COMANDO GERAL DOS TRABALHADORES (CGT)

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: COMANDO GERAL DOS TRABALHADORES (CGT)
Nome Completo: COMANDO GERAL DOS TRABALHADORES (CGT)

Tipo: TEMATICO


Texto Completo:
COMANDO GERAL DOS TRABALHADORES (CGT)

COMANDO GERAL DOS TRABALHADORES (CGT)

 

Organização intersindical de trabalhadores, de âmbito nacional, não reconhecida pelo Ministério do Trabalho, criada durante o IV Congresso Sindical Nacional dos Trabalhadores realizado em São Paulo em agosto de 1962, com o objetivo de orientar, coordenar e dirigir o movimento sindical brasileiro.

Desarticulou-se devido à repressão desencadeada pelo movimento político-militar de 31 de março de 1964, que ocasionou a prisão de seus líderes, a intervenção nos órgãos sindicais oficiais filiados e a extinção de todas as demais organizações intersindicais.

Antecedentes

Em setembro de 1946, representantes do Ministério do Trabalho, juntamente com membros do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), promoveram um congresso nacional de trabalhadores com o objetivo de discutir a coordenação nacional das entidades sindicais. Embora a legislação vigente só permitisse a formação de sindicatos, federações ou confederações que reunissem categorias profissionais específicas, havia toda uma corrente que reivindicava a criação de uma entidade intersindical nacional.

As divergências de posições durante o congresso culminaram com o pedido de encerramento do encontro, apresentado pelos representantes do Ministério do Trabalho. Entretanto, a grande maioria das representações sindicais presentes — composta de comunistas e de petebistas — prosseguiu em suas negociações, vindo a fundar a Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB). Mesmo sem obter reconhecimento oficial, a CTB manteve-se em funcionamento até 7 de maio de 1947, quando o Decreto nº 23.046 suspendeu suas atividades.

Em 1951, retornando ao cargo de presidente da República, Getúlio Vargas empenhou-se em ampliar a sindicalização das massas. No ano seguinte, mesmo criticando a política getulista de aproximação com os EUA, o Partido Comunista Brasileiro, então chamado Partido Comunista do Brasil (PCB), passou à dedicar-se à mesma tarefa, da qual se afastara desde 1947 — nessa data, além de declarar o PCB ilegal, o governo passara a exigir atestado ideológico para os cargos de direção sindical.

Por outro lado, a despeito dos freqüentes apelos de Vargas em favor da ordem, a crescente deterioração dos salários e a perda do poder aquisitivo da população começaram a gerar uma série de greves e de protestos dos trabalhadores. No bojo de um dos mais importantes movimentos grevistas desencadeados nesse período, a Greve dos Trezentos Mil, ocorrida em São Paulo no ano de 1953, foi constituída uma comissão intersindical de greve incumbida de coordenar as negociações entre empregadores e empregados.

Essa comissão representou o embrião do Pacto de Unidade Intersindical (PUI), organização formada no ano seguinte visando ao comando das ações políticas e sindicais dos trabalhadores paulistas. Ao mesmo tempo, ainda em 1954, a CTB voltou a atuar, conclamando todos os trabalhadores a lutarem pela aplicação dos novos níveis de salário mínimo, majorados em 100% por Getúlio Vargas. No ano seguinte, entretanto, com o suicídio de Vargas e a ascensão de João Café Filho à presidência, a CTB foi novamente suspensa.

Em 1958, novas organizações sindicais paralelas foram criadas: de um lado, a Comissão Permanente de Organizações Sindicais (CPOS), fundada no Rio de Janeiro e mais tarde implantada em Minas Gerais e na Bahia, e, de outro, o Conselho Sindical dos Trabalhadores (CST) de São Paulo, constituído em substituição ao PUI.

Nesse mesmo ano, os marítimos, os ferroviários e os portuários do Rio de Janeiro lançaram-se em campanhas conjuntas, que levariam à criação, em 1961, do Pacto de Unidade e Ação (PUA). Ainda no governo de Juscelino Kubitschek, foi criado o Fórum Sindical de Debates (FSD), em Santos.

Em agosto de 1960, durante o III Congresso Sindical Nacional dos Trabalhadores, travou-se uma disputa entre as diferentes facções que atuavam no sindicalismo brasileiro. Os comunistas, que lideravam não só as organizações paralelas, mas também alguns organismos sindicais oficiais, como a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Crédito (Contec), defenderam a proposta de formação de uma central sindical, fazendo assim com que se retirassem da reunião os líderes anticomunistas Ari Campista e Deocleciano de Holanda Cavalcanti, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), Ângelo Parmegiani, da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) e Sindulfo Alves Pequeno, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT). Entre as demais propostas dos líderes comunistas, constava também a luta pelo reconhecimento oficial das organizações intersindicais já existentes. Ao final do encontro, foi eleita uma comissão executiva nacional composta de 11 membros titulares e 11 substitutos, cuja função seria coordenar e unir os trabalhadores sob uma única direção nacional em oposição aos “divisionistas” da CNTI, da CNTC e da CNTTT. O III Congresso dos Trabalhadores marcou assim uma ruptura definitiva entre as diferentes correntes do movimento sindical brasileiro.

Em fins de julho de 1961, ao se realizar em Belo Horizonte o Congresso Nacional de Metalúrgicos, a questão da criação de uma central sindical voltou a ser debatida.

Por outro lado, com a renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto desse ano, iniciou-se uma luta entre os ministros militares, que se opunham à posse do vice-presidente João Goulart, e os defensores da “legalidade”. Como solução para a crise política, optou-se pela instalação do regime parlamentarista, que foi inaugurado em setembro com Goulart como presidente e Tancredo Neves como primeiro-ministro. Os setores nacionalistas e comunistas apoiaram Goulart, procurando encontrar em seu governo a base de sustentação que não haviam obtido junto a Jânio Quadros.

Em junho de 1962, com o início das negociações para a formação de um novo conselho de ministros devido à renúncia de Tancredo Neves, os órgãos sindicais integrantes do Comando Nacional de Greve — entre os quais a CNTI, o PUA, a Contec e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Marítimos, Fluviais, e Aéreos (CNTTMFA) — se mobilizaram. Goulart indicou para a chefia do ministério o nome de Francisco San Tiago Dantas, que não foi aceito pela União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD). O governo sugeriu então o senador Auro de Moura Andrade, provocando a imediata reação das lideranças da CPOS, do PUA, da CNTI e da Contec, que ameaçaram deflagrar uma greve geral caso o Congresso aprovasse essa indicação. Em seguida, o Comando Nacional de Greve transformou-se no Comando Geral de Greve (CGG), o qual, mesmo após a renúncia de Moura Andrade provocada pela negativa de Goulart em aceitar os ministros por ele indicados, decretou greve geral por 24 horas no dia 5 de julho.

Goulart finalmente indicou Francisco de Paula Brochado da Rocha, obtendo a aprovação do Congresso. O novo primeiro-ministro prometeu implantar um programa de emergência de combate à inflação e à escassez de alimentos, além de comprometer-se com a antecipação do plebiscito para que o povo decidisse sobre a volta ou não ao regime presidencialista. Apoiada pelos setores que defendiam plenos poderes para o presidente, essa decisão foi atacada pelos partidários da UDN, que acusavam Goulart de estar comprometido com os comunistas.

Ainda no mês de julho, houve uma tentativa de reorganização interna do CGG, sendo proposta a criação de uma comissão executiva integrada por dois membros do PUA e dois da CPOS, com a função de coordenar o movimento sindical. Todas as organizações sindicais poderiam aderir ao CGG, cabendo ao conjunto de associados — dominado pelos comunistas e nacionalistas — aceitar ou não os novos representantes.

No dia 14 de agosto, os dirigentes do CGG lançaram um manifesto conclamando a população a uma greve geral em defesa da antecipação do plebiscito e de um governo “nacionalista e democrático”, a ser deflagrada em momento oportuno.

Entre 17 e 19 de agosto, realizou-se em São Paulo o IV Congresso Sindical Nacional dos Trabalhadores. Os delegados presentes, em número de 2.566, representando predominantemente os estados do Rio de Janeiro, Guanabara e São Paulo, comprometeram-se a trabalhar pela volta ao regime presidencial, sob a condição de que Goulart considerasse algumas de suas reivindicações básicas, como a revogação da Lei de Segurança Nacional, a extensão do direito de voto a todos os adultos, inclusive analfabetos e soldados, o aumento de 100% no salário mínimo, a reforma agrária, a reforma bancária, a promulgação do direito de greve e a limitação do direito à remessa de lucros para o exterior. Ainda nesse encontro, com a finalidade de impulsionar o movimento trabalhista, o CGT transformou-se no Comando Geral dos Trabalhadores (CGT).

O CGT sob o parlamentarismo

O CGT foi constituído pelas lideranças de três das cinco confederações nacionais oficiais de trabalhadores — a CNTI, a Contec e a CNTTMFA —, além de outras federações e sindicatos e de organizações paralelas como a CPOS, o PUA e o FSD.

A presidência da organização coube a Dante Pelacani e a vice-presidência, a Clodesmidt Riani, respectivamente vice-presidente e presidente da CNTI. O presidente do PUA, Osvaldo Pacheco da Silva, preencheu as funções de secretário-geral, enquanto Rafael Martinelli, líder ferroviário, assumiu o cargo de tesoureiro. Outros importantes dirigentes do CGT foram Aluísio Palhano, Demistócledes Batista, Paulo de Melo Bastos e os líderes da CPOS Benedito Cerqueira, Hércules Correia dos Reis e Roberto Morena.

Apoiado por Goulart, por Brochado da Rocha e por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, e ainda por alguns setores expressivos do Exército, o CGT no próprio mês de agosto reivindicou a realização do plebiscito na mesma data fixada para as eleições legislativas — ou seja, 7 de outubro de 1962. Caso essa data não fosse aceita, os trabalhadores deflagrariam uma greve geral no dia 15 de setembro. O CGT reivindicou também a solução dos problemas levantados durante o IV Congresso.

No dia 14 de setembro, não tendo conseguido que o Congresso Nacional aprovasse a antecipação do plebiscito, Brochado da Rocha renunciou. No dia seguinte, foi detonada a greve geral com o apoio de alguns militares, entre os quais o general Osvino Ferreira Alves, comandante do I Exército, que anteriormente já havia apoiado a greve de 5 de julho. A greve de setembro concentrou-se nos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, sobretudo no setor público, contando com poucas adesões em Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo.

Diante desse quadro, o Congresso cedeu às pressões trabalhistas, concordando com a convocação de um plebiscito para o dia 6 de janeiro de 1963. Os parlamentares incumbiram ainda Goulart de nomear um gabinete interino, que atuaria até essa data.

Depois de nomear um novo ministério ainda em meados de setembro, Goulart procurou garantir o apoio dos líderes sindicais, chamando a Brasília quatro membros do CGT, a saber, Dante Pelacani, Osvaldo Pacheco, Paulo de Melo Bastos e Hércules Correia. Ao acenar com a revisão do salário mínimo e com a redução ou a sustentação dos preços dos gêneros de primeira necessidade, Goulart procurou garantir, além da aceitação de seu gabinete, os votos dos trabalhadores em favor da volta ao presidencialismo.

Apesar dos apelos em contrário, nos primeiros dias de dezembro houve uma ameaça de greve geral em conseqüência dos rumores sobre a iminente demissão do Ministro do Trabalho, João Pinheiro Neto. Pouco antes de o ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, embarcar para os Estados Unidos para renegociar empréstimos norte-americanos, Pinheiro Neto criticara a política econômica do governo, acusando-a de estar subordinada aos interesses do Fundo Monetário Internacional.

Em 4 de dezembro de 1962, Goulart substituiu de fato Pinheiro Neto por Benjamim Eurico Cruz, íntimo colaborador daquele no ministério, dando contudo prosseguimento à política trabalhista anterior.

Por outro lado, as entidades sindicais anticomunistas reagiam veementemente contra o poder de pressão do CGT sobre Goulart, para elas evidenciado através das greves ocorridas e da fixação da data do plebiscito. Essas denúncias partiam de organismos sindicais internacionais, em ação conjunta com o Movimento Sindical Democrático, a CNTC e a CNTTT, controlados por lideranças anticomunistas.

Em 1º de janeiro de 1963, o governo majorou os salários em 75%, assegurando assim o apoio das lideranças sindicais e das bases trabalhadoras à volta ao presidencialismo.

O CGT sob o presidencialismo

Goulart saiu vitorioso no plebiscito de 6 de janeiro, retornando o país ao regime presidencial.

Na expectativa de que o presidente passasse a efetivar as reformas de base imediatamente, o CGT reagiu diante da moderação das medidas propostas pelo Plano Trienal, um plano econômico elaborado por San Tiago Dantas e Celso Furtado em fins de 1962 com o objetivo de reduzir a inflação e restabelecer os índices de crescimento econômico. Os líderes do CGT enviaram um memorando a Goulart comunicando-lhe que manteriam sua luta por melhores salários, o que certamente contrariava o programa de austeridade econômica fixado pelo Plano Trienal.

Em contrapartida, Goulart havia nomeado para o Ministério do Trabalho Almino Afonso, que gozava de amplo prestígio entre as lideranças sindicais. Inicialmente, Almino Afonso procurou conter as greves. O CGT, entretanto, recusou-se a abrir mão dessa forma de pressão, que garantia aos trabalhadores a manutenção dos níveis salariais. Além de exigir do governo a execução das reformas de base, a organização participou intensamente da campanha dos funcionários civis e militares por um aumento salarial de 70%, em lugar dos 40% propostos pelo Plano Trienal.

Em reunião realizada em São Paulo nos primeiros dias de fevereiro, os dirigentes do CGT manifestaram sua desconfiança em relação ao novo governo, pois, embora nele estivessem presentes elementos nacionalistas, havia também elementos comprometidos com o latifúndio e o imperialismo. Com o apoio sobretudo das lideranças comunistas, foi proposta a preparação de uma greve geral em defesa de um governo nacionalista e democrático.

A partir do momento em que os efeitos do programa de austeridade — como a concessão do aumento salarial limitado em 40% — passaram a gerar uma insatisfação crescente, Almino Afonso manifestou-se contra o Plano Trienal, voltando-se contra Goulart. Além disso, a partir de abril, o estímulo concedido pelo Ministério do Trabalho às organizações intersindicais, somado ao seu pedido de reconhecimento do CGT, entrou em conflito com os interesses do presidente, que se mostrava preocupado com a execução de uma política social através dos sindicatos oficiais, negando-se a alterar os dispositivos contidos na CLT das Leis do Trabalho.

No mesmo mês de abril, Goulart tentou organizar uma manifestação no Rio de Janeiro sem a participação do CGT, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e dos membros mais radicais da Frente Parlamentar Nacionalista (FPN), bloco parlamentar formado por políticos do PTB, do PSD, do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e, secundariamente, da UDN. Em resposta ao fracasso dessa mobilização e para demonstrar sua força, o CGT decidiu organizar uma outra manifestação pró-Goulart. Por solicitação de membros da FPN, entretanto, Riani convenceu-se a adiá-la.

No mês de maio, Brizola reforçou a Frente de Mobilização Popular (FMP), integrada pelo CGT, pela FPN, pelo PUA, pela União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) e pela UNE, com o objetivo de fazer oposição a Goulart. Depois de realizar sondagens junto aos comandos estaduais, os líderes do CGT apresentaram uma série de reivindicações e declararam-se favoráveis a uma greve de apoio às reformas de base e aos 70% de aumento para os funcionários públicos. O CGT fixou também um prazo até o final do mês para que o governo se decidisse.

Ainda em maio, foi eleito o secretariado do CGT, composto de nove membros. A presidência coube a Riani e a vice-presidência, a Pelacani, além de Huberto Meneses Pinheiro, da Contec, Alfredo Pereira Nunes, da CNTTMFA, e Rafael Martinelli. Osvaldo Pacheco foi escolhido primeiro-secretário, enquanto Paulo de Melo Bastos e L. Costa Pinto foram eleitos secretários e Severino Schnaipp, tesoureiro.

No final do mês, o Congresso concordou com a majoração dos salários dos funcionários públicos na porcentagem requerida, contrariando os princípios firmados no Plano Trienal, que se mostrava cada vez mais obsoleto devido à intensificação do processo inflacionário.

Em junho, cedendo às pressões do ministro da Guerra, general Amauri Kruel, no sentido de que o CGT fosse enfraquecido, Goulart procurou organizar uma nova entidade trabalhista, a União Sindical dos Trabalhadores, que, no entanto, nunca conseguiu ser levada adiante.

Na tentativa de solucionar o conflito político latente em sua gestão, Goulart fez algumas alterações em seu ministério ainda no mês de junho. Almino Afonso foi afastado da pasta do Trabalho, sendo substituído pelo senador petebista Amauri de Oliveira e Silva. No Ministério da Fazenda, San Tiago Dantas cedeu lugar ao ex-governador de São Paulo, Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto. Os três ministros militares também foram substituídos.

Embora criticado pelos meios militares, Goulart tentou aproximar-se novamente do CGT nos meses de agosto e setembro, a despeito de suas ameaças de greve pela execução das reformas de base. Além disso, várias categorias profissionais de diferentes cidades reivindicavam aumento salarial.

Em setembro, a revolta de cerca de seiscentos sargentos em Brasília recebeu o apoio do CGT. O novo ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, assumiu o controle do levante, já que Goulart se encontrava no Rio Grande do Sul. O presidente manifestou seu apoio ao ministro, reafirmando sua intenção de permanecer inflexível na manutenção da ordem e na preservação das instituições.

Paralelamente, o comandante do II Exército, general Peri Bevilacqua, acusou o CGT, o FSD e o PUA de terem desencadeado a rebelião entre os sargentos.

Com o intuito de manter os trabalhadores sob controle, Dantas Ribeiro comunicou ao CGT que reprimiria qualquer greve geral em solidariedade aos sargentos. Em resposta, o CGT, a CPOS, a CNTI e o PUA ordenaram a todos os seus membros que permanecessem em estado de alerta para uma greve geral em caso de golpe militar. Essas organizações apoiavam ainda as greves econômicas planejadas pelas categorias dos marítimos, dos trabalhadores nos transportes urbanos e nas companhias de gás, e dos bancários, os únicos que efetivamente vieram a paralisar o trabalho.

Goulart comunicou aos líderes do CGT e do PUA as inúmeras pressões militares que vinha sofrendo e pediu-lhes a suspensão das greves.

Sob o argumento de que se armava uma conspiração política, provavelmente articulada por Carlos Lacerda e Ademar de Barros — governadores da Guanabara e de São Paulo, respectivamente —, e ainda sob pressão militar, no dia 4 de outubro Goulart enviou mensagem ao Congresso pedindo a decretação do estado de sítio por 30 dias.

Com receio de que essa medida implicasse o esfacelamento do movimento trabalhista, o CGT repudiou-a, ameaçando deflagrar uma greve geral, e pediu a Goulart que se empenhasse na luta contra o capital estrangeiro e contra os grandes proprietários de terra. Vários governadores estaduais, entre os quais Lacerda, Ademar de Barros, Miguel Arrais (PE), José de Magalhães Pinto (MG), além do deputado federal petebista Leonel Brizola, foram igualmente contrários à decretação do estado de sítio, provocando assim o recuo dos líderes do Congresso. Goulart finalmente cedeu e retirou seu pedido.

Por ocasião da Greve dos Setecentos Mil, desencadeada no mês de outubro em São Paulo, o CGT reiniciou a campanha pelo aumento do salário mínimo em 100% e pela implantação das reformas de base. Além de reiterar esses pontos em reunião nacional realizada em novembro, o CGT traçou planos para a promoção de um congresso nacional de trabalhadores em que seria pedida a legalização da entidade.

Por suas crescentes denúncias contra o CGT, o general Bevilacqua foi removido do comando do II Exército, sendo substituído pelo ex-ministro da Guerra, general Amauri Kruel.

Em janeiro de 1964, nas eleições para a direção da CNTI, Goulart demonstrou seu desapontamento com a atitude do CGT no episódio do estado de sítio, manifestando-se contra os candidatos ligados a essa organização. Entretanto, sob a orientação de Darci Ribeiro e de Argemiro de Assis Brasil, respectivamente chefes das casas Civil e Militar da Presidência da República, Goulart acabou por alterar sua posição, apoiando as candidaturas de Riani e Pelacani.

A vitória do CGT nas eleições para a CNTI enfraqueceu o poder dos sindicatos anticomunistas. Nas eleições da CNTC, por exemplo, a chapa situacionista teve igualdade de votos com os candidatos que apoiavam o CGT, o que provocou a nomeação pelo ministro do Trabalho de um interventor que anulou esses resultados. A CNTT, por seu lado, manteve sua rejeição ao CGT.

A situação de polarização política no Brasil acelerou-se nos três primeiros meses de 1964. A própria esquerda encontrava-se dividida: enquanto a FMP, liderada por Brizola, denunciava o espírito conciliatório de Goulart, sempre alinhado a grupos contrários às reformas, o CGT — juntamente com Arrais — aproximava-se do presidente, temendo que uma cisão com o governo provocasse a reação dos militares oposicionistas.

As associações empresariais, por sua vez, manifestavam-se de forma crescente contra o governo Goulart e sua proximidade com os líderes trabalhistas.

No mês de fevereiro, na tentativa de unir as forças de esquerda, Goulart solicitou a San Tiago Dantas o esboço de um programa mínimo de reformas de base. A nova coalizão deveria incluir o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que seria legalizado. Essa frente, entretanto, não se concretizou.

Procurando conquistar apoio político para realizar as reformas de base, e também para se fortalecer no governo, Goulart estrategicamente decidiu lançar mão da mobilização das massas.

Organizado por entidades vinculadas à FMP, como o CGT e a FPN, e tendo por objetivo pressionar a implementação das reformas de base que vinham sendo bloqueadas pelo Congresso, o comício do dia 13 de março foi o reflexo dessa nova tendência.

O representante do CGT no comício, Nestor Vera, ameaçou novas greves caso o programa de reformas não fosse efetivado. O ministro do Trabalho, Amauri Silva, prometeu por sua vez legalizar o CGT. Ao lado de Goulart, permaneceu durante todo o comício o secretário-geral do CGT, Osvaldo Pacheco.

Em seu discurso, Goulart anunciou dois novos decretos: o primeiro promulgaria a expropriação das refinarias privadas de petróleo e o segundo a expropriação das terras improdutivas situadas ao longo das rodovias ou ferrovias federais ou próximo às zonas de bacias de irrigação dos açudes públicos federais.

No dia seguinte, Goulart enviou mensagem ao Congresso requisitando a aprovação das reformas de base. Diante da solicitação de impeachment do presidente, apresentada pela oposição, o CGT ameaçou greve geral, além de realizar assembléias em todo o país visando à mobilização popular em caso de aceitação do pedido. Planejando novas manifestações para os meses de abril e maio, o CGT ameaçou ainda tomar medidas concretas caso o Congresso não aceitasse dentro de um mês o pedido de reformas encaminhado por Goulart.

Ao eclodir a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais nos últimos dias de março, no Rio de Janeiro, o CGT mostrou-se solidário ao movimento. Diante do pedido de rompimento com a organização, apresentado por Kruel, Goulart respondeu estar identificado com as forças populares que o apoiavam.

Em 30 de março, o CGT lançou uma nota na qual previa a articulação de um golpe contra Goulart por parte dos governos de São Paulo, Guanabara, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com o apoio de oficiais do II e III Exércitos e da Força Pública de Minas Gerais. Na mesma nota, o CGT conclamava os trabalhadores urbanos e rurais a se prepararem para desfechar uma greve geral em todo o país, em defesa das liberdades democráticas.

Nesse mesmo dia, Goulart discursou numa reunião de sargentos realizada no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, afirmando estar identificado não só com sua audiência, mas também com todas as organizações de massa.

Intensificada a reação de militares e civis contra Goulart, um movimento político-militar depôs seu governo em 31 de março de 1964.

Ainda nesse dia, vários líderes trabalhistas foram presos. Algumas prisões ocorreram no momento em que, reunidos na sede do Sindicato dos Estivadores do Rio de Janeiro, líderes do CGT discutiam acerca da estratégia a ser adotada frente ao movimento. A polícia invadiu o prédio, prendendo mais de 20 dirigentes, entre os quais Pacheco e Martinelli.

Em protesto contra a onda de prisões, os trabalhadores da Estrada de Ferro Leopoldina entraram em greve, sob a proteção do comandante dos fuzileiros navais, Cândido Aragão. Alguns bancos, os portos do Rio de Janeiro e de Santos, além de várias indústrias metalúrgicas e têxteis fecharam no dia 1º de abril. Não houve entretanto nenhuma greve capaz de sustentar o antigo governo.

O novo governo militar — aclamado pelas associações empresariais — interveio na maior parte dos sindicatos, federações e confederações vinculados ao CGT, demitindo, através do Ministério do Trabalho, vários líderes sindicais.

No dia 10 de abril de 1964, foi divulgada a primeira lista de elementos cassados pelo novo governo. Dela faziam parte vários membros do CGT, entre os quais Riani, Pelacani, Correia dos Reis, Pacheco, Martinelli, Morena e Palhano.

Sobre o CGT foi publicado o livro O Comando Geral dos Trabalhadores no Brasil (1961-1964), de autoria de Lucília de Almeida Neves Delgado (1981; 2ª ed., 1986).

Mônica Kornis

 

FONTES: BANDEIRA, M. Presença; DULLES, J. Unrest; ERICKSON, K. Sindicalismo; GRIECO, J. Union; HARDING, T. Political; LEITE, M. Último; SKIDMORE, T. Brasil; TELES, L. Movimento; VÍTOR, M. Cinco; WEFFORT, F. Democracia.

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados