Boletim Macro Setembro

18 Boletim Macro | Setembro 2021 Tabela 3: Projeção do IPCA no Cenário Básico do Copom Selic Focus (Fim de Ano) 2021 Selic Focus (Meio de Ano) 2022 Selic Focus (Fim de Ano) 2022 Projeção IPCA 2022 17/03/2021 4,50 5,50 5,50 3,50 05/05/2021 5,50 6,00 6,25 3,40 16/06/2021 6,25 6,50 6,50 3,50 04/08/2021 7,00 7,00 7,00 3,50 Fonte: Banco Central do Brasil - Pesquisa Focus. A julgar pelos exercícios de projeção do BC, que consideram as trajetórias da Selic previstas na pesquisa Focus, no Copom de junho, o cumprimento da meta de inflação em 2022 parecia requerer Selic de 6,25% em dezembro de 2021 e de 6,5% no final do ano seguinte. Natural que dessa vez os membros do Copom passas- sem a falar em levar o juro básico para o patamar considerado neutro. Cerca de um mês e meio depois, cumprir a meta de 2022 parecia exigir Selic em 7,0% em dezembro de 2021, mantida nesse nível até o final de 2022. Em consequência, a diretriz passou a ser levar a taxa básica para acima do neutro. O processo aqui descrito sugere a presença de fatores que, nos últimos meses, produziram pressões infla- cionárias cada vez mais significativas, a ponto de o cumprimento da meta de inflação em 2022 mostrar-se viável (pelo menos no mundo das projeções) somente mediante juros básicos cada vez mais altos. Em parte, tudo isso tem a ver com as atuais características do processo inflacionário em si. Na seção sobre a economia internacional, neste mesmo Boletim, discutimos o que há de novo nas pressões inflacionárias atual- mente presentes no exterior. Se é verdade que nos EUA a essência da inflação corrente tem a ver quase exclu- sivamente com a pandemia, entre nós o processo é bem mais complexo. Além de um componente inflacionário de mesma natureza do observado naquele país, temos ainda os efeitos da crise hídrica, das geadas recentes, e dos preços dos combustíveis, largamente influenciados pelos movimentos do câmbio. Tudo isso acrescido da piora das expectativas de inflação. Quanto a esse último aspecto, o das expectativas, não parece haver dúvida de que as altas taxas correntes de crescimento dos preços elevam as taxas esperadas de inflação. Mas não é só isso. Existe ainda toda uma discussão (e muita insegurança) em torno do futuro da política fiscal, fator que também concorre para pressio- nar os preços esperados para mais adiante. O comportamento recente das taxas reais de juros, explicitadas nos preços dos títulos públicos indexados ao IPCA, dá uma boa dimensão da insegurança acima mencionada. Da última semana de julho para cá, as taxas dos papéis de vencimento em 2028 passaram de 3,8% a.a. para 4,65%, enquanto as dos papéis de 2040 subiram de 4,25% para 4,8%. Por certo, é difícil separar os efeitos sobre os juros de preocupações puramente fiscais de apreensões relacionadas diretamente com a crise política pela qual passa o país. Em síntese, são múltiplas as fontes de pressões inflacionárias presentes entre nós. Em tal ambiente, por mais que o BC se mostre determinado a fazer o seu papel, o sucesso em levar a inflação para a meta depen- derá da contribuição do governo como um todo. Iniciativas que acarretam insegurança e desconforto somente prejudicam o combate ao crescimento dos preços. A tarefa de combater a inflação não deve ser deixada apenas a cargo do Banco Central.

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