tomou posse de seu segundo mandato em 1º de janeiro de 1999 e deu continuidade às diretrizes de gestão postas em prática em seu primeiro período de governo. Nesse sentido, prosseguiu com a política de desregulamentação e de diminuição da intervenção do Estado na economia paranaense, privatizando ou abrindo o capital de algumas importantes empresas estatais, tais como o Banco do Estado do Paraná (Banestado), vendido ao Banco Itaú em outubro de 2000, a Telecomunicações do Paraná (Telepar), que seria progressivamente privatizada junto com o sistema Telebrás a partir de 1998, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), que teria mais de 50,0% de suas ações vendidas ao capital privado, a Ferroeste (empresa ferroviária estatal que posteriormente seria reestatizada em 2006, durante o governo de Roberto Requião), além da progressiva concessão à iniciativa privada de rodovias paranaenses a partir da formação do Anel de Integração em 1998. Além disso, criou duas empresas para negociar as ações da Copel (Companhia Paranaense de Energia Elétrica) e estimular investimentos privados no Paraná, a Paraná Desenvolvimento S.A. e a Paraná Investimentos S.A. Ambas foram apresentadas como um instrumento complementar ao Fundo de Desenvolvimento Econômico (FDE) para captar recursos juntos ao mercado financeiro, por meio da emissão de títulos públicos e debêntures. A maior parte destas medidas seria anulada ou revertida pelo sucessor de Lerner no governo do estado, Roberto Requião (PMDB), e começaram a provocar o afastamento político de Lerner em relação a alguns setores empresariais paranaenses que defendiam uma forte presença do Estado na economia.

Em maio de 2000, um militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST) foi morto durante um confronto com a polícia na BR 277, rodovia que liga Ponta Grossa a Curitiba. Tal fato provocou grande repercussão no Brasil e em outros países, e intensificou o confronto dos movimentos sociais com o governo Lerner que já vinha da gestão anterior.

Nesse período começou a ser cogitado como pré-candidato à presidência da República para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso, pela coligação PFL-PSDB e por alguns dirigentes de seu partido. Em julho de 2000, promoveu uma reforma no secretariado e nomeou o ex-ministro da Saúde, Alceni Guerra (PFL), como chefe da Casa Civil de seu governo com a missão de articular sua candidatura à presidência da República. Entretanto, as articulações não foram adiante em razão da crise na bancada governista nos dois últimos anos do governo de Fernando Henrique Cardoso, com acentuadas divergências entre o PFL e o PSDB sobre os rumos da sucessão presidencial, e a resistência no interior de seu próprio partido a sua candidatura.  Além disso, os problemas enfrentados por Lerner na segunda metade de seu último mandato também contribuíram para a queda de sua popularidade e o declínio de suas chances como postulante à presidência da República.

Com a proximidade das eleições municipais de 2000, Lerner passou a sofrer acentuado desgaste político e enfrentou forte crescimento dos partidos de oposição, especialmente do Partido dos Trabalhadores (PT) no plano estadual. Esse crescimento repercutiu também na ampliação do movimento oposicionista contra o governo de Fernando Henrique Cardoso no plano nacional. No pleito ocorrido em outubro, teve dificuldades para reeleger o candidato de seu grupo político, o então prefeito de Curitiba Cássio Taniguchi (PFL), que derrotou o candidato petista Ângelo Vanhoni por estreita margem de votos no segundo turno das eleições. No mesmo pleito, o PT ganhou pela primeira vez as eleições nas principais cidades do interior do Paraná tais como Londrina, Maringá e Ponta Grossa.

Durante o ano de 2001, o desgaste político do governo Lerner aprofundou-se com acusações de corrupção a membros de sua equipe de governo, além de greves e manifestações de policiais militares e civis por reajustes salariais. Em abril de 2001, ativistas dos direitos humanos de oito países reuniram-se em Curitiba para acusar o governo do Paraná de praticar uma política de violência no campo. O assunto foi discutido por um “Tribunal Internacional dos Crimes do Latifúndio e da Política Governamental de Violação dos Direitos Humanos no Paraná", presidido pelo então vice-prefeito de São Paulo e jurista Hélio Bicudo (PT). Durante o evento foi promovido um julgamento simbólico do governo do Paraná, acusado pelos organizadores de responsabilidade em 16 assassinatos de trabalhadores rurais ocorridos durante sua gestão.

Entretanto, o fato mais importante que iria intensificar o desgaste político de Lerner e de seu grupo nos últimos anos de seu governo, foi a tramitação do projeto de iniciativa popular para impedir a venda da Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel), empresa estatal incluída no programa de privatizações de Jaime Lerner. O movimento em torno da coleta de assinaturas para o envio do projeto culminou com a realização de uma marcha contra a venda da Copel, em junho de 2001, que reuniu cerca de três mil pessoas e resultou na entrega do projeto de iniciativa popular ─ com cerca de cento e quarenta mil assinaturas ─ ao presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), Hermas Brandão (PTB). Apesar da mobilização da coleta de assinaturas necessárias ao envio da proposição para o legislativo estadual paranaense, inclusive com a invasão da ALEP por membros do movimento durante a votação ocorrida em plenário, o projeto acabou sendo derrotado por 27 votos contra 26 no dia 20 de agosto. Entretanto, apesar da derrota do projeto, a privatização da empresa estatal paranense acabou não se consumando. Em janeiro de 2002, Lerner seria obrigado a cancelar oficialmente a venda da Copel, em virtude dos atentados de 11 de setembro de 2001 e a subsequente falta de compradores nos dois leilões internacionais realizados com empresários do setor privado. O fato foi interpretado pela opinião pública como uma vitória do movimento contra a privatização da companhia.

No final de 2001 e início de 2002, Lerner também enfrentou um intenso movimento grevista dos professores das universidades estaduais paranaenses que durou cinco meses e culminou com intensas manifestações dos grevistas em frente ao Palácio do Iguaçu, sede do governo do estado. Em setembro de 2002, afastou-se por um curto período do governo para trabalhar na campanha de seu candidato ao governo estadual, Beto Richa (PSDB), que terminou em terceiro lugar atrás de Roberto Requião (PMDB) e Álvaro Dias (PDT). No segundo turno das eleições, vencido por Requião com 55,2% dos votos válidos, Lerner permaneceu neutro e não declarou apoio a nenhum dos dois candidatos, visto que ambos se posicionaram contra a política do governo do estado durante a campanha eleitoral.

Em novembro, Lerner inaugurou o Novo Museu de Arte e Arquitetura de Curitiba. Também conhecido como “Museu do Olho”, foi projetado por Oscar Niemeyer e recebeu posteriormente o nome do arquiteto. 

Ao longo de suas duas gestões, o Paraná passou por acentuada transformação socioeconômica. O estado deixou de ser predominantemente agrícola para contar com um avançado parque industrial e tornou-se o segundo maior pólo automobilístico do país. Além disso, cerca de US$ 20 bilhões em investimentos industriais privados foram aplicados no Paraná, sendo criados aproximadamente setecentos mil empregos diretos e indiretos. Embora produzisse resultados econômicos substanciais, alterando o perfil econômico do estado, muitos aspectos da gestão de Lerner foram criticados por seus opositores, tais como as privatizações de empresas estatais, a terceirização de serviços públicos para empresas privadas, os altos gastos em publicidade e propaganda, assim como as altas tarifas de pedágio cobradas por empresas concessionárias de estradas estaduais. Esse fato provocou a criação de cinco comissões parlamentares de inquérito (CPIs) na Assembleia Legislativa do Paraná, logo após a sua saída do governo, tais como as CPIs do Pedágio, do Banestado, da Copel, dos Jogos da Natureza e do Paraná Cidade. Entretanto, em nenhuma delas foram encontradas evidências de irregularidades cometidas por Jaime Lerner e seus assessores durante suas duas gestões no governo do estado. Deixou o governo em 1° de janeiro de 2003.

Como governador foi convidado pelo secretário-geral das Nações Unidas, Boutros Ghali, para coordenar a Comissão Latino-Americana e do Caribe encarregada de elaborar relatório apresentado na II Conferência das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (Hábitat II), realizada em julho de 1996, em Istambul, na Turquia. O relatório teve vários de seus pontos incluídos na Carta de Istambul, documento que reuniu sugestões para o desenvolvimento urbano autossustentável no final do século XX. Ainda durante sua gestão, recebeu o Prêmio René Dubois em Nova Iorque, entregue às administrações públicas que fornecem soluções criativas às necessidades da sociedade do mundo moderno sem apresentar prejuízos ao meio ambiente. Recebeu ainda o Prêmio Criança e Paz do Unicef em 1996 pelos seus programas Da rua para a escola, Protegendo a vida e Universidade do professor.

Ainda no exercício de seu mandato de governador, foi eleito, em julho de 2002, presidente da União Internacional dos Arquitetos (UIA) por um período de três anos. Sua principal plataforma foi o programa Celebração das Cidades, convocando todas as nações e culturas do planeta à proposição de soluções para as suas cidades. Lerner foi o primeiro latino-americano a presidir a entidade, sediada em Paris e representativa de cerca de 1,5 milhões de profissionais de 98 países associados. Em abril foi fundador e presidente da empresa Jaime Lerner Arquitetos Associados, situada em Curitiba e com o objetivo de prestar consultoria para projetos nas áreas de arquitetura e planejamento urbano. No final de setembro, filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) e transferiu seu domicílio eleitoral para o Rio de Janeiro. Chegou a ser cogitado como candidato à prefeitura da cidade pelo partido no pleito de outubro de 2004. Entretanto, as articulações políticas não prosperaram e Lerner continuou a desenvolver projetos para a prefeitura do Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras. Em abril de 2005, Jaime Lerner participou da iniciativa do Simpósio de Trânsito Rápido de Ônibus na China para promover seu projeto curitibano em demais cidades, que causou forte impacto nos prefeitos e planejadores urbanos chineses.

Em junho de 2006, juntamente com outros correligionários do PSB, declarou apoio ao candidato para o governo do estado Osmar Dias (PDT), que seria derrotado pelo governador reeleito, Roberto Requião (PMDB), por estreita margem de votos no pleito de outubro de 2006.  Em março de 2008, filiou-se novamente ao Democratas (DEM), criado a partir da refundação do PFL, e transferiu seu domicílio eleitoral para Curitiba. Em outubro do mesmo ano, lançou em Curitiba o Dock Dock, um carro elétrico destinado a circular em faixas compartilhadas com pedestres, bicicletas e locais onde o trânsito de automóveis é restrito.

Proferiu palestras e cursos nas universidades de Cincinnati, Colúmbia (Nova Iorque, EUA), Osaka (Japão), Berkeley (como regent lecturer) e seminários em diversos países. Participou também de reuniões na Academia de Ciências de Nova Iorque (Megacidades e tecnologias inovadoras), na Smithsonian Institucional, em Washington (Repensando a cidade latino-americana), e no Conselho Nacional de Tecnologia do Congresso dos Estados Unidos (Novos rumos em tecnologia e infraestrutura), copatrocinado pela Universidade de Nova Iorque. Jaime Lerner foi também membro da Comissão Nacional de Regiões Metropolitanas e Política Urbana, conselheiro do Banco Nacional da Habitação (BNH) e recebeu ainda a insígnia Colar de Ouro do Instituto dos Arquitetos do Brasil, a mais alta honraria conferida por aquela instituição. Recebeu ainda os prêmios Hábitat Scrool of Honor, Tree of Learning, da União Internacional para a Conservação da Natureza, e o título de doutor honoris causa da Universidade Técnica da Nova Escócia (Canadá), entre outros. É membro honorário do Real Instituto dos Arquitetos do Canadá e do Instituto Americano de Arquitetos, e consultor das Nações Unidas para assuntos de urbanismo. Criou e assessorou a implementação de programas de transporte e desenvolvimento urbano em cidades brasileiras, tais como Recife, Salvador, Goiânia, Campo Grande, Aracaju, João Pessoa, Niterói (RJ) e São Paulo.  Elaborou programas semelhantes para Caracas (Venezuela) e San Juan (Porto Rico). Em 1997, ganhou a medalha da Fundação Thomas Jefferson de Arquitetura, em Virgínia, EUA. Ganhou ainda os prêmios Príncipe Claus da Fundação Príncipe Claus para Cultura e Desenvolvimento (Holanda) em 2000, o prêmio Pioneiro 2001 do Conselho Internacional de Comunidades com Visão Solidária (ICCC-USA), o prêmio The 2001 World Technology Award for Transportation do The National Museu of Science and Industry (Londres), o prêmio The Sir Robert Mathew Prize for the Improvement of Quality of Human Settlements, pela União Internacional de Arquitetos (UIA) em 2002 e o 2004 Volvo Environment Prize.

Viúvo de Fani Lerner, com quem teve duas filhas. Fani foi secretária municipal do Menor na terceira gestão de Jaime Lerner na Prefeitura de Curitiba (1989-1993), e secretária estadual da Criança e Assuntos da Família em suas duas gestões no governo estadual (1995-2003).

Publicou diversos trabalhos nas áreas de arquitetura e urbanismo destacando-se: Grupo de risco (Editora Igel, 1990), Acupuntura urbana (Editora Record, 2003) e O vizinho: parente por parte de rua (Editora Record, 2005).

 

Sérgio Soares Braga

 

 

FONTES: CURRIC. BIOG.; Estado de S. Paulo (17/11/82); Estado do Paraná (16/3/71, 23/11/88, 14/12/89, 24/12/94, 1/1 e 9/7/95, 18/10/97); FARIA, E. & SEBASTINI, S. Governadores; FLEISCHER, D. Lãs consequencias; Folha de S. Paulo (15/3/98); Gazeta Mercantil (8 e 24/4 e 28/8/97); Globo (29/3/96); Istoé (8/4/92); Jornal do Brasil (15/9/87 e 29/3/98); OLIVEIRA, D. A política; Veja (10 e 31/8/83, 25/1/84, 15/5/85, 16/11/88, 1 e 29/4 , 12/8 e 16/12/92, 31/3 e 28/4/93, 14/9, 12/10/94, 4/1/95, 17/12/97, 7/1 e 4/2/98); http://www.tse.gov.br/ (último acesso em 12/10/09); http://www.parana-online.com.br/ (último acesso em: 12/10/009); http://www.folha.uol.com.br/ (último acesso em: 12/10/09); http://veja.abril.com.br/ (último acesso em: 14/10/09); http://www.terra.com.br/istoe/  (último acesso em: 14/10/09); http://www.jaimelerner.com/ (último acesso em: 14/10/09); DÓRIA, Pedro. (2002). Jaime Lerner: liderança, autoridade e contexto político. Curitiba: Juruá Editora.

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