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OPINIÃO
ECONÔMICA
Benefícios da baixa inflação
de 2005
RUBENS PENHA CYSNE
Este artigo complementa a reportagem
"Inflação transfere US$ 1,25 bilhão a bancos", publicada na Folha no dia
19 de setembro (Dinheiro, pág. B1), na qual trabalho acadêmico deste autor
é citado. A análise dos dados de 2005 permite concluir que o Plano Real e
a política de metas para a inflação têm sido fortemente eficientes para
reduzir o imposto inflacionário e as transferências inflacionárias para os
bancos comerciais, dessa forma elevando o bem-estar da população
brasileira. Cabe inicialmente definir precisamente tais conceitos. O
Banco Central emite papel-moeda, e, os bancos comerciais, depósitos à
vista. Ambos rendem juros nominais nulos. Isso posto, quando existe
inflação, o Banco Central ganha um juro real ou, equivalentemente, paga um
juro real negativo (igual à taxa de inflação) sobre o papel-moeda em poder
do público e sobre o total das reservas bancárias não-remuneradas. Da
mesma forma, os bancos comerciais pagam juros reais negativos sobre a
diferença entre os depósitos à vista e essas mesmas reservas. A esses
ganhos de capital dá-se o nome de imposto inflacionário, quando do Banco
Central, e de transferências inflacionárias, quando dos bancos
comerciais. É importante deixar claro que as transferências
inflacionárias dos bancos nada têm a ver com o cálculo de quanto as
instituições financeiras perdem ou ganham com a inflação. Os números
expressos aqui e na reportagem citada acima se concentram apenas no juro
real negativo pago por uma parte bem reduzida do passivo líquido dos
bancos: aquela remunerada por juros nominais nulos (depósitos à vista
menos reservas bancárias); a análise não cobre a influência da inflação
sobre as receitas e despesas operacionais nem os ganhos ou perdas de
capital sobre as demais contas do passivo e do ativo dos bancos. A
reportagem do dia 19 último proveu os números históricos de tais
transferências de 1947 a 2004, calculados com base no IGP-DI, da FGV, o
único que cobre todo o período do estudo. A inflação anualizada de
2005, tomando-se como base os sete primeiros meses do ano, é de 1,92% pelo
IGP-DI e de 5,93% pelo IPCA. Com base nesses números, chega-se a valores
de imposto inflacionário e transferências inflacionárias para os bancos
comerciais, como percentual do PIB, respectivamente, de 0,09% e 0,04%,
quando se utiliza o IGP-DI, ou de 0,26% e 0,12%, quando se usa o
IPCA. Para ter uma idéia comparativa, nos EUA, entre 1989 e 2003, a
inflação média foi de 2,87%, o imposto inflacionário, de 0,14%, e as
transferências inflacionárias, de 0,25% do PIB. Ou seja, tomando como base
os primeiros sete meses de 2005, o imposto inflacionário médio no Brasil
situa-se bem próximo ao imposto inflacionário americano entre 1989 e 2003.
No que diz respeito às transferências inflacionárias para os bancos
comerciais, os valores brasileiros ficam ambos abaixo daqueles relativos
ao caso americano no período 1989-2003. Outra comparação interessante
desses dados pode se dar com base na série histórica brasileira relativa
ao período 1947-93 (baseada no IGP-DI). Nessa, na média, a inflação anual
foi de 96,9%, o imposto inflacionário, de 2,25% do PIB, e as
transferências inflacionárias, da ordem de 1,93% do PIB. No total, a
população pagava ao sistema bancário (Banco Central mais bancos
comerciais) juros reais da ordem de 4,18% do PIB. Ou seja, a cada 24 anos,
um ano de "serviço bancário obrigatório" (a série histórica e a fórmula
precisa de cálculo de tais variáveis encontram-se publicados em trabalho
acadêmico publicado na "Revista de Economia Política", volume 26,
2004). Tais números, anualizados, correspondem a 32,5 vezes o valor
aqui calculado para 2005, com base no IGP-DI, ou a 10,9 vezes o valor aqui
calculado, se se considera o IPCA de 2005. Para ter uma idéia do que
essa radical modificação significa, cabe observar que à inflação média
entre 1947 e 1993, de 96,9% ao ano, correspondiam custos de bem-estar
médios 3% do PIB, chegando a 8% do PIB nos anos de maior elevação de
preços (a metodologia encontra-se publicada nos artigos de Simonsen, Mario
H. e Cysne, Rubens P., "The Welfare Costs of Inflation and
Interest-Bearing Assets", publicado no "Journal of Money, Credit and
Banking", vol. 33, 2001, e em Cysne, Rubens P., "Divisia Index, Inflation
and Welfare", publicado no "Journal of Money, Credit and Banking", vol.
35, 2003). Mantida a inflação de 2005, o custo de bem-estar da inflação
vai se situar ao redor de 0,3% do PIB, uma queda monumental em relação à
série histórica.
Rubens Penha Cysne é professor da Escola de
Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas e "visiting scholar"
do Departamento de Economia da Universidade de Chicago.
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