FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S. A.

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Nome: FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S. A.
Nome Completo: FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S. A.

Tipo: TEMATICO


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FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S. A.

            Empresa de economia mista controlada pela União, criada em 28 de fevereiro de 1957, autorizada a funcionar na mesma data pelo Decreto nº 41.066.

Criação

            A Central Elétrica de Furnas S. A. foi criada para a construção de uma grande usina em Minas Gerais, destinada ao abastecimento energético da região Sudeste, representando a principal iniciativa do governo Juscelino Kubitschek no campo da produção de eletricidade. Sua missão original consistiu em implantar um sistema integrado de geração e transmissão, mediante o aproveitamento do potencial do rio Grande no trecho das corredeiras de Furnas, perto da cidade de Passos (MG) e da divisa com o estado de São Paulo. A usina despontou como a primeira central geradora do país com capacidade superior a mil megawatts (MW). A empresa não demorou a assumir novos empreendimentos, alterando sua razão social para Furnas Centrais Elétricas S. A. em 1971.

            A criação da companhia assinalou a entrada em cena do governo federal no mercado de energia elétrica da região mais desenvolvida do país, dominado em larga escala por empresas de capital privado pertencentes a dois grupos estrangeiros. As empresas do grupo canadense Brazilian Traction, Light and Power monopolizavam o atendimento ao eixo Rio-São Paulo, fornecendo energia para o antigo Distrito Federal, o alto Vale do Paraíba, a capital paulista, cidades industriais vizinhas e o porto de Santos (SP). No pós-guerra, a Light passou a enfrentar sérias dificuldades para acompanhar o notável crescimento da demanda em suas áreas de concessão. O mesmo aconteceu com as subsidiárias da American & Foreign Power (Amforp) que geravam e distribuíam energia para Belo Horizonte e outras capitais, além de importantes municípios do interior paulista, como Campinas.

            Em sua campanha eleitoral, Kubitschek prometeu eliminar os pontos de estrangulamento da economia nacional que ameaçam a continuidade do processo de industrialização, destacando a necessidade de investimentos maciços nas áreas de energia e transporte. A presença do governo federal como grande produtor de energia elétrica já era realidade na região Nordeste com a inauguração da usina de Paulo Afonso pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), no final de 1954. O projeto de criação da Eletrobrás permanecia paralisado no Congresso desde a morte do presidente Vargas em agosto do mesmo ano, mas importantes recursos para novos empreendimentos da União tinham sido assegurados com a aprovação do Fundo Federal de Eletrificação, também idealizado por Vargas. Além disso, a participação do poder público estadual no setor começava a ganhar impulso, viabilizando a eletrificação de áreas relegadas a segundo plano pelo capital estrangeiro. A empresa Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemig), fundada em 1952 por Juscelino, estava à frente de amplo programa de construção de hidrelétricas. Paralelamente, o governo de São Paulo obteve certo número de concessões nos rios Paranapanema e Pardo, organizando sociedades de economia mista para sua exploração.

            O projeto de Furnas foi estudado inicialmente por técnicos da Cemig a partir da descoberta de seu enorme potencial em 1954, sendo apresentado a Juscelino como chave para a solução de longo prazo do problema energético do Sudeste. Em dez anos, a demanda de energia da região deveria chegar à casa dos quatro mil megawatts. Tratava-se de um montante impossível de ser atingido com base no programa de obras traçado pelas empresas estrangeiras e concessionárias estaduais. Os planos da Light resumiam-se à ampliação da usina de Cubatão (SP) e à construção da hidrelétrica de Ponte Coberta (RJ). A Amforp centrava todo o esforço na conclusão do aproveitamento de Peixoto (MG), em local do rio Grande relativamente próximo de Furnas.

Os dois grupos estrangeiros alegavam que sua capacidade de investimento estava virtualmente comprometida pela política tarifária vigente.

            Em maio de 1956, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), engenheiro Lucas Lopes, definiu as características básicas do projeto de Furnas, justificando sua inclusão como obra prioritária do Programa de Metas do governo Kubitschek. Além de criar uma grande fonte de energia em ponto quase eqüidistante das três maiores capitais do Sudeste, o empreendimento contribuiria para a interligação de sistemas elétricos até então isolados e para a regularização do rio Grande, permitindo a otimização de seus recursos energéticos.

            A montagem da empresa exigiu quase um ano de negociações. Furnas foi concebida de modo a incorporar as concessionárias privadas estrangeiras e as empresas e organismos estaduais envolvidos com os resultados do empreendimento. A companhia foi constituída em 28 de fevereiro de 1957, com sede em Passos (MG) e escritório central no Rio de Janeiro por meio de escritura pública da qual participaram o BNDE, administrador do Fundo Federal de Eletrificação, a Cemig, o Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), a São Paulo Light e a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), subsidiária da Amforp. O governador mineiro José Francisco Bias Fortes chegou a condenar o projeto de Furnas, mas acabou avalizando a participação da Cemig em troca do apoio da União para a construção da barragem e da usina de Três Marias, no rio São Francisco. A São Paulo Light subscreveu mais da metade das ações preferenciais que somadas à quota da CPFL representavam 30% do capital inicial da companhia. O BNDES contribuiu com 51% das ações ordinárias, com direito a voto, correspondentes a cerca de ¼ do capital. O restante ficou por conta da Cemig e do DAEE de São Paulo. A participação estrangeira suscitou protestos de líderes e personalidades nacionalistas, mas minguou após sucessivos aumentos de capital.

A primeira diretoria da empresa foi composta por seis engenheiros, sob a presidência de John Cotrim, um dos fundadores da Cemig, responsável junto com Lucas Lopes pela área de energia elétrica do Programa de Metas. Além de Cotrim, os diretores Flávio Lira da Silva e Benedito Dutra foram designados pela União. Maurício Chagas Bicalho e Mário Lopes Leão foram indicados pela Cemig e pelo governo paulista, respectivamente. A última vaga, reservada aos sócios estrangeiros, foi ocupada por João da Silva Monteiro Filho, dirigente da Light.

 

A usina de Furnas

            O projeto definitivo de Furnas previu a instalação de 1.200MW em duas etapas. A primeira compreendia todas as obras civis e hidráulicas da usina, a montagem de seis unidades geradoras com capacidade total de 900MW e a implantação de linhas de transmissão até São Paulo e Belo Horizonte, na tensão de 345 quilovolts (kV), além de uma linha de menor tensão para alimentar o canteiro de obras com energia da usina de Peixoto. A ligação com o Rio de Janeiro foi deixada para a segunda etapa, em virtude da dualidade de freqüências na região Sudeste. A chegada da energia de Furnas aos consumidores cariocas estava condicionada à conversão do sistema Rio Light para a freqüência de 60 hertz (Hz).

            Os trabalhos de construção da usina foram iniciados em junho de 1958 com recursos do Fundo Federal de Eletrificação e do BNDE, suplementados por empréstimo de 73 milhões de dólares do Banco Mundial para as despesas em moeda estrangeira com a importação de máquinas e equipamentos. O projeto da barragem e da casa de força foi elaborado por firma norte-americana; as obras civis ficaram a cargo de um consórcio liderado por empresa inglesa, destacando-se no final a participação da empreiteira nacional Mendes Júnior.

            Em março de 1960, o rio Grande foi desviado de seu leito natural para a construção da barragem de Furnas. A linha para Belo Horizonte entrou em operação no mesmo ano, transmitindo energia de Peixoto à capital mineira num momento crítico do abastecimento a toda a zona central do estado. Em seguida, o cronograma de obras sofreu atraso devido a problemas financeiros. A barragem obrigou o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas, sendo concluída em janeiro de 1963 no governo João Goulart. A formação do reservatório com 1.250km2 de área permitiu a regularização do regime fluvial do rio Grande, garantindo a instalação de uma seqüência de usinas a jusante.

            A primeira unidade geradora de Furnas entrou em operação em setembro de 1963, evitando um iminente corte do fornecimento de energia ao parque industrial paulista e carioca. A segunda máquina foi inaugurada em novembro, ainda em meio à prolongada estiagem que levou ao virtual esgotamento dos reservatórios da Light. Ao completar 900MW de potência em julho de 1965, a usina foi inaugurada oficialmente pelo presidente Humberto Castelo Branco, restabelecendo o equilíbrio entre a oferta e a demanda de eletricidade na região Sudeste. Durante três anos, a produção de Furnas foi destinada apenas à São Paulo Light, beneficiando entretanto os consumidores cariocas graças a um esquema de emergência acertado pelas duas empresas. Além das instalações que compunham seu plano básico de transmissão, Furnas implantou uma linha para abastecer a área paulista do Vale do Paraíba. Liberada desse atendimento, a usina de Cubatão transferiu parte de sua produção para o Rio de Janeiro, adaptando duas unidades geradoras para a freqüência de 50Hz. A transferência foi realizada pela linha da Light que interligava seus sistemas elétricos paulista e fluminense. 

Expansão

            Furnas permaneceu sob controle do BNDE até a constituição da Centrais Elétricas Brasileiras S. A. (Eletrobrás) em junho de 1962, passando então à condição de subsidiária da empresa holding federal, juntamente com a Chesf e mais duas companhias de menor porte.

            De imediato, a empresa manteve elevado grau de autonomia perante a Eletrobrás, sendo inclusive encarregada de representá-la no trabalho de levantamento dos potenciais hidráulicos e do mercado de energia elétrica da região Sudeste, iniciado em 1963 com o apoio de um consórcio de firmas estrangeiras conhecido como Canambra. Esse trabalho estabeleceu a seqüência de obras necessárias para o atendimento da demanda de eletricidade da região até 1980.

            O programa de construção de grandes hidrelétricas recomendado pela Canambra foi executado por Furnas e duas concessionárias de âmbito estadual, a Cemig e a Centrais Elétricas de São Paulo (CESP), empresa fundada em 1966 que unificou as ações do governo paulista na área de energia elétrica. As demais empresas públicas, incluindo a CPFL e outras subsidiárias da Amforp adquiridas pela Eletrobrás em 1964, realizaram obras de menor porte. A Light não ampliou sua capacidade geradora, tornando-se cada vez mais dependente dos fornecimentos de Furnas e da CESP.

            Furnas foi autorizada a erguer sua segunda usina no rio Grande em 1965, vencendo disputa com a Cemig pela concessão para o aproveitamento de Estreito, um dos empreendimentos prioritários recomendados pela Canambra. Também herdou duas obras iniciadas pela Companhia Hidro Elétrica do Vale do Paraíba (Chevap), subsidiária da Eletrobrás em processo de liquidação, comprometendo-se com o fim da construção de uma termelétrica no subúrbio carioca de Santa Cruz e da usina de Funil, no rio Paraíba do Sul.

            A usina de Santa Cruz entrou em operação em 1967, suprindo a área já convertida para 60Hz do então estado da Guanabara. No ano seguinte, a linha Furnas-Guanabara passou a integrar o sistema de transmissão da empresa. A interligação dos sistemas Light, Cemig e CPFL por intermédio das linhas de alta tensão de Furnas, bem como as demais interligações dessas empresas entre si e com sistemas vizinhos, constituíram um conjunto interligado de grande complexidade operativa.

            A usina de Estreito ampliou em 1.050MW a capacidade de produção da empresa, começando a operar em 1969 com a maioria de suas unidades geradoras. Funil garantiu um acréscimo de 216MW, sendo concluída no ano seguinte. Nessa altura, a empresa já tinha recebido a incumbência de construir a primeira usina nuclear do país. As obras foram iniciadas em 1972, no município de Angra dos Reis (RJ), visando à instalação de um reator a urânio enriquecido de 657MW encomendado à firma norte-americana Westinghouse.

Em paralelo, a tendência centralizadora do regime militar contribuiu para a afirmação da Eletrobrás como agência de planejamento e holding das empresas federais do setor. Principal acionista de Furnas e da Chesf, a Eletrobrás passou a contar com mais duas subsidiárias de âmbito regional: a Centrais Elétricas do Sul do Brasil (Eletrosul) e a Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte), criadas em 1968 e 1973.

As condições de financiamento bastante favoráveis, a abundância de aproveitamentos hidráulicos ainda disponíveis na região Sudeste e a atuação relativamente discreta da Eletrobrás permitiram uma convivência até certo ponto harmoniosa entre Furnas, a holding federal e as concessionárias estaduais durante o período do chamado “milagre” econômico brasileiro. Esse quadro começou a mudar com a assinatura do Tratado de Itaipu entre os governos do Brasil e do Paraguai em abril de 1973. O tratado previu a construção no rio Paraná de uma usina com 12.600MW de potência final, destinados quase integralmente ao mercado brasileiro. A consecução da obra e a operação da usina ficaram a cargo da Itaipu Binacional, constituída em partes iguais pela Eletrobrás e pela Administración Nacional de Electricidad (Ande), empresa estatal paraguaia.

Maior empreendimento do gênero no mundo, Itaipu impôs novos rumos ao planejamento da expansão e da operação dos sistemas elétricos das regiões Sudeste e Sul. A utilização prioritária da energia de Itaipu nessas regiões foi aprovada em julho do mesmo ano pela Lei nº 5.899, caracterizando uma reserva de mercado para a usina binacional. A lei encarregou Furnas de construir e operar o sistema de transmissão associado à gigantesca hidrelétrica, reconhecendo expressamente seu papel de empresa supridora regional com atuação nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás e Mato Grosso e no Distrito Federal. Além disso, criou o Grupo Coordenador para Operação Interligada (GCOI), organismo liderado pela Eletrobrás com a participação de Furnas e das principais empresas de energia elétrica das regiões Sudeste e Sul.

O ano de 1973 também assinalou um grande salto na capacidade geradora da empresa federal. A usina de Santa Cruz atingiu a marca de 600MW, tornando-se uma das maiores termelétricas da América Latina. A hidrelétrica de Peixoto (atual Mascarenhas de Morais) com 476MW foi adquirida da CPFL, na época subsidiária da Eletrobrás. Dando sequência aos aproveitamentos no rio Grande, a usina de Porto Colômbia foi inaugurada, passando a operar com sua capacidade máxima de 320MW em janeiro de 1974. Em paralelo, a usina de Furnas recebeu mais duas unidades geradoras, completando sua potência final.

A primeira mudança de comando em Furnas ocorreu no início do governo Ernesto Geisel (1974-1979). Fundador e presidente da empresa durante 15 anos, John Cotrim renunciou ao cargo em abril de 1974, sendo substituído por Luis Cláudio de Almeida Magalhães, engenheiro de carreira da Cemig.

O crescimento da demanda de energia elétrica na região Sudeste durante o período de construção de Itaipu foi atendido com folga pelos projetos consignados no plano de longo prazo elaborado pela Eletrobrás em 1974. O chamado Plano 90 atribuiu a Furnas algumas obras que já estavam em andamento ou em fase inicial de execução, como a central nuclear de Angra dos Reis e os aproveitamentos hidrelétricos de Marimbondo, no rio Grande, e Itumbiara, no rio Paranaíba. Além disso, a empresa federal foi encarregada de construir mais duas centrais nucleares. Em junho de 1975, o Brasil assinou acordo de cooperação com a Alemanha, tendo em vista a aquisição dos equipamentos para as usinas Angra 2 e Angra 3, ambas com 1.300MW de potência. Um ano depois, Furnas concretizou a compra junto à empresa alemã Kraftwerk Union (KWU) do grupo Siemens. As obras civis de Angra 2 começaram em 1977, surgindo porém imprevistos que atrasaram de forma irrecuperável o cronograma inicial. A responsabilidade pela construção da usina passou em 1981 para a holding federal Empresas Nucleares Brasileiras (Nuclebrás), sendo novamente transferida para Furnas sete anos mais tarde.

            Os projetos hidrelétricos seguiram curso normal. Em 1975, a usina de Marimbondo começou a gerar energia, chegando a sua potência final de 1.440MW em menos de dois anos de operação. Inaugurada em 1980, a usina de Itumbiara tornou-se a maior do sistema Furnas ao atingir a capacidade instalada de 2.082MW no ano seguinte.

            A experiência operativa de Angra 1 foi marcada por vários problemas técnicos, erros de projeto e restrições de segurança. Defeitos de fabricação dos equipamentos da Westinghouse foram constatados durante os testes de potência iniciados em abril de 1982 e após a entrada em operação comercial da usina, em janeiro de 1985. O alto custo do projeto levou o governo a estabelecer um mecanismo de compensação em favor de Furnas em novembro do mesmo ano. A União assumiu então o compromisso de ressarcir os custos excedentes ao valor de uma usina hidrelétrica de semelhante capacidade e disponível para construção. A central permaneceu praticamente paralisada entre 1986 e 1988, em decorrência de falhas técnicas e de ações judiciais a respeito de pontos polêmicos, como o destino dos rejeitos radioativos e o plano de emergência para retirada da população de Angra dos Reis em caso de acidente nuclear. Nesse ínterim, Furnas reclamou uma indenização da Westinghouse pelos inconvenientes operativos resultantes dos defeitos nos geradores a vapor. O processo foi levado à Corte Internacional de Arbitragem de Paris, sendo encerrado apenas em 1994 com ganho de causa para a empresa americana.

Furnas foi encarregada de terminar as obras de Angra 2 e 3 em função das mudanças ocorridas na política nuclear brasileira em 1988. Na ocasião, o governo federal decidiu transferir todas as atividades de construção e operação de usinas nucleares para o setor de energia elétrica. Com a extinção da holding Nuclebrás, o grupo Eletrobrás incorporou a Nuclebrás Engenharia S. A. (Nuclen), empresa criada no âmbito do acordo Brasil-Alemanha com intenção de promover a transferência da tecnologia relativa a centrais nucleares de potência.

A construção do sistema de transmissão de Itaipu exigiu dos técnicos de Furnas o domínio de novas tecnologias, tendo em conta a grande distância entre a usina e os principais centros de carga do país e a diferença de freqüência entre o sistema elétrico brasileiro de 60Hz e o paraguaio de 50Hz. A questão da freqüência suscitou acirrado debate diplomático e técnico entre os dois países, somente resolvido em dezembro de 1977, quando o presidente Ernesto Geisel concordou em dividir a usina em duas partes de igual potência, com nove geradores de 60Hz e outros nove de 50Hz. Essa decisão implicou na construção de um sistema misto de transmissão para escoamento da energia de Itaipu ao mercado brasileiro, composto por linhas de corrente alternada e corrente contínua.

A transmissão da energia gerada em 50Hz foi assegurada por dois circuitos de corrente contínua em 600kV, com 790km de extensão, conectando diretamente as subestações de Foz do Iguaçu (PR) e Ibiúna, na região metropolitana de São Paulo. O primeiro circuito entrou em operação em 1984, simultaneamente à inauguração da usina, e o segundo em 1988.

O tronco de transmissão em corrente alternada foi planejado para receber três linhas de 750kV, com 890km de extensão, ligando as subestações de Foz do Iguaçu e Tijuco Preto, nas imediações de São Paulo, com passagem pelas subestações de Ivaiporã (PR) e Itaberá (SP). De acordo com o planejamento proposto pela Eletrobrás, a primeira linha de 750 kV começou a operar em 1982 no trecho Ivaiporã-Itaberá-Tijuco Preto, assegurando uma forte interligação elétrica entre as regiões Sudeste e Sul. Furnas completou a construção da primeira linha em 1986, quando Itaipu acionou as primeiras máquinas de 60 Hz. A transmissão de energia pela segunda linha teve início em 1989, atendendo tanto a região Sudeste como a região Sul, a partir da ligação estabelecida em Ivaiporã entre os sistemas de Furnas e da Eletrosul. A implantação da terceira linha sofreu sucessivos adiamentos, sendo concluída apenas em 2001.

Empresa integrada de geração e transmissão, Furnas movimentava mais de um terço da energia disponível no país no final da década de 1980, incluindo a geração própria e o repasse de energia recebida de Itaipu e outras concessionárias. A capacidade instalada de seu parque gerador somava 8.100MW de origem predominantemente hidráulica. O complexo sistema interligado da empresa atendia a todos os estados do Sudeste e da região Centro-Oeste, excetuando o Mato Grosso do Sul, incluído na área de atuação da Eletrosul em 1980.

Durante os governos João Batista Figueiredo (1979-1985) e José Sarney (1985-1990), Furnas foi dirigida pelos engenheiros Licínio Marcelo Seabra e João Camilo Pena, respectivamente, ex-dirigentes da Cemig, a exemplo de seus antecessores John Cotrim e Luís Cláudio Magalhães. 

 

Crise e reforma setorial

A crise econômica do país na década de 1980 afetou profundamente as empresas estatais, minando a estrutura institucional e financeira do setor de energia elétrica. A contenção das tarifas de eletricidade como instrumento de controle da inflação acarretou a descapitalização das concessionárias que deixaram de gerar os recursos necessários a sua expansão. A alta da taxa de juros no mercado internacional após o segundo choque do petróleo em 1979 e a tomada de empréstimos para obras de prioridade duvidosa tornaram o montante da dívida externa incompatível com a capacidade de resgate do setor. A taxa da remuneração das companhias de energia elétrica caiu abaixo do mínimo legal de 10% ao ano sobre os ativos em serviço. No caso de Furnas, a taxa de remuneração chegou a apresentar índice negativo em 1989.

As perdas tarifárias foram agravadas pela inadimplência setorial. Algumas empresas estaduais começaram a atrasar sistematicamente o pagamento da energia fornecida por Furnas que chegou a mover uma ação judicial contra a Eletropaulo, estatal paulista criada em decorrência da nacionalização (1979) e desmembramento (1981) da Light.

Em função da crise, a empresa atrasou o cronograma de várias obras importantes sobretudo no campo da transmissão. O programa de expansão de sua capacidade geradora também ficou comprometido. Levando em conta o planejamento estabelecido em dezembro de 1987, a potência instalada de Furnas deveria quase dobrar em dez anos com a entrada em operação da segunda e terceira centrais nucleares de Angra dos Reis e de nove usinas hidrelétricas nos estados de Goiás e Rio de Janeiro. Os empreendimentos hidrelétricos de maior porte estavam situados na bacia do rio Tocantins, destacando-se a usina de Serra da Mesa com 1.275MW de potência e já na fase inicial de construção. Devido a vários fatores, notadamente a indisponibilidade de recursos financeiros, a potência instalada de Furnas permaneceu inalterada até 1997. Nesse ano, a empresa inaugurou a usina de Corumbá (GO), situada no rio de mesmo nome, acrescentando 375MW ao seu parque gerador. As demais concessionárias também descumpriram o planejamento setorial. A paralisação de numerosas obras significou uma fonte permanente de elevação de custos.

O agravamento da crise econômica nacional no começo da década de 1990 reduziu ainda mais o valor real das tarifas, contribuindo para um processo generalizado de inadimplência e quebra de contratos no setor de energia elétrica. A dívida de empresas estaduais com Furnas assumiu proporções alarmantes. São Paulo destacou-se como principal devedor, especialmente depois que o governador Luís Antônio Fleury Filho resolveu dar continuidade à inadimplência deliberada do governador Orestes Quércia, determinando que a Cesp e a Eletropaulo não pagassem pela energia recebida, embora cobrassem seu valor dos consumidores finais.

A partir de 1993, a legislação do setor sofreu diversas alterações, tendo em vista a abertura à participação do capital privado, o aumento da competição e o início do processo de privatização, tanto federal quanto de empresas estaduais.

Em março de 1993, o presidente Itamar Franco sancionou a Lei nº 8.631, modificando o sistema tarifário e extinguindo o regime de remuneração garantida. A lei forneceu ainda condições para o restabelecimento do fluxo de pagamento entre as concessionárias, reconhecendo como um encargo da União a tarifa não concedida em exercícios anteriores. Os enormes débitos das empresas entre si e junto à União foram liquidados através de complexo processo contábil-financeiro. As companhias paulistas voltaram a atrasar o pagamento de contas de Furnas e de Itaipu na administração do governador Mário Covas. De todo modo, Furnas conseguiu reverter o resultado negativo ou pouco expressivo de vários exercícios anteriores.

O novo quadro legal também permitiu a formação de parcerias entre as concessionárias e a iniciativa privada para construção de usinas. Furnas valeu-se dessa alternativa para retomar as obras de Serra da Mesa, concebendo em 1993 uma engenhosa modelagem para viabilizar o empreendimento. Mediante processo licitatório, foi estabelecida parceria com a Nacional Energética, empresa controlada pelo Banco Nacional, que assumiu a responsabilidade pelo aporte de capital necessário à conclusão da obra em troca do recebimento de 51% da potência da hidrelétrica. A Nacional Energética obteve um financiamento público de R$ 611 milhões, mas não sobreviveu à liquidação do Banco Nacional, ocorrida no final de 1995. A totalidade de suas ações foi alienada em março de 1997 para a VBC Energia, empresa formada pelos grupos Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa. A usina de Serra da Mesa entraria em operação no ano seguinte. Seu imenso reservatório, o maior em volume d’água da América do Sul, proporcionou ganhos energéticos importantes para o sistema interligado Sul/Sudeste/Centro-Oeste e para as hidrelétricas localizadas a jusante no rio Tocantins, como Tucuruí.

Em maio de 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou o Decreto nº 1.503 que incluiu Furnas no Programa Nacional de Desestatização (PND) juntamente com a Eletrobrás e as demais empresas geradoras regionais controladas pela holding federal. As ações da Eletrobrás correspondentes a 99,5% do capital de Furnas foram imediatamente depositadas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), órgão gestor do PND.

Furnas perdeu nove concessões de aproveitamentos hidrelétricos em decorrência da nova legislação sobre as concessões dos serviços públicos (Lei nº 8.987, aprovada em fevereiro de 1995). Foram extintas ainda as concessões para o conjunto de aproveitamentos do curso principal do rio Tocantins e seus afluentes a montante do reservatório de Serra da Mesa.

O processo de privatização do setor começou com a venda das duas empresas distribuidoras pertencentes ao grupo Eletrobrás: a Espírito Santo Centrais Elétricas (Escelsa) e a Light, leiloadas em julho de 1995 e maio de 1996 respectivamente.  Também em 1996, o Ministério de Minas e Energia (MME) iniciou os estudos do chamado Projeto de Reestruturação do Setor Elétrico (RE-SEB) com a participação de consultores internacionais e de técnicos da Eletrobrás, BNDES, Furnas e outras empresas públicas e privadas. Outro passo importante para a reforma do setor foi a criação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), instituída por lei em dezembro de 1996. A nova agência começou a funcionar como órgão regulador e fiscalizador dos serviços de eletricidade do país um ano mais tarde.

O segmento nuclear de Furnas, excluído do programa de privatização federal por impedimento constitucional, foi transferido para a Nuclen por determinação do Conselho Nacional de Desestatização (CND). Apesar das divergências com a União em relação aos custos excedentes decorrentes da construção e operação de usinas nucleares, a transferência foi efetivada em maio de 1997. A fusão da área nuclear da empresa com a Nuclen deu origem a uma nova subsidiária da Eletrobrás, criada em agosto do mesmo ano sob a denominação Eletrobrás Termonuclear (Eletronuclear). Absorvendo em seu quadro de pessoal mais de mil funcionários de Furnas que trabalhavam na diretoria de produção termonuclear, a Eletronuclear tornou-se responsável pela operação de Angra 1 e pela conclusão das obras de Angra 2. A segunda usina nuclear do país entraria em operação em julho de 2000.

Em outubro de 1997, a Medida Provisória nº 1531 autorizou o desmembramento dos ativos de geração e transmissão de Furnas, Eletrosul e Eletronorte, atendendo a uma das recomendações básicas da proposta do consórcio de consultores estrangeiros para a reordenação institucional do setor. Segundo a proposta, a segregação da indústria de energia elétrica em unidades de negócio independentes (geração, transmissão, distribuição e comercialização) permitiria fomentar a competição na geração. De imediato, o governo promoveu a cisão da Eletrosul, transferindo o controle de suas usinas para uma nova empresa, denominada Centrais Geradoras do Sul do Brasil (Gerasul).

           Em maio do ano seguinte, após sucessivas reedições, a Medida Provisória nº 1.531 foi convertida na Lei nº 9.648, autorizando o Poder Executivo a promover a cisão de Furnas em duas empresas de geração e uma de transmissão, tendo em vista a venda de suas usinas. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o governo tencionava agrupar numa empresa de geração as usinas do rio Grande e Paraíba do Sul juntamente com a termelétrica de Santa Cruz. A outra reuniria as hidrelétricas de Itumbiara, Corumbá e Serra da Mesa. Inaugurada em abril do mesmo ano, Serra da Mesa . O segmento de transmissão permaneceria, por prazo indefinido, sob controle estatal.

            Peça básica da reforma setorial, a Lei nº 9.648 instituiu o Mercado Atacadista de Energia Elétrica (MAE) com a função de intermediar e registrar todas as transações de compra e venda de energia nos sistemas interligados e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) como organismo sucessor do GCOI nas atividades de coordenação e controle da operação das instalações dos sistemas interligados. A Aneel foi incumbida de estabelecer a regulamentação do MAE, coordenar a assinatura do acordo de mercado entre os agentes do setor e definir as regras de organização do ONS.

            A nova legislação também determinou a assinatura dos chamados contratos iniciais entre geradoras e compradores de energia com nove anos de duração. Os volumes de energia dos contratos iniciais deveriam ser reduzidos gradualmente entre 2003 e 2006, com o objetivo de permitir a completa liberação do mercado ao final do período. Qualquer diferença entre o montante produzido pela geradora e o contratado com a distribuidora deveria ser compensado por transações no mercado de curto prazo (mercado spot). Os contratos iniciais de Furnas com suas supridas incluíram a energia importada da Argentina pela Companhia de Interconexão Energética (Cien), a energia da termelétrica de Cuiabá (atual Governador Mario Covas) e a energia de Angra 1 e 2.

            A primeira geradora de grande porte do país foi leiloada em O governo federal promoveu a venda primeiro leilão da Gerasul, em setembro de 1998, marcou a venda da primeira geradora de grande porte do país. Com 3.700W de capacidade instalada, a empresa foi adquirida pelo grupo belga Tractebel.  Nessa altura, mais da metade do mercado de distribuição de energia elétrica do país já estavam sob o controle do capital privado, em decorrência do avanço do processo de desestatização das concessionárias públicas estaduais.

            O programa de privatização das empresas federais coibiu em certa medida os investimentos de Furnas na expansão de seu sistema elétrico. Furnas, em particular, apresentava excelentes condições para alavancar os recursos necessários a novos investimentos. A empresa concluiu obras importantes, como Serra da Mesa, assumiu o lugar da Eletronorte no projeto do aproveitamento múltiplo de Manso (MT) e investiu na modernização de suas instalações, mas foi impedida de participar das licitações públicas para a construção de novas hidrelétricas. Realizada em parceria com o capital privado, a usina de Manso (210 MW) entraria em operação em maio de 2001.   

            Na área de transmissão, o governo federal delegou a Furnas e à Eletronorte a responsabilidade conjunta pela execução de um empreendimento de grande porte: a interligação Norte-Sul. Planejada pela Eletrobrás, a obra estabeleceu a conexão elétrica entre os dois grandes sistemas interligados do país, mediante a implantação de 1.270km de linhas em 500 kV entre Imperatriz (MA) e Samambaia (DF). Furnas cuidou da construção de 770km de linhas entre as subestações de Miracema (TO), Gurupi (TO), Serra de Mesa (GO) e Samambaia. A entrada em operação comercial da interligação Norte-Sul, em março de 1999, caracterizou a constituição do chamado Sistema Interligado Nacional (SIN).

            Ao longo dos anos 1990, Furnas foi dirigida sucessivamente pelos engenheiros Eliseu Resende (1990-1992), Marcelo Lignani Siqueira (1992-1994), Ronaldo Artur Cruz Fabrício (1994-1995) e Luiz Laércio Simões Machado (1995-1999). Em maio de 1999, a presidência da empresa foi entregue ao advogado Luís Carlos dos Santos, ex-deputado federal por São Paulo e ministro extraordinário para a Coordenação Política entre 1996 e 1998.

 

Racionamento de 2001

A reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso em outubro de 1998 assegurou, em princípio, a continuidade da política de reforma e desestatização do setor de energia elétrica. Havia também a expectativa de superação do quadro de relativa estagnação dos investimentos que não vinham ocorrendo no volume necessário para garantir a expansão da oferta de energia elétrica.

O governo federal enfrentou, no entanto, sérias dificuldades para a consecução do processo de reformas do setor. No plano político, a privatização de Furnas, da Chesf e da Eletronorte passou a sofrer a oposição de parlamentares pertencentes à própria base de apoio do governo e de políticos de expressão nacional, como Itamar Franco. O ex-presidente tomou posse do governo de Minas Gerais em janeiro de 1999 e mobilizou até mesmo a Polícia Militar estadual para defender a usina de Furnas contra sua pretendida privatização. Em outubro de 1999, Itamar declarou que estava disposto a obstruir a venda da empresa por todos os meios, ameaçando desviar as águas dos rios mineiros que abasteciam o reservatório de Furnas.

As dificuldades no plano econômico também enfraqueceram o projeto de reforma e desestatização do setor. A desvalorização cambial de janeiro de 1999 teve um forte impacto sobre a economia brasileira e as empresas de energia elétrica com alto nível de endividamento, especialmente aquelas que haviam sido utilizadas para outras concessionárias.

A desestatização do sistema Eletrobrás tornou-se bastante controversa, envolvendo inúmeras questões, como a modelagem de venda de Furnas, o uso das águas no caso da Chesf e a forma de viabilização econômico-financeira dos sistemas isolados da Eletronorte na região Amazônica.

Em fevereiro de 1999, o CND determinou ao BNDES a definição de nova modelagem de venda das três geradoras federais, incluindo a possibilidade de pulverização de uma parcela de suas ações. Ao longo do ano, ficou evidente a falta de consenso no governo sobre o melhor modelo de privatização de Furnas. Enquanto o BNDES defendia a venda apenas dos negócios de geração, o presidente da empresa, Luís Carlos Santos, considerava preferível a venda integral, incluindo a transmissão. Em fevereiro de 2000, o presidente Fernando Henrique transferiu para o MME a responsabilidade pela execução e acompanhamento do processo de desestatização das empresas federais incluídas no PND. Em julho do mesmo ano, o ministro Rodolpho Tourinho apresentou proposta de pulverização do capital de Furnas, em vez da venda por bloco de ações. Após a demissão de Tourinho, em fevereiro de 2001, os estudos voltaram à alçada do BNDES, mas sem conseqüências práticas.

O governo também não conseguiu implantar um ambiente regulatório adequado nem um mercado livre confiável no MAE. A definição das regras para a operação do MAE foi concluída apenas em fevereiro de 2000. Meses depois, entretanto, Furnas negou-se a reconhecer uma dívida de R$ 578 milhões contraída com 12 geradoras por conta da energia tomada para compensar o atraso da entrada em funcionamento da usina de Angra 2. Em conseqüência, a liquidação das transações de compra e venda de energia no mercado spot foi paralisada, abalando a credibilidade do MAE.

Também fracassaram as diversas tentativas para aumentar a oferta de energia elétrica no curto prazo, em especial o Programa Prioritário de Termelétricas (PPT), lançado em fevereiro de 2000. O atraso de obras e a insuficiência de investimentos em geração e transmissão acentuaram a tendência ao desequilíbrio entre a oferta e a demanda de energia elétrica, acarretando a utilização excessiva da água armazenada nos reservatórios do SIN.

As condições hidrológicas desfavoráveis nas regiões Sudeste e Nordeste acabaram precipitando a maior crise de energia elétrica já ocorrida no Brasil. Em vista da gravidade da situação, o governo federal criou, em maio de 2001, a Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) e implantou rigoroso programa de racionamento a partir do mês seguinte. O racionamento perdurou até fevereiro de 2002, atingindo todas as regiões do país, menos o Sul.

Os efeitos da crise energética de 2001 foram sentidos com intensidade na produção e no suprimento de Furnas às concessionárias. O baixo nível de armazenamento dos reservatórios afetou a geração própria da empresa, que sofreu queda de 35,4% em comparação com o ano anterior. As termelétricas foram intensivamente utilizadas para evitar um colapso no abastecimento de energia nas regiões sob racionamento, registrando produção recorde. Grandes e pequenos consumidores realizaram um notável esforço de cumprimento das metas de redução de consumo estabelecidas pelo GCE, contribuindo decisivamente para o êxito do programa de racionamento.

As causas conjunturais e estruturais da crise energética foram analisadas por uma comissão nomeada pelo presidente da República. Coordenada pelo engenheiro Jerson Kelman, diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), a comissão demonstrou que o racionamento não teria ocorrido se as obras identificadas nos plano decenais da Eletrobrás tivessem sido executadas e as obras programadas não estivessem atrasadas. O chamado relatório Kelman destacou a demora da entrada em operação do terceiro circuito de 750 kV do sistema de transmissão de Itaipu. O último trecho da linha foi concluído apenas às vésperas do racionamento. O atraso impediu a maior transferência de energia de Itaipu para região Sudeste em 2000, implicando o maior uso da água armazenada nos reservatório dessa região, e também prejudicou a importação de energia da Argentina contratada por Furnas.

Paradoxalmente, como observou o físico José Goldemberg, os investimentos da grupo Eletrobrás, que vinham diminuindo, voltaram a crescer em conseqüência da crise energética. Furnas foi autorizada a investir em seis obras de transmissão, consideradas prioritárias e emergenciais, projetadas para aumentar a confiabilidade do fornecimento de energia no Espírito Santo e a oferta para o Rio. A empresa também obteve as prerrogativas do PPT ao projeto de modernização e ampliação da termelétrica de Santa Cruz (mais 350 MW), compreendendo a conversão da usina para operação com gás natural.

Em abril de 2002, Luís Carlos dos Santos renunciou à presidência de Furnas para disputar o cargo de deputado federal por São Paulo na legenda do Partido da Frente Liberal (PFL). O engenheiro Dimas Fabiano Toledo assumiu interinamente o comando da empresa, permanecendo à sua frente durante nove meses. Em fevereiro de 2003, no início do primeiro governo Luís Inácio Lula da Silva, a presidência de Furnas foi entregue ao engenheiro José Pedro Rodrigues, oriundo dos quadros da Cemig e ex-secretário do governo Itamar Franco em Minas Gerais.

Mudanças no governo Lula

O quadro institucional do setor de energia elétrica sofreu novas mudanças no primeiro governo Lula (2003-2006) mediante um conjunto de leis e decretos que revitalizaram a presença do Estado nas atividades de planejamento e regulação do setor e o papel das empresas públicas na expansão do sistema elétrico brasileiro.

O processo de reforma foi liderado pela ministra Dilma Rousseff, nomeada para a pasta de Minas e Energia em janeiro de 2003, requerendo um ano e meio de estudos e debates. Em março de 2004, o presidente da República promulgou as Leis nº 10.847 e 10.848 que modificaram o arcabouço regulatório do setor, mantendo porém alguns dos pilares construídos nos anos 1990.

A nova legislação, segundo o governo, tinha em vista três objetivos principais: garantir a segurança do suprimento energético, promover a modicidade tarifária por meio da contratação eficiente e assegurar a universalização do acesso e uso dos serviços de eletricidade no país.

A Lei nº 10.847 criou a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), entidade vinculada ao MME, com a missão principal de desenvolver os estudos necessários ao planejamento da expansão do sistema elétrico. A Lei nº 10.848 tratou das regras de comercialização de energia, instituindo: a competição na geração mediante a realização em separado dos leilões de energia dos empreendimentos existentes (a chamada “energia velha”) e de novos empreendimentos (“energia nova”) pelo critério de menor tarifa, a coexistência de dois ambientes de contratação de energia, um regulado para os consumidores cativos e outro para os consumidores livres, e a instituição de um pool de contratação regulada de energia a ser comprada pelas concessionárias de distribuição. A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) foi criada em substituição ao MAE, como entidade privada encarregada da administração dos contratos de compra e venda de energia no Ambiente de Contratação Regulada (ACR) e a contabilização e liquidação das diferenças contratuais no Ambiente de Contratação Livre (ACR).

A Eletrobrás, Furnas e as demais empresas geradoras do grupo federal foram retiradas do Programa Nacional de Desestatização, conforme proposto no programa de governo que Lula havia defendido como candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições de 2002.

Furnas obteve, em 2003, lucro de R$ 1,1 bilhão, o melhor resultado financeiro de sua história, apesar do excesso conjuntural de energia decorrente do baixo crescimento do consumo de eletricidade após o fim do racionamento. O ano de 2003 também foi marcado pelo início da descontratação da energia dos contratos iniciais firmados sob a legislação anterior. O montante de energia constante nesses contratos foi liberado progressivamente à razão de 25% ao ano. A energia comercializada pela empresa sofreu uma grande redução no segundo ano desse processo com grande impacto na geração de receita. Em dezembro de 2004, Furnas participou do primeiro leilão de energia existente realizado sob a égide do novo modelo setorial, apresentando o melhor resultado entre as geradoras participantes, tanto em termo de quantidade vendida como em preços obtidos. Adicionalmente, Furnas buscou aumentar sua atuação no mercado livre, firmando contratos com consumidores de diversos segmentos industriais.

No período de 2003 a 2006, a empresa investiu R$ 3.623 milhões (valores correntes) em obras de reforço e ampliação de seus sistemas de geração e transmissão, incluindo a modernização das usinas de Furnas, Peixoto (Mascarenhas de Moraes) e Estreito (Luiz Carlos Barreto de Carvalho).

O principal investimento em geração foi destinado à usina de Peixe Angical (TO), no rio Tocantins, com capacidade de 452 MW. Com a interveniência da Eletrobrás, a empresa fechou acordo com o grupo Energias de Portugal (EDP) em 2003, assumindo 40% de participação no empreendimento, que havia sido paralisado por dificuldades de ordem ambiental e financeira. A usina entrou em operação em 2006. Na área de transmissão, foram implantados 1.500km de linhas, merecendo destaque a entrada em operação da linha Bateias-Ibiúna (PR-SP), do terceiro circuito da linha Cachoeira Paulista-Adrianópolis (SP-RJ) e da linha Ouro Preto-Vitória (MG-ES).

No primeiro leilão de energia nova, realizado pela Aneel em 2005, Furnas arrematou a concessão das hidrelétricas de Simplício/Anta (RJ), no rio Paraíba do Sul, e Batalha (MG/GO), no rio São Marcos, conquistando ainda participação de 15% no aproveitamento de Baguari (MG), no rio Doce, em consórcio com a Cemig e o grupo Neoenergia. No mesmo ano, a empresa e a construtora Norberto Odebrecht concluíram os estudos de viabilidade da usina de Santo Antônio (RO), integrante do complexo hidrelétrico do rio Madeira, juntamente com a usina de Jirau. Os estudos foram iniciados em 2001, através de inventário, que identificou a melhor localização para os dois aproveitamentos hidrelétricos. Em seguida, foi avaliada a solução de engenharia com menor impacto ambiental. A alternativa encontrada foi a adoção da tecnologia de turbinas Bulbo, que necessitam de pequenas vazões e pequenas quedas.

Em 2006, Furnas passou a integrar os consórcios responsáveis por três empreendimentos hidrelétricos: Foz do Chapecó (SC/RS), no rio Uruguai, Serra do Facão (GO), no rio São Marcos, e Retiro Baixo (MG), no rio Paraopeba. Cada consórcio foi constituído na modalidade de Sociedade de Propósito Específico (SPE).

Foz do Chapecó (855MW) é a primeira obra de geração da empresa na região Sul. Furnas adquiriu a participação de 40% da Companhia Vale do Rio Doce (Vale) no empreendimento, tornando-se assim sócia da CPFL, empresa privada desde 1997, e da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), estatal gaúcha. A entrada no consórcio de Serra do Facão (210MW) foi estabelecida mediante acordo com a Alcoa Alumínio, a DME Energética e a Camargo Corrêa. Furnas adquiriu 49,9% de participação no investimento. A concessão de Retiro Baixo (82MW) havia sido arrematada integralmente pela Orteng Equipamentos que vendeu a Furnas 49% de sua participação. A entrada em operação das três usinas está programada para 2010.

Três diretores da empresa foram afastados de seus cargos em junho de 2005, em conseqüência das denúncias sobre um suposto esquema de desvio de dinheiro na estatal, descrito pelo deputado federal Roberto Jefferson (RJ), presidente licenciado do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o deputado acusou os diretores Dimas Fabiano Toledo (Engenharia), Rodrigo Botelho Campos (Gestão Corporativa) e José Roberto Cury (Finanças) de participação no desvio mensal de R$ 3 milhões para o PT, parlamentares governistas e também em benefício próprio. A entrevista de Jefferson sobre o funcionamento desse esquema acrescentou mais um ingrediente à crise política desencadeada por denúncias do deputado que acarretaram a demissão do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e a instauração da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios, também conhecida como CPMI do Mensalão. Uma comissão de sindicância constituída pela estatal negou a existência do esquema de corrupção e superfaturamento de contratos, como apontado pelo parlamentar petebista.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou inícios de irregularidades na contratação de serviços e obras da estatal. Dimas Toledo compareceu à CPMI dos Correios em fevereiro de 2006, refutando as acusações de Roberto Jefferson e também qualquer participação na elaboração de lista com 156 nomes de políticos de 12 partidos da base de apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que supostamente teriam recebido recursos de “caixa 2” na campanha eleitoral de 2002. A CPMI recebeu laudos periciais que concluíram pela falsidade do documento conhecido como “Lista de Furnas”.

A estatal federal voltou a freqüentar o noticiário político em agosto de 2007, quando o arquiteto Luiz Paulo Conde, ex-prefeito do Rio de Janeiro, foi nomeado presidente da empresa, por indicação da bancada do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Na época, o governo foi acusado de fazer barganha política na estatal por entidades sindicais e partidos de oposição. Por motivos de saúde, Conde deixaria a presidência de Furnas um ano depois, sendo substituído pelo engenheiro Carlos Nadalutti Filho, também indicado pelo PMDB.

Furnas liderou o consórcio vencedor do leilão para a concessão da usina de Santo Antônio, no rio Madeira, com potência prevista de 3.150 MW. Realizado em dezembro de 2007, o leilão marcou a retomada dos grandes projetos hidrelétricos na Amazônia e seu resultado surpreendeu positivamente o mercado e o governo, pois o preço de venda da energia ficou bem abaixo do esperado. O grupo empreendedor foi formado por Furnas (39%), Cemig (10%), Odebrecht Investimentos em Infraestrutura (17,6%), Construtora Norberto Odebrecht (1%), Andrade Gutierrez Participações (12,4%) e Fundo de Investimentos e Participações Amazônia Energia (20%), composto pelos bancos Banif e Santander. A construção da usina, orçada em R$13,5 bilhões, começou em setembro de 2008 e a entrada em operação de suas primeiras turbinas está prevista para 2012.

Cinco meses depois do leilão de Santo Antônio, a empresa concorreu ao leilão do aproveitamento hidrelétrico de Jirau, perdendo a disputa para o consórcio liderado pela multinacional Suez Energy, em associação com a Chesf, a Eletrosul e a Construtora Camargo Corrêa.

Furnas integrou o consórcio que venceu o leilão para a construção e operação da principal linha de transmissão de escoamento da energia a ser produzida pelas usinas do Complexo do Rio Madeira. O consócio ganhou dois dos três lotes do leilão, realizado em novembro de 2008, arrematando a linha Porto Velho-Araraquara (RO-SP) em corrente contínua, com 2.375km de extensão.

Em 2009, o complexo gerador de Furnas contava com 12 hidrelétricas, incluindo Baguari, inaugurada em setembro, e duas termelétricas, totalizando 10.050 MW, o que representava aproximadamente 10% da geração do país, sendo 7.971 MW instalados em usinas próprias e 2.079 MW em parceria com a iniciativa privada ou em Sociedade de Propósito Específico (SPE). O sistema de transmissão da empresa, o maior da América Latina, contava com 19 mil quilômetros de linhas e 49 subestações, atendendo a uma região onde estavam situados 51% dos domicílios brasileiros nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Paraná e o Distrito Federal, que respondiam por 65% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

 

 

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