MOTA, CARLOS CARMELO DE VASCONCELOS

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Nome: MOTA, Carlos Carmelo de Vasconcelos
Nome Completo: MOTA, CARLOS CARMELO DE VASCONCELOS

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
MOTA, CARLOS CARMELO DE VASCONCELOS

MOTA, Carlos Carmelo de Vasconcelos

*religioso; arceb. São Paulo 1944-1964.

 

Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota nasceu em Bom Jesus do Amparo, no município de Caeté (MG), no dia 16 de julho de 1890, filho de João de Vasconcelos Teixeira da Mota, deputado no Império, e de Francisca Josina dos Santos Mota. Seu avô paterno, o coronel Joaquim Camilo Teixeira da Mota, foi o primeiro presidente constitucional da província de Minas Gerais (1824-1827) e seu bisavô materno era o doutor José Teixeira da Fonseca Vasconcelos, visconde de Caeté.

Iniciou os estudos no Colégio dos Irmãos Maristas de Congonhas do Campo (MG), onde em 1903 concluiu o curso de humanidades. No ano seguinte, ingressou no Seminário de Mariana (MG), ainda sem intenção de se fazer padre, buscando apenas complementar seus estudos. Terminando o curso de ciências e filosofia em 1909, retornou à fazenda dos pais. Três anos depois, aos 22 anos de idade, elegeu-se vereador à Câmara Municipal de Caeté. No ano seguinte, porém, interrompeu a carreira política e ingressou na Faculdade de Direito de Belo Horizonte. Cursou-a apenas por um ano, voltando então ao Seminário de Mariana, já decidido a ser padre.

Ordenado em junho de 1918, no ano seguinte auxiliou o monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro na fundação da Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade e foi coadjutor em Taquaraçu de Minas (MG). Em seguida foi reitor do Santuário da Piedade e do Convento das Enclausuradas Concepcionistas de Macaúbas, e pároco de Caeté e Sabará (MG). Em 1926 exerceu no Vaticano a função de camareiro do papa Pio XI. De volta ao Brasil, foi designado reitor do Seminário do Coração Eucarístico, em Minas Gerais.

Em julho de 1932 foi nomeado bispo titular de Algisa e bispo auxiliar de dom Joaquim Silvério de Sousa, arcebispo de Diamantina (MG). Em outubro seguinte foi sagrado bispo de Belo Horizonte. Três anos mais tarde, em dezembro de 1935, foi elevado a arcebispo de São Luís do Maranhão. Nessa arquidiocese, criou a seção estadual da Ação Católica Brasileira (ACB), fundou um leprosário e, com a ajuda dos lazaristas, restaurou o cabido metropolitano. Reconstruiu o seminário local e reformou a catedral e outras igrejas. Criou ainda mais de 20 novas paróquias e fundou a diocese de Caxias e prelazia de Pinheiros. Inaugurou também o Colégio dos Maristas. Permaneceu no Maranhão até 1944, quando foi nomeado, em agosto, para a arquidiocese de São Paulo, substituindo dom José Gaspar de Afonseca e Silva, falecido no Rio de Janeiro um ano antes.

 

Arcebispo de São Paulo (1944-1964)

Assumindo a arquidiocese paulista no final do Estado Novo (1937-1945), dom Carlos assistiu em 1945 à aglutinação das forças políticas em novos partidos, preparando-se para a sucessão presidencial e para as eleições legislativas que se realizariam em dezembro daquele ano. Especulava-se sobre a legalização do Partido Comunista Brasileiro (PCB), então Partido Comunista do Brasil, cujos militantes, anteriormente perseguidos pela polícia política do presidente Getúlio Vargas e agora beneficiados pela anistia concedida em abril de 1945, voltavam a atuar abertamente, destacando-se entre eles a figura de Luís Carlos Prestes. Nessas circunstâncias, dom Carlos divulgou uma pastoral contra as idéias comunistas, recomendando também ao clero igual distanciamento dos demais partidos.

Em fevereiro de 1946, foi elevado a cardeal pelo papa Pio XII, tendo sido o primeiro arcebispo brasileiro a receber o título. Em abril seguinte criou em São Paulo a primeira universidade católica do país — a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo —, que veio a ser instalada em agosto. No mês seguinte participou do lançamento da pedra fundamental da nova basílica de Aparecida do Norte (SP).

Tendo como uma das preocupações básicas de seu trabalho pastoral a preservação da família, fundou em 1948 a Confederação das Famílias Cristãs, entidade que lhe conferiria mais tarde o título de defensor perpétuo da família brasileira. Em 1951 foi promotor de uma semana de estudos sobre a família, da qual participaram Lucas Nogueira Garcez, governador de São Paulo, e o general José Bina Machado. Foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entidade máxima da Igreja Católica no país, tendo participado da sessão de sua instalação em junho de 1952. Nessa ocasião foi escolhido o primeiro presidente da CNBB.

Em janeiro de 1954, por ocasião do quarto centenário da fundação de São Paulo, inaugurou a nova catedral da cidade. Ainda nesse ano promoveu o I Congresso da Padroeira do Brasil e, no ano seguinte, deu início à construção da nova basílica de Aparecida. Em maio de 1957 celebrou a primeira missa em Brasília, futura capital do país, então em construção. Ainda em 1957 obteve uma emissora de rádio para a cidade de Aparecida. Para a arquidiocese de São Paulo, adquiriu a Rádio 9 de Julho e lançou o jornal O São Paulo, além de criar a Faculdade Teológica Nossa Senhora da Assunção. Em 1958 deixou a presidência da CNBB, cargo que voltou a ocupar de 1963 a 1964.

 

Arcebispo de Aparecida (1964-1982)

Alegando avançada idade e pouca saúde, pediu ao papa Paulo VI exoneração das funções e responsabilidades ligadas à arquidiocese de São Paulo. Substituído na capital pelo cardeal Agnelo Rossi, foi transferido para Aparecida em abril de 1964. Essa transferência coincidiu com o início do governo do marechal Humberto Castelo Branco, que assumira a presidência após a vitória do movimento político-militar de março de 1964. Sabidamente ligado ao presidente deposto, João Goulart, e ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, teve sua transferência atribuída na época, por setores da imprensa, a pressões do governo federal, versão que sempre desmentiu. Antidivorcista ardoroso — já em 1943 enviara a Getúlio Vargas um protesto contra a primeira tentativa de legalização do divórcio, em janeiro de 1977 —, após a aprovação da emenda constitucional que instituiu o divórcio no país, enviou aos senadores e deputados um manifesto em que qualificava a medida de “vergonha para o Brasil”.

Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil (29/6/1978), rompendo um silêncio que remontava a 1964 — pois a imprensa, dizia ele, manipulava seus pensamentos —, esclareceu sua saída da arquidiocese de São Paulo. Informou que sua carta ao papa datava de nove dias antes da queda de João Goulart. Sobre o ex-presidente, afirmou ser ele “um homem pessoalmente bom”, mas sem “o preparo necessário para a política”. Comparou-o a Vargas, destacando a popularidade de que ambos gozavam entre os operários, e explicou: “Não é que tenham feito grandes melhoras. Ganharam amigos fazendo o bem, é normal, não é?” Negou que tivesse ido ao palácio das Laranjeiras no dia 24 de março de 1964, em companhia do recém-designado arcebispo de Olinda e Recife, dom Hélder Câmara, para prestar apoio a Goulart, conforme a imprensa divulgara. Afirmou que apenas uma vez interviera junto a políticos após a instauração do regime militar, ao interceder em favor de “um advogado muito conhecido, amigo dos operários, católico de comunhão diária”, que fora preso. Telefonara para o “amigo” Ademar de Barros, então governador do estado de São Paulo, e conseguira a soltura do advogado. Na mesma entrevista, referiu-se à construção da nova capital do país, realizada no governo Kubitschek, como “a obra mais importante que um governo podia fazer”. Estudioso do direito eclesiástico e interessado sobretudo nas relações entre a Igreja e o Estado, afirmou ainda que o divórcio fora decretado contra o direito da Igreja. Chamou atenção, porém, para as diferenças existentes entre a Igreja e o Estado em relação a essa questão, afirmando que é direito do Estado permitir o divórcio, cabendo ao católico não aceitá-lo. Sobre a atuação política dos religiosos, afirmou: “Padre na política, ou é bom padre e mau político, ou será bom político, mas um mau padre.” Observou que a missão dos religiosos diante das torturas e das prisões políticas deveria ser, antes de mais nada, espiritual. Além disso, os religiosos deveriam procurar intervir em nível pessoal (“falar com o governo, com os amigos”), evitando  atitudes públicas. Declarou ainda que o trabalhador deveria trabalhar “não como servo, mas como senhor” e condenou o lucro obtido “para fazer a escravidão do trabalhador”.

Em entrevista ao jornal O Globo (26/7/1981), elogiou a Carta Constitucional de 1946 — que marcou o início da redemocratização do país após o Estado Novo —, afirmando ter sido ela “a primeira Lei Maior realmente cristã do Brasil”. Indagado sobre as perspectivas políticas do momento, referiu-se ao presidente João Batista Figueiredo como “homem sincero e cheio de boa vontade”, ressalvando, porém, que “só boa vontade não basta”. Condenou a dependência econômica ao exterior, ressaltando a necessidade de se fazer uma política voltada para o aspecto social.

Foi membro da Academia Mineira de Letras e dos institutos históricos e geográficos de São Paulo e de Minas Gerais.

Faleceu em Aparecida do Norte no dia 18 de setembro de 1982 e foi enterrado na cripta da nova catedral da cidade.

 

 

FONTES: CONFERÊNCIA NAC. BISPOS DO BRASIL; Encic. Mirador; Fatos e Fotos (7/10/82); GARDEL, L. Armoiries; Globo (26/7/81); Grande encic. Delta; Jornal do Brasil (29/6/78); LEITE, A. História.

 

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