LORSCHEIDER, ALUISIO

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Nome: LORSCHEIDER, Aluísio
Nome Completo: LORSCHEIDER, ALUISIO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
LORSCHEIDER, ALUÍSIO

LORSCHEIDER, Aluísio

*religioso; sec.-ger. CNBB 1968-1971; pres. CNBB 1971-1979.

 

Aluísio Lorscheider nasceu no município de Estrela (RS), no dia 8 de outubro de 1924, filho de José Aluísio Lorscheider e Verônica Gerhardt. Seu primo, dom Ivo Lorscheiter, também religioso, foi secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) entre 1971 e 1979 e presidente da entidade de 1979 a 1987.

Aos nove anos, Aluísio ingressou no seminário franciscano de Taquari (RS), onde fez seus primeiros estudos. Mais tarde foi para o convento franciscano de Divinópolis (MG), onde estudou teologia e concluiu o curso de filosofia. Em agosto de 1948 foi ordenado sacerdote da Ordem dos Frades Menores de São Francisco. Retornou em seguida a Taquari, onde lecionou latim, alemão e matemática. Em 1949 foi enviado para Roma por seus superiores, tendo feito o doutorado em teologia dogmática no Pontifício Ateneu Antonianum, defendendo a tese A presença do Espírito Santo nos pescadores membros da Igreja. De volta a Taquari em 1952, foi mais tarde transferido para Divinópolis. No final de 1958 foi convidado para lecionar teologia dogmática no Antonianum, em Roma. Encontrava-se na Santa Sé quando, em fevereiro de 1962, foi nomeado bispo de Santo Ângelo (RS).

 

Secretário-geral da CNBB (1968-1971)

Em 1968, dom Aluísio foi eleito secretário-geral da CNBB, entidade máxima da Igreja no país, durante a presidência de dom Agnelo Rossi, cardeal-arcebispo de São Paulo, em substituição a dom José Gonçalves da Costa.

Assumiu o cargo num momento conturbado da vida política brasileira, pouco antes da implantação do Ato Institucional nº 5 (13/12/1968), que introduziu no país as mais severas medidas de exceção desde a deposição do presidente João Goulart em março de 1964. No primeiro ano do seu secretariado, o marechal Artur da Costa e Silva foi afastado da presidência da República em virtude do agravamento de seu estado de saúde, no final de agosto de 1969. A chefia do governo foi exercida temporariamente por uma junta militar formada pelos ministros do Exército, general Aurélio de Lira Tavares, da Aeronáutica, brigadeiro Márcio de Sousa e Melo, e da Marinha, almirante Augusto Rademaker. O afastamento de Costa e Silva abriu caminho para que as forças civis e militares identificadas com o endurecimento do regime pudessem se fortalecer. No dia 3 de setembro, o secretário-geral da CNBB declarou que a Igreja não devia se pronunciar sobre o afastamento do presidente, pois “o momento pertencia aos militares e aos políticos, responsáveis pela tranqüilidade do país”. No final do mês, todavia, durante reunião ordinária da CNBB, foi aprovado por unanimidade um documento que refletia as preocupações da Igreja com o momento político. Nele os bispos se manifestavam contra a pena de morte recém-introduzida no país por ato institucional e pediam a volta do estado de direito, com o funcionamento dos órgãos legislativos e judiciários e com a elaboração de uma constituição eficaz.

Em 30 de outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici foi empossado na presidência da República. Ao recurso à luta armada por organizações de esquerda, o regime militar respondeu com a intensificação da repressão, com a prática generalizada de torturas de presos políticos, detenções arbitrárias — inclusive, de padres e leigos ligados a organismos religiosos — e desrespeito às liberdades individuais. Segundo a revista Veja, alguns sacerdotes foram presos em setembro de 1970, durante a perseguição a que foram submetidos os padres ligados à Juventude Operária Católica (JOC), considerados subversivos pelas autoridades. No mês seguinte, forças de segurança invadiram o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (Ibrades), órgão ligado à Igreja, detendo dom Aluísio. O episódio provocou enérgico protesto da CNBB e motivou a criação de um fórum para discussão de temas como censura e repressão, do qual participaram a cúpula da Igreja Católica e oficiais das forças armadas, como uma tentativa de conter a rápida deterioração das relações Igreja-Estado. O fórum foi proposto por Cândido Mendes de Almeida, ex-secretário-geral da seção brasileira da Comissão Pontifícia Justiça e Paz, organização que desempenhou importante papel na defesa dos direitos humanos na década de 1970, e nesta época, assessor da CNBB.

O Encontro Bipartite, assim denominado, reuniu secretamente, de um lado, religiosos procedentes de diferentes correntes ideológicas da Igreja, conhecido como “Grupo Religioso”, cujos principais participantes foram dom Aluísio, dom Ivo Lorscheiter, crítico feroz da política econômica e social da ditadura, dom Avelar Brandão Vilela, cardeal-arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, e dom Lucas Moreira Neves, bispo-auxiliar na arquidiocese de São Paulo. De outro lado, representantes do governo militar, o chamado “Grupo da Situação”, formado por oficiais de patentes inferiores, militares do Serviço Nacional de Informações (SNI) e do Centro de Informações do Exército (CIE) e civis pró-regime, coordenado pelo chefe do Estado-Maior do Exército (EME), general Antônio Carlos da Silva Murici, integrante de uma corrente nas forças armadas que apoiava as medidas anti-subversivas, mas não a tortura. Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Fernando Gomes, arcebispo de Goiânia e fundador da Comissão Pastoral da Terra, dom Vicente Scherer, cardeal-arcebispo de Porto Alegre e dom Eugênio Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, também compareceram a algumas reuniões.

De acordo com estas revelações, feitas pelo brasilianista Kenneth P. Serbin, estudioso da história da Igreja no Brasil, que teve acesso aos documentos pessoais do general Murici, apesar das divergências doutrinárias, o denominador comum da Bipartite era evitar o conflito. Desta forma, o Grupo Religioso moderava suas críticas públicas ao regime em troca de entendimentos reservados. Ao mesmo tempo, intensificava o empenho na defesa dos direitos humanos, exigindo informações sobre prisões, desaparecimento de presos políticos e outros excessos cometidos pelo aparato repressivo do Estado.

A história da Bipartite revela que nos primeiros encontros de uma série de 24, os dois lados se instruíram reciprocamente sobre as respectivas posições, discutindo o teor de documentos episcopais sobre direitos humanos e desigualdades sociais. Tentaram solucionar o conflito entre o ativismo social das bases, inspirado pela Teologia da Libertação, e a repressão amparada pela doutrina de segurança nacional. Ao comentar as declarações de Serbin, dom Aluísio afirmou que tentativas de entendimento entre representantes da CNBB e escalões inferiores das forças armadas já ocorriam em 1969, contando também com a participação de empresários. Ao final do mandato do presidente Médici, em 1974, a Bipartite deixaria de se reunir.

 

Na presidência da CNBB (1971-1979)

 

Com a transferência de dom Agnelo Rossi para Roma, em fevereiro de 1971, realizaram-se eleições na CNBB. Para a presidência da entidade foi eleito dom Aluísio, que obteve 105 votos contra os 65 dados a dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre e candidato da corrente conservadora. O cargo de secretário-geral coube a seu primo, o bispo-auxiliar da arquidiocese de Porto Alegre, dom Ivo Lorscheiter. A eleição dessa diretoria, apoiada pela ala mais progressista da Igreja, refletiu o descontentamento da maioria dos bispos com o regime político vigente, bem como a preocupação do episcopado em preservar a autonomia da Igreja frente ao Estado

Ainda em fevereiro de 1971 faleceu o cardeal dom Jaime de Barros Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro. Dom Aluísio, ao lado de dom Avelar Brandão, arcebispo de Teresina, era considerado pelos observadores um de seus mais prováveis sucessores. O escolhido para o cargo, no entanto, foi dom Eugênio Sales.

Durante o ano de 1971, dom Aluísio continuou se manifestando contra a pena de morte, tendo também denunciado as atividades do Esquadrão da Morte, grupo paramilitar responsável por diversas execuções sumárias, principalmente na Baixada Fluminense. Em março do ano seguinte, os bispos da região Centro-Oeste reunidos na CNBB repudiaram a invasão de uma propriedade da diocese de São Félix do Araguaia (MT), ocorrida em represália à atuação do bispo dom Pedro Casaldáliga, que denunciara a ação dos grupos pecuaristas instalados na região. Esses grupos, com a ajuda da polícia, haviam tentado expulsar os habitantes de um vilarejo localizado em terras concedidas pelo governo para a implantação de um projeto pecuário. Em junho de 1972, em assembléia dos bispos da região Sul II, realizada em Brodósqui (SP), foi lançada a mais categórica declaração da Igreja contra a prática da tortura no Brasil.

Dois outros documentos denunciando a situação de miséria e de opressão a que estavam sujeitas as populações locais foram lançados pelos bispos do Nordeste e da região Centro-Oeste no ano de 1973, respectivamente Eu ouvi os clamores do meu povo e Marginalização de um povo.

Em março de 1973, dom Aluísio foi nomeado arcebispo de Fortaleza pelo papa Paulo VI. Durante a XIV Assembléia Geral da CNBB, realizada em novembro de 1974, dom Aluísio foi reeleito para a presidência da entidade, derrotando por maioria absoluta dom Avelar Brandão, arcebispo de Salvador, com 131 do total de 210 votos. A vice-presidência foi ocupada por dom Geraldo Fernandes, bispo de Londrina (PR), e para a secretaria geral foi reeleito dom Ivo Lorscheiter, bispo de Santa Maria (RS). Além da presidência da CNBB, dom Aluísio assumiu, no final de 1975, a presidência da Conferência Episcopal Latino-Americana (Celam), organismo constituído por todos os bispos latino-americanos e responsável pelas diretrizes do trabalho pastoral no continente. Dom Aluísio, que ocupava anteriormente a primeira vice-presidência da Celam, substituiu o argentino, dom Eduardo Pironio, que deixou o cargo por ter sido designado para Roma. Em maio de 1976, foi sagrado cardeal.

Em fevereiro de 1977, realizou-se em Itaici (SP) a XV Assembléia Geral da CNBB, da qual participaram 240 bispos que reafirmaram, no documento Exigências cristãs de uma ordem política, os princípios básicos da doutrina social da Igreja. As posições favoráveis à participação do povo na vida política do país e à defesa dos direitos básicos da pessoa humana expressavam o ponto de vista de numerosos religiosos que se colocavam ao lado das lutas populares. Desse modo, o documento significou também o aval da CNBB à linha pastoral adotada por esses padres e freiras.

Nesse período, um grande número de religiosos que vinha prestando apoio aos movimentos de reivindicação populares foi alvo de perseguições e acusações, oriundas principalmente de setores ligados ao governo, mas algumas vezes de setores da própria Igreja. Esse foi o caso dos bispos de Goiás Velho (GO), dom Tomás Balduíno, e de São Félix do Araguaia (MT), chamados de comunistas pelo arcebispo de Diamantina (MG), dom Geraldo Proença Sigaud, em entrevista à imprensa em fevereiro de 1977. Em maio, após regressar de Roma, dom Aluísio referiu-se ao incidente — que provocara manifestações de solidariedade do episcopado aos bispos atingidos — afirmando que fora surpreendido com a publicação, na imprensa, dos documentos enviados por dom Sigaud à Santa Sé, contendo as acusações aos dois bispos. Declarou ainda que a questão extrapolara a competência da CNBB e passara para a responsabilidade da Santa Sé, devendo, portanto, ser avaliada e resolvida pelo próprio papa Paulo VI.

Em outubro do mesmo ano, realizou-se em Roma o V Sínodo dos Bispos — cujo tema foi a catequese —, durante o qual dom Aluísio foi reeleito membro de seu conselho permanente. A respeito desse encontro, declarou na ocasião que os bispos brasileiros insistiram “na catequese autêntica, em harmonia com o temporal e o social” e na importância de sua prática em pequenas comunidades — as comunidades eclesiais de base (CEBs) — prática então aceita mas denominada por alguns bispos no sínodo anterior como “coisas do demônio”.

Ainda em Roma, dom Aluísio foi abordado pela imprensa brasileira sobre sua intenção de dialogar com o senador Petrônio Portela, do partido governista, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), que vinha estabelecendo contatos com setores expressivos da sociedade civil no sentido de obter apoio para o projeto de redemocratização proposto pelo general Ernesto Geisel. Nessa ocasião, reiterou sua disposição ao diálogo, ressalvando porém que ele deveria ser estabelecido com a própria CNBB, “o interlocutor ideal para falar em nome da Igreja brasileira”.

Em novembro, durante o V Encontro de Dirigentes Nacionais de Igrejas Cristãs, realizado em São Paulo, dom Aluísio anunciou que trataria da situação dos bispos de Conceição do Araguaia (PA) e de Marabá (PA), respectivamente dom Estevão Avelar e dom Alano Pena, no encontro com o senador Portela, que iria ocorrer afinal em janeiro de 1978. Esses bispos estavam sendo indiciados em inquérito policial-militar (IPM), na Auditoria Militar de Belém, acusados de fomentar a luta de classes no campo. Na ocasião, reafirmou o desejo de ver seguidos os princípios do documento Exigências cristãs de uma ordem política, destacando que a Igreja em si “tem muito pouco a reivindicar”, preocupando-se mais em ajudar “o povo e o país a encontrarem uma estrada justa”.

Comentando na imprensa o processo de distensão encaminhado pelo presidente Geisel, dom Aluísio advertiu, em janeiro de 1978, que “reformas políticas, para serem autênticas, incluiriam necessariamente a anistia”. Na mesma ocasião, defendeu “a restauração plena do habeas-corpus”, ao mesmo tempo em que aconselhava “o estabelecimento de instrumentos jurídicos que evitassem que essa restauração derivasse em impunidade total”. Admitiu que “na conjuntura de nossa atual vida nacional, não se pode perder de vista que o Estado tem direito a salvaguardas adequadas”, cabendo porém defini-las. Defendeu também “a participação política da Igreja, embora apartidária”, afirmando ainda que “a sociedade defendida pela Igreja, em termos políticos, se traduz na participação responsável, direito e dever de todos, sem a qual surge a marginalização”.

Dom Aluísio fez a apresentação do livro A política no mundo de hoje — o povo reunido, refletindo a política feita pelo povo, distribuído em março pela arquidiocese de Fortaleza. Nela afirmava que “o Estado deve estar a serviço das pessoas e não as pessoas a serviço do Estado”. A publicação integrava a coleção Do Povo para o Povo e era uma seqüência do ABC das eleições, lançado pela Regional Nordeste-1 da CNBB, constituída pelas províncias eclesiásticas do Ceará, Piauí e Maranhão. Publicado num ano eleitoral e escrito em linguagem popular, o livreto se destinava “a ajudar todos os brasileiros no cumprimento dos deveres mais importantes”, entre os quais “o de tomar parte na vida política do país”.

Com a morte do papa Paulo VI, em agosto de 1978, foi organizado no mesmo mês um conclave para a escolha de seu substituto. Em 3 de setembro, foi eleito dom Albino Luciani, com o título de João Paulo I. Dom Aluísio Lorscheider chegou a ser cogitado como sucessor de Paulo VI, tendo recebido 12 votos num dos escrutínios, um dos quais dado pelo próprio Albino Luciani. Dias depois o papa recém-eleito faleceu e foi organizado um novo conclave que elegeria em outubro o novo papa: o cardeal polonês Karol Wojtyla, que se tornou João Paulo II. Também dessa vez o cardeal Lorscheider figurou na lista dos papabili.

Pouco depois, foi confirmada pelo novo papa a indicação de dom Aluísio para presidir a III Conferência do Episcopado Latino-Americano (III Celam), ao lado do ex-núncio apostólico do Brasil, dom Sebastiano Baggio, e do mexicano Ernesto Corripio Ahumada. Os resultados do encontro, que reuniria bispos delegados de todos os países da América Latina, eram esperados com grande expectativa em virtude da repercussão que necessariamente teriam nas diretrizes dos trabalhos pastorais. Os setores mais progressistas da Igreja ansiavam por uma confirmação dos princípios firmados em Medellín, na Colômbia, durante a II Celam, baseados na opção preferencial pelos pobres, fundamento da doutrina social da Igreja que ficou conhecida como Teologia da Libertação. Ainda em 1978, dom Aluísio deixou a presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano.

Às vésperas da III Celam, dom Aluísio apontou os novos aspectos introduzidos nas sociedades latino-americanas desde Medellín, em 1968. Por um lado, a emergência das (CEBs) representando “a saída de uma era individualista para o espírito comunitário”; e por outro, “o acréscimo de poder de dominação, para garantir elementos econômicos considerados indispensáveis ao desenvolvimento”, assim como o “recrudescimento do fenômeno militarista, responsável pela doutrina de segurança nacional”. Realizado o encontro, em Puebla, no México, entre os meses de janeiro e fevereiro de 1979, as teses de Medellín foram confirmadas pelos setores progressistas da Igreja.

Ainda em janeiro de 1979, realizaram-se novas eleições para a presidência da CNBB, tendo dom Ivo Lorscheiter sido eleito presidente e dom Luciano Mendes de Almeida, bispo auxiliar de São Paulo, secretário-geral. Terminada sua gestão à frente da CNBB, dom Aluísio retomou o trabalho pastoral na arquidiocese de Fortaleza.

 

A redemocratização

 

Em 15 de março de 1979, ao tomar posse na presidência da República, o general João Batista Figueiredo reiterou seu propósito de promover o retorno do país à normalidade democrática. Paralelamente, intensificaram-se os movimentos reivindicatórios populares, destacando-se as greves sindicais, especialmente as dos operários metalúrgicos da região do ABC de São Paulo — Santo André, São Bernardo e São Caetano. Esses movimentos grevistas contavam com o apoio de religiosos ligados ao trabalho pastoral.

Em outubro, dom Aluísio afirmou serem legítimas as reivindicações dos que reclamavam o “salário mínimo vital, abaixo do qual não é possível a um homem alimentar sua esposa e seus filhos”. Segundo o cardeal, “a greve não se justifica só pela sua eficácia, mas sim pelo fim, e este objetivo deve ser justo”. Chamou atenção ainda para o direito legítimo dos trabalhadores de exigir a observância das leis trabalhistas, utilizando para tanto o recurso da greve.

Nesse mesmo mês, participou do sínodo dos bispos, convocado pelo papa João Paulo II, em Roma. Nessa ocasião especulava-se sobre a possibilidade de sua transferência para a Santa Sé, nomeado para um cargo no Secretariado do Vaticano. Tal fato não ocorreu, mas dom Aluísio foi escolhido para integrar a comissão de 12 membros encarregada da secretaria geral do próximo sínodo, marcado para 1983.

Ao retornar ao Brasil, tomou conhecimento da medida de expulsão do país tomada pelo governo contra o padre italiano Vito Miracapillo, pároco na diocese de Palmares (PE). O motivo fora a recusa do padre em celebrar missa comemorativa do dia nacional da Independência, alegando, entre outros fatores, “que o povo pobre e oprimido da região não gozava de um mínimo de independência”. Nessa época, as relações entre a Igreja e o Estado no Brasil encontravam-se tensas, devido à divulgação do projeto do governo conhecido como Estatuto dos Estrangeiros — um conjunto de normas reguladoras das atividades públicas dos estrangeiros no Brasil, que afetava particularmente a autonomia dos missionários religiosos. Em defesa do padre Vito, dom Aluísio afirmou que “a Lei dos Estrangeiros não correspondia ao sentimento nacional do Brasil nem àquele espírito de simpatia e hospitalidade de que o nosso país gozava no mundo inteiro”.

Por essa época, dom Pedro Casaldáliga mais uma vez estava sendo alvo de acusações através de panfletos distribuídos na capital cearense. Dom Aluísio colocou-se a favor do bispo de São Félix do Araguaia, em nota lançada em novembro e distribuída pelo serviço de comunicação social da arquidiocese de Fortaleza. Ao final de 1979, as relações entre a Igreja e o Estado tornaram-se ainda mais tensas, em grande parte devido à aprovação do Estatuto dos Estrangeiros, ocorrida em agosto. Em dezembro, dom Aluísio assinou um artigo afirmando que o diálogo da Igreja com o governo era sempre desejável mas jamais seria possível “um sim por parte da Igreja ao sistema socio-político-econômico reinante entre nós”.

Novas greves de operários metalúrgicos ocorreram no ABC paulista no início de 1980, com forte repressão policial. Em março, 11 dos 13 sindicalistas — entre os quais Luís Inácio da Silva, o Lula — incursos na Lei de Segurança Nacional por ocasião das greves, foram condenados pela 2ª Auditoria Militar. Dom Aluísio defendeu os líderes sindicais, afirmando que eles tinham exercido um direito legítimo quando se empenharam na defesa dos direitos dos operários.

Participando do IV Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, realizado em abril, declarou que essas comunidades representavam “a renovação total da Igreja”. Disse ainda que “há nas comunidades eclesiais de base uma consciência crítica que leva ao amadurecimento do povo para se marchar para uma verdadeira democracia”. Referindo-se ao desejo de participação popular manifestado durante o encontro, alertou “para o perigo de uma convulsão social no país no caso de não se criarem mecanismos de participação do povo nas decisões que dizem respeito a toda nação”. Condenou também as fórmulas para a resolução do problema do desemprego que implicassem redução do salário, afirmando que era justamente neste ponto que se deveria reexaminar o nosso modelo econômico-político, “para que a sociedade brasileira pudesse realmente satisfazer todas as aspirações legítimas do povo”.

Em meados de 1980, encontrando-se já criados quase todos os partidos políticos surgidos com a extinção do bipartidarismo, ocorrida em 29 de novembro de 1979, voltava-se a atenção para o processo de filiação partidária e de formação das bases eleitorais. Religiosos e leigos ligados aos trabalhos pastorais de várias dioceses iniciaram a elaboração das chamadas cartilhas de educação política, visando esclarecer o povo acerca do momento político e das opções partidárias. Essa iniciativa não foi bem vista pelos setores ligados ao governo. Defendendo as cartilhas, cuja primeira divulgação se dera em Fortaleza, dom Aluísio declarou em setembro que elas não visavam a política partidária, mas sim “uma orientação para que os fiéis pudessem, com maior consciência, exercer a sua atividade política, com espírito realmente cristão”.

Em maio de 1982, criou o Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH) da arquidiocese de Fortaleza.

Em setembro de 1984, dom Aluísio, acompanhado de dom Paulo Evaristo Arns e do presidente da CNBB, dom Ivo Lorscheiter, solidarizaram-se com o teólogo brasileiro Leonardo Boff, que fora acusado pela Santa Sé de cometer erros teológicos em seu livro Igreja: carisma e poder, ao afirmar que a Igreja nos países do Terceiro Mundo deveria contribuir para a “libertação dos oprimidos” e não limitar-se ao papel de “espectadora dos dramas sociais”. Dias antes da chegada do teólogo ao Vaticano — sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício, perante o qual Boff deveria apresentar-se para se defender das acusações — intercederam por ele junto ao papa João Paulo II. O encontro de frei Leonardo Boff e do cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, deu-se sob o impacto da divulgação, dias antes, de um documento assinado por Ratzinger, no qual a Teologia da Libertação recebeu dura condenação, sob a alegação de ter se deixado influenciar pela doutrina marxista para combater as injustiças sociais. Apesar do apoio dos prelados brasileiros, no início de 1985, o cardeal Ratzinger compeliu Boff ao silêncio durante 11 meses.

Em abril de 1986, realizou-se em Itaici, a XXIV Assembléia Geral da CNBB, com a presença de 263 bispos e cujo tema central “Exigências cristãs de uma nova ordem constitucional” propunha o debate de sugestões e reivindicações do episcopado nacional na futura Assembléia Nacional Constituinte, que viria a ser instalada em fevereiro de 1987. O encontro — iniciado com um apelo à unidade proferido por dom Ivo Lorscheiter, a exemplo daquele que João Paulo II fizera aos bispos brasileiros, ao final de uma reunião realizada na Santa Sé, em março último — não impediu que a discussão de temas políticos e doutrinários revelasse as profundas divergências que fracionavam a CNBB. A assembléia realizou-se sob o impacto da divulgação, no dia 5 desse mesmo mês, de um novo documento da Santa Sé sobre a Teologia da Libertação, intitulado Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação, contendo a mudança da expressão “opção preferencial pelos pobres”, cunhada na Conferência Episcopal de Puebla, para “amor preferencial pelos pobres”. A alteração dividiu a ala progressista, decepcionando alguns prelados de esquerda, pois o documento definia que o apostolado da Igreja junto aos pobres era feito por caridade cristã aos que dela mais necessitam e não por opção unilateral e absoluta.

Em abril de 1985, o vice-presidente José Sarney foi confirmado na presidência da República após a morte do presidente eleito, Tancredo Neves, enfermo desde meados de março. Sarney tomou posse com o desafio de promover a reforma constitucional, a fim de completar o processo de transição para um regime democrático, a estabilização econômica e a reforma agrária. O plano do governo, anunciado em março do ano seguinte, previa a desapropriação de latifúndios ociosos, paulatinamente, e o assentamento gradual dos trabalhadores rurais sem-terra, a cargo do Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (INCRA). A divulgação do projeto acirrou os conflitos pela posse de terra nas áreas mais críticas do país. De acordo com os fazendeiros, a Igreja, através das CEBs e dos padres da Comissão Pastoral da Terra, estaria incitando o confronto entre posseiros e fazendeiros. Em resposta às acusações, dom Aluísio afirmou que, sendo assim, os bispos deveriam ser presos, já que promoviam as CEBs, e também o papa, que determinara a sua promoção.

A incipiente ação do INCRA, aliada à falta de recursos para o assentamento dos lavradores, provocou o protesto de setores da Igreja que atuavam nas principais zonas de conflito, exigindo uma maior velocidade no processo de desapropriações das terras por parte do governo. Incomodado com a crescente ingerência da Igreja nos assuntos do Estado, interferindo na ordem constitucional do país e dirigindo constantes agressões a membros do governo, Sarney aproveitou seu encontro com o papa João Paulo II, em julho do mesmo ano, para revelar-lhe seu descontentamento com a constante intimidação que a CNBB exercia sobre seu governo.

 

A preocupação com o sistema penal

 

Instado pela imprensa a comentar as relações Igreja-Estado depois da posse de Fernando Collor de Melo, primeiro presidente eleito por voto direto desde 1960, dom Aluísio afirmou que estas “nem haviam melhorado e nem piorado”, acrescentando que a autonomia das duas partes não impediria que a Igreja denunciasse o que deveria ser respeitado e o que seria antievangélico, podendo, por isso, causar estremecimentos.

Como arcebispo de Fortaleza, dom Aluísio presidiu, em 7 de maio de 1991, a primeira manifestação pública no país contra a pena de morte. Dias depois, divulgou um documento intitulado Carta ao povo de Deus no Ceará, reafirmando sua posição contrária à adoção da pena de morte no Brasil. Na carta, o cardeal pedia que os bispos, coordenadores de pastorais e os leigos que militavam nas dioceses realizassem reuniões para refletir sobre a proposta de plebiscito sobre a introdução da pena de morte na legislação do país. Afirmou que, no momento em que o país se via envolvido em grave “situação de toda ordem”, não se podia apelar para a pena de morte a fim de resolver problemas judiciais. “É hora de eliminar as causas que dão origem às aberrações da conduta humana — a iníqua distribuição de renda, o desemprego, a falta de condições de vida digna por deficiência de setores de habitação, saúde e educação”.

 Durante uma visita da pastoral carcerária e das comissões de direitos humanos da Assembléia Legislativa cearense e da Câmara Municipal de Fortaleza ao Instituto Penal Paulo Sarasate, em 15 de março de 1994, dom Aluísio — acompanhando o grupo, a pedido dos detentos que desejavam denunciar os maus-tratos sofridos na instituição — e mais 14 pessoas, entre elas dois bispos auxiliares, um padre, dois jornalistas, funcionários da prisão e políticos locais, foram tomados como reféns por dez detentos que exigiam armas, munição e condições de fuga. O incidente, ocorrido durante sua pregação aos presos reunidos no auditório da casa de detenção, provocou a intervenção da polícia, resultando na morte de dois presos, após um tiroteio.

Na noite do mesmo dia, após negociações conduzidas pelo governador Ciro Gomes, presos e reféns deixaram o local, a bordo de um carro blindado. Libertado na madrugada do dia seguinte, o grupo permaneceu em poder dos seqüestradores por 18 horas. Em entrevista concedida após o episódio, dom Aluísio declarou ser o sistema penitenciário brasileiro uma “universidade do crime”. Defendeu uma reestruturação profunda da instituição, em que fosse preservada a dignidade do homem, começando pela melhoria das condições das prisões e do tratamento desumano dados aos presos, bem como o desenvolvimento de atividades direcionadas para a recuperação e reintegração dos condenados à sociedade. Lamentou ainda que apenas os pobres fossem encarcerados, enquanto criminosos ricos permaneciam em liberdade.

Presente à cerimônia de despedida de Ciro Gomes do governo do Ceará, para assumir o Ministério da Fazenda em substituição a Fernando Henrique Cardoso, que deixara o posto para candidatar-se à presidência da República pelo PSDB, em setembro de 1994, dom Aluísio destacou a consistência e a legitimidade do plano de estabilização econômica conhecido como Plano Real. Afirmou não concordar com o rótulo de “eleitoreiro” que os adversários do candidato apoiado pelo governo lhe atribuíam. Aproveitou para criticar o consumismo, propondo uma vida mais simples e austera.

Em agosto de 1995, dom Aluísio foi nomeado cardeal-arcebispo da arquidiocese de Aparecida do Norte, em São Paulo, pelo papa João Paulo II, em substituição a dom Geraldo Maria de Morais Penido, que renunciara. Desde o início desse ano, dom Aluísio solicitara ao Vaticano sua transferência para uma arquidiocese menor, que lhe exigisse menos trabalho, em virtude de seu delicado estado de saúde.

Em 1997, recebeu o “pálio” – insígnia dos arcebispos – das mãos do papa João Paulo II. No mesmo ano, fez parte do Sínodo dos Bispos para a América.

Em 28 de janeiro de 2004, sua renúncia foi aceita e em 25 de março do mesmo ano entregou a arquidiocese para dom Raimundo Damasceno Assis, tornando-se, assim, arcebispo emérito de Aparecida do Norte. Mudou-se para o convento franciscano do bairro de Ipanema, em Porto Alegre.

Faleceu em Porto Alegre no dia 23 de dezembro de 2007, após dez dias internado na UTI do Hospital São Francisco de Assis em razão de um acidente vascular cerebral. Seu corpo foi velado na catedral de Porto Alegre e o sepultamento ocorreu no dia 27 no Convento de Daltro Filho, a 130 km de Porto Alegre. Foi enterrado na capela mortuária do convento, debaixo do altar, junto a professores do convento e alunos, sem o anel de cardeal – feito em ouro e rubi conforme o costume franciscano.

Em maio de 2009, por ocasião da inauguração da estátua de dom Aluísio, na praça da Igreja de Santo Afonso, o padre Geovane Saraiva publicou o livro A Ternura de um Pastor, que reuniu alguns escritos de dom Aluísio Lorscheider.

 

                                                             Eurídice Roberti atualização

                                                                                                 Bruno Marques (atualização)

 

FONTES: CONFERÊNCIA NAC. BISPOS DO BRASIL; Estado de S. Paulo (13/5/91, 20/3/94, 3 e 4/3/96); Folha de S. Paulo (17 e 21/3, 19/8/95); GARDEL, L. Armoiries; Globo (20/3/77, 9/10/79, 16 e 18/3/94); Grande encic. Delta; IstoÉ (6/9/78); Jornal do Brasil (26/11/74, 29/4/76, 27/2, 20/3, 5/5, 5 e 22/10 e 5/11/77, 3/1, 4/3 e 6/9/78, 16/3 e 8/9/94, 19/8/95); MAGALHÃES, I. Segundo; Veja (3/3/71, 12/9/84 e 16/4/86); http://historiavermelha.blogspot.com/2007/12/d-alusio-lorscheider-lcido-e-valente.html (Data de acesso: 08.09.2009); http://www.oarcanjo.net/site/index.php/testemunhos/d-aloisio/dom-aloisio-lorscheider-a-testemunha-fiel/ (Data de acesso: 08.09.2009);

http://www.arquidiocesedefortaleza.org.br/ig_hist2.asp?pg=3 (Data de acesso: 08.09.2009); http://www.arquidioceseaparecida.org.br/index.php?id_pagina=28 (Data de acesso: 08.09.2009); http://www.oarcanjo.net/site/index.php/testemunhos/d-aloisio/voar-com-o-cardeal-lorscheider/ (Data de acesso: 08.09.2009); http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI2173008-EI306,00.html (Data de acesso: 08.09.2009); http://www.cot.org.br/noticias/papa-expressa-tristeza-pela-morte-do-cardeal-aloisio-lorscheider/ (Data de acesso: 08.09.2009); http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=248172 (Data de acesso: 08.09.2009); http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u358698.shtml (Data de acesso: 08.09.2009).

 

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