O Banco Central foi excessivamente conservador na última reunião do Copom, concluída no dia 20/07/2005, quando foi decidida a manutenção da taxa de juros a viger no mercado interbancário em 19,75%.
O motivo principal é que a crise política em andamento deverá gerar pelo menos quatro tipos de esfriamento da economia, não sendo necessário usar o elevado juro real e a conseqüente desorganização dos investimentos e das exportações para garantir o controle da inflação.
Primeiro cairão os projetos de investimentos das companhias estatais. A ambiência política negativa retardará novos processos de licitação e novas tomadas de responsabilidade da parte de dirigentes de empresas públicas. Processos mais rígidos de auditoria e procedimentos internos permitidores de maior diluição de responsabilidades tornarão qualquer processo de decisão mais difícil e demorado.
Segundo: cabe lembrar que boa parte da acumulação privada de capital no Brasil segue a reboque do governo, seja em função dos projetos de investimento tocados pelas três esferas da administração pública ou por meio dos investimentos das estatais. Isto posto, a queda de novos projetos das estatais se contraporá também à redução das contratações de mão-de-obra e serviços de grande parte do setor privado.
Terceiro: mesmo aqueles investimentos privados que não dependem diretamente do governo serão afetados em função das expectativas certamente negativas geradas pela instabilidade política. Fato já bastante conhecido de qualquer economista que, em vez de se debruçar apenas sobre modelos de equilíbrio geral, com suas complicadas equações, tenha lido a Teoria Geral do Emprego, de John Maynard Keynes, publicado em 1936.
Quarto: funcionários públicos e pensionistas do governo deverão esperar um pouco mais antes de decidir comprar um carro novo ou uma nova televisão, tendo em vista que o ambiente político está sujeito, no momento, a modificações radicais, não ficando muito certo o que se esperar à frente.
Todos estes fatos implicam uma queda de compras da parte de indivíduos e empresas e, com isto, um arrefecimento da inflação. Não há necessidade, no momento, de se utilizar um juro real tão elevado para manter a inflação nos 4,5% fixados para 2005 (com dois pontos a mais ou a menos), como definido na Resolução 3.108 do Banco Central, de 25/03/2003. A incerteza decorrente da crise política já é plenamente suficiente para que a demanda se deprima. Não precisa matar duas vezes o doente.
Agindo de forma tão conservadora, o Banco Central coloca em risco a formação de novos empregos, que afinal de contas é o sonho da grande parcela da população que tenta ingressar ou reingressar no mercado de trabalho. Por que continuar crescendo 2,11% ao ano, como desde 1980, se entre 1900 e 1980 crescemos 5,68% ao ano?
O problema de uma decisão desta natureza da parte do Banco Central é agravado pelo fato de, em economia, sempre se colocar uma defasagem entre as políticas e as respectivas conseqüências. Com isto, uma política econômica pode acabar por prolongar os ciclos e as incertezas econômicas ao invés de cumprir o efetivo papel de reduzi-las.
O juro elevado de hoje, reduzindo a contratação de novos investimentos, valorizando o câmbio real e deprimindo as exportações, terá seu efeito sentido também em futuro próximo. Até lá, entretanto, a economia pode estar deprimida em demasia, em função de outro motivo: a redução dos investimentos, já mencionados acima. Isto posto, o juro elevado mantido hoje poderá acabar por estimular o ciclo econômico, ao invés de reduzi-lo. Tal política pública acaba por ter um efeito perverso sobre o bem-estar dos cidadãos que a sustentam com seus votos.
Caberá também abordar futuramente o fato de as metas de inflação de 4,5% para 2006 e 2007 não se coadunarem com a política fiscal em curso, na qual as despesas de consumo do governo (contas nacionais) praticamente duplicaram entre 1980 e 2004 (tendo passado de 10% para 20% do PIB). Mas isto é matéria para outro artigo.
*Professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV (EPGE/FGV) e Visiting Scholar do Departamento de Economia da Universidade de Chicago