CRUZADA BRASILEIRA ANTICOMUNISTA (CBA)

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Nome: CRUZADA BRASILEIRA ANTICOMUNISTA (CBA)
Nome Completo: CRUZADA BRASILEIRA ANTICOMUNISTA (CBA)

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CRUZADA BRASILEIRA ANTICOMUNISTA (CBA)

CRUZADA BRASILEIRA ANTICOMUNISTA (CBA)

 

Organização civil de âmbito nacional fundada em fevereiro de 1952 pelo contra-almirante Carlos Pena Boto, à frente de um grupo que incluía Joaquim Miguel Ferreira Vieira, o delegado Cecil Borer, o doutor Dourado Lopes e outros. Seu objetivo era “combater o comunismo com palavras e não com armas”. Foi extinta em 1973, imediatamente após a morte de Pena Boto.

A linha de atuação da Cruzada Brasileira Anticomunista (CBA) durante toda sua existência centrou-se na figura de Pena Boto. Além de presidente da CBA desde a fundação, Pena Boto era o único porta-voz da organização, responsabilizando-se por seus documentos e manifestos. Em síntese, seu nome confundia-se com a própria cruzada.

 

Os primeiros anos

A criação da CBA foi seguida pelo lançamento, em fevereiro de 1952, de um livreto intitulado Manifesto à nação, assinado por Pena Boto. O documento fazia uma análise do comunismo e descrevia suas investidas no Brasil, afirmando que o Partido Comunista Brasileiro (PCB), então Partido Comunista do Brasil, se teria infiltrado “em todos os setores e até nos mais altos escalões da administração pública”. A imprensa, o Congresso e a área da educação também teriam sido vítimas da “penetração bolchevista”. A maior ameaça, porém, era representada pela ação comunista dentro das forças armadas. Segundo o manifesto, “militares comunistas... continuam no serviço ativo, alguns deles exercendo funções de comando”. Estes oficiais “pegarão certamente em armas contra o Brasil, à primeira oportunidade, à primeira ordem de Moscou”.

O documento sugeria ainda três diretivas básicas de combate ao comunismo. A primeira, de ordem repressiva, consistiria no desmantelamento “da máquina subversiva comunista,” através da “oposição intransigente às atividades... do Partido Comunista”. A segunda seria de ordem elucidativa, e se basearia na explicação ao povo, principalmente às massas proletárias, da “viciada doutrina marxista”. Finalmente, a terceira, de ordem construtiva, estimularia os “poderes públicos” e os “núcleos capitalistas” a tomarem “medidas eficazes, de cunho verdadeiramente democrático e cristão, que (resultassem) na melhoria das condições gerais de vida do povo brasileiro”.

Em julho de 1953, Pena Boto fez um balanço da atuação da cruzada para o jornal Tribuna de Minas, declarando que a organização aglutinava todas as atividades anticomunistas em curso no Brasil. Numa clara alusão ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), um “importante partido esquerdista” era responsabilizado pelas greves que então eclodiam no país, com o objetivo de “tumultuar o proletariado,... obter a unidade sindical e, como fruto desta, criar a Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil”.

O presidente da CBA criticou também a corrupção administrativa do governo Vargas, acusando os políticos de cortejarem os comunistas em troca de voto, e os homens de negócios de pagarem mensalidades ao PCB. Segundo ele, a incapacidade dos dirigentes da nação era aproveitada pela “propaganda bolchevista”, que através de 42 jornais e revistas espalhava a subversão.

 

A Cruzada e as eleições de 1955

O ano de 1955 foi marcado pela campanha eleitoral para a sucessão de João Café Filho na presidência da República. Até a realização do pleito, em 3 de outubro, a União Democrática Nacional (UDN), que, da oposição durante o governo Vargas, passara à situação com a subida de Café Filho, procurou impedir que Juscelino Kubitschek e João Goulart participassem das eleições. Apoiada pelos setores antigetulistas das forças armadas, a UDN acusava os dois candidatos, lançados pelo Partido Social Democrático (PSD) e pelo PTB, de corruptos e aliados dos comunistas.

A Cruzada Brasileira Anticomunista não hesitou em participar da campanha movida pela UDN, pronunciando-se publicamente contra Juscelino e Goulart. Assim, no mês de junho, em declaração ao jornal Diário de Notícias de Porto Alegre, Pena Boto afirmou que os candidatos à presidência do país não poderiam ter compromissos nem com o PTB, nem com o PSD, nem com os políticos paulistas Jânio Quadros e Ademar de Barros.

Em 5 de setembro, Pena Boto voltou a dar declarações sobre a sucessão presidencial, dessa vez à Tribuna da Imprensa, salientando que não via possibilidade de uma solução eleitoral para o problema sucessório, uma vez que “80% do eleitorado não possuíam discernimento” e eram influenciados por “demagogos de última classe”. No dia seguinte, o jornal O Estado de S. Paulo publicou matéria paga da CBA contendo a seguinte advertência: “Não é possível que através de eleições desonestas voltem ao poder os mesmos homens que humilharam e arrasaram este país.”

Em 14 de outubro, quando a apuração dos votos já havia sido praticamente encerrada, dando a vitória a Juscelino e Goulart, a CBA publicou uma proclamação no jornal O Globo intitulada “Mensagem aos brasileiros patriotas”. Nela, a organização acusava os candidatos eleitos de terem recebido apoio eleitoral do PCB em troca de diversas promessas, entre as quais o reatamento das relações diplomáticas com os países socialistas, a legalização do próprio PCB e das entidades a ele ligadas e a concessão de oito milhões de cruzeiros antigos ao comitê central do partido.

A mensagem afirmava ainda que Juscelino e Goulart dariam continuidade à política de Vargas, o que implicaria a transformação do Brasil numa “república filocomunista, de tipo sindicalista”. Baseada no suposto apoio do PCB aos candidatos eleitos e no fato de estes não terem obtido a maioria absoluta de votos, a cruzada defendia abertamente o impedimento da posse de Kubitschek e Goulart. Essa posição era compartilhada pela UDN e seus aliados dentro das forças armadas, que chegavam a admitir a hipótese da implantação de um regime de força no país.

A polarização entre os defensores e os adversários da posse dos eleitos chegou ao clímax na madrugada de 11 de novembro. Nessa ocasião, o presidente em exercício Carlos Luz foi afastado do poder por um movimento militar encabeçado pelo general Henrique Lott, ministro da Guerra demissionário. Luz foi acusado de envolvimento numa conspiração que pretendia impedir que Goulart e Kubitschek tomassem posse. Pena Boto teve participação destacada nesses acontecimentos. Comandante das Forças do Alto Mar desde setembro de 1954, o vice-almirante recebeu o presidente deposto e seus correligionários a bordo do cruzador Tamandaré. O navio seguiu para Santos, visto que num primeiro momento pensou-se em transferir o governo para território paulista. Porém, depois que a situação em São Paulo se definiu em favor dos partidários de Lott, o Tamandaré foi obrigado a voltar para o Rio.

 

Outras iniciativas

Sempre preocupada com eventuais ações comunistas, em junho de 1956 a cruzada denunciou ao Ministério da Justiça a Liga de Emancipação Nacional (LEN), organização nacionalista fundada em abril de 1954, acusando-a de ser uma “sociedade subversiva e extremista”. O titular daquela pasta, Nereu Ramos, acolheu a denúncia e determinou a abertura de um inquérito policial. O resultado das investigações foi levado ao presidente Kubitschek, que assinou imediatamente o decreto de cassação da LEN. No dia 21, a CBA deu entrada no Supremo Tribunal Federal a um pedido de prisão dos diretores e membros influentes da “Liga Russa da Emancipação Nacional”.

Em outubro de 1961, um mês após a posse de João Goulart na presidência da República em substituição a Jânio Quadros, que renunciara, Pena Boto publicou um artigo no Jornal do Comércio em que tecia duras críticas à política externa brasileira empreendida desde o governo de Jânio Quadros, acusando-a de fazer o jogo do comunismo internacional. Em dezembro, em entrevista ao jornal português Jornal de Notícias, Pena Boto informou que a CBA contava então com 6.500 membros e era mantida por doações dos seus integrantes. A organização promovia manifestações públicas e possuía “um pelotão de choque, muito principalmente por causa dos estudantes que são a raça daninha do Brasil”. O almirante admitiu que já haviam ocorrido choques de rua entre adeptos da cruzada e estudantes.

 

Participação internacional

A Cruzada Brasileira Anticomunista, sempre através de Pena Boto, tomou parte fora do Brasil em diversas conferências de organizações anticomunistas, sobretudo da América Latina. Em 1954, a CBA participou do II Congresso Contra a Intervenção Soviética na América Latina, realizado no México, durante o qual foi fundada a Confederação Interamericana para a Defesa do Continente. Pena Boto foi eleito primeiro presidente dessa confederação.

No ano seguinte, coube à cruzada organizar — entre os dias 22 e 26 de agosto —, o II Congresso Contra a Intervenção Soviética na América Latina. Realizado no Rio de Janeiro, no auditório do Ministério da Fazenda, o encontro contou com a presença de delegações de 21 países. Na sessão do dia 24, Pena Boto e seus colaboradores defenderam a intervenção da polícia política nas universidades. Todo professor considerado de “idéias avançadas” deveria ser impedido de lecionar.

Pena Boto participou também do Congresso Mundial Anticomunista (Frankfurt, 1956), da II Conferência Internacional sobre a Guerra Política dos Sovietes (Roma, 1961) e do encontro promovido pelas Sentinelas da Liberdade em Miami (EUA), em abril de 1964. Na reunião de Miami, Pena Boto fez uma análise da situação em Cuba após o triunfo de Fidel Castro e pregou a intervenção militar direta na ilha. Além disso, saudou o movimento militar de 31 de março, “que salvou o Brasil de ser... escravizado, pelo comunismo internacional” ao depor “da presidência da República o apátrida João Goulart, um criptocomunista que há dois anos vinha conduzindo deliberadamente o Brasil na direção do totalitarismo sino-soviético”.

Além dessa atividade internacional, a CBA atuava no Brasil junto a exilados e membros das colônias polonesa, húngara, ucraniana e de outros países do Leste europeu, que a procuravam para se associar à luta anticomunista.

 

Após 1964

O triunfo do movimento militar de março de 1964 provocou uma grande evasão nas fileiras da cruzada, uma vez que o “perigo comunista” tinha sido afastado. Devido a esse esvaziamento, a organização deixou de funcionar no edifício São Borja, no Centro do Rio de Janeiro, transferindo-se para a casa do próprio Pena Boto.

Após o falecimento do seu presidente, em 28 de janeiro de 1973, a Cruzada Brasileira Anticomunista encerrou suas atividades.

Sérgio Lamarão

 

 

FONTES: CRUZADA BRAS. ANTICOMUNISTA. Manifesto; Diário da Noite, Recife (22/6/56); Estado de S. Paulo (29/3/52); Gazeta, Vitória (26/8/55); Globo (14/10/55); Jornal de Notícias, Lisboa (12/61); Jornal do Comércio (15/10/61); MIN. EXÉRC. Subsídios; Tribuna da Imprensa (23/9/55); Tribuna de Minas (28/7/53); Última Hora (14/6/56); Veja (7/2/73).

 

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