REDE OM-CNT DE TELEVISAO

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Nome: REDE OM-CNT DE TELEVISÃO
Nome Completo: REDE OM-CNT DE TELEVISAO

Tipo: TEMATICO


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REDE OM-CNT DE TELEVISÃO

REDE OM-CNT DE TELEVISÃO

 

Rede nacional de televisão inaugurada em março de 1992, com sede em Curitiba (PR), inicialmente denominada Organizações Martinez (OM).

Primeira rede nacional de televisão criada no Brasil fora do eixo Rio-São Paulo, foi fundada pelos irmãos Flávio e José Carlos Martinez, o último ex-deputado federal (1987-1991) e candidato derrotado ao governo paranaense em 1990 na legenda do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), mesma agremiação do então presidente da República, Fernando Collor de Melo. A ligação de José Carlos Martinez com Collor vinha desde as eleições presidenciais de 1989, quando o então deputado federal pelo Paraná foi o tesoureiro da campanha do PRN naquele estado.

Proprietários de quatro emissoras de TV sediadas nos municípios paranaenses de Curitiba, Londrina, Maringá e Cascavel, os irmãos Martinez começaram a formar sua rede nacional de televisão em 1991, quando adquiriram a TV Corcovado do Rio de Janeiro, comprada ao Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), do empresário Sílvio Santos, e mais três emissoras no estado de Santa Catarina, anteriormente pertencentes à Rede Bandeirantes. No ano seguinte, a OM associou-se à TV Gazeta para veicular sua programação no estado de São Paulo. Com sinal gerado a partir de Curitiba e transmitido via satélite para o resto do país, a Rede OM iniciou suas transmissões contando ainda com outras emissoras filiadas, distribuídas por vários estados. A princípio, a emissora paranaense priorizou a veiculação de programas realizados por produtoras independentes, com exceção do departamento de jornalismo, que ganhou estrutura própria, dirigida pelo jornalista Dante Matiussi.

Desde o início de 1992, veiculou-se na imprensa e nos meios políticos a denúncia de que José Carlos Martinez recebera apoio oficial para montar a OM, cuja viabilidade financeira seria garantida por vultosas verbas publicitárias do governo federal e de empresas estatais. De fato, a importância da Rede OM para a estratégia política do governo Collor e do grupo ligado a José Carlos Martinez era reconhecida, na época de seu lançamento, pelo próprio diretor de produção e programação da emissora, Carlos Augusto de Oliveira. Segundo Oliveira, o telejornalismo da OM não poderia fazer oposição sistemática ao governo, já que um possível cancelamento da publicidade das empresas estatais comprometeria a sua viabilidade econômica. Essa avaliação não era, porém, corroborada por Dante Matiussi, que nessa mesma época declarou ter recebido da direção da emissora a orientação de apresentar um noticiário independente.

Segundo a revista Veja, a veiculação de publicidade do governo federal e de suas empresas estatais proporcionava à Rede OM, na época, aproximadamente 1,5 milhão de dólares por mês, valor próximo da receita total da empresa. As freqüentes denúncias acerca das irregularidades no processo de aquisição da Rede OM pelos irmãos Martinez levaram a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara Federal a promover investigações sobre tais operações.

Em maio de 1992, instalou-se no Congresso Nacional uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para apurar as denúncias de Pedro Collor de Melo, irmão do presidente da República, sobre a existência de um esquema de corrupção no governo federal comandado pelo empresário Paulo César Farias, o PC, amigo pessoal do presidente Collor e seu tesoureiro de campanha. Nos meses seguintes, os trabalhos da CPI confirmaram a procedência das denúncias e revelaram ao país os mecanismos utilizados por P.C. Farias para desviar enormes volumes de recursos públicos. Em agosto, as investigações da CPI revelaram que a compra da TV Corcovado por Martinez, em 1991, fora efetivada através de cheques no valor de 7,5 milhões de dólares emitidos por alguns dos “correntistas fantasmas” que compunham o esquema de corrupção montado por P.C. Farias. Veiculou-se então na imprensa a versão de que PC seria sócio dos Martinez na OM ou mesmo o verdadeiro dono da empresa, cabendo aos empresários paranaenses apenas o papel de testas-de-ferro. Convocado a depor na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara Federal no mês de setembro, Martinez admitiu ter recebido um empréstimo de 8,5 milhões de dólares de PC para comprar emissoras de TV, mas afirmou desconhecer que o cheque utilizado na operação fosse movimentado por “correntistas fantasmas”. Segundo Martinez, PC havia lhe feito o empréstimo sem exigir assinatura de contrato ou pagamento de juros por ser seu amigo particular; declarou também que a dívida já havia sido quitada. O ex-deputado negou, na ocasião, que a Rede OM tivesse sido montada para oferecer sustentação política ao governo Collor.

Ainda no mês de agosto, a CPI que investigava as atividades de Paulo César Farias divulgou o seu relatório final, apontando o envolvimento do presidente da República nas irregularidades. Sob intensa pressão da imprensa e da opinião pública, o Congresso Nacional aprovou, no final do mês de setembro, a abertura do processo de impeachment do presidente. Atingida diretamente pelas denúncias e sem o apoio oficial desfrutado nos primeiros meses de seu funcionamento, a Rede OM se viu envolvida em graves problemas financeiros. Em novembro, a empresa acumulava elevadas dívidas e foi obrigada a diminuir gastos operacionais e a reduzir seu quadro de funcionários.

Em maio de 1993, a rede OM foi rebatizada com o nome de Central Nacional de Televisão (CNT) e sofreu reformulações em sua estrutura para tentar superar a crise pela qual passava. José Carlos Martinez admitiu, então, que os escândalos do governo Collor haviam abalado a credibilidade da empresa e que a mudança em seu nome era uma tentativa de renovar sua imagem perante a opinião pública. Apesar de mais uma vez negar qualquer vinculação com as atividades de P.C. Farias, Martinez declarou que a antiga denominação se tornara um obstáculo à consolidação da empresa, por estar inevitavelmente associada às suas atividades políticas.

Nessa mesma época, a CNT passou a contar com a sustentação do Banco Bamerindus, que lhe concedeu um empréstimo no valor de três milhões de dólares, com prazos de pagamento dilatados. Na verdade, mais do que uma simples operação de crédito, o empréstimo representou o início do processo de transferência do controle da empresa para as mãos do empresário José Eduardo Andrade Vieira, proprietário do Banco Bamerindus, que na ocasião exercia ainda um mandato de senador pelo estado do Paraná e ocupava a presidência nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Em janeiro de 1995, quando ocupava o cargo de ministro da Agricultura do governo Fernando Henrique Cardoso, Andrade Vieira assumiu oficialmente, enquanto pessoa física, o controle da rede de televisão paranaense, responsabilizando-se pelas dívidas da empresa, estimadas pela revista Veja em cerca de 30 milhões de dólares. Por já ser proprietário de emissoras de televisão em São Paulo e no Paraná, Andrade Vieira se viu, porém, legalmente impedido de assumir o controle da CNT sem prévia autorização do Ministério das Comunicações. Para contornar esse obstáculo legal, os irmãos Martinez foram oficialmente mantidos como os donos da concessão, enquanto Andrade Vieira figurava como sócio minoritário. Modificações no organograma da empresa, porém, garantiram o seu controle ao então ministro da Agricultura, que colocou um primo seu, o advogado João Antônio Vieira Filho, no posto de diretor superintendente. José Carlos Martinez passou a ocupar, então, o posto de presidente do conselho administrativo da empresa.

André Couto

 

FONTES: Estado de S. Paulo (9/3/92); Folha de S. Paulo (4/8 e 15/11/92); Globo (8/8 e 17/11/92); IstoÉ (11/3/92, 22/2/95); Jornal do Brasil (16/8 e 23/9/92, 15/5/93); Veja (4/12/91, 11/3, 24/6, 1/7, 19/8, 23/9, 18/11/92, 7/7/93, 1/2/95).

 

 

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