ROBERTO COCHARANE SIMONSEN

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Nome: SIMONSEN, Roberto
Nome Completo: ROBERTO COCHARANE SIMONSEN

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

SIMONSEN, Roberto

*const. 1934; dep. fed. prof. 1935-1937; pres. CIB 1935-1936; pres. FIESP 1937-1945; sen. SP 1947-1948.

 

Roberto Cochrane Simonsen nasceu no Rio de Janeiro, então capital do Império, em 18 de fevereiro de 1889, filho de Sidnei Martin Simonsen, cidadão inglês radicado no Brasil aos 25 anos de idade, e de Robertina da Gama Cochrane. Sua mãe era carioca, descendente de antiga família escocesa e parente de lorde Cochrane, figura que obteve grande destaque nas guerras de independência de várias nações latino-americanas. Seu avô materno e padrinho, Inácio Wallace da Gama Cochrane, foi deputado à Assembléia Legislativa Provincial de 1870 a 1879, dirigiu uma importante firma de exportação de café em Santos (SP) e integrou a diretoria da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Foi também o responsável pela fundação da Companhia Melhoramentos de Santos (The City of Santos Improvements) que, contando com a participação de capitais ingleses, organizou os serviços de bondes, luz e água dessa cidade.

Roberto Simonsen fez o curso primário no Colégio Tarquínio da Silva, em Santos, onde sua família vivia. Enviado em seguida para a capital paulista, passou a residir com o avô materno, de quem recebeu grande influência, e cursou o secundário no Colégio (depois Ginásio) Anglo-Brasileiro, tornando-se primeiro aluno da sua turma. Ingressou na Escola Politécnica de São Paulo com apenas 14 anos de idade realizando brilhante curso de engenharia civil, concluído em 1909. Ainda esse ano, iniciou suas atividades profissionais na Southern Brazil Railway, então considerada a melhor ferrovia paulista, onde permaneceu até 1910.

Casou-se com Raquel Cardoso em 1911 e, no ano seguinte, assumiu a chefia da Diretoria Geral da Prefeitura de Santos, trabalhando em seguida como engenheiro-chefe da Comissão de Melhoramentos do Município. Afastou-se desse cargo ao fundar, ainda em 1912, em sociedade com os irmãos, a Companhia Construtora de Santos, pioneira em planejamentos urbanísticos e responsável pela execução de obras como a pavimentação de parte da cidade e a construção dos prédios da Bolsa do Café e da Associação Comercial, além da base de aviação naval, de armazéns e bancos. Adepto do taylorismo, Simonsen racionalizou os métodos de gestão da empresa, a qual, segundo Heitor Ferreira Lima, obteve notável êxito e propiciou o surgimento de novos empreendimentos, como a Companhia Santista de Habitações Econômicas (destinada à construção de casas para operários), e a Companhia Brasileira de Calçamento.

Com o apoio do prefeito Belmiro Ribeiro, Simonsen conseguiu que a Câmara Municipal de Santos sancionasse, em julho de 1912, a Lei nº 501, que concedia incentivos aos investidores de capital na construção de casas populares. Em 1914, a Companhia Santista de Habitações Econômicas iniciou a construção de um bairro operário em Vila Belmiro, que não chegou a ser totalmente concluído em virtude do impacto da Primeira Guerra Mundial sobre a economia do país. Nessa época, Simonsen denunciou a “concorrência desleal” exercida pela Prefeitura, que construiu 572 casas de madeira, algumas próximas à Vila Belmiro obtendo a preferência popular por estarem isentas da fiscalização do Departamento de Saúde e da ação do Fisco. As moradias que a Companhia Santista havia projetado para operários passaram então a ser procuradas pela classe média, fugindo aos seus objetivos iniciais.

A crise econômica ocorrida nesse período obrigou também Simonsen a pedir a liquidação da Companhia Brasileira de Calçamento. Acusado de obter lucros ilícitos nessa operação, conseguiu, contudo, provar publicamente a falsidade dessas afirmações. O prolongamento da Primeira Guerra Mundial provocou, por outro lado, no país, e principalmente em São Paulo, um importante surto industrial baseado no processo de substituição de importações. Nesse contexto, em 1916, Simonsen fundou e tornou-se o primeiro presidente do Centro dos Construtores e Industriais de Santos, que tinha como principais objetivos a organização de um cadastro do operariado, a criação de um serviço de assistência e seguro para os trabalhadores e a fundação de escolas de aprendizagem profissional. Logo no início de sua gestão, Simonsen organizou uma câmara de trabalho que, inaugurada muitos anos antes da instalação da Justiça do Trabalho no país, funcionou sem nenhuma vinculação oficial como a primeira junta de conciliação do Brasil, incluindo representantes de patrões e operários. Ainda em 1916, Simonsen comprou a Companhia Parque Balneário.

 

A projeção como líder empresarial

Roberto Simonsen começou a projetar-se na vida pública nacional no período posterior à Primeira Guerra Mundial. No banquete oferecido em Santos no dia 27 de dezembro de 1918 em homenagem ao recém-nomeado ministro da Agricultura, Antônio de Pádua Sales, Simonsen fez um discurso, mais tarde publicado com o título de Orientação agrícola brasileira, ressaltando a necessidade de se substituir o sistema empírico de produção pelo método científico de organização do trabalho. Impressionado pelas idéias expostas, Pádua Sales convidou-o a integrar a missão comercial brasileira que seria enviada à Inglaterra em junho de 1919 sob a chefia de João Pandiá Calógeras. Segundo Heitor Ferreira Lima, o discurso também causou admiração em outros estudiosos dos problemas brasileiros como Capistrano de Abreu, Luís Pereira Barreto, Afrânio Peixoto e Afonso Taunay.

A viagem à Inglaterra, iniciada um mês antes da posse de Epitácio Pessoa na presidência da República, teve notável êxito. Simonsen pronunciou discurso, solicitando a vinda de capitais e técnicos para auxiliar o crescimento da economia brasileira, além de um maior incremento nas relações comerciais entre os dois países. Seus artigos sobre a “Indústria de carnes frigoríficas no Brasil” e “Oportunidades para negócios de madeira no Brasil” foram publicados pelo Times, de Londres. Durante a viagem, foi nomeado representante do Brasil no Congresso Internacional dos Industriais de Algodão, realizado em Paris em setembro de 1919. Nesse conclave, apresentou um trabalho intitulado Possibilidades algodoeiras do Brasil e sugeriu a vinda de especialistas capazes de introduzir no país técnicas de expansão da cotonicultura, que passava por uma fase de recuperação dos prejuízos ocasionados pelo conflito mundial. Como conseqüência da sua atuação nesse congresso, veio ao Brasil o técnico Arno Pearce, que publicaria em 1922 o livro Brazilian Cotton sobre os resultados da sua missão. Ainda em 1919, Roberto Simonsen foi enviado para participar da Conferência Internacional do Trabalho, realizada em Washington.

No Brasil, também em 1919, a Companhia Construtora de Santos venceu a concorrência aberta pela prefeitura dessa cidade para a construção da Companhia Frigorífica de Santos, da qual Simonsen se tornou presidente. Esse fato originou grande celeuma, levando inclusive à apresentação de um recurso ao Senado estadual para a anulação do contrato, o que não chegou a ocorrer. Nessa mesma época, Simonsen iniciou suas atividades empresariais no setor de alimentos, assumindo a presidência da Companhia Frigorífica e Pastoril de Barretos (SP).

Em 1920, Simonsen interrompeu a construção de casas populares e assinou contrato com Pandiá Calógeras, ministro da Guerra do governo de Epitácio Pessoa, para a construção de 103 estabelecimentos militares em 26 cidades de nove estados, obedecendo a um projeto oficial de expansão e melhoria das instalações do Exército. A maior parte das obras foi realizada entre princípios de 1922 e fins de 1923, sendo recebidas com hostilidade por parte de certos setores da imprensa, que denunciaram a existência de irregularidades ao novo presidente da República, Artur Bernardes, empossado em 15 de novembro de 1922. Entretanto, Bernardes confiou à empresa de Simonsen novos trabalhos de engenharia no Sul do país, cancelados em dezembro de 1924 a pedido da própria firma devido às revoluções que conflagaram essa região em 1923 e 1924. A devassa que seria procedida em 1930 sobre esses contratos confirmaria a correção dos serviços prestados pela Companhia Construtora de Santos, levando Simonsen a publicar em 1931 A construção dos quartéis para o Exército, onde se defendeu de todas as acusações.

Ao longo de toda a década de 1920, Simonsen se destacou como líder empresarial, assumindo em 1923 a presidência do Sindicato Nacional dos Combustíveis Líquidos. No ano seguinte, passou a dirigir a Cerâmica São Caetano e, em 1926, organizou a Companhia Nacional da Borracha e a Companhia Nacional de Artefatos de Cobre, dando início ao processo de substituição de importações nesses setores. Seguindo a tradição da família, ingressou no comércio do café, diversificando seus interesses. Em sociedade com o cunhado, Edwin Murray, fundou a Casa Comissária Murray, Simonsen e Cia. Ltda. que, durante o governo de Washington Luís (1926-1930), representou os banqueiros ingleses Lazard Brothers, financiadores do Instituto Paulista de Defesa do Café. Criou também a Companhia de Comércio do Café e a Brazil Warrants, ambas sediadas em Santos e com várias filiais.

Em 16 de dezembro de 1926, em entrevista ao O Jornal, do Rio de Janeiro, Simonsen afirmou que a indústria e a agricultura apoiavam o rebaixamento artificial da taxa de câmbio determinado pelo governo federal para facilitar as importações. Entretanto, a adoção dessa medida (conhecida como “câmbio vil”) levou os importadores a abarrotar o mercado nacional com tecidos estrangeiros, provocando sérias divergências entre empresários do comércio e da indústria, que até então se reuniam em uma única entidade de classe, a Associação Comercial de São Paulo. Em janeiro de 1928, os industriais lançaram chapa própria para concorrer à direção da associação, em oposição à chapa oficial ligada ao comércio. O acirramento das divergências provocou uma cisão entre os dois grupos e levou à criação, em 3 de junho seguinte, do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), que teve Francisco Matarazzo como primeiro presidente e Roberto Simonsen como vice. Em seu discurso de posse, Simonsen pediu ao governo medidas protecionistas mais abrangentes, ressaltando o papel da indústria como elemento propulsor da independência política e econômica de um país e definidor do padrão de adiantamento de um povo. Defendeu também a indústria das acusações, então correntes, de ser “artificial” e de contribuir diretamente para a carestia em virtude das tarifas protecionistas. Para ele, não se devia falar em vida cara, mas sim em ganho insuficiente, “porque o índice de produção é baixo em relação à população e extensão do nosso território”. Esse discurso recebeu fortes críticas da Sociedade Rural Brasileira e da Associação Comercial do Brasil.

 

Na Revolução de 1932

Durante a gestão de sua primeira diretoria, o CIESP apoiou a candidatura do conservador Júlio Prestes à presidência da República, combatendo o programa da Aliança Liberal formada em 1929. A vitória desse candidato nas eleições de março de 1930 foi contestada por setores oposicionistas, que passaram a articular junto com oficiais ligados ao movimento tenentista um levante armado contra o governo federal. A revolução foi deflagrada em outubro e, vitoriosa depois de 21 dias de luta, conduziu Getúlio Vargas à chefia do Governo Provisório, ao mesmo tempo em que eram nomeados interventores federais em todos os estados. O governo de São Paulo ficou a cargo do tenente João Alberto Lins de Barros, que encontrou forte oposição por parte das forças políticas tradicionais. Começou então um processo de radicalização da luta política nesse estado, que resultou, em fevereiro de 1932, na formação da Frente Única Paulista (FUP) para lutar pela devolução da autonomia estadual e a imediata reconstitucionalização do país. Com a deflagração da luta armada em 9 de julho de 1932, Simonsen tornou-se responsável pela adaptação do parque industrial paulista à economia de guerra. Graças à sua liderança, o CIESP e a Associação Comercial de São Paulo desenvolveram estreitos contatos para regularizar o abastecimento da capital, assediada pelas tropas do Governo Provisório.

Durante a guerra civil, Simonsen presidiu a Comissão de Cadastro e Mobilização Industrial formada pelo governo revolucionário paulista, e integrou o Conselho Consultivo Econômico do Estado, o Departamento Central de Munições e o Conselho de Assistência Civil. Em 30 de setembro de 1932, quando a capitulação dos revolucionários estava próxima, convocou uma reunião da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, cuja presidência estava exercendo em caráter interino, e fez constar em ata a importância do trabalho dessa entidade na mobilização das indústrias para a guerra. Depois da derrota dos paulistas, selada pelo armistício de 2 de outubro, Simonsen exilou-se voluntariamente em Buenos Aires, retornando ao país no mês seguinte.

 

Na Assembléia Nacional Constituinte de 1934

Ainda em 1932, Simonsen criou em São Paulo o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT), que começou a desenvolver estudos sobre organização geral da produção, orientação profissional e higiene do trabalho. No início do ano seguinte, o IDORT organizou a produção em série numa fábrica de louças, planejou a melhor distribuição dos medicamentos nas drogarias e auxiliou a reforma administrativa do governo do estado, chefiado pelo interventor Armando de Sales Oliveira. Pouco depois, Simonsen foi eleito presidente do Instituto de Engenharia de São Paulo e fundou a Escola Livre de Sociologia e Política desse estado, a primeira do gênero criada no país, tornando-se mais tarde vice-presidente do seu conselho superior e professor da cadeira de história econômica do Brasil.

Em 1933, a situação política do país foi marcada pelas eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, encarregada de redigir a nova Constituição, julgar os atos do Governo Provisório e eleger o presidente da República. Nela, além dos deputados eleitos no pleito direto realizado em maio, estariam presentes também representantes classistas escolhidos pelos sindicatos reconhecidos pelo governo com base na Lei de Sindicalização editada em 1931. Apesar de criticarem essa lei, os empregadores, coordenados pela Confederação Industrial do Brasil (CIB), adaptaram rapidamente suas entidades de classe às exigências do governo e realizaram, em julho de 1933, uma convenção que elegeu seus 17 representantes à Constituinte. Entre eles, figuravam quatro paulistas: Roberto Simonsen, Horácio Lafer, Alexandre Siciliano Júnior e Antônio Carlos Pacheco e Silva.

Durante os trabalhos da Constituinte, iniciados em 15 de novembro de 1933, os representantes dos empregadores paulistas se uniram à bancada da Chapa Única por São Paulo Unido, formada pelas principais forças políticas do estado e herdeira do movimento revolucionário de 1932. Coerentes com essa opção, manifestando-se contra a representação profissional a nível deliberativo no Poder Legislativo, tornaram-se assim os únicos deputados classistas que rejeitaram a perpetuação do tipo de mandato que exerciam, por considerarem que os grupos profissionais não representavam os interesses gerais da sociedade.

Segundo Ângela de Castro Gomes, os representantes classistas dos empregadores assumiram uma postura não-partidária e enfatizaram o caráter técnico da sua atuação, preocupando-se sobretudo em sugerir medidas para estimular o desenvolvimento industrial e comercial do país, considerado vital para promover o crescimento do conjunto da economia, modernizar as atividades agrícolas e contribuir para o potencial estratégico de defesa armada da nação. Simonsen, Lafer e Siciliano Júnior foram os oradores mais ativos entre os deputados classistas. Para Simonsen, a legislação social era um dever do Estado e um direito dos trabalhadores, tornando-se por isso necessário promover reformas políticas, econômicas e sociais capazes de racionalizar a ação do Estado no tocante à regulamentação do direito social e à promoção do desenvolvimento econômico. Dessa forma, Simonsen se destacou na defesa do intervencionismo estatal na economia, ressaltando entretanto que a livre iniciativa deveria permanecer como fundamento das atividades econômicas e se deveriam evitar os excessos capazes de provocar um “estatismo-absorvente” ou uma “socialização apressada”, em nome dos quais se exerciam governos autoritários.

O grande debate político da Constituinte ocorreu em torno do tema federalismo x centralização. Os empregadores defendiam a ampliação do caráter federativo do regime político nacional, posição semelhante à da bancada paulista, autora da proposta de que os estados ficassem encarregados de regulamentar e aplicar a legislação social. Essa sugestão foi severamente criticada pela bancada dos empregados e pelos setores tenentistas, que acusavam os paulistas de tentar protelar e contornar a execução das medidas trabalhistas.

A bancada dos empregadores foi contrária à proposta de que o cálculo do salário mínimo fosse baseado nas medidas médias de uma família, defendendo com êxito a adoção de um salário de subsistência, baseado nos gastos individuais de um trabalhador. Da mesma forma, a maior parte da bancada se opôs à formulação inicial do capítulo referente ao direito de greve, modificado de forma mais restritiva no decorrer dos debates.

 

Deputado federal e presidente da FIESP

A Constituinte encerrou seus trabalhos em 16 de julho de 1934, elegendo no dia seguinte Getúlio Vargas, chefe do Governo Provisório desde 1930, para a presidência da República. Os mandatos dos deputados foram prorrogados até a posse dos novos parlamentares, eleitos em 14 de outubro de 1934. Simonsen foi novamente escolhido deputado classista pelos sindicatos de empregadores e, nesse mesmo ano, assumiu a segunda-vice-presidência da Confederação Industrial do Brasil (CIB). Na legislatura ordinária iniciada em maio de 1935, colaborou em estudos de problemas econômicos e sociais, integrou a Comissão Especial de Leis Complementares da Constituição e as comissões de Legislação Social e de Diplomacia e Tratados, além de participar na elaboração dos códigos de Águas, do Ar e dos Serviços Industrializados do Estado. Nesse período, fazia parte do círculo de empresários e técnicos ligados a Vargas.

Ainda em 1935, Simonsen afirmou que a Constituição aprovada no ano anterior não correspondia à nova realidade do país, marcada, no plano político, pelo agravamento do conflito entre o governo e duas forças antagônicas em ascensão, a Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Foi acusado pelo jornal A Manhã, ligado à ANL, de pressionar Vargas para reprimir essa organização, que veio a ser fechada em julho. Ao mesmo tempo, recebia freqüentes ataques do líder integralista Gustavo Barroso, que o acusava de capitalista e “judeu”. Nesse mesmo ano, Simonsen assumiu a presidência da CIB (mais tarde transformada na Confederação Nacional da Indústria — CNI) e fundou a Companhia Imobiliária Nacional, a Sociedade Construtora Brasileira e a Fábrica de Tecidos Santa Helena. Em 1936, presidiu uma comissão de estudos sobre educação técnico-profissional, formada por diretores do CIESP.

Simonsen foi eleito presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) em 1937, chefiando em seguida a delegação brasileira enviada à Conferência de Paz, em Buenos Aires, onde apresentou tese sobre os índices de padrão de vida em todo o continente. Nesse mesmo ano, substituiu Euvaldo Lodi como membro do Conselho Federal de Comércio Exterior (CFCE), órgão diretamente ligado ao presidente Vargas com a missão de colaborar na definição da política econômica do governo. Em setembro, no exercício dessa função, apresentou um parecer sobre as providências necessárias para o incremento da expansão industrial no Brasil.

Com a implantação do Estado Novo em 10 de novembro de 1937 e o subseqüente fechamento de todos os órgãos legislativos do país, Simonsen perdeu sua cadeira de deputado federal. Mesmo assim, não se opôs à outorga da Constituição de 1937, que definiu a forma do novo regime. Em janeiro de 1938, foi reeleito para a presidência da FIESP, provocando um movimento de protesto que resultou no desligamento de 297 empresas até então filiadas à entidade, inclusive a Indústrias Reunidas F. Matarazzo. Em 1938, Simonsen ingressou no Conselho de Expansão Econômica do Estado de São Paulo, onde permaneceu até 1941. Em 1939, entrou para a Academia Paulista de Letras, tornou-se sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e publicou A revolução industrial do Brasil, trabalho encomendado pelo CFCE para ser apresentado à Missão Universitária Norte-Americana durante sua visita ao país.

Nos anos de 1940 e 1941, Simonsen alertou freqüentemente as empresas e o governo sobre as conseqüências da Segunda Guerra Mundial no abastecimento de gêneros alimentícios, matérias-primas e combustíveis, e apelou à indústria nacional para acelerar a substituição de produtos importados, prevendo a drástica redução do comércio internacional de mercadorias essenciais. Na qualidade de presidente da FIESP e de outras associações, contribuiu para a adoção do racionamento do álcool industrial, do sal e do açúcar, e para a redução do consumo de combustíveis. Em novembro de 1942, foi nomeado para o conselho consultivo da Coordenação da Mobilização Econômica (CME), formada em setembro com o objetivo de organizar a economia de guerra, adotando as medidas necessárias à aplicação dos acordos de Washington, que asseguravam o fornecimento de matérias-primas brasileiras para os Estados Unidos em troca de financiamento norte-americano para projetos industriais no Brasil. Nos anos seguintes, sob a chefia de João Alberto Lins de Barros, a CME assumiu o papel de um superministério, diversificando seus objetivos e funções: absorveu parte das atribuições do CFCE, passou a controlar a Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil, mobilizou trabalhadores para os seringais da Amazônia e passou a fixar os índices do salário mínimo nas diferentes regiões do país.

Em 1943, Simonsen integrou a Comissão de Imposto Sindical, vinculada ao Ministério do Trabalho, e participou do I Congresso Brasileiro de Economia, realizado no Rio de Janeiro com a presença de 234 representantes de 192 entidades. Depois de assistir à apresentação de 14 teses sobre diferentes problemas nacionais e efetuar um balanço da situação econômica do país, o congresso aprovou recomendações sobre agricultura, comércio, exportação e importação, finanças, desequilíbrios regionais, salários, sindicalismo e bem-estar social, além de endossar a participação do Estado como administrador ou regulador das indústrias básicas.

Simonsen integrou a delegação brasileira enviada em novembro de 1944 à Conferência de Rye, nos Estados Unidos, onde apresentou uma tese sobre a renda nacional, chamando a atenção do mundo para a situação dos países subdesenvolvidos e solicitando para eles uma ajuda mais concreta e eficaz. No mês seguinte, foi um dos seis vice-presidentes do I Congresso Brasileiro da Indústria, que foi organizado em São Paulo pela CNI e a FIESP e teve Getúlio Vargas como presidente de honra.

 

Planejamento x liberalismo: a polêmica com Gudin

Nomeado membro do Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial (CNPIC), órgão ligado ao Ministério do Trabalho, Simonsen começou em seguida a preparar um relatório — concluído em agosto de 1944 — sobre os princípios fundamentais que deveriam orientar o desenvolvimento industrial e comercial do Brasil. Baseado em estimativas elaboradas pelo Serviço de Estatística da Previdência desse ministério, referentes ao cálculo da renda nacional e sua distribuição per capita, à situação do balanço de pagamentos e a outros dados recolhidos até o ano de 1942, seu relatório propunha um aumento da planificação da economia brasileira. Foi examinado por uma comissão composta por Euvaldo Lodi (presidente da CNI), João Daudt d’Oliveira (presidente da Federação das Associações Comerciais do Brasil), Heitor Grilo (técnico em assuntos agrícolas) e Francisco de San Tiago Dantas, que elaboraram um projeto geral de planificação da economia. Esse projeto estabelecia a meta de quadruplicação da renda nacional e considerava impossível atingi-la através da livre atuação das forças de mercado, recomendando a intervenção estatal através do planejamento e da adoção de rígidas medidas protecionistas, capazes de aumentar substancialmente a quantidade de investimentos no setor industrial.

Depois de aprovado pelo CNPIC, esse trabalho foi enviado à recém-criada Comissão de Planejamento do Conselho de Segurança Nacional, cujo relator, o economista Eugênio Gudin, rejeitou as “propostas semonsenianas”. Considerado antiindustrialista e defensor do liberalismo econômico, Gudin publicou em março de 1945 a coletânea Rumos da política econômica, refutando a idéia de planejamento e sugerindo a adoção de reformas institucionais, como a criação de um banco central. Dessa forma, originou-se a famosa polêmica entre os dois intelectuais.

Simonsen manteve suas posições. Em maio, durante a I Conferência das Classes Produtoras, realizada em Teresópolis (RJ), defendeu a criação de um ministério da economia, desvinculado do Ministério da Fazenda e voltado para coordenar o desenvolvimento econômico do país. Sugeriu também a formação de um órgão de assessoria da Presidência da República, idéia posteriormente concretizada através da instalação do Conselho Nacional de Economia. Afirmou ainda que o empresariado brasileiro não podia ignorar os problemas advindos do relacionamento entre patrões e empregados, e nem devia supor que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) era suficiente para garantir a paz social.

Em junho de 1945, Simonsen apresentou sua réplica formal a Gudin com a publicação de O planejamento da economia brasileira, onde procurou refutar os argumentos da escola liberal. O documento final desse debate foi a Carta à Comissão de Planejamento, de Gudin, publicada em agosto seguinte. Com a derrubada do Estado Novo em outubro, essa comissão foi extinta e a idéia de um planejamento global para a economia brasileira foi afastada até a década de 1950.

No período de redemocratização que sucedeu à queda de Vargas, Simonsen passou a integrar a comissão executiva do Partido Social Democrático (PSD) e, em 1946, tornou-se o primeiro economista a conquistar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Em 19 de janeiro de 1947, foi eleito senador por São Paulo, derrotando o pintor Cândido Portinari, candidato do Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB).

Em outubro de 1947, Simonsen participou da XXVI Seção Plenária do Conselho Interamericano de Comércio e Produção, realizada no hotel Quitandinha, em Petrópolis (RJ), defendendo a aplicação na América Latina de um projeto semelhante ao Plano Marshall, elaborado pelos Estados Unidos para a reconstrução da Europa Ocidental depois da Segunda Guerra Mundial. Em seu discurso, afirmou que “reequipar o homem europeu e manter e agravar a pobreza latino-americana, além de constituir uma injustiça social, significa também incorrer num grave erro de estratégia política... Não é justo solicitar às regiões da América Latina, onde o padrão médio de vida por habitante seja inferior ao padrão de vida normal da Europa, qualquer contribuição de trabalho ou produção sem a devida remuneração”. Ainda em 1947, pronunciou discurso no Senado a favor da cassação dos mandatos dos parlamentares eleitos na legenda do PCB, cujo registro havia sido revogado em maio desse ano pela Justiça Eleitoral.

Roberto Simonsen faleceu na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio, em 25 de maio de 1948, no momento em que saudava o primeiro-ministro da Bélgica, Paul van Zuland, em visita oficial ao Brasil. Em sua homenagem, a FIESP criou o Instituto Roberto Simonsen.

Deixou publicadas as seguintes obras: O município de Santos (1912), Os melhoramentos municipais de Santos (1912), The meat & cattle industry of Brazil; its importance to Anglo-Brazilian commerce (1919), O asfaltamento de São Paulo — aspecto técnico (1923), A situação econômica e financeira do Brasil (1928), Orientação industrial brasileira (1928), As crises no Brasil (1930), Crisis, finance and industry (1930-1931), As finanças e a indústria (1931), À margem da profissão (1932), Rumo à verdade (1933), História econômica do Brasil (1500-1820) (1937, 7ª ed. 1977), Possibilidades da expansão industrial brasileira (1937), A indústria em face da economia nacional (1937), A evolução industrial do Brasil (1939), A evolução industrial do Brasil e outros estudos (1973), Recursos econômicos e movimentos das populações (1940), Níveis de vida e a economia nacional (1940), As indústrias e as pesquisas tecnológicas (1941), O Congresso Eucarístico Nacional de 1942 (1942), As classes produtoras do Brasil e o movimento nacional (1942), Ensaios sociais, políticos e econômicos (1943), Alguns aspectos da política econômica mais conveniente ao Brasil para o período de após-guerra — geografia e política industrial (1943), A engenharia e a indústria (1944), Elos da indústria (1944), A planificação da economia brasileira (1944, reeditado em 1977 em A controvérsia do planejamento na economia brasileira), A indústria e seus problemas econômicos e sociais (1945), Roosevelt (1945), O problema social no Brasil (1947), Cultura e civilização (1947), Direito internacional social (1948), A importância econômica das ciências (1948).

Sobre o biografado foram publicadas as seguintes obras: Simonsen e a operação pan-americana, editada pelo CIESP (1958); Roberto Simonsen e o desenvolvimento econômico, de Helena Fanganiello (1970) e Três industrialistas brasileiros: Mauá, Rui Barbosa, Simonsen, de Heitor Ferreira Lima (1976).

Sônia Dias

 

 

FONTES: BEHAR, E. Vultos; Boletim Min. Trab. (5/36); BORGES, V. Getúlio; CÂM. DEP. Deputados; CARONE, E. Estado; CARONE, E. Roberto; COELHO, J. Dic.; CONF. INDUSTRIAL DO BRASIL. Relatório; CONF. NAC. IND.; CONSULT. MAGALHÃES, B.; CORRESP. EMB. ITÁLIA; DEL PICCHIA, M. Revolução; Diário do Congresso Nacional; Efemérides paulistas; Encic. Barsa; Encic. Mirador; FANGANELLO, H. Roberto; FICHÁRIO. M. AMORIM; GODINHO,V. Constituintes; Grande encic. Delta; HIRSCHOWICZ, E. Contemporâneos; IANNI, O. Estado e planejamento; INST. PLAN. ECON. SOC. Controvérsia; IstoÉ (8/6/77); Jornal do Brasil (27/2 e 4/11/77); Jornal do Comércio, Rio (28/8/55); LEITE, A. História; LEVINE, R. Vargas; LIMA, H. Três; MENESES, R. Dic.; Novo dic. de história; OLIVEIRA, C. CIESP; Personalidades; Regionalismo; SENADO. Relação; SILVA, G. Constituinte; SIMONSEN, R. Ensaios; SIMONSEN, R. Evolução; SOC. BRAS. EXPANSÃO COMERCIAL. Quem; Súmulas.

 

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