FOLHA DE SAO PAULO

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Nome: Folha de São Paulo
Nome Completo: FOLHA DE SAO PAULO

Tipo: TEMATICO


Texto Completo:
FOLHA DE SAO PAULO

FOLHA DE S. PAULO

 

Jornal paulista diário em circulação com este nome desde o início da década de 1960.

Foi precedido por outros três jornais lançados entre 1921 e 1925, todos pertencentes à Empresa Folha da Manhã S.A., denominados Folha da Noite, Folha da Tarde e Folha da Manhã.

As folhas de Olival Costa (1921-1931)

A origem da Empresa Folha da Manhã S.A. remonta ao ano de 1921, quando Olívio Olavo de Olival Costa, juntamente com um pequeno grupo de colegas, montou um jornal, a Folha da Noite. Tendo pertencido ao quadro de jornalistas de O Estado de S. Paulo, onde ocupou a função de redator, Olival Costa levou avante o novo empreendimento, contando com a participação de Pedro Cunha, Leo Vaz, Mariano Costa e Artêmio Figueiredo. Foi esse o primeiro grupo diretor do jornal.

Embora prosperasse rapidamente, a Folha da Noite teve sua circulação proibida entre 3 e 31 de dezembro de 1924. Seus diretores decidiram então lançar a Folha da Tarde, como artifício contra a censura, substituindo a Folha da Noite, que só ressurgiria em 1º de janeiro de 1925, com o mesmo nome. A Folha da Tarde contou, portanto, de início, em sua direção, com a mesma equipe da Folha da Noite. Por outro lado, ainda em janeiro de 1925, no dia 20, Olival Costa e Pedro Cunha lançaram um terceiro jornal, a Folha da Manhã, motivados pela prosperidade de seu primeiro empreendimento.

Olival Costa ocupou o cargo de diretor da Folha da Noite de 19 de fevereiro de 1921 a 30 de outubro de 1930 e da Folha da Manhã de 1º de julho de 1925 a janeiro de 1931, quando foi constituída a Empresa Folha da Manhã S.A. Embora seu nome constasse do quadro de diretores do empreendimento, juntamente com Rubens do Amaral, Otaviano Alves de Lima, Diógenes de Lemos Azevedo, Guilherme de Almeida e Pedro Cunha, Olival Costa não exerceu efetivamente a direção da empresa. Como primeiro redator-chefe da Folha da Noite, contudo, imprimiu à linha editorial do jornal uma discreta simpatia pela insurreição de 1922 no Rio de Janeiro, pela revolta de 1924 e pela candidatura de Júlio Prestes à presidência da República em 1930. Isso ocorreu, embora fosse intenção explícita imprimir ao jornal um caráter muito mais informativo do que de opinião, sem detrimento da oportunidade do exercício da crítica. O que o corpo de redatores evitava, isso sim, era imprimir ao jornal uma linha editorial rígida, que implicaria a perda de um campo maior de manobra diante dos fatos acerca dos quais o jornal deveria “informar” e poderia “opinar”. Não obstante, pode-se afirmar que a Folha da Noite surgiu como um jornal dirigido para o leitor urbano paulista, conseqüentemente com fortes traços antioligárquicos.

Empreendimento sem capital e infra-estrutura prévios, a Folha da Noite surgiu como um periódico de formato pequeno, com oito páginas, destinado às camadas médias urbanas: “Honestidade nas informações, além de bom humor nos comentários, constituíam a tônica desse veículo em que as classes médias de São Paulo podiam se mirar e nutrir.” De uma situação financeira absolutamente precária (à edição seguinte cabia pagar o custo da anterior e assim sucessivamente), em 1925 o empreendimento conquistou uma certa estabilidade financeira e instalou-se em oficinas próprias, ao mesmo tempo em que se firmava definitivamente junto ao público leitor. E essa conquista do público ocorreu, entre outros mecanismos, através da utilização do humor e da sátira, para não falar da ironia (haja vista o sucesso da criação de Belmonte, o Juca Pato), hábil instrumento de burla à rígida censura da República Velha.

Também a partir de 1925, passavam a existir dois jornais, dirigidos, cada um deles, para públicos diferentes: a Folha da Manhã, com uma linguagem mais sóbria, voltava-se para os pequenos comerciantes e os profissionais liberais, enquanto a Folha da Noite, jornal mais popular, voltava-se para a classe trabalhadora, chegando inclusive a conter em suas páginas artigos em várias línguas, dada a origem estrangeira de grande parte do operariado.

Muito embora a emergência das folhas paulistas não tivesse raízes oligárquicas e tampouco operárias, o seu traço marcadamente paulista se refletiria nos acontecimentos de 1930. A Revolução de 1930, movimento de cunho nacional, contou com a oposição das folhas, que nesse momento se aliaram à oligarquia paulista, assumindo posição contrária aos revolucionários. Como resultado, ambos os jornais, Folha da Noite e Folha da Manhã, foram empastelados na noite de 24 de outubro de 1930. Esses fatos ocorreram a despeito de o ideário defendido pelas folhas em anos anteriores se aproximar bastante dos postulados da Revolução de 1930. Tal era o caso, por exemplo, do combate dado pelas folhas à concepção de que “questão social é um caso de polícia”, ou da defesa da necessidade de os governantes voltarem-se para as questões sociais, pois “neste campo tudo ainda está por fazer. Até hoje temos andado a remendar rasgões e a calafetar rombos. As grandes construções sociais de que se orgulham tantos povos, mesmo americanos, são entre nós miragens longínquas” (FN, 23/11/1926). Da mesma forma, a defesa do voto secreto foi uma constante na linha editorial de ambos os periódicos durante a década de 1920: em 1922 a Folha da Noite denunciava a fraude eleitoral e a posição assumida pelo Partido Republicano Paulista (PRP), afirmando que “as eleições são fraudulentas; daí a necessidade do voto secreto. O PRP é contra por considerar que o povo não está preparado para dar esse grande passo” (21/11/1922). Em, 1929, a Folha da Manhã, em artigo intitulado “A revolução pacífica” (5/1/1929), voltou à carga, fundando no princípio liberal a defesa de uma reforma eleitoral que contivesse o voto secreto e obrigatório.

Marcadamente antioligárquicas, opositoras do PRP — tido como expressão de um “regime político oligárquico e como princípio das minorias absolutas sem controle algum” (FM, 26/10/1926) —, encarando a eleição de Washington Luís como possibilidade de uma nova etapa, apoiando o Partido Democrático (PD) então emergente, a Folha da Noite e a Folha da Manhã pouco se dedicavam aos assuntos da área econômica. Quando o faziam, porém, sendo politicamente liberais para a conjuntura da época, coerentemente defendiam uma política econômica liberal, posicionando-se, portanto, contra o intervencionismo do governo no sentido de preservar os interesses da oligarquia cafeeira, e combatendo o protecionismo alfandegário em defesa da indústria nacional. Tal fato, como apontam C. G. Mora e M. H. Capelato, freqüentemente dá margem à interpretação de que os jornais Folha da Noite e Folha da Manhã eram, à época, antiindustrialistas. Na realidade, porém, como jornais que se dirigiam às populações urbanas de média renda, o combate a toda e qualquer medida que encarecesse o produto para o consumidor médio era algo inevitável para a manutenção e ampliação de seu público leitor.

Em 1929 Pedro Cunha deixou a sociedade, numa época em que, por coincidência, a linha editorial sofreu uma mudança: a edição de 27 de março de 1929, por exemplo, afirmava que: “Sentimos que não é na mudança da forma de votação que se deve procurar remédio para os males do Brasil político. O mal maior está no indiferentismo, no desconhecimento dos deveres cívicos” (FM). O apoio ao PD era visto agora com desconfiança, como sinal de ingenuidade, e mais tarde a oposição seria identificada como “a esquerda que não correspondeu às esperanças que nela se depositaram, especialmente seu líder Assis Brasil” (FM, 19/3/1929).

No início de 1930 foi marcado, em termos de evolução da linha editorial das folhas, pela crítica aos jornais de oposição, pois o Brasil “reclama ordem, paz e harmonia para realizar novas conquistas” (FM, 1/1/1930). A ordem, agora, era condição de progresso; Getúlio Vargas no poder significaria a ruína da lavoura, e São Paulo era o exemplo a ser seguido: “Nós, São Paulo, onde se cultua a liberdade” (FM, 7/1/1930), pois o povo paulista é “ordeiro” e “disciplinado”, e Getúlio é “um convite à indisciplina” (FM, 1/3/1930).

Otaviano Alves de Lima e Nabantino Ramos (1931-1962)

Em 1931 Otaviano Alves de Lima, filho de família tradicional, comprou a empresa. O novo grupo dirigente, do qual faziam parte Rubens do Amaral e Luís Amaral, imprimiu uma nova linha editorial, bem diversa da anterior. Os jornais voltaram sua atenção para o setor rural, procurando dirigir-se aos agricultores, ou como chamavam, os “lavradores de São Paulo”. Basta dizer que em várias de suas edições o anúncio de assinaturas era feito compreendendo a possibilidade de pagamento em espécie, isto é, em café.

No início da década de 1930, a revolução era ainda encarada como um momento favorável para a libertação dos lavradores da hegemonia perrepista, assumindo as folhas para si, já então um empreendimento estável e empresarialmente sólido, o papel de principal instrumento de viabilização do novo projeto. Nesse período, a Folha da Noite foi perdendo gradativamente sua importância, e desapareceu a proposta de se fazer um jornal popular; conseqüentemente, não só as referências ao operariado urbano e aos funcionários públicos praticamente desapareceram de suas páginas, como aumentou cada vez mais a importância da Folha da Manhã. Em termos de linha editorial, ambos os periódicos apresentavam-se como politicamente indefinidos, no sentido de não opor hostilidade a Vargas. Foi somente a partir de 1932 que começou a se definir uma posição claramente de oposição a Getúlio e à revolução, dada a ausência de programas do governo.

Assim, à medida que o movimento constitucionalista tomava corpo, as folhas foram-se definindo a seu favor, em oposição a Vargas. E um dos meios utilizados para tanto era lançar mão da tese, que aqui não importa se correta ou não, de que a Revolução de 1930 não representara uma ruptura com o passado (ao contrário do que afirmavam os revolucionários), haja vista a permanência do caos e o aumento da desordem, o que redundava em “sérios riscos para a sociedade”. Com a eleição da Constituinte, as folhas passaram, a partir de 1933, a acompanhar de perto os trabalhos de elaboração da nova Constituição, defendendo um aperfeiçoamento do texto de 1891, propondo porém a substituição do presidencialismo pelo parlamentarismo, pois “o governo parlamentar, por excelência o das elites, o que melhor seleciona os valores humanos, é o que se aplica às tendências liberais do Brasil, coadunando-se com as nossas tradições. No retorno as suas práticas é que encontraremos deliciosos fatores de progresso social e político” (FM, 29/8/1933). O resultado final do trabalho da Constituinte, no entanto, não agradou às folhas, que criticaram sobretudo a excessiva centralização no plano econômico e o sindicato único, já que eram a favor do pluralismo sindical. Defendiam também a Lei de Segurança Nacional, garantia da ordem diante das “ameaças extremistas de direita ou de esquerda” (FM, 20/2/1935).

A linha antiindustrialista, agora sim, se definiu mais claramente, à medida que as folhas defendiam cada vez mais acirradamente a tese de que o desenvolvimento econômico do país residia nas atividades agroexportadoras (lavoura e comércio do café), pois enquanto “o analfabeto, a higiene, os transportes, o voto secreto, a segurança nacional, a missão financeira, tudo isso enche a cabeça de nossos estadistas tirando-lhes o sono no sincero desejo de salvar a pátria, nada faremos se antes não salvarmos o café, que é a única coisa séria que há no Brasil” (FM, 12/3/1935). Quanto à queima do café, as folhas foram contra, pois o que havia, a seu ver, não era superprodução, e sim dificuldade na venda do produto, caro e de má qualidade, o que nos levava a uma situação “absurda: produzindo mais barato do que ninguém, vendendo mais caro do que todos, porque entre os centros de produção e consumo se planta o fisco a receber mais do que recebe o fazendeiro por saca de café... O problema do café é o protecionismo” (FM, 3/6/1937). Mas a posição contrária à diversificação da atividade econômica brasileira não se limitava à oposição agricultura versus indústria, dizia respeito também à diversificação no interior do próprio setor agrícola. O grande pilar da economia brasileira era o café, e, portanto, este deveria ser o produto privilegiado por qualquer medida econômica.

Não obstante, segundo a linha editorial das folhas, as causas últimas dos males econômicos do país deveriam ser buscadas na política do Estado, intervencionista em detrimento da liberdade econômica e expressa sobretudo no protecionismo cambial. Mas, diante da ameaça da guerra, criou-se uma situação em que “reafirmamos nossa fidelidade em primeiro lugar à democracia. Em seguida, consolidamos os alicerces das culturas nacionais que somam a cultura continental. E, finalmente, organizemos racionalmente e eficientemente nossa economia, buscando a prosperidade não só, mas também a paz social” (FM, 27/9/1938). E, para tanto, fazia-se necessário que “racionalizemos a nossa agricultura e a nossa indústria. Transformemos as nossas possibilidades em realidade, explorando tecnicamente as riquezas naturais de que nos ufanamos e nada rendem. Teçamos uma rede de transportes que ponham em comunicação rápida e barata os centros de produção e os mercados de consumo. Organizemos o crédito, a produção, as trocas, tendo em vista o comércio internacional e, sobretudo, o comércio interestadual” (FM, 8/4/1941).

Quanto ao vespertino Folha da Noite, ele continuava agressivo quando se tratava do interesse público. E uma de suas campanhas foi contra a proliferação das siderúrgicas, pois à fala de Vargas sobre a siderurgia nacional seguiu-se a criação em São Paulo de uma série de companhias siderúrgicas vendendo ações para pessoas de baixos recursos. E, segundo depoimento de Hermínio Sacchetta, que compôs o corpo de jornalistas e ocupou o cargo de secretário-geral das folhas durante o período de 1938 a 1945, “as folhas iniciaram o ataque, desmascarando diariamente esses grupos, alguns dos quais eram sem dúvida ligados a pessoas da alta administração estado-novista. Justiça seja feita, pouco tempo depois um decreto de Getúlio fechou todas as possibilidades a esses grupos” (Folha de S. Paulo, 10/1/1979).

A guerra representou a grande oportunidade para a América e para o Brasil, e sobretudo para São Paulo, pelo seu potencial e sua organização “agroindustrial” (FM, 27/1/1942). O empreendimento de Volta Redonda foi aplaudido, pois com ele “se encerra o ciclo amargo da lavoura itinerante” (FM, 5/9/1944).

Em 1945 o jornal cerrou fileiras com os defensores da consolidação da democracia no país, pois, diante do fim do Estado Novo no Brasil e da derrota do totalitarismo na Europa, a “humanidade inteira se enche de esperanças no advento de uma era melhor e mais bela de liberdade e civilização” (FM, 26/7/1945). Os ares eram outros, e Getúlio Vargas fora vítima do próprio poder, pois “quando não há parlamento ou imprensa livre, reduz-se ao mínimo a possibilidade de um chefe de Estado conhecer o que se passa em sua terra” (FM, 20/11/1945).

Também em 1945, no mês de março, juntamente com Alcides Ribeiro Meireles (diretor-presidente) e Clóvis Medeiros Queiroga (diretor comercial), José Nabantino Ramos assumiu a direção das três folhas: Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite. Essa diretoria apresentava a seguinte composição: Meireles tinha suas raízes nos interesses agrários, Queiroga na indústria brasileira, ao passo que Nabantino Ramos era ligado ao governo Dutra através de seu ministro da Justiça. Tinha-se assim a condição ideal, dado o relativo equilíbrio de forças, para imprimir ao jornal um caráter mais moderno, ao mesmo tempo que se procurava preservar uma relativa liberdade de pensamento. Assim é que a Folha da Noite assumiu uma linha editorial eminentemente agrarista até por volta de 1950. Durante esse período, aos sábados, era editada a Folha Agropecuária. Já a década de 1950 seria marcada, em termos de linha editorial, pela ênfase nos setores urbanos e industriais.

O propósito de lutar pela imparcialidade política — não confundi-la com neutralidade — era à época explícito, quando grande ênfase era dada ao “bem comum” como marco norteador necessário para as atividades editoriais. Nesse sentido defendia-se o sufrágio universal, em que pese o fato de que a “qualidade será substituída pela quantidade”, e que, “num país de massas incultas como o nosso, a tendência do grande eleitorado é votar no candidato do governo” (FM, 20/11/1945). Por essa época a liberdade de imprensa era também veementemente defendida, assim como eram defendidos os trabalhos da Constituinte e o direito de o Partido Comunista Brasileiro (PCB) concorrer às eleições. Em 1947, não obstante, a posição das folhas era outra: passaram a ser favoráveis à extinção do PCB e contrárias à permanência dos parlamentares comunistas no Congresso. E para tanto, a Folha da Manhã lançava mão do texto constitucional, que “proíbe a atividade de partidos antidemocráticos e, por extensão, a de seus membros e representantes, como é o caso dos parlamentares comunistas. Ora, é perfeitamente democrático que a vontade da maioria do povo brasileiro, assim expressa na Constituição, prevaleça sobre a vontade da maioria comunista e a impeça de interferir na política” (FM, 13/7/1947). Quanto aos outros partidos, eram criticados pela ausência de programas, assim como por seu número excessivo, fato que gerava desordem, o que por sua vez possibilitava o surgimento de regimes tiranos. O ideal, no caso brasileiro, seria o bipartidarismo, que possibilitaria arregimentar, de um lado, os populistas, a quem as folhas sistematicamente se opunham, e de outro, os demais partidos.

Não é, pois, surpreendente que nas eleições de 1950 as folhas acabassem por apoiar a candidatura do udenista Eduardo Gomes. Posteriormente, a vitória do populismo, com Getúlio Vargas, foi assim explicada: “Eduardo Gomes é o campeão das liberdades democráticas que constituem preocupação apenas das elites e não do povo. Como as elites são minoria e o povo a maioria, era natural que triunfasse o candidato populista” (FM, 7/10/1950). De qualquer forma, as eleições de 1950 foram atribuídas ao mérito da gestão Dutra, marcada sobretudo pela correção, independentemente de os resultados não terem sido os ideais, segundo a perspectiva das folhas.

Mas o resultado das eleições estaduais, em 1951, também não agradou: Prestes Maia foi derrotado por Lucas Nogueira Garcez, candidato dos setores populistas. Pouco depois, diante da gestão do governador eleito, as folhas mudaram de opinião, aplaudindo entusiasticamente sua administração. Em nível municipal o prefeito Jânio Quadros não contou com a simpatia das páginas das folhas, assim como não contaria posteriormente como governador, quando chegou a haver um sério incidente entre ele e esses jornais.

A partir, no entanto, de 1952, a oposição das folhas a Vargas tornou-se evidente, embora os jornais defendessem claramente a necessidade de se “adotar qualquer providência que seja capaz de estabelecer a confiança popular na ação governamental, a fim de que as multidões descontentes tenham ânimo de esperar mais uma vez” (FM, 9/8/1952). Isso explica por que, diante do suicídio de Vargas, as páginas das folhas condenaram veementemente aqueles que forçaram a renúncia do então presidente, ao mesmo tempo que reafirmavam a postura de que teria sido melhor aguardar o fim de seu mandato, uma vez que as forças armadas já haviam assegurado a ordem.

Para que a ordem fosse assegurada, mais do que nunca, segundo as folhas, ficou clara a necessidade de obstaculizar a reprodução do esquema populista, motivo pelo qual a linha editorial passou a ser de franca oposição à candidatura de Juscelino Kubitschek. Os jornais cerraram fileiras com as forças armadas no sentido de impedir essa candidatura, pois “cumprem elas o dever que lhes cabe de velar pelas instituições contra esse perigo iminente” (FM, 9/1/1955). Aliás, a convicção udenista da linha editorial das folhas era nítida, expressa nas teses políticas defendidas, sempre contrárias ao esquema populista.

Durante todo o período da democracia populista, a linha editorial das folhas defendeu a idéia de que a prosperidade econômica levava à paz social. Daí os jornais terem defendido a participação dos operários nos lucros das empresas (com o que todos ganhariam, dado o maior cuidado e empenho na produção) e a necessidade de implementação de políticas sociais que gerariam um maior bem-estar social. As folhas eram porém contrárias à interferência política no meio sindical, pois temiam a politização dos sindicatos no sentido de se transformarem em canais efetivos de mobilização da classe operária. E mais ainda com relação aos sindicatos do meio rural, uma vez que “o meio rural é fácil de ser trabalhado por esses elementos (agitadores profissionais), pois o nível cultural é baixo” (FM, 8/11/1956). Da mesma forma, eram também contrárias ao direito de greve, pois “o simples fato de haver greves é uma demonstração de impatriotismo por parte dos que a insuflam e a fazem” (FM, 3/9/1954).

Quanto ao modelo de desenvolvimento econômico, deveria ele ser associado ao capital estrangeiro e adotar a tecnologia mais avançada: “De acordo com a opinião por nós salientada, de que a participação de capitais estrangeiros na economia nacional é benéfica ao desenvolvimento do país, consideramos altamente auspiciosa a predisposição de grandes empresas industriais norte-americanas para estenderem suas atividades ao exterior... Ao lado de recursos financeiros, poderão nos trazer conhecimentos técnicos e organização nacional” (FM, 9/2/1949). Tal postura foi reafirmada em 1952, durante a campanha do petróleo, pois o “capital nacional não é suficiente para a concretização de um empreendimento de tal vulto” (FM, 1/2/1952). E só essa via é que permitiria, contrariamente ao nacional-desenvolvimentismo, alcançar um desenvolvimento integrado e com ele a paz e a harmonia sociais.

A Folha de S. Paulo

O início da década de 1960 assistiu a profundas mudanças nas folhas. Uma delas, de ordem mais formal, foi a mudança de nome para Folha de S. Paulo. Outra foi a greve de jornalistas em 1961 e, finalmente, a mudança da direção da empresa em 13 de agosto de 1962. Nessa data Nabantino Ramos foi substituído por Otávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, que assumiram a direção da empresa. O cargo de diretor de redação foi ocupado por José Reis, que aí permaneceria até 1967.

A linha editorial a partir de então tornou-se francamente antijanguista e pró-mobilização para o movimento que culminou com os acontecimentos de 1964. Mas a grande mudança ocorreu, exatamente, em nível empresarial. Com uma conduta empresarialmente agressiva, a Folha de S. Paulo ampliou substancialmente seu público leitor a partir de mudanças no sistema de distribuição. A aquisição de frota própria possibilitou que ela conquistasse definitivamente o público leitor interiorano, por lá chegar muito mais cedo do que seus concorrentes. Uma revolução tecnológica na área da impressão consolidou de vez o empreendimento. Assim é que, um ano após a posse de Frias e Caldeira Filho, a Folha de S. Paulo se transformou no jornal de maior circulação paga no Brasil, conforme dados por ele apresentados na edição de 4 de agosto de 1963.

No decorrer do ano de 1963 a Folha de S. Paulo se lançou no movimento por reformas de base, chegando a patrocinar, juntamente com o Correio da Manhã, periódico carioca, o I Congresso Brasileiro para Definição das Reformas de Base, cujas conclusões foram enviadas ao Legislativo.

Ante os acontecimentos de março de 1964, o jornal se autodefiniu como “liberal e democrático”, reafirmando a convicção de que o papel da imprensa é fundamentalmente o de formar a opinião pública. Nesse sentido, além do caderno de notícias, passou também a ser dada ênfase a um outro, de natureza mais variada e eclética.

Em 1966 a Folha de S. Paulo teve de enfrentar um novo concorrente, o Jornal da Tarde, tendo no ano anterior comprado o Notícias Populares.

Na evolução dos acontecimentos do pós-1964, o jornal tentou aproveitar-se de sua autonomia financeira no sentido de preservar sua independência política frente ao Estado. Muito embora tivesse apoiado o movimento de 1964, o simples fato de não concordar totalmente com a política governamental — era difícil, por exemplo, aceitar a censura à imprensa — possibilitou que o jornal aparecesse, de certa forma, como um órgão de oposição. A partir de então, foi combatido pela ala mais direitista — o regime —, assim como pela esquerda.

O recrudescimento dos acontecimentos refletiu-se no âmbito interno, nas sucessivas mudanças da direção da redação, onde teve papel de destaque Cláudio Abramo: “Cláudio Abramo participaria da renovação jornalística da Folha, sobretudo das reformulações de 1968, do período mais difícil da repressão (de 1970 a 1974), da afirmação política do jornal em 1974 e da busca de uma definição clara e metódica da tendência política e ideológica da Folha em 1978.”

Um crédito de confiança ao governo só seria dado em 1974, quando da posse do general Ernesto Geisel na presidência da República. Já em janeiro daquele ano o apoio a Geisel era afirmado: “O Brasil, hoje, avançou bastante sobre aquele dos últimos meses de 1969. É tarefa de cada um e de todos em conjunto apoiar a autoridade que se proclama disposta a prosseguir neste caminho, construindo novas etapas no rumo de uma grande nação, próspera e coesa, generosa e justa” (FSP, 16/1/1974). Mas, como assinalam Mota e Capelato, “a Folha fechava com Geisel, mas a ‘Revolução’ transformara-se em ‘movimento’. Mudança terminológica que prenunciava uma visão distanciada do regime”.

O entusiasmo do jornal com a gestão de Delfim Neto no Ministério da Fazenda e com o “milagre brasileiro” era grande, pois “a verdade é que estamos queimando etapas, descobrindo atalhos e ingressando, sem alarde, na categoria dos países tocados por objetivos nacionais claramente definidos. Ainda não somos... uma nação desenvolvida, mas também já não somos uma nação irremediavelmente subdesenvolvida. Diríamos que somos hoje uma nação desigualmente desenvolvida e não mais uma nação equilibradamente empobrecida... O desequilíbrio no crescimento é preferível ao equilíbrio no definhamento. A divisão desigual da riqueza em expansão é bem melhor que a divisão por igual da pobreza crônica” (FSP, 31/3/1974).

A partir de então, “ ‘pragmatismo responsável’, ‘realismo prudente’, ‘dissensão’ e ‘abertura’ situavam-se numa estratégia que oferecia alguma segurança para a Folha retomar seus editoriais com algum fôlego, ela que se vira obrigada a suspendê-los no período mais tenso do governo Médici”.

Em 1977, o fechamento do Congresso Nacional pelo presidente Geisel para a aprovação do chamado “pacote de abril” foi tratado pela Folha de S. Paulo como uma grave crise política, resultante de um momento em que “as tendências da sociedade civil entraram em contradição irresolúvel com as necessidades do regime político inaugurado pelo movimento de 31 de março”. Após a decretação dessas medidas, a Folha alertou para a existência de um projeto de contenção do MDB, articulado pelo Palácio do Planalto, e o conseqüente perigo da consolidação da Arena como partido único.

Ainda nesse ano, o jornal passou pela sua maior crise de relacionamento com os governos militares. No dia 20 de setembro, a direção da empresa Folha da Manhã decidiu suspender todos os editoriais e artigos da Folha de S. Paulo, em decorrência da prisão do jornalista Lourenço Diaféria. O que motivou tal situação foi uma crônica escrita pelo jornalista no dia 1º de setembro, considerada ofensiva à figura do Duque de Caxias. Em seguida, a Folha chegou a ser acusada pelo secretário de Segurança do estado de São Paulo, coronel Antônio Erasmo Dias, de conter em seus quadros “muitos elementos subversivos”, sendo ameaçada de enquadramento na Lei de Segurança Nacional. Em virtude desses fatos, o proprietário do jornal, Otávio Frias de Oliveira, decidiu pelo afastamento de Cláudio Abramo do posto de editor-chefe e sua substituição por Bóris Casoy, como também pela extinção da coluna “Jornal dos Jornais”, escrita aos domingos pelo jornalista Alberto Dines.

A partir de 1978, a Folha de S. Paulo iniciou uma série de mudanças na estrutura interna da redação. Foi criado o conselho editorial, cujo secretário-geral, Otávio Frias Filho, tornou-se o principal responsável pela implementação do “Projeto Folha”. Este projeto consolidou a nova linha editorial do periódico paulista, incorporando estratégias de marketing e buscando fazer, nas palavras do jornal, “um jornalismo crítico e imparcial”.

Nos seus passos iniciais, a reforma editorial da Folha de S. Paulo voltou-se mais para a estratégia política a ser seguida pelo jornal na fase de redemocratização do país. Essa nova postura editorial, como assinalou Carlos Eduardo Lins e Silva, aproximou o periódico “de um amplo setor da sociedade brasileira que no final da década de 70 somava seus esforços (...) para tentar pôr fim ao regime autoritário que perdurava desde 1964”. A Folha passou então a tematizar constantemente questões ligadas às desigualdades sociais e aos movimentos reivindicatórios da sociedade civil organizada.

Em maio de 1979, uma greve de jornalistas chegou a mobilizar fortemente a categoria na cidade de São Paulo e contou com a adesão maciça da redação da Folha, tendo dela participado todos os seus editores e subeditores. No ano anterior, a empresa já havia concedido um aumento aos seus funcionários após um período de pressão, imposto pela redação através de uma “operação tartaruga” durante os meses de maio e junho. Além de vantagens salariais, os jornalistas da Folha conseguiram ampliar sua organização através da criação do Conselho Consultivo de Representantes de Redação. Toda essa motivação não foi capaz de deter o fracasso do movimento unificado de 1979, inclusive na Folha de S. Paulo, que logo após o encerramento da greve demitiu cerca de 70 jornalistas. Entre eles Cláudio Abramo, que retornou ao jornal em 1980, como correspondente internacional, passando depois a assinar a coluna “São Paulo”, a partir de 1984.

Ainda em função dessa greve, a Folha modificou em 1981 seus critérios para o preenchimento dos cargos de confiança. A nova orientação do Conselho Editorial passou a exigir de todos os ocupantes de cargos dessa natureza solidariedade em relação ao projeto político do jornal. Em documento posterior, “A Folha em busca do apartidarismo, reflexo do profissionalismo” (1982), a direção do órgão considerou que a luta mais importante a ser travada pelo jornalismo naquele momento era “contra o preconceito, contra o senso comum, contra a falta de clareza e concisão, contra as informações incompletas e ambíguas”. Em 1984, a coordenação da reforma editorial passou para as mãos do diretor de redação, cargo ocupado por Otávio Frias Filho. As prioridades do jornal passam a ser então de ordem técnica e operacional.

Para a Folha de S. Paulo, a posse do presidente João Batista Figueiredo, em março de 1979, representou um avanço do ponto de vista democrático, uma vez que garantiu a continuidade da facção liberal do regime militar no comando do processo de abertura política iniciado pelo presidente Geisel em 1974. Mesmo assim, logo após a posse do general Figueiredo, surgiram as primeiras críticas aos limites da redemocratização brasileira, considerada até então incapaz de compreender os direitos de organização e expressão. A Folha apontou também os malefícios causados pela falta de uma democracia plena em relação aos indicadores sociais, criticando a má distribuição de renda existente no país.

Durante a discussão da anistia, a Folha de S. Paulo apoiou a sua implementação de forma “ampla, geral e irrestrita”. Colocou-se contra os projetos propostos, de um lado, pelo governo — que deixava de fora os praticantes de atos terroristas — e de outro, pelo deputado Ernâni Sátiro, do MDB — que negava esse direito a todos que praticaram torturas em presos políticos. No editorial do dia 14 de agosto de 1979, o periódico questionou se poderia haver alguma “distinção a ser feita entre a prática de sevícias, excluída do projeto oposicionista, e a prática de atentados, seqüestros e terrorismo como diz o texto oficial, que o governo não quer anistiar”.

A volta do multipartidarismo, restabelecido através da reforma partidária de dezembro de 1979, foi interpretada pela Folha como um recurso utilizado pelos militares para dissolver a oposição. A ampliação do número de partidos defendida pelos políticos contrários ao regime autoritário foi considerada um erro por parte do jornal, uma vez que, em sua opinião, iria esvaziar a frente democrática formada desde as primeiras vitórias significativas do MDB, nas eleições legislativas de 1974. Os oposicionistas que defendiam o fim do bipartidarismo foram chamados pelo jornal de “inocentes úteis”, postos a serviço do “pragmatismo cru” dos militares.

As greves dos metalúrgicos do ABC paulista, ocorridas em 1979 e 1980, receberam ampla cobertura da Folha, tendo sido o jornalista Ricardo Kotscho o principal responsável pelas reportagens realizadas a esse respeito. O jornal foi contrário à intervenção nos sindicatos da região e à prisão de seus dirigentes, Luís Inácio da Silva e Benedito Marcílio, pela polícia federal. Estes conflitos trabalhistas, de acordo com o periódico, seriam motivados pela manutenção de uma “legislação obsoleta e autocrática, que foi imposta aos brasileiros, de fora para dentro, pois calcada na legislação italiana dos anos 20”.

O apoio às diretas

A campanha nacional, iniciada em outubro de 1983, a favor do restabelecimento das eleições diretas para presidente da República, a partir da sucessão do general Figueiredo, recebeu uma grande acolhida por parte da Folha de S. Paulo. Todas as manifestações públicas pela aprovação das Diretas Já obtiveram destaque em suas publicações. Além de acompanhá-las, a Folha também se colocou à disposição dos seus organizadores para divulgá-las através da coluna “Roteiro das diretas”, que trazia diariamente um resumo de suas principais atividades.

Na edição do dia 24 de abril de 1984, às vésperas da votação da emenda Dante de Oliveira, que propunha modificar a Constituição federal, no sentido do restabelecimento imediato das eleições diretas, foram fotografados no heliporto situado na sede da Folha de S. Paulo 61 representantes da sociedade civil, que naquela data reafirmaram sua posição a favor das Diretas Já.

Logo em seguida, o cerco decretado pelos militares sobre Brasília e adjacências, para evitar concentrações políticas em prol das diretas na capital da República, foi considerado pela Folha o momento mais crítico da campanha, além de um contra-senso, se comparado com a forma pacífica pela qual esta vinha se desenrolando.

Da eleição indireta à morte de Tancredo Neves

Após ter sido rejeitada a emenda que garantia a sucessão pelas urnas, a Folha de S. Paulo tomou uma posição eqüidistante em relação aos dois candidatos que postularam a presidência através do colégio eleitoral. No noticiário do jornal, Paulo Maluf e Tancredo Neves receberam praticamente o mesmo espaço.

Confirmada a vitória de Tancredo, a Folha traçou um quadro das possibilidades de êxito do novo presidente civil, apontando as dificuldades econômicas que deveriam ser enfrentadas pelo seu governo, sobretudo em relação à dívida externa. Neste ponto, o periódico frisou que haveria “um conflito entre os interesses nacionais e aqueles defendidos pela comunidade financeira internacional, mais precisamente a norte-americana”.

Entretanto, para a Folha de S. Paulo, o maior problema da Nova República seria a marginalização do povo no processo político que veio a instaurá-la. A conciliação entre civis e militares que regeu o encerramento do ciclo autoritário foi bastante criticada pelo jornal, que sublinhou a impossibilidade de se atender às “reivindicações mais urgentes das mais variadas camadas da população”, através de acordos que só envolvessem as elites.

Na véspera de ser empossado na presidência da República, no entanto, o ex-governador de Minas Gerais foi internado no Hospital de Base, em Brasília, com fortes dores que o impediram de participar da solenidade do dia 15 de março de 1985. O acompanhamento da doença de Tancredo Neves pela Folha pautou-se por uma cobertura pouco emocionada, o que causou inúmeras críticas de seus leitores. Mesmo assim, o periódico foi adiante e conseguiu realizar um furo de reportagem ao divulgar que Tancredo não sofria de diverticulite, mas de um tumor incurável que o levou a falecer no dia 21 de abril daquele ano.

Sarney e o retorno à democracia

Com a morte de Tancredo Neves, o vice-presidente, José Sarney, passou a exercer definitivamente o cargo de presidente da República. Mesmo defendendo a legalidade dos instrumentos jurídicos que garantiriam a continuidade desse governo, a Folha questionou a falta do voto popular como base de sua sustentação. Do ponto de vista do jornal, Sarney deveria realizar, o mais breve possível, a transição para a democracia. Para cumprir este papel, seria necessária a convocação das eleições presidenciais diretas e da Assembléia Nacional Constituinte, ainda em 1986.

Durante as eleições municipais de 1985, a Folha protagonizou uma polêmica envolvendo o então candidato do PMDB à prefeitura da cidade de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso. O caso teve origem numa pergunta colocada pelo jornalista Bóris Casoy, na época editor da coluna política “Painel”, durante o último debate entre os candidatos na televisão. À pergunta, “Senador, o senhor acredita em Deus ?”, o candidato peemedebista respondeu: “Devo dizer ao Bóris Casoy que esse nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo e, na medida em que respeito a religião do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.” Toda a intervenção de Casoy e a resposta dúbia de Fernando Henrique foram reproduzidas pelo periódico na edição do dia seguinte ao debate, permitindo a ofensiva de seu principal adversário, o ex-presidente Jânio Quadros, que explorou a imagem do adversário como ateu, vencendo as eleições por uma pequena margem de votos. Irritado, o filósofo José Artur Giannotti criticou a Folha através do artigo “A imprensa antropofágica”, publicado em 28 de novembro, quando perguntou, em tom de provocação, se o jornalista é “dotado do poder de instaurar as regras da sua própria profissão e da constituição da notícia”. Em resposta, o filósofo obteve uma réplica de Otávio Frias Filho, na forma do artigo “A política antropofágica”, publicado em 3 de dezembro, no qual o jornalista afirmou estar “convencido de que a liberdade de expressão está acima das normas, já que ela representa a garantia de poder mudar todas elas”. A polêmica manteve-se ao longo do mês de dezembro, quando cada um dos lados ainda chegou a escrever mais um artigo de respostas, até a última réplica do professor Giannotti, publicada na Folha no dia 19 daquele mês.

Em fevereiro de 1986, devido ao quadro de instabilidade econômica que se prolongou durante seu primeiro ano de governo, o presidente José Sarney baixou um conjunto de medidas com o objetivo de controlar a inflação, através do congelamento de preços e salários, da desindexação da economia e de uma reforma monetária que substituiu o cruzeiro pelo cruzado. Embora tenha frisado que a sociedade brasileira não expressara em nenhum momento sua opção por um “tratamento de choque”, a adesão da Folha ao plano de estabilização veio logo em que este alcançou o máximo de sua popularidade. Uma pesquisa do Datafolha chegou a registrar a aprovação do plano por parte de 84% dos entrevistados nas principais capitais brasileiras. No dia 6 de março, 1,7 milhão de exemplares do jornal foram vendidos com a lista de preços congelados pela Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços (Sunab).

A participação dos consumidores na tarefa de denunciar o aumento irregular dos preços foi percebida pelo periódico como a explosão de um “novo civismo”, capaz de dissipar as dúvidas relativas à sustentação do poder civil. O plano, “democraticamente enérgico”, como escreveu Cláudio Abramo, atingiu “senão a razão do povo, o seu coração”. Com isso, a Folha de S. Paulo acreditou que não haveria mais espaço para a política “baseada na desconsideração da opinião pública, no fisiologismo e no acerto de bastidores”.

No decorrer de 1986, entretanto, a Folha de S. Paulo exigiu que fossem feitas alterações no plano, no sentido de se evitar “o aumento exagerado do consumo em face da produção e das grandes distorções nos preços relativos criados pelo congelamento”.

A razão principal da não-realização dessas mudanças teria sido, de acordo com o jornal, de ordem eminentemente política. O calendário eleitoral determinava eleições para os governos estaduais e para o Legislativo (incluindo os representantes da Assembléia Nacional Constituinte), no mês de novembro, o que fez com que o governo relutasse em alterar a essência do Plano Cruzado. Apenas o sucesso do PMDB nas urnas levaria o ministro Dílson Funaro a anunciar novas medidas de ajuste na economia; o chamado Plano Cruzado II, que, segundo os dados do Datafolha, desagradou cerca de 70% da população. Mesmo impopulares, a Folha de S. Paulo considerou essas medidas necessárias.

Em São Paulo, a eleição de Orestes Quércia para o governo do estado representou, segundo a Folha, a vitória de uma das figuras mais fisiológicas do partido, de um “político medíocre e vazio de outros méritos que não a habilidade para manipular a maquinaria partidária e mercadejar favores do Estado”.

No ano de 1986, o maior furo de reportagem da Folha de S. Paulo ficou por conta da descoberta de um campo de testes atômicos, na serra de Cachimbo, a aproximadamente 1.200km de Brasília. O jornal pôs às claras uma operação secreta iniciada com a assinatura do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, em 1975. Conforme as informações trazidas pelo periódico paulista, um acordo articulado por militares de alta patente ligados aos serviços de informação e um pequeno grupo de cientistas iniciara naquela data o desenvolvimento da tecnologia brasileira em armas nucleares.

Em fevereiro de 1988, a Folha de S. Paulo envolveu-se em uma nova polêmica, desta vez, ao divulgar uma lista contendo 1.108 nomes de professores da Universidade de São Paulo, considerados improdutivos no biênio 1985-1986. Embora o periódico tenha chamado atenção para o fato de a lista divulgada pela reitoria da USP ser de caráter provisório, foram feitas duras críticas à falta de controle sobre a produção docente daquela instituição. Segundo Cláudio Weber Abramo, a cobertura do caso pela Folha foi tendenciosa: “A lista continha erros, que eram do conhecimento dos responsáveis pelo jornal; o jornal não procurou ouvir todas as pessoas relacionadas na lista; (...) o jornal identificou produtividade acadêmica à publicação de artigos e/ou livros.”

A repercussão desse noticiário provocou um afastamento entre a redação do jornal e os intelectuais uspianos, resumida na frase de Matinas Suzuki Jr. que afirmou, enfaticamente, “este jornal deixou de reconhecer a USP como a única fonte de verdade”.

Meses mais tarde, a Folha de S. Paulo divulgou a fraude que cercou a concorrência da ferrovia Norte-Sul, uma das principais obras do governo José Sarney. Em 8 de maio de 1988, alguns dias antes da abertura dos envelopes que continham as propostas da licitação, o jornalista Jânio de Freitas fez publicar uma relação cifrada das empreiteiras vencedoras na forma de um anúncio de classificados.

A antecipação desses resultados comprovara que o contrato de construção da ferrovia, orçado em 2,4 bilhões de dólares, estava viciado de modo a favorecer 18 grandes empreiteiras. O ministro dos Transportes, José Reinaldo Tavares, chegou a contestar a reportagem da Folha, declarando que o jornal teria acertado por sorte os números da concorrência. Em função do escândalo, a licitação da ferrovia Norte-Sul foi anulada e sua construção adiada.

Em setembro de 1988, ao encerrar-se a redação do novo texto constitucional, a Folha de S. Paulo, mesmo tendo defendido a antecipação dos trabalhos constituintes em dois anos, considerou que este havia ficado “entre o arcaico e o moderno”. Sua redação, afirmou o periódico, ao mesmo tempo em que ampliava os direitos individuais, ao resguardar o cidadão contra o poder do Estado, conduzia o país ao atraso econômico, por defender a autarquização e o estatismo.

Promulgada a Constituição, em 5 de outubro de 1988, a Folha de S. Paulo considerou encerrada a transição democrática. Para o jornal, os pontos críticos da nova Carta estariam na aprovação do direito irrestrito de greve, da nacionalização dos minérios, do tabelamento de juros e de restrições à entrada de capitais estrangeiros. A ampliação do mandato do presidente José Sarney também recebeu críticas do jornal. O jornalista Jânio de Freitas denunciou a troca de concessões de rádio e televisão por votos que possibilitariam seu quinto ano de governo.

O resultado das eleições municipais de novembro de 1988, que contaram com a vitória dos candidatos de esquerda em grandes capitais como Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Vitória, deveu-se, de acordo com o jornal, à “desagregação do centro”, por intermédio da crise que atingiu o PMDB. Nesta conjuntura, o crescimento do Partido dos Trabalhadores (PT) foi visto pelo periódico como fruto do desencanto de uma grande parte da opinião pública com as práticas tradicionais da política brasileira, que ficaram estampadas, na época, pela expressão “é dando que se recebe”, cunhada pelo então ministro da Indústria e Comércio, Roberto Cardoso Alves.

A Folha de S. Paulo observou ainda que essa onda de inconformismo teria como pano de fundo a crise econômica marcada pela elevação dos índices inflacionários e a omissão política e administrativa do governo Sarney.

As eleições de 1989

Na cobertura da primeira escolha presidencial pelo voto direto, após 21 anos de regime militar, a Folha de S. Paulo procurou manter uma distância crítica em relação a todos os candidatos. No decorrer da campanha, o panorama feito pelo jornal, acerca do conteúdo programático de cada um dos postulantes à sucessão de José Sarney, ressaltou o marasmo em que se encontravam as idéias e soluções para a crise brasileira.

Entre os meses de maio e agosto de 1989, quando o candidato Fernando Collor de Melo atingiu os maiores índices nas pesquisas de opinião, o jornal chamou atenção para os indícios de práticas irregulares ocorridas em suas gestões como prefeito de Maceió e governador de Alagoas. O noticiário do dia 27 de julho de 1989 informou aos leitores sobre o uso indevido de verbas públicas para saldar dívidas das empresas de sua propriedade, no valor de 124 mil dólares. No mês de agosto, surgiram denúncias sobre os gastos excessivos de Collor com a “verba secreta” de seu estado, que, segundo o jornal, ele teria estourado em 5.276%, no pagamento de pesquisas de opinião e compra de presentes.

Nesse mesmo período, o jornalista Clóvis Rossi fez várias comparações entre Collor e o estilo janista dos anos 1960, apresentando suas semelhanças em relação ao uso do discurso da moralidade pública e do perfil de candidato independente, que se coloca contra o “sistema-que-aí-está”. Outro colunista da Folha, o jornalista Gilberto Dimenstein, afirmou que era “absolutamente espantosa a capacidade de Fernando Collor vender a imagem de ‘moralizador’ aos eleitores”, quando ele, “no último dia de seu mandato como prefeito de Maceió, contratou 462 pessoas sem concurso para a Secretaria de Educação”.

Faltando um mês para as eleições, a Folha de S. Paulo traçava um quadro de indefinições quanto ao seu resultado. De acordo com as projeções do jornal, Collor já estaria em um provável segundo turno. No entanto, a maior surpresa seria a ascensão de Luís Inácio Lula da Silva, que empatava com o então segundo colocado, Leonel Brizola. Para a Folha, com a arrancada de Lula, aumentavam as chances de uma vitória eleitoral da esquerda.

Em outubro de 1989, uma série de reportagens, com o título “Menos governo, menos miséria”, criticou a ausência no debate sucessório de projetos capazes de reduzir o peso da ineficiência do Estado. Para a Folha de S. Paulo, todos os candidatos tratavam a questão das privatizações de forma retórica. Entre eles, dizia o jornal, a Petrobras ainda era um “mito histórico”. Do ponto de vista da Folha, a manutenção do cartorialismo e os entraves burocráticos eram os maiores empecilhos à “produção de bens e à competitividade econômica”. Todavia, esses males não seriam eficazmente combatidos por nenhum vencedor das eleições, uma vez que, no Brasil, a classe política “desconhece a dimensão da miséria”. Com isso, o país perderia sua credibilidade internacional, ao não compartilhar do ímpeto de liberalização econômica, que após o colapso do modelo soviético tornara-se, segundo o periódico, a única alternativa viável de desenvolvimento.

A duas semanas das eleições, o empresário e animador de televisão, Sílvio Santos, postulou seu interesse em participar do processo sucessório, através de uma pequena sigla partidária, o PMB. Para a Folha de S. Paulo, a entrada do animador na disputa presidencial, com chances de ir para o segundo turno, deixava claro o nível de despreparo político de grande parte do eleitorado. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral de impedir que a candidatura Sílvio Santos se concretizasse foi aplaudida pelo periódico, que demonstrou em diversos editoriais sua aprovação quanto à decisão dos juízes, afirmando terem eles decidido na mais completa fidelidade em relação à legislação eleitoral.

Poucos dias antes da data prevista para a realização do primeiro turno, a Folha pôs em evidência o caso Lubeca, que envolveu o vice-prefeito da cidade de São Paulo, Luís Eduardo Greenhalgh. A acusação de que o político do PT havia acobertado transações ilícitas daquela empresa, recebendo propina para aprovar um de seus projetos imobiliários na Zona Sul da capital paulista, foi feita por Ronaldo Caiado em um debate entre os presidenciáveis, na TV Bandeirantes, no dia 16 de outubro de 1989. O caso repercutiu entre os membros da direção nacional do Partido dos Trabalhadores, chegando o vice-prefeito a pedir demissão do cargo que acumulava como secretário de Negócios Extraordinários do município de S. Paulo. Após essa decisão, a Folha de São Paulo considerou insuficiente a atitude do PT e exigiu que as investigações prosseguissem, clamando pelo afastamento de Greenhalgh do cargo de vice-prefeito.

A última pesquisa de intenções de voto apresentada pelo Datafolha, antes da “boca-de-urna”, indicou uma subida do candidato “tucano” Mário Covas. Segundo os dados do instituto, Covas estaria com 11 pontos percentuais, sendo o único concorrente a ter reduzido seus índices de rejeição. Esse quadro, explicou o jornal, “embola a disputa pelo segundo turno”.

Contudo, no dia 16 de novembro, logo após o primeiro turno, a Folha de S. Paulo já confirmava o confronto entre PRN e PT na segunda fase das eleições. Nas palavras do jornal, esse resultado deveu-se a “um repúdio intenso a todo o esquema político que deu sustentação ao governo Sarney”.

Durante o segundo turno, após ter convidado os candidatos Fernando Collor de Melo e Luís Inácio Lula da Silva para um debate acerca de seus projetos econômicos, a Folha de S. Paulo chegou à conclusão de que faltavam, até aquele momento, definições claras quanto ao que cada um deles faria caso chegasse à presidência da República.

Na edição de 5 de dezembro de 1989, o periódico trouxe, em uma de suas manchetes, um texto que afirmava a disposição de Luís Inácio Lula da Silva em manter os salários sem aumentos reais como estratégia para frear a inflação. A matéria gerou uma ação por parte do PT, que considerou inverídicas as informações reproduzidas no jornal. A resposta da Folha veio através do editorial “Ataque à imprensa”, onde se colocou que não poderia ser conveniente para os coordenadores da campanha petista revelar a posição de economistas influentes no partido, como Paulo Sandroni e Paul Singer, a favor de uma política salarial bem menos generosa que aquela apregoada nos discursos de palanque.

A arrancada petista nos últimos dias de campanha presidencial, registrou a Folha, levou a uma crise entre os assessores de Fernando Collor. A saída encontrada pela coordenação do seu partido para evitar a derrota foi apresentar, no horário gratuito de rádio e televisão, as acusações da ex-noiva de Luís Inácio Lula da Silva, a enfermeira Míriam Cordeiro, de que o candidato petista a pressionara para abortar a filha do casal, de nome Luriam. Na cobertura do caso, a Folha de S. Paulo trouxe o depoimento da jornalista Maria Helena Amaral, assessora de imprensa de Collor, que se disse ameaçada de morte após ter acusado o PRN de ter pago duzentos mil cruzados novos para que Míriam Cordeiro fizesse tais acusações.

O último debate entre os dois candidatos na televisão foi visto pelo jornal como mais uma prova do “estágio rudimentar em que ainda se encontra a cultura política brasileira”. Para a Folha: “A repetição de um discurso premeditado, ausência de um confronto programático sério (...) fizeram desse encontro um espetáculo deprimente.”

No dia 17 de dezembro, data prevista para a realização do segundo turno, a Folha informou sobre uma inversão na tendência do voto, com Collor aparecendo três pontos à frente de Lula. Na edição seguinte, o caderno “Diretas 89” já apontava o candidato do PRN como o “virtual presidente eleito”, com 51,5% dos votos válidos.

Governo Collor

Divulgados os números do Tribunal Superior Eleitoral que indicavam Fernando Collor como o novo presidente eleito, a Folha de S. Paulo pregou um entendimento a favor da governabilidade.

O jornal elogiou as linhas gerais do Plano Collor, quando da posse do novo presidente, apenas com a ressalva de que este realizara a maior intervenção econômica da história do país, atingindo bruscamente o setor privado, porém evitando reformas mais profundas no setor estatal. Comentando o plano, o jornal reconheceu que devido “à gravidade da crise brasileira” era impossível discordar do presidente, quando ele afirmava não haver “desastre mais completo, do que a eventualidade de um fracasso do programa de estabilização”. Entretanto, através da coluna do jornalista Clóvis Rossi, foram noticiadas as primeiras distorções do pacote, originárias do vazamento de informações relativas a sua implementação entre pessoas ligadas às grandes instituições financeiras.

Ainda no primeiro mês do governo Collor, o prédio da empresa Folha da Manhã foi invadido por agentes da Polícia Federal, que realizaram a operação sob alegação de estarem empreendendo uma devassa fiscal. O repúdio à invasão foi imediato, havendo a Folha de S. Paulo acusado o presidente da República de ter autorizado a ação com o conhecimento prévio do ministro da Justiça, Bernardo Cabral, e da ministra da Economia, Zélia Cardoso de Melo.

Na opinião do jornal, o fato demonstrava a incapacidade crônica do presidente recém-empossado em conviver com uma imprensa livre; não sendo mais do que o resultado da política empreendida “por uma camarilha subdesenvolvida e truculenta, que se julga inconteste nos seus propósitos de salvar a pátria, romper a ordem constitucional e dar plena vazão a tudo que signifique abuso de poder e terrorismo de Estado”. Para a Folha de S. Paulo, a ação teria sido uma represália movida contra a liberdade tomada pelo jornal ao investigar os fatos relacionados à vida pública de Fernando Collor nos meses de sua campanha presidencial.

No editorial de 24 de março de 1990, a Folha fez comparações entre Collor e o ditador italiano Benito Mussolini. Na edição seguinte, foram publicadas fotos dos dois líderes com gestos bastante parecidos, sob o título: “Qualquer semelhança não é mera coincidência.”

Durante a vigência do mandato de Fernando Collor, a Folha de S. Paulo manteve-se atenta às irregularidades praticadas por sua administração. Em julho de 1990, o jornal denunciou a contratação, sem licitação prévia, das agências Setembro e Giovanni e Associados, para executarem campanhas publicitárias ligadas ao governo federal. Em conseqüência, os jornalistas Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha, Josias de Sousa, diretor-executivo da sucursal de Brasília, e os repórteres Nélson Blecher e Gustavo Krieger, foram processados por calúnia pelo próprio presidente da República.

Encerrado o primeiro ano da “Era Collor”, a Folha de S. Paulo observou que a maior parte do que havia sido prometido pelo presidente, em termos de modernização econômica e reforma das práticas políticas e administrativas, ainda estava por se concretizar. Segundo o jornal, como saldo dos primeiros 12 meses de seu governo, Collor teria deixado apenas a recessão e o desemprego, com o agravante da volta da espiral inflacionária.

Na apresentação do Plano Collor II, em fevereiro de 1991, o periódico paulista destacou os altos índices de rejeição dessas medidas. Os novos aspectos recessivos do plano foram criticados, juntamente com a insistência da equipe econômica em manter o congelamento de preços e salários. Ainda nesse mês, a presença da primeira-dama Rosane Collor à frente da Legião Brasileira de Assistência foi posta em questão pelo periódico, que denunciou a compra sem licitação de cestas básicas no valor de 66,5 milhões de cruzeiros.

Na edição de 25 de abril de 1991, Otávio Frias Filho redigiu uma “Carta aberta ao sr. presidente da República”, na qual criticava Fernando Collor por evocar um entendimento nacional com vistas a uma reforma ministerial. Considerou o jornalista, que somente após “empobrecer a população, vender a fantasia de que os problemas nacionais seriam solucionados num passe de mágica, violar a Constituição, humilhar o Congresso, jogar o país numa recessão profunda”, o presidente resolveu abandonar seu pedestal e reconhecer “a impotência a que chegou (...) decorrido apenas um quinto do mandato”.

Do impeachment de Collor à CPI do Orçamento

Em maio de 1992, as acusações de tráfico de influência e cobrança de comissões na liberação de verbas públicas, feitas pelo irmão mais novo do presidente, o empresário Pedro Collor, culminaram com a convocação de uma CPI no Congresso Nacional. Instalada em 3 de junho, a CPI do PC conseguiu acumular provas sobre o envolvimento de Fernando Collor de Melo com o esquema de corrupção dirigido pelo seu ex-tesoureiro de campanha, Paulo César Farias. Frente às descobertas dos parlamentares, a Folha pediu a renúncia do presidente e considerou esta atitude como a “única alternativa capaz de assegurar de imediato a governabilidade do país”.

A abertura do processo de impeachment contra Fernando Collor foi aprovada pela Câmara, em 29 de setembro. No editorial, “A lição do impeachment”, de 30 de setembro, a Folha de S. Paulo reiterou seu apoio às investigações, assinalando que: “O Legislativo agiu em consonância com a manifestação inequívoca da sociedade em favor dos padrões mínimos de probidade e decoro no trato da coisa pública”, ao votar pelo afastamento do presidente.

Em 2 de outubro, como conseqüência do processo de impeachment, Collor se afastou da presidência da República, passando o cargo interinamente para o seu vice, Itamar Franco. Nesta ocasião, a Folha de S. Paulo elogiou a forma pela qual o texto constitucional foi respeitado, garantindo a ordem durante o ato de transmissão do Poder Executivo.

Desde sua posse, no entanto, Itamar foi constantemente criticado pelo jornal, que o considerou um político ainda preso aos valores do nacionalismo dos anos 1950. A escolha de seu ministério foi recebida com grande decepção e, segundo a Folha, havia sido formado por personalidades obscuras, revelando-se “provincial e antigo, tecido com os fios puídos das amizades e relações parlamentares”.

Em abril de 1993 realizou-se o plebiscito para a escolha da forma e sistema de governo. Desde janeiro daquele ano, a Folha de S. Paulo declarou sua preferência pelo parlamentarismo, tratando-o como o regime mais capacitado para “estabelecer entre os poderes um vínculo de responsabilidade”. A principal virtude do parlamentarismo apontada pelo jornal estaria na maior representatividade garantida pelo sistema que, ao contrário do presidencialismo, institui mecanismos capazes de resguardar o eleitor da possibilidade de tornar-se “prisioneiro de suas próprias escolhas”, como teria ocorrido durante o governo Collor de Melo.

A contagem dos votos do plebiscito de 21 de abril consagrou a República Presidencialista por uma larga maioria. Segundo a Folha, este resultado deveu-se à fraqueza com que as propostas em disputa (parlamentarismo, presidencialismo e monarquia constitucional) foram colocadas perante a sociedade. Para a Folha de S. Paulo, outro aspecto significativo na derrota do parlamentarismo teria sido o fato de seus defensores o apresentarem como uma espécie de solução mágica dos problemas do país, considerando que “uma simples modificação institucional pudesse levar o Brasil para o primeiro mundo”.

Em outubro de 1993, as atenções da Folha de S. Paulo voltaram-se para a revisão constitucional. Aplaudida pelo jornal, a “reconstituinte” foi vista como o momento de se superar os vícios contidos na “estrutura arcaica que rege a economia brasileira”. Os trabalhos revisionais foram praticamente suspensos, porém, devido às declarações feitas pelo economista e funcionário do Senado, José Carlos Alves dos Santos, após ter sido preso sob a acusação de ter assassinado a esposa, acerca de irregularidades envolvendo a comissão do orçamento da Câmara Federal.

A Folha de S. Paulo defendeu a apuração dos fatos que cercaram o chamado “escândalo do orçamento”, de modo que fosse retomada o mais rápido possível a revisão da Carta de 1988. A cobertura do jornal procurou ressaltar a influência das grandes empreiteiras na montagem do orçamento da União. Em uma entrevista com o empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da empreiteira C. R. Almeida, o jornalista Clóvis Rossi mostrou o papel de corruptoras das empresas desse setor, “que jogam o preço mínimo ‘no céu’ para pagar comissões”.

O Plano Real e as eleições de 1994

As seguidas substituições no comando do Ministério da Fazenda, durante o primeiro ano do governo Itamar, lhe valeram novas críticas por parte da Folha. No decorrer de 1993, o periódico paulista reclamou a ausência de um plano antiinflacionário e comparou a política econômica vigente com o chamado “feijão-com-arroz” do último ano do mandato de José Sarney. A credibilidade de Itamar Franco estava abalada, segundo a Folha de S. Paulo, porque o presidente se negava a levar adiante um programa conseqüente de privatizações.

Em fevereiro de 1994, após a entrega do relatório final da CPI do Orçamento, os parlamentares recolocaram em pauta a revisão constitucional. Porém, a morosidade que marcou sua retomada tornou a emperrá-la logo nos primeiros dias.

Fracassada a revisão, o lançamento da Unidade Referencial de Valor (URV), indicador previsto no plano de combate à inflação do ministro Fernando Henrique Cardoso, passou a ocupar as manchetes do jornal. Segundo a Folha, o esforço do governo mostrou-se no caminho certo, uma vez que: “O início da segunda fase do Plano Real ocorreu sem sustos. Sem tarifaços ou maxidesvalorizações cambiais, sem qualquer forma de congelamento de preços, sem ruptura imediata dos contratos financeiros.”

Mesmo assim, o editorial “URV sem medo”, publicado em 1º de março, defendeu que a única forma de garantir a estabilidade econômica seria acabar com “o Estado ineficiente, deficitário e oneroso, o mercado de consumo concentrado e limitado, e o sistema de benefícios previdenciários inviável, que são alguns desequilíbrios que explicam ‘estruturalmente’ a inflação brasileira”.

A partir de maio de 1994, a Folha de S. Paulo iniciou a cobertura da chamada “supereleição”, que no mês de outubro iria escolher o presidente da República, 27 governadores, deputados federais e estaduais e 1/3 do Senado. A polarização entre Luís Inácio Lula da Silva — que liderava as pesquisas no início da campanha — e Fernando Henrique Cardoso ganhou destaque no noticiário do jornal, que a considerou uma conseqüência das posições contra e a favor do plano, defendidas respectivamente por cada um dos candidatos.

Em 28 de julho, a Folha anunciava o resultado de uma de suas pesquisas de opinião, demonstrando a possível vitória de Fernando Henrique no caso de haver um segundo turno. Essa reviravolta, comentou o periódico, teria sido provocada pela rápida aprovação popular ao plano de estabilização da economia e também pelo desgaste provocado por denúncias de favorecimento ilícito contra o candidato a vice na chapa do PT, José Paulo Bisol.

A cobertura feita pelo jornal teve um papel de destaque na divulgação do caso Bisol. A Folha de S. Paulo conseguiu provar que a cidade de Buritis (MG), onde o senador possuía uma propriedade, foi favorecida com emendas ao orçamento da União, superestimadas em mais de oito milhões de reais. Uma das emendas destinava-se a financiar a construção de uma ponte ligando a fazenda do candidato da Frente Brasil Popular ao centro daquela localidade. O político gaúcho foi substituído por Aluísio Mercadante em 26 de julho, 27 dias após as primeiras suspeitas chegarem ao conhecimento público.

Logo após a saída de Bisol, suspeitas de envolvimento do candidato a vice-presidente na chapa de Fernando Henrique Cardoso, Guilherme Palmeira, com o esquema de corrupção montado no governo Collor passaram a freqüentar o noticiário do jornal. Em 6 de julho, dois ex-funcionários da empreiteira Sérvia acusaram a empresa de pagar propinas a parlamentares e assessores, entre os quais estaria o senador alagoano. Em seguida, a Folha de S. Paulo revelou que em dezembro de 1990 a prefeitura de Maceió assinou um contrato com a empreiteira no valor de 4,3 bilhões de cruzeiros, com um adiantamento de 950 milhões para obras inicialmente não previstas. O jornal também descobriu que a empresa recebia de uma das contas “fantasmas” do esquema PC e que outra destas contas enviava recursos para a campanha de Geraldo Bulhões ao governo do estado, em 1990. Segundo apurou o periódico, Bulhões repassara parte do dinheiro que recebia de P. C. Farias para a campanha de Palmeira ao Senado. Devido a estas acusações, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) deu preferência ao nome de Marco Maciel para compor sua aliança com o Partido da Frente Liberal (PFL).

Em 3 de outubro, a Folha de S. Paulo confirmou em sua pesquisa de boca-de-urna a vitória de Fernando Henrique Cardoso, já no primeiro turno, com 48% do eleitorado a seu favor, conforme a previsão do jornal.

Ao fazer um balanço da campanha presidencial, a Folha afirmou que o Brasil de 1989 havia ficado muito distante, não mais servindo de parâmetro para se pensar a política e sociedade dos anos 1990. Por essa razão, o novo presidente da República deveria ter como prioridades: “A reorientação do Estado rumo ao atendimento das suas funções básicas de prover saúde, segurança e educação, em vez de assumir um papel empresarial; liberalização da economia, desburocratização; melhor repartição das responsabilidades administrativas entre a União, os estados e os municípios; reforma da previdência, privatizações.”

No editorial de 4 de outubro, a Folha de S. Paulo dirigiu-se ao presidente eleito para parabenizá-lo pelo sucesso do Plano Real. Pois, como lembrou o periódico, foi exatamente por ter conquistado esse êxito que o candidato tucano pôde derrotar Luís Inácio da Silva ainda no primeiro turno.

De acordo com a Folha, a vitória de Fernando Henrique Cardoso, entretanto, não seria suficiente para garantir a continuidade da estabilização econômica, principalmente porque “a eleição não tem o dom de eliminar a fisiologia e o clientelismo da cultura política”. Como salientou o jornal, estes problemas tornaram-se mais difíceis de serem resolvidos pelo novo presidente, especialmente “quando se considera que um dos partidos que melhor encarna esta imagem de fazer política — o PFL — faz parte do seu arco de alianças”.

Os “anos FHC”

No decorrer de 1995, o ânimo de Fernando Henrique Cardoso em promover reformas na ordem econômica e social contou com o apoio da Folha. Do ponto de vista do jornal, porém, muito embora o presidente tivesse avançado na tentativa de flexibilizar monopólios como o do petróleo e das telecomunicações e, sobretudo, conseguido consolidar “uma agenda de temas para uma economia globalizada”, as privatizações estavam acontecendo numa velocidade reduzida.

Ao completarem-se os primeiros seis meses do governo Fernando Henrique Cardoso, a Folha de S. Paulo afirmou que “FHC cumpre reformas, mas fracassa no social”. Para o jornal, nenhuma das cinco metas apresentadas durante a campanha presidencial — saúde, educação, segurança, agricultura e emprego — havia recebido, até então, alguma iniciativa de vulto.

Aspectos técnicos e empresariais

A partir de 1978, com a criação do Conselho Editorial, teve início o “Projeto Folha”, uma estratégia de marketing com o objetivo de tornar o periódico um produto com características próprias. Neste período também ocorreu a sucessão do proprietário do Grupo Folha, Otávio Frias de Oliveira, pelos filhos Otávio e Luís, que assumiram, respectivamente, a direção de redação (em 1984) e a presidência do jornal (em 1993).

Como forma de sistematizar os procedimentos a serem adotados na redação do jornal, a Folha de S. Paulo lançou, em 1984, o manual geral da redação. Outra inovação foi a criação do cargo de ombudsman, em 1989. Com um mandato de um ano, podendo ser renovado por igual período, este profissional é responsável pelo recebimento das queixas e sugestões dos leitores, pela crítica interna do jornal e por uma coluna dominical que compara a performance da Folha em relação aos concorrentes. O cargo foi ocupado inicialmente pelo jornalista Caio Túlio Costa.

No ano de 1996, a Folha de S. Paulo fez uma reforma em seu aspecto visual. O uso de cores e imagens foi ampliado. Uma nova organização interna das páginas foi elaborada, de modo a facilitar a leitura. Os designers Luc de Groot e Erik Spiekerman, da agência alemã MetaDesign, foram contratados para criar as letras das novas edições, incluindo o novo logotipo do jornal. No campo da informação eletrônica, a Folha criou o Universo On Line, com textos de suas edições diárias da Folha da Tarde, Notícias Populares, New York Times e Boston Globe (traduzidos para o português), e da revista IstoÉ, acessados pela Internet. Além disso, foi lançado um CD-ROM contendo textos integrais das edições de 1994 e 1995.

Nesse mesmo ano, o jornal inaugurou seu novo centro gráfico, com capacidade para imprimir 1,7 milhão de exemplares por hora.

Nos últimos anos da década de 1990, a Folha de S. Paulo seguia sendo o maior jornal em circulação média do país, atingindo, aos domingos, a marca de dois milhões de exemplares. Essa liderança foi mantida na década seguinte. Mas se havia começado o novo século com média diária de 429.476, sua circulação foi caindo ano após ano até fechar o primeiro trimestre de 2009 com 298.352, acompanhando a crise que se abateu então sobre toda a imprensa brasileira.

 

Amélia Cohn/Sedi Hiranocolaboração especial

Sérgio Montalvão (atualização)

 

FONTE: ABRAMO, C. Império; Almanaque Abril (1995); BARROS, A. Ética; Exame Vip (1996); Folha de S. Paulo (24, 25, 26 e 27/10/75, 1, 3, 4, 5 e 11/4/77, 16, 18, 23 e 24/3/79, 1/4/80, 1, 10, 17, 18, 19 e 23/4/84, 15, 16 e 17/1/85, 22, 26 e 27/4/85, 12, 13, 15, 17, 18 e 23/11/86, 23/8, 3, 4, 5 e 6/10, 12, 13, 14, 15, 16,17, 18 e 19/11/88, 6, 7, 21, 28 e 30/5, 11 e 15/6, 23/7, 20/8, 1, 8, 15 e 22/10, 14, 15, 16 e 17/11 e 1, 2, 3, 4, 5, 6, 9, 10, 11, 14, 15, 16, 17, 18 e 20/12/89, 16, 17, 18, 23, 27 e 30/3/90, 28 e 30/6, 30/9, 2 e 3/10 e 16, 22, 29, 30 e 31/12/92, 21 e 22/4, 8, 17, 18, 19, 20, 22 e 24/10 e 2/11/93, 2, 3, 17, 19, 25 e 28/2, 1, 2 e 15/3, 1, 6, 10, 15 e 28/7, 3/8, 25/9 e 2 e 3/10/94, 2/1, 3, 8, 9, 10, 11 e 12/3, 4/5 e 2/7/95, 25/2 e 29/4/96); GOLDSTEIN, G. Folhas; HABERT, N. Década; Imprensa (9/87 e 4/91); LATTMAN-WELTMAN, F. Imprensa; MOTA, C. História; SILVA, C. Mil dias; Veja (20/8/86 e 20/5/87); Portal M&M Online (http://www.mmonline.com.br.; acessado em 15/10/2009)

 

 

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