Luís Antônio Fleury Filho

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Nome: FLEURY, Luís Antônio
Nome Completo: Luís Antônio Fleury Filho

Tipo: TEMATICO


Texto Completo:

FLEURY, Luís Antônio

*gov. SP 1991-1994; dep. fed. SP 1999-2007

 

 

Luís Antônio Fleury Filho nasceu em Ribeirão Preto (SP) no dia 30 de março de 1949, filho de Luís Antônio Fleury e de Maria de Lourdes Coelho Fleury.

Iniciou o curso primário no Grupo Escolar Cesar Martinez, na capital paulista, e o completou em São José do Rio Preto, nos grupos escolares Ezequiel Ramos e Cardeal Leme. O curso ginasial foi iniciado também em Ribeirão Preto, no Instituto de Educação Monsenhor Gonçalves, continuado no Colégio Estadual e na Escola Normal Fernandópolis e finalizado no Colégio Estadual Monsenhor Seckler, em Porto Feliz. De 1964 a 1966 fez o curso preparatório de formação de oficiais, na Academia de Polícia Militar de Barro Branco. Em seguida, fez o curso superior de formação de oficiais na mesma academia, que concluiu em 1968. Nesse mesmo ano ingressou na Polícia Militar (PM) de São Paulo. Como oficial da PM, cursou direito nas Faculdades Metropolitanas Unidas, graduando-se em 1972. Em 1973 fez um curso de especialização em direito processual penal na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

Em dezembro de 1973 ingressou por concurso na Promotoria Pública do Estado de São Paulo. Deixou então a PM e passou a exercer o cargo de promotor em comarcas do interior até 1980. Nesse ano, voltou à capital como promotor da Vara do Júri, tornando-se também membro da Associação Paulista de Promotores. Foi primeiro-vice-presidente da associação de 1980 a 1982 e, nesse ano, elegeu-se presidente da entidade. Reeleito duas vezes, exerceria o cargo até 1986. De 1981 a 1983 foi também primeiro-vice-presidente da Confederação Nacional do Ministério Público, exercendo depois, de 1983 a 1987, a presidência da entidade. Em 1984 foi promovido por merecimento a procurador de Justiça. Deixou o cargo quando o governador eleito em 1986, Orestes Quércia, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o convidou a assumir a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, um dos postos-chave de sua administração devido ao crescimento da violência no estado.

Assumiu a pasta em março de 1987, ocasião em que se filiou ao PMDB. Seu trabalho na secretaria o projetou, e o levou a querer se candidatar à Câmara dos Deputados em 1990. No início desse ano, porém, Quércia lhe pediu que permanecesse à frente da Secretaria de Segurança até o fim de seu mandato, em 1991, e o projeto de ser candidato a deputado foi abandonado. Pouco depois, Quércia o lançou como candidato do PMDB à sua sucessão no governo de São Paulo, com o apoio de uma coligação que envolvia também o Partido Liberal (PL) e o Partido da Frente Liberal (PFL). Em março de 1990, Fleury desincompatibilizou-se do cargo de secretário de Segurança para disputar a eleição.

Na eleição de outubro de 1990, o principal adversário de Fleury foi Paulo Maluf, apoiado pelo Partido Democrático Social (PDS) e pelo Partido da Reconstrução Nacional (PRN). Fleury iniciou a campanha com 2% de preferência do eleitorado, segundo as pesquisas de opinião, mas, com o auxílio de Quércia, que tinha na época grande influência no estado, principalmente no interior, chegou ao segundo turno e derrotou Maluf, tendo recebido inclusive a adesão de muitos eleitores do Partido dos Trabalhadores (PT), que contrariaram a orientação do partido a favor do voto nulo.

Eleito governador de São Paulo, Fleury teve que enfrentar, logo nos primeiros meses de seu mandato, iniciado em março de 1991, denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito que atingiam o ex-governador Orestes Quércia, seu padrinho político, o que prejudicou sua imagem. Esses fatos e os próprios planos de Fleury em relação a seu futuro político o deixaram numa situação delicada, fazendo-o oscilar entre a fidelidade e o rompimento com Quércia durante todo o seu governo. Da gestão de Quércia, Fleury herdou ainda uma enorme dívida e uma série de obras paralisadas. Outra dificuldade enfrentada pelo novo governador foi a recessão econômica causada pelas medidas tomadas pelo governo do presidente Fernando Collor de Melo (1990-1992). Essa recessão atingia particularmente São Paulo, o maior centro industrial do país.

Logo que foi eleito, Fleury declarou que pretendia manter uma postura independente em relação ao governo federal, embora em 1989 tivesse declarado seu voto em Collor no segundo turno. Procurou articular forças no Congresso e no estado que dessem apoio aos planos do governo de combate à inflação e à recessão. Seu discurso de posse, entretanto, teve críticas duras ao governo federal. Condenou vários aspectos da política econômica, embora se declarasse favorável ao programa de privatização de estatais e à abertura da economia, ressalvando que esta última deveria ser feita de maneira gradual.

Também no princípio de sua gestão, Fleury criou o Fórum Paulista de Desenvolvimento e a Companhia Paulista de Desenvolvimento. O fórum tinha como objetivo a realização de estudos e a formulação de propostas alternativas para a superação da crise econômica. Suas propostas nem sempre foram bem aceitas pelo presidente Collor. A companhia, que reunia o governo do estado e três grandes empresários — Olacir de Morais, do grupo Itamaraty; Antônio Ermírio de Morais, do grupo Votorantim; e Sebastião Camargo, do grupo Camargo Correia —, visava conseguir créditos que viabilizassem programas de privatização.

A gestão de Fleury no governo do estado foi pontuada por denúncias de corrupção e de nepotismo. Em junho de 1992, deputados petistas da Assembleia Legislativa divulgaram fitas gravadas no ano anterior em que Fleury, em reuniões com integrantes do PMDB, admitia a contratação de obras no interior paulista com fins eleitorais e o uso da máquina do estado, através da Secretaria de Integração Regional. Nas gravações, o governador também ameaçava cortar verbas publicitárias de órgãos da imprensa que faziam oposição ao seu governo. Com essas provas, o PT entrou com uma representação no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) contra o governador por crime eleitoral, que acabou indeferida. Ainda assim, depois da divulgação das gravações o governador decidiu extinguir a Secretaria de Integração Regional, que controlava os escritórios de integração regional, os quais serviam não apenas como engrenagens da máquina eleitoral do PMDB, mas também como centrais de informações sobre a situação do partido no interior do estado.

Ainda em junho de 1992, foi denunciada uma série de contratações irregulares do governo, através da estatal Banespa Serviços Técnicos e Administrativos (Baneser), ligada ao Banco do Estado de São Paulo. A Baneser teve sua receita aumentada pelo governo do estado mediante a contratação de serviços para tarefas que outros órgãos estaduais deveriam realizar. Entre os mais de quatro mil contratados do Baneser no governo Fleury até aquela data, encontravam-se parentes do governador e do ex-governador Quércia. Fleury tentou explicar as contratações como uma necessidade, visando a não inchar os quadros do serviço estadual, pois os contratados pelo Baneser poderiam ser dispensados a qualquer momento, o que não ocorria com funcionários concursados.

No plano da política nacional, o ano de 1992 trouxe à tona escândalos de amplitude nacional que acabaram no impeachment do presidente Fernando Collor. A princípio, Fleury tomou uma posição cautelosa, dizendo que se recusaria a fazer um prejulgamento e evitando afirmar que o presidente deveria renunciar até que houvesse provas mais substanciais de seu envolvimento nos atos de corrupção. Em agosto de 1992, porém, após a divulgação do relatório da comissão parlamentar de inquérito (CPI) instituída para investigar as acusações, e quando já crescia o movimento popular pró-impeachment de Collor, Fleury foi a favor do afastamento do presidente. Em setembro de 1992, garantiu, juntamente com a prefeita da capital, Luísa Erundina (PT), a infraestrutura para uma grande manifestação popular no parque Anhanguera a favor da aprovação do impeachment. Finalmente, em 29 de setembro a abertura do processo de impedimento do presidente foi votada e aprovada pela Câmara. Assumiu a presidência da República o vice Itamar Franco, a quem Fleury já garantira apoio no caso da saída de Collor.

O ano de 1992 também foi marcado pelas eleições municipais e por uma tragédia que abalou a imagem do governador paulista. No dia 2 de outubro, véspera do primeiro turno, houve uma revolta na Casa de Detenção situada no bairro do Carandiru, reprimida duramente pela PM, que metralhou presos desarmados, o que resultou na morte de 111 detentos. O massacre foi abafado e escondido da imprensa pelo governo estadual até que se encerrassem as votações, pois temia-se que a repercussão do caso afetasse o desempenho dos candidatos do PMDB. Fleury, que a princípio minimizou o acontecido, terminou por admitir que tinha havido um massacre e demitiu o secretário de Segurança, Pedro Franco de Campos, seu amigo, e todo o comando da PM.

Dias depois houve uma rebelião na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), e a PM negou-se a reprimi-la, exigindo ordens por escrito. Seus oficiais alegaram que não queriam ser responsabilizados posteriormente, no caso de alguma morte, como ocorrera no episódio do Carandiru.

O resultado das eleições foi positivo para o PMDB em São Paulo. Embora o partido não tenha vencido na capital e nas maiores cidades, conseguiu eleger prefeitos em 295 dos 623 municípios do estado. O Partido Social Democrático (PSD) — que dava apoio a Fleury e cujos candidatos receberam ajuda sua e de Quércia, mesmo quando concorriam com candidatos do PMDB — obteve vitórias na região de Ribeirão Preto.

No ano de 1993 seria realizado, em 21 de abril, o plebiscito por meio do qual o eleitorado decidiria entre o presidencialismo e o parlamentarismo e entre a república e a monarquia. Na ocasião surgiu um claro distanciamento de Fleury em relação a seu padrinho político, Orestes Quércia. Em janeiro, pouco tempo depois de Fleury ter lançado, em São Paulo, uma frente de apoio ao parlamentarismo, Quércia organizou uma frente presidencialista no estado. Foram vencedores no plebiscito, por larga margem, o presidencialismo e a manutenção do regime republicano.

Ainda em 1993, Fleury apresentou, por intermédio de deputados que o apoiavam, um projeto de emenda constitucional propondo alterações no cálculo do número dos deputados federais eleitos por cada estado, de forma que esse número passasse a ser estritamente proporcional à população dos estados. A iniciativa teve apoio de diversas lideranças, tais como o senador Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira (PDSB); o presidente do PT, Luís Inácio Lula da Silva; e mesmo de Orestes Quércia, que compareceram ao ato em apoio ao projeto promovido pelo governador paulista no palácio dos Bandeirantes em fins de janeiro.

Também em 1993, Fleury manifestou irritação com a nomeação, por Itamar Franco, da ex-prefeita petista Luísa Erundina para a Secretaria de Administração Federal. O governador defendeu que o cargo ficasse com o PMDB e ameaçou romper com o governo federal. Posteriormente, depois da nomeação do senador tucano Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda, articulou um encontro dos governadores peemedebistas para propor que eles se afastassem e se declarassem independentes do governo federal. Na reunião, contudo, foi decidido que o PMDB não faria oposição a Itamar Franco, e Fleury passou, então, a defender que o partido não abrisse mão dos cargos que tinha no governo federal.

Ao longo de 1993, as relações do governador com Quércia foram se tornando mais e mais conflituosas. Contribuíram para isso as constantes denúncias do Ministério Público (MP), onde Fleury teria influência, contra Quércia. Enquanto isso, os processos para apurar as irregularidades no governo Fleury, abertos pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), onde Quércia indicara quatro dos sete conselheiros, não andavam no MP.

Além disso, Quércia pretendia reeleger-se presidente do PMDB naquele ano e lançou-se candidato, mas não obteve apoio suficiente no partido devido ao acúmulo de denúncias contra seu governo. Fleury não tomou posição no caso, o que foi considerado por Quércia um ato de traição. Por fim, em abril, o ex-governador renunciou à candidatura e à presidência do partido.

O segundo semestre de 1993 foi marcado por especulações e sondagens sobre possíveis candidatos à presidência da República e pela discussão sobre alianças partidárias para concorrer à eleição de outubro de 1994. Em agosto, quando se especulava sobre uma possível aliança entre o PMDB e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Fleury declarou-se contrário a essa possibilidade. No mês seguinte, com a intenção de tornar-se candidato a presidente pelo PMDB, propôs na convenção do partido que este se afastasse do governo Itamar. Seu objetivo era enfraquecer o ministro da Previdência, Antônio Brito, tido como seu principal concorrente na postulação da candidatura à presidência dentro do PMDB.

No plano estadual, o segundo semestre de 1993 foi marcado por uma greve de professores que durou mais de dois meses e outra no setor de saúde, com duração superior a um mês. As greves desgastaram a imagem do governador. Na ocasião também houve uma denúncia de que o PSD estaria comprando filiações de deputados, com vistas a aumentar seu cacife para lançar um candidato próprio a presidente. O deputado federal José Dirceu, do PT, pediu a abertura de inquérito para apurar o envolvimento de Fleury no caso, uma vez que foram descobertos vários telefonemas entre o palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, e a liderança do PSD na Câmara dos Deputados. O PSD, cuja bancada na Assembleia Legislativa dava apoio ao governo Fleury, prometia abertamente apoiá-lo caso ele se candidatasse a presidente.

Em fevereiro de 1994, Quércia assumiu publicamente sua candidatura à presidência, ironizando a pretensão do governador paulista de disputar a indicação no PMDB. Fleury, por sua vez, procurava mostrar que seu nome poderia significar a unidade do partido, mas se preocupava com o prazo de desincompatibilização, pois só se ele fosse reduzido sua candidatura poderia se tornar viável. Em março, depois de uma frustrada tentativa de conseguir apoio para sua candidatura junto à bancada do PMDB no Senado, e tendo como data limite para a desincompatibização o mês de abril, Fleury desistiu da candidatura. Em abril, só Quércia, o deputado federal Roberto Requião e o senador José Sarney ainda permaneciam na disputa dentro do PMDB. Antes das prévias, porém, Sarney retirou sua candidatura, e na convenção foi escolhido o nome de Quércia. Tendo saído da disputa, Fleury apoiou a candidatura de seu padrinho político.

Quércia ficou em quarto lugar na eleição, atrás de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luís Inácio Lula da Silva (PT) e Enéas Carneiro (Partido da Reedificação da Ordem Nacional — Prona). Depois da derrota, dedicou-se a aumentar sua influência regional, passando a disputar com Fleury o comando do PMDB paulista. Na eleição para o governo do estado, Fleury apoiou Barros Munhoz, ex-ministro da Agricultura. Munhoz, contudo, não chegou ao segundo turno, que foi disputado por Francisco Rossi (Partido Democrático Trabalhista — PDT) e Mário Covas (PSDB). Interessado em conseguir espaço no futuro governo Fernando Henrique Cardoso, nesse momento Fleury apoiou Covas. Depois da eleição, os quercistas responsabilizaram o governador paulista pela derrota de seu líder na eleição presidencial, acusando-o de só se empenhar na campanha do candidato ao governo do estado e abrindo assim mais um ponto de tensão entre os dois grupos dentro do partido.

Antes de deixar o governo, Fleury se aposentou no Ministério Público. Conseguiu também aprovar na Assembleia Legislativa a venda de um terço da Eletropaulo, a segunda maior estatal de São Paulo. O motivo da venda teria sido a necessidade de saldar antigas dívidas com empreiteiras que, na ocasião, já chegavam a três bilhões de dólares. No último dia de seu governo foi realizada a intervenção federal no Banespa, que tinha uma enorme dívida. Logo após assumir o cargo, em janeiro de 1995, o novo governador, Mário Covas, acusou Fleury de lhe ter deixado uma dívida de cerca de 1,5 bilhão de dólares.

Dentro do PMDB, Fleury continuou a disputa com Quércia. Em março de 1995, contudo, já admitia a possibilidade de deixar o partido, depois de ter sido derrotado pelo grupo quercista nas eleições para os diretórios municipais. Quando se difundiram as primeiras notícias de sua possível retirada, Covas antecipou-se, declarando que não aceitaria seu ingresso no PSDB. Aventava-se também a possibilidade de que Fleury fosse para o PSD, o PDT, o PFL ou o PL. Para tomar qualquer decisão, no entanto, Fleury esperou os resultados das eleições internas do PMDB, nos níveis estaduais e nacional, tentando um lugar na sua executiva nacional. Apesar de a executiva paulista, incentivada por Quércia, ter apresentado um veto formal ao seu nome, Fleury conseguiu a vaga a partir da indicação do presidente do partido, o deputado Pais de Andrade (CE), que dispunha de alguns cargos vagos para serem preenchidos por nomes que tivessem perdido espaço em seus estados.

Mesmo tendo ido para a executiva nacional do partido, em setembro de 1995 Fleury afirmou, antecipando a possibilidade de sua saída: “Fico no PMDB até onde o chão me permitir, mas aqui em São Paulo meu espaço diminui a cada dia.” Em princípios de dezembro entregou sua carta de desfiliação ao presidente do partido e, no dia 11 do mesmo mês, filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em cerimônia na Assembleia Legislativa paulista. Passou, então, a exercer a profissão de advogado em seu escritório particular. Ainda em 1995 foi fundador e tornou-se presidente do Centro de Estudos 2000, organização não governamental (ONG) que tinha sua sede num casarão na capital paulista de propriedade do senador Gilberto Miranda (PMDB-AM).

Embora tivesse elogiado alguns pontos do acordo fechado entre o governo estadual e o Banco Central para resolver o problema da dívida de São Paulo com o Banespa, em janeiro de 1996, Fleury culpou o governo federal pela perda de credibilidade do banco paulista e pelo aumento de seis bilhões de dólares na dívida do estado após a intervenção.

Intimado a depor em fevereiro, na Justiça Militar de São Paulo, como testemunha arrolada pelos advogados de 18 dos 121 policiais militares indiciados no processo sobre o massacre do Carandiru, Fleury declarou que não partira dele a ordem para a invasão do presídio pela PM, pois naquele momento estava viajando de Sorocaba para a capital. Admitiu, porém, que provavelmente teria autorizado a invasão, se tivesse em mãos as informações que recebeu depois sobre a rebelião. Assim, considerando acertada a ordem de invasão dada pelo então coronel da PM e comandante da tropa de choque, Ubiratan Guimarães, apenas condenou as consequências da operação.

Em março de 1996, Fleury teve as contas de seu governo nos anos de 1993 e 1994 rejeitadas pela Comissão de Finanças e Orçamento da Assembleia Legislativa, que derrubou parecer favorável do TCE. Denunciando o que, para ele, era uma manobra política, Fleury lembrou na ocasião que o parecer contrário do TCE não implicava um julgamento definitivo, o que só aconteceria depois da votação no plenário da Assembleia Legislativa. Ainda no mês de março passou a integrar a executiva nacional do PTB.

Em depoimento na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, no fim de março, declarou que a intervenção do Banco Central no Banespa fora precipitada por motivações políticas e pessoais do ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes, que estava sendo processado por ter declarado em maio de 1994 que o Banespa estava falido. Segundo Fleury, o Banco Central fraudara o balanço do Banespa de 1994, pois considerava de difícil liquidação a dívida do estado de São Paulo com o banco, que estaria apenas 14 dias atrasada, provocando com isso a intervenção federal.

Em abril de 1996 a Procuradoria Geral do Estado encaminhou representação ao MP contra Fleury por este ter emitido 1,3 bilhão de reais em títulos do governo do estado para pagar dívidas judiciais (precatórios) e só ter utilizado oitocentos milhões de reais para esse fim. No mês seguinte o MP pediu o arresto dos bens de Fleury, de Orestes Quércia e de mais 105 pessoas ligadas ao Banespa, por operações irregulares detectadas pela comissão de inquérito do BC. Essas operações teriam ocorrido entre 1989 e 1994 e provocado um prejuízo de 2,8 bilhões de reais. Fleury também foi processado por envolvimento numa operação de empréstimo irregular no valor de 111 milhões de reais do Banespa para a indústria farmacêutica Paraquímica.

Em depoimento na CPI dos Precatórios no Senado, em fevereiro de 1997, Mário Covas afirmou que a gestão de Fleury gastou apenas 35% dos recursos autorizados pelo Senado (cerca de 1,3 bilhão de reais) no pagamento de precatórios. O restante teria sido desviado para outras finalidades, como pagamento do funcionalismo ou de dívidas com empreiteiras. Em março, o Tribunal de Justiça do Estado negou, por unanimidade, a suspensão do arresto de bens de Fleury.

Em abril de 1997, o procurador-geral de Justiça do Estado de São Paulo, Luís Antônio Marrey, entrou com uma ação civil pública contra Fleury por improbidade administrativa. Segundo Marrey, o ex-governador causara prejuízos de 3,6 milhões de dólares ao estado ao interceder junto ao Banespa para a concessão de empréstimos a uma fábrica de calçados em estado pré-falimentar, no início de 1994. Negando irregularidade na operação, Fleury declarou que o empréstimo tinha o objetivo de garantir o emprego de 480 funcionários e acusou o procurador de estar a serviço do governador Mário Covas. No mês seguinte, a 8ª Vara de Fazenda Pública de São Paulo determinou o bloqueio de seus bens.

Em junho, seu irmão, o empresário Frederico Pinto Ferreira Coelho Neto, teve o sigilo bancário quebrado, a pedido da Procuradoria Geral de Justiça, para que fosse investigada uma suposta operação, quando era o titular da Secretaria de Governo, na gestão Fleury, na qual a Companhia Energética de São Paulo (CESP) teria adquirido 30% das cotas do Shopping D, tornando-se um de seus maiores acionistas.

O relatório final da CPI dos Precatórios, apresentado em julho de 1997, registrou que, no fim do governo Fleury, as emissões de títulos públicos superavam os pagamentos de precatórios em 1,7 bilhão de reais, tendo esses recursos sido gastos em outras finalidades. Entre os governadores e prefeitos mencionados no relatório, Fleury era o recordista do aumento artificial dos valores de dívidas judiciais para justificar a emissão de títulos públicos. Segundo ele, porém, a maior prova de inexistência de irregularidades era o fato de que nenhum credor entrara com pedido de intervenção no estado por falta de pagamento no período em que fora governador. Devido a uma manobra de senadores governistas na CPI, o relatório final foi aprovado sem as acusações a Fleury, assim como a outros políticos e a um banco privado.

Ainda em julho de 1997, o juiz da 10ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo abriu uma ação civil contra Fleury, acusando-o de improbidade administrativa. Segundo denúncia da Procuradoria Geral da Justiça, Fleury teria desviado, entre 1991 e 1993, 945 milhões de reais dos recursos destinados ao pagamento de precatórios.

Em 1998 Fleury tornou-se membro das comissões executivas nacional e estadual do PTB. Em outubro candidatou-se a uma cadeira na Câmara, na legenda do PTB, e foi eleito. Assumiu o mandato em fevereiro de 1999.

Reeleito em outubro de 2002, iniciou seu novo mandato em fevereiro de 2003, tornando-se corregedor da Câmara dos Deputados. Em março, uma investigação da Polícia Federal (PF) e do MP, com o apoio do FBI, relativa ao esquema de lavagem de dinheiro na extinta agência do Banespa em Nova Iorque, revelou documentos que, somados a outras provas obtidas pela PF em Foz do Iguaçu e em São Paulo, indicavam que Fleury e empresários a ele ligados teriam enviado, por intermédio do Banespa, uma soma de aproximadamente 15 milhões de dólares para a Suíça e para os Estados Unidos no período de 1996 a 1999. Fleury negou todas as acusações e, ao final do processo, foi absolvido.

Concorreu novamente nas eleições de 2006, ocasião na qual recebeu 67 mil votos, mas não obteve êxito no tento. Ao longo dos seus dois mandatos na Câmara dos Deputados, foi presidente das comissões de Defesa do Consumidor e de Minas e Energia, e membro titular das comissões de Constituição e Justiça e de Redação, de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, e de Trabalho, Administração e Serviço Público. Presidiu também da CPI do Banespa. Deixou a Câmara dos Deputados em janeiro de 2007, ao concluir seu mandato.

Afastado da vida pública, desfiliou-se do PTB em 2011, tendo anunciado que não voltaria a disputar cargos eletivos. Em seguida, entretanto, atendendo aos pedidos do vice-presidente da República, Michel Temer, regressou ao PMDB com o objetivo de reestruturar e reerguer o partido em São Paulo. Desde então, nos pleitos de 2012 e 2014, atuou como colaborador nas campanhas de Gabriel Chalita e Paulo Skaf, respectivamente, para prefeito da capital e para governador do estado de São Paulo.

Casou-se com Nair Passos Fleury, com quem teve três filhos.

Publicou, entre outros trabalhos, A reforma penal e o júri, Sistema de penas e sua aplicação e Quatro anos por São Paulo (1996).

 


Elizabeth Dezouzart/Lorenzo Aldé/Adrianna Setemy

 

 

FONTES: ENTREV. BIOG.; Portal da Câmara dos Deputados. Disponível em: <http://www2.camara.gov.br>. Acesso em 18/11/2009; Portal Estado de S. Paulo. Disponível em: <http://www.estadao.com.br>. Acesso em 18/11/2009; Portal Folha de S. Paulo. Disponível em: <http://www.folha.uol.com.br>. Acesso em 18/11/2009; Portal Globo.com. Disponível em: <http://www.globo.com>. Acesso em 18/11/2009; Portal Isto É. Disponível em: <http://www.terra.com.br/istoe>. Acesso em 19/11/2009; Portal Jornal do Brasil. Disponível em: <http://www.jb.com.br>. Acesso em 18/11/2009; Portal do Tribunal Superior Eleitoral. Disponível em: <http://www.tse.jus.br>. Acesso em 03/12/2014; Portal Valor Econômico. Disponível em: <http://www.valor.com.br>. Acesso em 03/12/2014.

 

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