José Maria Nunes Pereira Conceição

Entrevista

José Maria Nunes Pereira Conceição

Entrevista realizada no contexto do projeto "História do Movimento Negro no Brasil", desenvolvido pelo CPDOC em convênio com o South-South Exchange Programme for Research on the History of Development (Sephis), sediado na Holanda, a partir de setembro de 2003. A pesquisa tem como objetivo a constituição de um acervo de entrevistas com os principais líderes do movimento negro brasileiro. Em 2004 passou a integrar o projeto "Direitos e cidadania", apoiado pelo Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex) do Ministério da Ciência e Tecnologia. As entrevistas subsidiaram a elaboração do livro "Histórias do movimento negro no Brasil - depoimentos ao CPDOC." Verena Alberti e Amilcar Araujo Pereira (orgs.). Rio de Janeiro: Pallas; CPDOC-FGV, 2007. Essa entrevista, entretanto, foi publicada apenas na revista Estudos Históricos: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 39, janeiro-junho de 2007. Para acessá-la clique aqui. O entrevistado foi um dos fundadores, em 1973, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Faculdade Candido Mendes, no Rio de Janeiro.
Forma de Consulta:
Entrevista em áudio disponível na Sala de Consulta do CPDOC.
Entrevista em vídeo disponível na Sala de Consulta do CPDOC.

Tipo de entrevista: Temática
Entrevistador(es):
Verena Alberti
Amilcar Araujo Pereira
Data: 15/12/2006 a 28/12/2006
Local(ais):
Rio de Janeiro ; RJ ; Brasil

Duração: 10h35min

Dados biográficos do(s) entrevistado(s)

Nome completo: José Maria Nunes Pereira Conceição
Nascimento: 13/5/1937; São Luís; MA; Brasil;

Falecimento: 11/7/2015; Rio de Janeiro; RJ; Brasil;

Formação: Graduou-se em Ciências Sociais na UFF (1972).
Atividade: Professor universitário. Participação nos movimentos de libertação das colônias portuguesas na África. Editor da Revista Estudos Afro-Asiáticos, do CEAA (1978-1986).

Equipe

Levantamento de dados: Verena Alberti;Amilcar Araujo Pereira;
Pesquisa e elaboração do roteiro: Verena Alberti;Amilcar Araujo Pereira;

Transcrição: Amilcar Araujo Pereira;

Conferência da transcrição: Verena Alberti;

Técnico Gravação: Marco Dreer Buarque;

Sumário: Verena Alberti;

Temas

Movimento negro;

Sumário

1ª Entrevista: 15/12/2006
Disco 1, arquivo 1: Origens familiares e nascimento no Maranhão (1937); infância no Maranhão, criado por "mãe Lúcia", na região do cais do porto; transferência para Portugal, aos 10 anos, e estudo no colégio interno João de Deus, no Porto (1947-1955); rompimento com a Juventude Universitária Católica, durante o governo salazarista, quando estudante de pedagogia na Universidade de Coimbra (1955-56); atuação como membro da Casa dos Estudantes do Império, no Porto, quando estudante de medicina (1956-1961), curso que não chegou a completar; o interesse pela África e pelos africanos; os vínculos com os movimentos de libertação das colônias portuguesas, no início dos anos 1960; a semi-clandestinidade em Portugal e a volta ao Brasil em novembro de 1961.

Disco 1, arquivo 2: A volta ao Brasil, em novembro de 1961, e a fixação, em 1962, no Rio de Janeiro, onde ingressou na faculdade de medicina da Universidade do Estado da Guanabara (UEG) e atuou como assessor para assuntos internacionais da União Nacional dos Estudantes (UNE); o contato com estudantes e com dirigentes dos movimentos de libertação das colônias portuguesas na África que vêm ao Brasil no início dos anos 1960; descrição dos nomes africanos dados pelo entrevistado aos quatro filhos; criação de um bureau não oficial do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) no Rio de Janeiro, com sede na casa do entrevistado; a fundação, durante o governo Jânio Quadros, do Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos; menção à atuação de Golbery do Couto e Silva e de Candido Mendes para evitar a prisão do entrevistado durante o governo Ernesto Geisel; atividades do bureau não-oficial do MPLA junto a intelectuais e sindicatos; posições dos governos Jânio Quadros e João Goulart em relação à África; a posição dos Estados Unidos em relação às independências das colônias africanas, nos anos 1960 e 1970, e a dependência da base aérea de Açores, na relação com Portugal salazarista; formas de sustento do entrevistado e de sua família no início dos anos 1960: as rendas das propriedades do pai e a profissão de propagandista farmacêutico; a formação do Movimento Afro-Brasileiro Pró-Libertação de Angola (Mabla), em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 1962-63; importância econômica e política da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro, seu apoio ao regime salazarista de Portugal e ao governo Carlos Lacerda; a instalação da Polícia Internacional de Defesa do Estado (Pide), a polícia política portuguesa, no Rio de Janeiro, durante o governo Lacerda; relato de dois episódios de prisão do entrevistado, em abril e em junho de 1964.

Disco 1, arquivo 3:
Relato da prisão do entrevistado (continuação) e da comprovação de envolvimento da Pide com o Centro de Informações da Marinha (Cenimar), em 1964.


2ª Entrevista: 19/12/2006
Disco 2, arquivo 4:
A atuação não-oficial do MPLA e do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) no início dos anos 1960, no Brasil, e sua influência nas esferas de intelectuais e sindicalistas; o papel da poesia angolana no movimento de libertação e sua publicação no Brasil; diferenças entre o colonialismo português na África e os colonialismos francês e inglês, no pós-1945; história de Angola: períodos de "nativismo" e de "proto-nacionalismo", as estreitas relações com o Brasil desde o século XVII, o impacto, para a economia angolana, do fim do tráfico de escravos para o Brasil (1850), e a intensa atividade jornalística no início do século XX; breve histórico de Cabo Verde; divulgação dos objetivos do MPLA e do PAIGC através da imprensa escrita, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e de sindicatos, no início da década de 1960, no Brasil; os intelectuais que participavam do Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos; a criação do instituto pela Presidência da República, durante o governo Jânio Quadros; a relutância do Itamaraty em seguir a política externa independente de Jânio Quadros e seu apoio ao colonialismo português; breve histórico da política externa brasileira desde os anos 1940; as relações entre Brasil e Portugal; atividades do Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, no Rio de Janeiro, em inícios da década de 1960; a situação desfavorável do MPLA em 1963, em Angola.

Disco 2, arquivo 5:
Razões da denominação "afro-asiáticos" no nome do Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos e do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Candido Mendes; a ajuda de Candido Mendes quando da prisão do entrevistado e de outros membros do MPLA e do PAIGC, após o golpe de 1964, impedindo, por exemplo, que fossem extraditados para Portugal; razões da articulação entre a Marinha e a Pide, quando da prisão do entrevistado e de seus companheiros; o fim do Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, em 1964-65; a idéia de criação, em 1965-66, da Sociedade Africana de Cultura, vinculada à embaixada do Senegal, no Rio de Janeiro; mobilização da comunidade artística negra em função do Festival de Arte Negra, em Dacar, Senegal, em 1966; a decisão do grupo formado por Joel Rufino dos Santos e outros, de não participar do Festival de Arte Negra, e a formação do Grupo Ação, que encenou Memórias de um sargento de milícias; a ausência de Abdias do Nascimento do Festival de Arte Negra em Dacar; o trabalho como redator de jornal do Partido Comunista destinado a jornalistas, do qual acabou demitido, no início da década de 1970; a comemoração do Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, no Brasil, em 1974, por iniciativa do entrevistado, em conjunto com o responsável pelo escritório da ONU no Brasil; menção à viagem que fez a Portugal e aos cinco países africanos de língua portuguesa entre outubro e dezembro de 1974; motivos pelos quais Abdias no Nascimento não representou oficialmente o Brasil no Festival de Arte Negra de Dacar; relato de reunião feita na casa do entrevistado com a presença de Aimé Cesaire e Alexandre Anande, em 1963, que apresentaram o programa do Festival de Arte Negra de Dacar; caracterização dessa reunião como origem da idéia de criação da Sociedade Africana de Cultura, em 1966, que acaba não sendo efetivada; novo relato da decisão de Joel Rufino e outros seguirem caminho diverso do da Sociedade Africana de Cultura; nomes de artistas que foram ao Senegal em 1966; identificação de quem fazia parte da elite negra no Rio de Janeiro, na década de 1960.

Disco 2, arquivo 6:
Identificação da composição da elite negra no Rio de Janeiro, na década de 1960 (cont.); caracterização de Anselmo José dos Santos, conhecido como cabo Anselmo, com quem dividiu a cela na prisão, em 1964; estratégias de solidariedade entre os presos e as diferenças entre o grupo do entrevistado e o grupo dos sindicalistas presos; breve menção a origens familiares judias e árabes; caracterização da atuação política do entrevistado como internacionalizante, uma vez que sempre esteve em setores de relações internacionais nos movimentos dos quais participou; relação com judeus e ligação com a organização Matspen, onde permaneceu até 1973; o reconhecimento de Guiné Bissau pelo Brasil, em 1974, e a expectativa de reconhecimento também por parte de Angola; atuação do entrevistado em viagem à África, onde não se compreendia como poderia ter contatos importantes, sendo apenas professor do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA); a autonomia que Candido Mendes concedia ao entrevistado na direção do CEAA.

3ª Entrevista: 27/12/2006
Disco 3, arquivo 7:
O ingresso no curso do Itamaraty, onde permaneceu por pouco tempo, e o vestibular para o curso de ciências sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no início da década de 1960; o trabalho como free lance na agência de propaganda McCann-Erickson e como propagandista de produtos farmacêuticos, ao longo da década de 1960; novo vestibular para ciências sociais, na Universidade Federal Fluminense, onde ingressa em 1969; a participação no curso de sociologia política africana ministrado por Candido Mendes de Almeida na Pontifícia Universidade Católica, em 1972; a importância da biblioteca do entrevistado para sua vida profissional; relato da fundação do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA), em 1972-73; o primeiro curso de introdução à história da África oferecido pelo CEAA; o sucesso dos cursos de extensão realizados pelo CEAA em 1973; a situação do CEAA no cenário político da ditadura militar e a proteção que a posição política de Candido Mendes conferia a suas atividades; a importância do CEAA na vida intelectual do Rio de Janeiro no início da década de 1970; a comemoração do Dia Internacional de Combate ao Racismo em 21 de março de 1974, no CEAA, como primeiro evento "oficial" do centro; a organização do evento "Semanas de arte afro-brasileira", realizado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em junho de 1974; a decisão inicial do entrevistado de não envolver o CEAA no movimento negro, e a mudança dessa postura em função do curso dos acontecimentos, em 1974; a indicação de Maria Beriel, professora da Universidade Federal Fluminense, para que seus alunos consultassem a biblioteca do CEAA, em 1974.

Disco 3, arquivo 8:
As primeiras reuniões de sábado, no CEAA, às quais começaram a comparecer negros e negras, em abril, maio de 1974; relação entre Candido Mendes e Golbery do Couto e Silva durante o governo Ernesto Geisel (1974-1979); descrição das reuniões dos sábados no CEAA, em 1974: sua organização, o clima, as diferenças internas; as instituições do movimento negro que foram criadas a partir do CEAA; a conjuntura política, no Brasil, nos anos 1970; identificação de três influências importantes para o movimento negro no Brasil dos anos 1970: os bailes soul, o movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e as lutas de libertação na África portuguesa; a aquisição da sede própria do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), no Rio de Janeiro, em 1977; o primeiro financiamento da Fundação Ford para o CEAA, em 1979-1980, e as mudanças que trouxe; viagem do entrevistado aos Estados Unidos, em 1979, como participante do Foreign Visitors Program; a montagem da equipe do CEAA após 1979; a influência de Thomas Skidmore para que a Fundação Ford financiasse o CEAA; relato de seminário do Nigerian Institute of International Affairs, em São Paulo, de que participou em 1980.

Disco 3, arquivo 9:
Crítica de Alberto da Costa e Silva ao desempenho do entrevistado no seminário do Nigerian Institute of International Affairs, em São Paulo; breve relato de participação do entrevistado em outro seminário do mesmo instituto, no Rio de Janeiro, em 1981; relato de como conheceu sua segunda mulher, Isabel Nascimento, irmã de Beatriz Nascimento, em 1967; as diferenças internas no grupo de negros que freqüentava as reuniões de sábado do CEAA em 1974; o preconceito de alguns militantes em relação ao CEAA, visto como instituição branca e financiada pelos norte-americanos; relato de experiências de racismo em Cuba; os três fatores de renovação do movimento negro na década de 1970; análise dos diferentes momentos do movimento negro a partir dos anos 1970; características da discriminação racial no Brasil apontadas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 1976; as etapas do movimento negro a partir da década de 1970: denúncia, positividade, diferença e ocupação dos espaços; a Lei 10.639, de janeiro de 2003.


4ª Entrevista: 28/12/2006
Disco 3, arquivo 10:
Relações Brasil-África em inícios da década de 1970; menção ao uso, pelo movimento de independência de Guiné Bissau, de mísseis Strella, contra a aviação portuguesa; relato de duas viagens oficiais do Brasil a 11 países da África realizadas em 1971 e 1972: organização, resultados, expectativas dos países africanos, atuação de Mario Gibson Barbosa, reação do Itamaraty; a contra-revolução do general Antonio Espínola, na Guiné-Bissau; a diferença entre as vitórias militar e diplomática, na independência de países africanos; o projeto de articulação do Brasil com o Senegal, no esforço de intermediação de movimentos de libertação africanos; o monopólio de produtos portugueses nas colônias africanas; a resistência de Marcelo Caetano, sucessor de Salazar, em abrir o diálogo em direção às independências das colônias; a crise do petróleo (1973) e a ameaça de o Brasil não receber o produto dos países árabes; a mudança nas relações com os países africanos de língua portuguesa após a Revolução dos Cravos (1974); possíveis razões da viagem do entrevistado aos cinco países africanos de língua portuguesa, para Portugal e para o Senegal, em 1974; articulação do entrevistado com representantes do PAIGC, no Brasil, em 1972, e a visibilidade de seu trabalho junto a Luis de Almeida Cabral, que viria a ser primeiro presidente da Guiné-Bissau independente, em 1974; a reação do embaixador do Brasil em Lisboa à visita do entrevistado a Lisboa, em 1974; descrição das atividades empreendidas durante a viagem a Lisboa e aos países africanos de língua portuguesa, em 1974.

Disco 3, arquivo 11:
O conhecimento que países africanos de língua portuguesa tinham do Brasil e do movimento negro brasileiro da década de 1970; iniciativa do entrevistado de trazer Kabengele Munanga do Zaire para o Brasil, em fins dos anos 1970; a questão racial em Angola, Cabo Verde e Moçambique; relato de conversa com João Cabral de Melo Neto, no Senegal, admirado com as relações do entrevistado; viagem de carro do Senegal para a Guiné-Bissau e as conversas com o presidente Luis Cabral; a intermediação do entrevistado, para a ida de Paulo Freire para a Guiné-Bissau; negociação de cooperação com a Guiné-Bissau, para a instalação de universidade no país, e as razões de seu fracasso; menção a outras viagens feitas à Guiné-Bissau e ao Senegal em 1975 e 1976.

Disco 3, arquivo 12:
Episódio de conferência que seria proferida pelo entrevistado na Câmara dos Deputados sobre os países africanos em vias de independência, mas que foi cancelada por ordem de Golbery do Couto e Silva; a defesa do reconhecimento do MPLA feita pelo entrevistado em reuniões no Itamaraty, em 1975; descrição da comemoração da independência de Angola, em 11/11/1975, na Faculdade Candido Mendes, no Rio de Janeiro; o processo de reconhecimento do MPLA pelo governo brasileiro; a repercussão, no Brasil, do convite feito pela Frelimo a Luiz Carlos Prestes e Miguel Arraes para a solenidade de comemoração da independência de Moçambique, em 25/6/1975; a consultoria que o entrevistado dá à Odebrecht, desde o início da década de 1980, a respeito de Angola.

Disco 3, arquivo 13:
As estratégias da Odebrecht, em Angola, instruídas pelo entrevistado; as mudanças no CEAA com a entrada de Carlos Hasenbalg na direção, em 1986.
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