MARIANTE, ALVARO GUILHERME

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Nome: MARIANTE, Álvaro Guilherme
Nome Completo: MARIANTE, ALVARO GUILHERME

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
MARIANTE, ÁLVARO GUILHERME

MARIANTE, Álvaro Guilherme

*militar; comte. 1ª RM 1932-1934; min. STM 1934-1942.

 

Álvaro Guilherme Mariante nasceu no Rio Grande do Sul em 15 de junho de 1875.

Assentou praça no Exército em fevereiro de 1893, tornando-se alferes-aluno em março de 1898 e alferes em novembro de 1903. De junho de 1904 a janeiro de 1905, esteve na Amazônia com as tropas que para lá se deslocaram em função das lutas entre o Brasil, a Bolívia e o Peru em torno da demarcação das fronteiras no Acre. Foi promovido a primeiro tenente em outubro de 1908, a capitão em 1914 e a major em 1918. Integrado à força federal estacionada em Barreiras (BA), em 1919 foi enviado numa missão de pacificação a Divinópolis, atual Panamá (GO), que se encontrava sob intervenção federal desde o início do ano devido aos conflitos entre o governo estadual dominado por Antônio Ramos Caiado e o clã local de Abílio Wolney. Mariante recomendou a suspensão da intervenção, ficando o governo de Goiás encarregado de negociar com Wolney uma forma de resolver a questão.

Promovido a tenente-coronel em junho de 1922, em 4 de julho desse ano, suspeitando que se preparava uma revolta militar contra o presidente da República Epitácio Pessoa, o comando da Vila Militar do Rio de Janeiro, no Distrito Federal, ordenou que as patrulhas de Mariante, na época fiscal do 1º Regimento de Infantaria (RI), prendessem vários suspeitos num alojamento da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, na própria vila. À noite, o coronel Nestor Sezefredo dos Passos, comandante do 1º RI, recebeu ordens para deter na estação da Vila Militar vários oficiais que haviam embarcado na estação da Central do Brasil. Assim, Mariante prendeu os tenentes Leônidas Hermes da Fonseca e Aníbal Duarte, o capitão Agenor Leite de Aguiar e mais três outros militares, que foram levados para o quartel do 1º RI. No dia seguinte, o levante na Vila Militar foi totalmente debelado e Mariante foi incumbido da guarda dos rebeldes da Escola Militar do Realengo, presos na ocasião. O malogro dos levantes na Vila Militar e na Escola Militar desarticulou o plano geral, isolando os revoltosos do forte de Copacabana. Mesmo assim, liderados pelos tenentes Antônio Siqueira Campos e Eduardo Gomes, uns poucos militares chegaram a enfrentar as forças legalistas na praia de Copacabana, em combate que resultou em mortos e feridos. Mariante participou do julgamento dos revolucionários de 1922 como testemunha de acusação. Em setembro de 1923, foi promovido a coronel.

 

O combate à Coluna Miguel Costa-Prestes

Em 5 de julho de 1924, irrompeu em São Paulo uma nova revolta. Comandados por Isidoro Dias Lopes, os rebeldes ocuparam a capital do estado por três semanas e depois rumaram para o interior, na direção do oeste do Paraná. O general Otávio Azeredo Coutinho, comandante das forças legalistas que se encontravam estacionadas no local e haviam sofrido vários reveses na luta com os rebeldes, procurou reorganizar suas tropas, dividindo-as em dois contingentes: o Destacamento Mariante, sediado em Formiga (PR), e o Destacamento Almada, sediado próximo a Catanduvas (PR). Para organizar seu destacamento e chefiar seu estado-maior, o coronel Mariante convocou o capitão Pedro Aurélio de Góis Monteiro, que iria desempenhar um importante papel na vida política do país a partir de 1930.

Em abril de 1925, Mariante deu ordem de ataque, incumbindo Góis Monteiro de dirigir o assalto a Catanduvas, principal núcleo das forças rebeldes, e a Salto (PR), onde se encontrava o quartel-general de Miguel Costa. Catanduvas rendeu-se, mas os revoltosos que conseguiram escapar juntaram-se pouco depois aos gaúchos que se haviam sublevado em outubro de 1924, formando assim a Coluna Miguel Costa-Prestes.

A partir desse momento, o Destacamento Mariante foi encarregado de perseguir a coluna, instalando em Salto o seu quartel-general. Os rebeldes deslocaram-se em direção a Guaíra (PR) e o Destacamento Mariante instalou-se em Cascavel (PR). Logo depois foi dada ordem para que o destacamento ocupasse os portos do rio Paraná entre Guaíra, Porto Mendes e Porto São Francisco. No entanto, quando Mariante atingiu o rio, a coluna já havia entrado no Paraguai.

Em maio de 1925 Mariante voltou ao Rio de Janeiro, onde, junto com Góis Monteiro, foi dispensado daquelas operações militares. No entanto, em janeiro de 1926, o ministro da Guerra Fernando Setembrino de Carvalho convocou-os novamente. Promovido a general no mesmo mês, Mariante deveria assumir o comando das forças legalistas e deter a Coluna Miguel Costa-Prestes, que havia atravessado os estados de Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, aproximando-se da Bahia pelo baixo rio São Francisco. O comandante das forças oficiais no local era o general João Gomes, que, entrando em choque com Mariante, pediu exoneração do cargo. O general Mariante passou então a acumular as funções de comandante do seu destacamento e de comandante geral das forças governamentais em luta no Norte e no Nordeste.

Com a colaboração dos chefes sertanejos no interior da Bahia, e a bordo de um navio que ora subia, ora descia o rio São Francisco, Mariante pôde acompanhar de longe os movimentos da coluna. Enquanto os revoltosos atravessavam o rio Itapicuru, Mariante foi a Juazeiro (BA) e, em nome do governo federal, ofereceu prêmios de quinhentos contos de réis para que os “coronéis” do interior formassem bandos de jagunços — os grupos de caça, uma sugestão de Góis Monteiro — com a promessa de enviar a esses grupos, pelos portos de mais fácil acesso, dinheiro, armas e munições. Ao apelo do general atenderam prontamente vários chefes sertanejos, que formaram bandos de ação mais rápida do que as tropas regulares.

Dois planos sucessivos do general Mariante falharam em seu esforço de vencer a coluna. O primeiro propunha cercar o inimigo na caatinga com a convergência de todas as tropas governamentais, mas a rapidez de deslocamento dos rebeldes fez com que fracassasse. O segundo consistia em aprisionar os revoltosos na margem do São Francisco, mas também falhou devido ao movimento tático conhecido como “laço húngaro”, que Luís Carlos Prestes empregou: um pequeno destacamento rebelde partiu em direção ao inimigo, chamando sua atenção, enquanto o grosso das tropas rebeldes escapava por outras direções.

A coluna permaneceu na Bahia até julho de 1926. De lá, os rebeldes rumaram para Pernambuco e depois para o Piauí, tendo no seu encalço os jagunços e as forças governamentais. Em seguida, no dia 20 de agosto, entraram em Goiás, onde os destacamentos se dividiram, e voltaram a se encontrar em Mato Grosso, em 22 de outubro. Sem reforços, sem munição e perseguida por milhares de homens, a coluna separou-se definitivamente em 24 de outubro. Seu corpo principal marchou em direção à Bolívia, onde penetrou no início de fevereiro de 1927. O destacamento comandado por Siqueira Campos permaneceu no Brasil até março de 1927, quando cruzou a fronteira com o Paraguai.

Com o fim da marcha dos revolucionários, o quartel-general de Mariante se dissolveu, tendo seu comandante voltado ao Rio, onde não foi bem recebido. Mesmo assim, o ministro da Guerra, Nestor Sezefredo dos Passos, nomeou-o, em julho de 1927, o primeiro diretor da Aviação Militar, cargo que ocuparia até novembro de 1930.

 

A Revolução de 1930 e o Estado Novo

No final de 1929, com a proximidade das eleições presidenciais marcadas para março do ano seguinte, ampliou-se a conspiração contra o governo do presidente Washington Luís, surgindo rumores de um levante armado. Seguindo a orientação do ministro da Guerra, Mariante enviou Góis Monteiro ao sul do país para que aí entrasse em contato com os comandantes das regiões militares e se certificasse da disposição das tropas. Naquele momento, porém, Góis Monteiro já ensaiava seus primeiros passos no sentido de aderir à conspiração.

Em março de 1930, os candidatos governistas Júlio Prestes e Vital Soares foram eleitos presidente e vice-presidente da República, derrotando os oposicionistas da Aliança Liberal, Getúlio Vargas e João Pessoa. Com o assassinato de João Pessoa em julho, intensificaram-se as articulações para um movimento armado visando depor Washington Luís. Em setembro de 1930, já como líder do setor militar da conspiração, Góis Monteiro escreveu a Mariante de Porto Alegre, onde estava instalado seu quartel-general clandestino. Na carta, propunha a renúncia do presidente eleito Júlio Prestes e a nomeação de Mariante para o comando da região militar do Rio Grande do Sul, ficando o próprio Góis como chefe do estado-maior de Mariante, com plenos poderes para entender-se com Vargas e os líderes rio-grandenses no sentido de encontrar uma solução para a sucessão presidencial e evitar a revolução. No entanto, o general Mariante não se definiu diante do apelo de Góis.

Segundo Góis Monteiro, em seu depoimento a Lourival Coutinho, durante a Revolução de 1930, que eclodiu no Rio Grande do Sul em 3 de outubro, o general Mariante permaneceu à frente da Aviação Militar até a vitória dos revoltosos: “Quando soube que era eu o chefe militar desse movimento, ficou grandemente impressionado, presa de um conflito íntimo entre as razões do amigo e o dever da lealdade ao poder constituído. Muito acatado pelos seus comandados, que na maioria estavam do lado da revolução, no dia 24 de outubro [data em que Washington Luís foi deposto] esses mesmos comandados quiseram que ele aderisse ao movimento. Mas ele recusou. Fez uma despedida muito tocante à sua oficialidade, que o tratou com grande carinho, e retirou-se para sua residência... com os poucos oficiais que ficaram ao seu lado.”

Em 3 de novembro, a Junta Governativa Provisória, que assumira o poder após a deposição de Washington Luís, entregou a chefia da nação a Vargas, que constituiu o Governo Provisório. A intenção de Góis Monteiro de indicar Mariante para o cargo de ministro da Guerra não se concretizou, já que ficara resolvido que o general José Fernandes Leite de Castro, nomeado pela junta, continuaria no ministério. Depois de 1930, Mariante foi diretor de Engenharia e membro da Comissão de Promoções do Exército. Com a eclosão da Revolução Constitucionalista em São Paulo no dia 9 de julho de 1932, o governo montou um dispositivo militar para reprimi-la. Nesse contexto, Mariante foi nomeado para o comando da 1ª Região Militar (RM), sediada no Rio. O pedido de exoneração do chefe do Estado-Maior do Exército (EME), general Augusto Tasso Fragoso, em 16 de agosto de 1932, colocou várias hipóteses para sua substituição. Uma delas seria a nomeação de Góis Monteiro para a chefia do EME, indo o general Mariante substituí-lo no comando das tropas que combatiam os rebeldes paulistas; outra, seria entregar a chefia do EME a Mariante, designando o general Constâncio Deschamps Cavalcanti para o comando da 19ª RM. Consultado por Vargas sobre a substituição, Góis Monteiro declarou preferir continuar à frente das tropas e não lhe agradar a indicação de Mariante, a quem ele insistia em sugerir para o Ministério da Guerra. A solução que apontou, e que acabou sendo aceita, foi entregar o EME ao general Francisco Ramos de Andrade Neves, comandante da 3ª RM. Em outubro de 1932, Mariante foi promovido a general-de-divisão.

No início de 1934, antes do final dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, que se reunira a partir de novembro de 1933 para elaborar a Constituição do país e eleger o presidente da República, intensificaram-se as articulações visando às eleições presidenciais. De um lado estavam os partidários da candidatura Vargas e, de outro, os que desejavam uma candidatura militar. José Antônio Flores da Cunha, interventor federal no Rio Grande do Sul e favorável a Vargas, preocupado com a possibilidade de um golpe de Estado que seria liderado por Góis Monteiro, ministro da Guerra desde janeiro de 1934, telegrafou a Vargas em abril informando-o que os generais Manuel de Cerqueira Daltro Filho, da 2ª RM, Álvaro Mariante, da 1ª RM, Manuel Rabelo, da 7ª RM, e Constâncio Deschmps Cavalcanti, da 4ª RM, estavam a favor ou de uma ditadura ou da eleição de Góis Monteiro. No telegrama, o interventor dizia: “Será possível que até caberá a desonra de nos entregar de braços atados a estes canalhas... Estou aparelhado para agir e o farei assim que me convença de que é inútil esperar mais.”

Em meio a um clima de grande movimentação política e muitos boatos, o jornal carioca A Pátria dava em junho de 1934 grande destaque à notícia de fortalecimento da corrente que apresentaria a candidatura do general Mariante à presidência da República, com a adesão de amigos de Góis Monteiro. No entanto, as articulações em torno de uma candidatura militar não prosperaram e, no dia 13 de julho, o próprio Góis Monteiro declarou que não era candidato e que se fosse eleito renunciaria. Em 17 de julho, um dia depois de aprovada a Constituição, Vargas foi eleito presidente pela Constituinte. Mariante deixou a 1ª RM e, em 31 de julho, foi nomeado ministro do Superior — então Supremo — Tribunal Militar (STM).

Foi por seu intermédio que, em setembro de 1937, o plano de um pretenso ataque comunista ao governo chegou às mãos de Góis Monteiro, na época chefe do EME. Em conversa com Mariante, o capitão Olímpio Mourão Filho, membro do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira, mostrou-lhe um plano descrevendo como seria um ataque comunista e como deveria ser repetido. Mariante sugeriu que o documento, que ficou conhecido como Plano Cohen, fosse mostrado a Góis Monteiro, mas Mourão recusou-se, alegando ser ele de caráter secreto. Mariante então pediu-o emprestado e Mourão cedeu. Nesse ínterim, é possível que Mariante o tenha mostrado a Góis Monteiro, pois Góis apresentou pouco depois um suposto plano comunista apreendido pelo EME, que Mourão viria mais tarde a reconhecer como um documento que ele próprio elaborara. Com base nessa “descoberta”, os ministros militares solicitaram a reinstauração do estado de guerra, criando-se assim o clima propício à decretação do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937.

Em abril de 1938, Mariante foi eleito vice-presidente do STM, sendo reeleito em janeiro de 1940 e passando à presidência daquela corte em junho de 1941. Por decreto de 9 de janeiro de 1942, foi aposentado no cargo de ministro.

Faleceu em 7 de junho de 1950. A respeito de sua participação no combate à Coluna Prestes, Góis Monteiro escreveu O destacamento Mariante no Paraná ocidental; reminiscências (1925).

Robert Pechman

 

 

FONTES: CORRESP. SUP. TRIB. MILITAR; COUTINHO, L. General; ENTREV. PEIXOTO, A.; Grande encic. Delta; LAGO, L. Conselheiros; LAGO, L. Estado-Maior; LAGO, L. Relação; LIMA, L. Coluna; MACAULAY, N. Coluna; MIN. GUERRA. Almanaque; NOGUEIRA, F. Supremo; SILVA, H. 1922; SILVA, H. 1926; SILVA, H. 1937; WANDERLEY, N. História; Who’s who in Latin.

 

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