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15/09/2005 - 09h42

Economia sentirá efeitos da queda de juros apenas em 2006

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MARCELO BILLI
da Folha de S.Paulo

Os juros começaram a cair, mas os efeitos na economia real as pessoas só sentirão em 2006. Por enquanto, os brasileiros ainda conviverão com os efeitos do aperto que começou no ano passado. Aperto necessário, diz a maioria dos economistas, apesar de alguns avaliarem que ele foi um pouco além do necessário.

Heron do Carmo, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), por exemplo, diz que os juros poderiam ter parado de subir em dezembro do ano passado. "Os preços livres já se comportavam bem naquele período", argumenta.

Os juros começaram a subir em setembro. A inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, chegara a 7,18% em agosto. Os índices com influência dos preços no atacado preocupavam ainda mais. O IGP-M em 12 meses, também em agosto, bateu em 12,44%. Economia aquecida e alta nos preços das commodities internacionais pressionavam os índices.

O aperto continuou até junho deste ano, mês em que o IPCA registrou ligeira deflação. As expectativas de inflação, assim como o índice oficial usado pelo governo, o IPCA, cediam. A inflação acumulada em junho era de 7,27%, ficou em 6,57% em julho e em 6,2% em agosto. Em setembro, as expectativas de inflação já encostavam na meta de 5,1% do governo para este ano.

Assim, um ano após o início do aperto monetário, a política parecia dar resultado. O Banco Central, duramente criticado pelos juros reais mais altos do planeta, parece pronto para responder a seus críticos.

O próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, há dois meses mostrava em São Paulo gráfico que ilustrava como, após alguns meses, as expectativas de inflação reagiam quase que automaticamente às altas dos juros.

Mas outro gráfico mostraria a mesma relação, só que das expectativas com o câmbio, que caiu de R$ 2,90 em setembro do ano passado para R$ 2,32 um ano depois. "A elevação dos juros ajudou, mas não explica toda a queda da inflação", diz Roberto Padovani, analista da Tendências.

Ele lembra que, mais do que os juros, o resultado surpreendente das contas externas e o cenário internacional favorável ajudaram no controle da inflação, via câmbio. Os juros altos, diz ele, contribuíram para atrair capital e pressionar a alta do real. Mas o efeito predominante foi o dos dólares das exportações.

Ainda assim, diz Padovani, o BC cumpriu sua função. "Mostrou ter uma diretoria comprometida com o sistema de metas. Ainda que não mereçam todos os louros, foram responsáveis", diz.

Carlos Fagundes, do Ibmec-SP, faz uma crítica leve. Diz que a política monetária foi "quase xiita", mas argumenta que os últimos 12 meses de aperto monetário rendem ao BC aumento de credibilidade. "Os agentes sabem que a autoridade monetária fará tudo o que deve ser feito para buscar a estabilidade."

Os juros continuarão, por algum tempo, altos. Mas, segundo Rubens Penha Cysne, da Fundação Getulio Vargas, não é no BC que está a causa dos juros elevados. O BC, diz ele, apenas cumpre a lei. Faz o que for necessário para atingir a meta.

Cysne diz que os juros não deveriam ser o centro do debate sobre a política monetária. "A definição da meta é que deve ser discutida publicamente; os juros são apenas o aspecto técnico", diz.

O economista da FGV critica também o fato de o BC participar da definição da meta. "O governo devia defini-la, e o BC devia ter a liberdade para criticá-la caso a política econômica não fosse compatível com o objetivo de atingir a meta e preservar o crescimento da economia. O erro na política é a falta de um melhor ajuste fiscal, que abriria espaço para os juros caírem mais."

Heron avalia que, mesmo do ponto de vista técnico, o BC pode ter errado. A despeito disso, ele acredita que, a partir de agora, há espaço para os juros caírem de forma gradual, mas contínua.

"Há um cenário de melhor financiamento, de queda do risco-país e de redução da dívida. Cenário associado a espaço para crescimento mais robusto", diz Heron.

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