Revista Conjuntura Econômica - Junho 2020

CAPA COVID-19 4 0 Conjuntura Econômica | Junho 2020 do equilíbrio de mercado. Modifica- ções profundas que podem ser feitas em votações por acesso remoto, que impede a discussão mais detalhada de temas complexos”, afirma, indi- cando que certas iniciativas, ainda que bem-intencionadas na atenção às demandas da sociedade, podem trazer consequências negativas para o futuro. “São questões que não po- dem ser levantadas de forma pouco pensada, sob o pretexto da pande- mia, sem análises mais cuidadosas”, diz. Em entrevista online dada ao jor- nal Valor Econômico , Veloso citou o exemplo dos projetos que interferem em contratos de crédito, locação de imóveis, envolvendo partes privadas. “Em temas como esses, o ideal é que qualquer acordo seja feito entre as partes. Quando o Congresso ou o Ju- diciário tentam definir, podem gerar insegurança, afetando negativamente os investimentos.” Da mesma forma que o cientis- ta político Fernando Abrucio (pág. 28), Carlos Pereira, professor da FGV Ebape, vê poucas chances de a coalizão formada pelo presidente em torno do chamado novo Centrão, a quem tem distribuído cargos abaixo do primeiro escalão, colabore para um maior alinhamento entre Execu- tivo e Congresso em prol da retoma- da da agenda de reformas. “Essa não é uma coalizão para governar, mas para não morrer. Tal qual na reforma da Previdência, avanços não deverão depender do empenho do presidente, mas de consenso no Legislativo. Res- ta saber se este ainda existirá”, diz, lembrando ainda que a proximidade das eleições municipais pode alterar a disposição de vários desses atores. Na avaliação de Pereira, a aliança feita tardiamente pelo presidente, ao contrário, poderá conturbar ainda mais o ambiente. “Podemos ter um segundo semestre de encaminha- mento da crise da pandemia, mas de abertura de uma crise política ainda maior. Quanto mais frágil o presi- dente fica, mais a conta desse apoio sobe”, aponta, ressaltando algumas das frentes potencialmente vulnerá- veis para o mandatário. “Quanto maior o número de mortes, ficará mais difícil para o governo federal transferir a reponsabilidade para a conta de outros atores. Existem os inquéritos envolvendo o presidente e sua família. Além disso, o jogo de antagonismo contra o PT que benefi- ciou Bolsonaro já não existe. Outros atores, como os governadores, ga- nharam proeminência, e ele não po- derá mais contar com a polarização que o beneficiou anteriormente.” Veloso reforça a importância de evitar essa turbulência em um cenário suficientemente complicado pela crise sanitária. “O Indicador de Incerteza da Economia do FGV IBRE é dividi- do entre incerteza econômica e polí- tica, e observamos que na pandemia ambos os índices aumentaram mui- to”, diz. “Uma retomada dependerá de coordenação entre os poderes em torno de uma pauta mínima de ajuste fiscal e reformas já no período pós- pandemia. Sem isso, teremos menos investimento e geração de trabalho formal, prejudicando a recuperação econômica”, conclui. Fontes:Economic Policy Uncertainty Project e FGV IBRE. Brasil lidera incerteza entre 21 países Ranking em abril 195,3 189,2 178,4 163,4 159,4 156,3 149,8 145,4 144,9 141,7 Brasil FGV China Rússia Singapura Estados Unidos México Coreia do Sul Chile Colômbia Alemanha

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